Por que os transtornos mentais causam ganho de peso? 

Mulher medindo a barriga com fita métrica, representando ganho de peso relacionado a transtornos mentais e alterações metabólicas.

A presença de transtornos como ansiedade, depressão e transtorno bipolar pode afetar diretamente o funcionamento do organismo e a forma como o corpo regula o metabolismo. Por isso, não é incomum perceber alterações no peso ao longo do tratamento ou durante períodos de maior instabilidade emocional.

A variação acontece devido a uma combinação de fatores biológicos, como o desequilíbrio de neurotransmissores e hormônios, e fatores comportamentais, como a alteração nos hábitos alimentares e nos níveis de energia para atividades físicas.

Para completar, o uso de certas medicações para o controle dos sintomas também pode influenciar o apetite e o armazenamento de gordura. Entenda mais, a seguir.

Por que os transtornos mentais causam ganho de peso?

O aumento de peso em pacientes com transtornos mentais acontece por uma combinação de alterações hormonais, uso de medicamentos e mudanças no estilo de vida.

1. Alterações na fome e na saciedade

Transtornos como depressão e ansiedade afetam neurotransmissores importantes, como serotonina e dopamina. Quando acontece um desequilíbrio nas substâncias, o cérebro tende a buscar formas rápidas de prazer e conforto, aumentando a vontade de comer alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar e gordura.

2. O papel do cortisol (hormônio do estresse)

Em quadros de ansiedade constante ou estresse prolongado, o psiquiatra Michel Haddad explica que o organismo eleva a produção de cortisol. O hormônio favorece o acúmulo de gordura, especialmente na região abdominal, o que dificulta o controle do peso mesmo quando há uma alimentação equilibrada.

3. Efeitos colaterais dos medicamentos

De acordo com Michel, alguns medicamentos utilizados no tratamento de transtornos mentais, como antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor, podem favorecer o ganho de peso por diferentes mecanismos.

Receptores como os de histamina e serotonina, incluindo o 5-HT2C, por exemplo, participam da regulação da saciedade. Além disso, esses mecanismos também se conectam a hormônios metabólicos, como leptina e grelina. O resultado pode ser aumento do apetite e redução da sensação de saciedade.

4. Cansaço e falta de energia (anedonia)

A depressão e outros transtornos podem causar fadiga intensa e perda de interesse em atividades do dia a dia. Com menos disposição para se movimentar e praticar exercícios, o gasto calórico diminui, o que pode contribuir para o aumento de peso.

5. Fome emocional

Em muitos casos, a comida acaba sendo usada como uma forma de aliviar emoções difíceis, como tristeza, ansiedade, vazio ou angústia. O ato de comer pode trazer uma sensação momentânea de conforto, mas isso pode criar um ciclo de compensação alimentar difícil de interromper sem apoio profissional.

“Quando o prazer basal diminui, o cérebro tende a buscar recompensas rápidas, açúcar, ultraprocessados, carboidratos simples. Não é apenas comportamento, é uma tentativa de autorregulação biológica”, explica Michel.

Os riscos do aumento de peso

As células de gordura produzem e liberam uma série de substâncias inflamatórias e hormônios no organismo, chamados de adipocinas. Quando há excesso de gordura, o corpo entra em um estado de inflamação crônica de baixa intensidade, o que pode desencadear diversos problemas:

  • Resistência à insulina: a gordura dificulta a ação da insulina, o que aumenta os níveis de açúcar no sangue e eleva o risco de diabetes tipo 2;
  • Sobrecarga cardiovascular: o aumento de peso eleva a pressão arterial e os níveis de colesterol LDL e triglicerídeos, aumentando as chances de infarto e AVC;
  • Alterações hormonais: como a gordura é ativa, ela pode interferir na produção de outros hormônios, afetando desde o ciclo menstrual até a qualidade do sono e a disposição física.

O aumento rápido de peso pode afetar a autoestima e a imagem corporal do paciente, o que, em muitos casos, causa um ciclo vicioso: a pessoa se sente pior emocionalmente devido ao corpo, o que aumenta a ansiedade ou a tristeza, podendo levar ao abandono do tratamento medicamentoso sem orientação médica.

Como evitar o ganho de peso durante o tratamento?

Com ajustes no cotidiano e acompanhamento médico profissional, é possível controlar o peso corporal enquanto se cuida da saúde da mente.

  • Priorize o consumo de fibras nas grandes refeições para aumentar o tempo de digestão e garantir que o estômago envie sinais de saciedade ao cérebro de forma mais duradoura;
  • Inclua uma fonte de proteína magra em todos os lanches para evitar picos de insulina e reduzir aquela fome súbita que costuma aparecer entre as refeições principais;
  • Estabeleça horários fixos para o repouso noturno ajudando a regular os hormônios grelina e leptina que controlam diretamente o apetite e a queima de gordura;
  • Beba água em pequenos goles ao longo do dia para não confundir a sensação de sede com a vontade de comer e para aliviar a boca seca causada por alguns remédios;
  • Pratique a alimentação consciente sem distrações externas permitindo que você perceba o momento em que está satisfeito e evite o consumo excessivo por impulso ou tédio;
  • Realize caminhadas curtas ou atividades leves regularmente com o objetivo de melhorar a resposta do corpo à insulina e liberar neurotransmissores que estabilizam o humor;
  • Evite restrições alimentares severas ou dietas da moda pois a falta de carboidratos complexos pode reduzir a produção de serotonina e agravar os sintomas de ansiedade ou depressão;
  • Mantenha um diário simples de sensações e fome para identificar se a vontade de comer está ligada a um sentimento específico ou a uma necessidade física real.

Se notar um aumento súbito de apetite após iniciar uma nova medicação, converse com seu médico. Em alguns casos, é possível ajustar a dose, trocar o horário da tomada ou até substituir o remédio por outro com perfil metabólico mais neutro.

Quando procurar ajuda especializada?

É recomendado procurar avaliação médica ou psicológica quando houver:

  • Ganho de peso rápido e superior a 5% do seu peso corporal total em um curto intervalo de tempo após o início de uma nova medicação;
  • Aumento descontrolado do apetite ou episódios de compulsão alimentar que provocam sentimento de culpa ou angústia constante após as refeições;
  • Alterações nos exames de sangue como aumento do colesterol, triglicerídeos ou glicemia em jejum identificados em rotinas médicas;
  • Surgimento de dores articulares ou cansaço excessivo, que dificultam a realização de tarefas simples do dia a dia devido ao novo peso;
  • Desejo de interromper o uso do remédio por conta própria devido ao medo de engordar ou por insatisfação com a própria imagem corporal;
  • Dificuldade em diferenciar a fome física da fome emocional mesmo aplicando técnicas de atenção plena e mantendo uma rotina alimentar;
  • Sensação de que o peso está agravando os sintomas do transtorno como isolamento social por baixa autoestima ou aumento da ansiedade e desânimo;
  • Presença de roncos ou pausas na respiração durante o sono que podem indicar o desenvolvimento de apneia relacionada ao acúmulo de gordura corporal.

“A saúde mental não envolve apenas pensamentos, ela envolve inflamação, hormônios, circuitos cerebrais e comportamento. Por isso, tratar transtornos mentais não é apenas uma questão psicológica, é também uma forma de restaurar o equilíbrio também metabólico do nosso corpo”, finaliza Michel.

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Perguntas frequentes

1. Todo antidepressivo causa ganho de peso?

Não, pois existem classes diferentes e cada organismo reage de uma forma, sendo que alguns medicamentos são considerados metabolicamente neutros ou podem até reduzir o apetite.

2. Posso parar o remédio se perceber que estou engordando?

A interrupção brusca nunca é recomendada pois pode causar o efeito rebote, fazendo com que os sintomas do transtorno mental voltem muito mais intensos e perigosos.

3. Como diferenciar a fome física da vontade de comer?

A fome física surge gradualmente e é saciada com qualquer alimento, enquanto a vontade de comer é súbita e direcionada a um alimento específico.

4. A prática de exercícios atrapalha o efeito do remédio?

Pelo contrário, a atividade física potencializa o tratamento psiquiátrico ao liberar endorfina e dopamina de forma natural e saudável.

5. Por que sinto mais vontade de comer doce à noite?

Muitas vezes isso ocorre pela queda nos níveis de serotonina ao fim do dia, levando o cérebro a buscar energia rápida para tentar melhorar o humor.

6. Existe algum suplemento que ajude a evitar esse ganho de peso?

O uso de qualquer suplemento deve ser aprovado pelo médico, pois algumas substâncias naturais podem interagir negativamente com a medicação psiquiátrica.

7. Pode usar remédios para emagrecer junto com o tratamento psiquiátrico?

A combinação é perigosa e só deve ser feita sob rigoroso acompanhamento médico, pois muitos inibidores de apetite causam irritabilidade e ansiedade

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