Copa do Mundo: fortes emoções podem causar infarto ou AVC?

Torcedores brasileiros comemoram gol durante partida da Copa do Mundo em bar, ilustrando como emoções intensas durante os jogos podem impactar a saúde cardiovascular e aumentar o risco de infarto ou AVC em pessoas predispostas.

A Copa do Mundo é um dos eventos esportivos mais emocionantes do planeta e costuma mobilizar milhões de torcedores. Durante os jogos, principalmente nas partidas decisivas, é normal sentir o coração acelerar, ficar ansioso, nervoso, tenso ou extremamente eufórico a cada lance.

Com tantos sentimentos intensos acontecendo ao mesmo tempo, é natural se perguntar se eles podem aumentar o risco de algum problema de saúde, como infarto ou AVC. De acordo com a cardiologista Juliana Soares, as emoções, independente da origem, podem causar uma série de respostas ao organismo.

“Em quem já tem alguma predisposição a ter alguma doença cardiovascular ou quem já tem doença cardíaca previamente, as emoções podem aumentar, no momento do pico da emoção, o risco de eventos cardíacos”, explica a especialista.

Fortes emoções podem mesmo afetar o coração?

As emoções intensas, independentemente de serem positivas ou negativas, podem funcionar como um gatilho para eventos cardiovasculares, principalmente em pessoas que já possuem fatores de risco ou doenças cardíacas pré-existentes.

O corpo humano não consegue diferenciar o estresse provocado por um jogo de futebol de uma situação de perigo real. Por isso, quando vivemos uma emoção muito forte, o cérebro envia um sinal de alerta que afeta diretamente o funcionamento do coração.

Em pessoas saudáveis, as alterações costumam ser temporárias, mas em pessoas vulneráveis elas podem representar um risco adicional.

O que acontece no corpo durante um momento de grande tensão ou euforia?

Durante um momento de grande tensão, ansiedade ou euforia, Juliana explica que o cérebro avisa o sistema nervoso simpático, que é a parte do organismo responsável por reagir a situações de estresse. O sistema prepara o corpo para uma reação de luta ou fuga, como se precisássemos fugir de uma ameaça física.

Para preparar o corpo, ocorre uma liberação massiva de hormônios do estresse na corrente sanguínea, principalmente a adrenalina e a noradrenalina, que desencadeiam:

  • Frequência cardíaca mais acelerada, fazendo o coração bater mais rápido e provocando palpitações;
  • Pressão arterial mais elevada, devido à contração dos vasos sanguíneos para acelerar a circulação do sangue;
  • Aumento da força de contração do coração, que passa a trabalhar com mais intensidade;
  • Aumento da necessidade de oxigênio, já que o coração precisa de mais energia para sustentar o esforço extra.

Em uma pessoa saudável, o corpo costuma lidar bem com esse pico de adrenalina e retorna ao normal pouco tempo após o fim do jogo.

Mas, em pessoas que já têm placas de gordura nas artérias ou alguma doença cardíaca, Juliana destaca que o aumento súbito da pressão arterial e dos batimentos cardíacos pode provocar o rompimento de uma dessas placas, causando um infarto, além de desregular o ritmo do coração e desencadear arritmias.

Infarto ou AVC: qual é o maior risco durante o jogo?

Segundo Juliana, o infarto é o maior risco e o evento cardiovascular mais comum durante um jogo de futebol.

O aumento dos níveis de adrenalina provocado pela emoção altera diretamente a frequência cardíaca e a pressão arterial, além de poder causar o rompimento de uma placa de gordura presente nas artérias. Quando isso ocorre, pode haver a obstrução do fluxo sanguíneo, levando ao infarto.

O AVC também pode acontecer em situações de grande tensão emocional, mas é consideravelmente menos frequente. A associação entre emoções intensas e AVC costuma ocorrer principalmente em pessoas com pressão arterial descontrolada ou que apresentam alguma arritmia grave.

Quem precisa ter cuidado redobrado em jogos emocionantes?

Os grupos de pessoas que precisam de ter cuidados redobrados são:

  • Pessoas que já sofreram um infarto anteriormente;
  • Doentes com histórico de AVC;
  • Indivíduos diagnosticados com insuficiência cardíaca;
  • Pessoas que sofrem de arritmias cardíacas;
  • Pacientes com angina ou outras doenças coronárias conhecidas;
  • Hipertensos com a pressão arterial descontrolada;
  • Diabéticos;
  • Pessoas com níveis de colesterol alto e descontrolado;
  • Fumadores crónicos;
  • Pessoas com obesidade.

Nesses casos, o estresse e a emoção do jogo podem representar uma sobrecarga maior para o coração. É importante ter atenção redobrada e seguir corretamente todas as orientações médicas para aproveitar as partidas com mais segurança.

Sinais de alerta: quando a emoção vira uma emergência médica?

É normal sentir o coração acelerar, ficar nervoso ou até suar mais durante um jogo decisivo, mas alguns sintomas podem indicar um problema de saúde mais sério, como:

  • Dor ou pressão no peito que não melhora com o passar dos minutos;
  • Falta de ar ou dificuldade para respirar;
  • Suor excessivo acompanhado de desconforto no peito;
  • Náuseas ou enjoos associados à dor no peito;
  • Palpitações intensas ou sensação de que o coração está batendo de forma irregular;
  • Tontura, desmaio ou perda de consciência;
  • Dificuldade para falar ou para compreender o que as outras pessoas dizem;
  • Dor de cabeça muito forte e de início repentino.

Caso qualquer um dos sintomas apareça durante ou após o jogo, o ideal é procurar atendimento médico imediatamente. Em situações como infarto ou AVC, agir rapidamente pode fazer toda a diferença no tratamento e na recuperação.

Como torcer e curtir a Copa do Mundo em segurança?

A emoção faz parte do esporte e da vida, mas alguns cuidados ajudam a reduzir os riscos, especialmente para quem já tem alguma doença cardiovascular ou fatores de risco. Entre as principais, Juliana orienta:

  • Manter o tratamento médico em dia e seguir corretamente as orientações do profissional de saúde;
  • Não interromper nem suspender os medicamentos por conta própria;
  • Manter uma boa hidratação ao longo do dia, principalmente durante os jogos;
  • Evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas;
  • Controlar fatores de risco como pressão alta, diabetes e colesterol elevado;
  • Realizar consultas médicas regularmente para acompanhar a saúde cardiovascular.

“A emoção faz parte da nossa vida, nós não temos como nos privar totalmente, mas cuidar da saúde de base, estar com todos os fatores controlados”, finaliza Juliana.

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Perguntas frequentes

1. De que forma a adrenalina afeta o sistema cardiovascular?

A adrenalina faz o coração bater mais rápido (taquicardia), aumenta a força de contração do músculo cardíaco e estreita os vasos sanguíneos, o que provoca uma subida rápida da pressão arterial.

2. O uso de calmantes naturais (como passiflora ou camomila) antes do jogo funciona?

Sim, fitoterápicos à base de passiflora, valeriana ou camomila ajudam a modular o sistema nervoso central, reduzindo a ansiedade de forma leve. Eles podem ser úteis para pessoas muito ansiosos, pois ajudam a evitar que a frequência cardíaca suba de forma tão abrupta.

3. Energéticos misturados com álcool aumentam o risco cardíaco na hora do jogo?

Muito, os energéticos contêm altas doses de cafeína e outros estimulantes que aceleram o coração. Quando misturados ao álcool, mascaram os efeitos de sonolência da bebida, fazendo com que a pessoa beba mais e exponha o coração a um duplo estresse: a arritmia induzida pela cafeína e a toxicidade do álcool.

4. Por que ficar muito tempo sentado a ver o jogo também é perigoso?

Ficar sentado imóvel por várias horas, especialmente se associado à desidratação e ao álcool, lentifica a circulação nas pernas, aumentando o risco de trombose venosa profunda (TVP). Se o coágulo se desprender, pode viajar até aos pulmões, causando uma embolia pulmonar. O ideal é levantar e caminhar um pouco no intervalo.

5. Tomar uma aspirina (AAS) antes do jogo previne o infarto em quem é do grupo de risco?

Não se deve fazer isso sem orientação médica. Embora a aspirina afine o sangue e previna coágulos, o uso preventivo por conta própria pode mascarar sintomas ou aumentar o risco de hemorragias (inclusive AVC hemorrágico), especialmente se a pressão arterial subir muito durante a partida.

6. O que é a síndrome do coração partido e como ela se relaciona com o futebol?

Também conhecida como cardiomiopatia de Takotsubo, é uma condição desencadeada por um forte estresse emocional. Ela causa sintomas semelhantes aos de um infarto, mas ocorre por uma alteração temporária no funcionamento do músculo cardíaco provocada pelo excesso de hormônios do estresse.

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