Diagnóstico tardio: por que tantas pessoas só descobrem a neurodivergência na vida adulta?

Adulto em consulta psicológica com profissional de saúde mental, ilustrando a investigação e o diagnóstico tardio de neurodivergências na vida adulta.

Você sabe o que significa o termo neurodivergente? O termo é usado para descrever pessoas que apresentam um funcionamento cerebral, de desenvolvimento ou neurológico diferente do considerado o padrão mais comum na sociedade, chamado de neurotípico.

É o caso de pessoas que convivem com transtorno do espectro autista (TEA), o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), a dislexia e as altas habilidades, por exemplo. As condições acompanham a pessoa desde o nascimento, mas nem sempre elas são diagnosticadas na infância.

Um número cada vez maior de pessoas vem descobrindo que é neurodivergente apenas na vida adulta. Para se ter uma ideia, um estudo publicado na revista científica JAMA Network revealed que, entre 2011 e 2022, o diagnóstico do TEA em adultos de 26 a 34 anos aumentou 450% nos Estados Unidos.

Mas por que tantas pessoas passam a infância e a juventude inteiras sem receber a resposta? “Umas das frases que mais ouço dentro do consultório, dos pais e que pode estar atrasando o diagnóstico do seu filho: ‘Ele é pequeno ainda. A pediatra disse que é fase. O primo dele também foi assim’. Eu ouço isso toda semana e, algumas vezes, as frases custam meses preciosos de intervenção”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

Por que o diagnóstico de neurodivergências costuma atrasar?

O atraso no diagnóstico de neurodivergências pode acontecer por diversos fatores, que vão desde a falta de informação até a capacidade de camuflar os sintomas para se adequar ao ambiente.

1. Os sinais podem ser sutis ou diferentes do esperado

Nem todas as pessoas que convivem com transtornos de neurodesenvolvimento apresentam características consideradas clássicas. Alguns manifestam os sintomas de forma mais discreta, o que dificulta a identificação da neurodivergência por familiares, professores e até profissionais de saúde.

Em alguns casos, os sintomas da neurodivergência frequentemente são mascarados ou confundidos com transtornos de humor. É muito comum que adultos passem anos tratando apenas a ansiedade, a depressão ou o burnout, sem que a causa raiz (a neurodivergência) seja investigada.

2. O fenômeno do masking

O masking, também conhecido como camuflagem social, é uma estratégia consciente ou inconsciente usada especialmente por mulheres para esconder características de condição e se adaptar às expectativas das outras pessoas. O comportamento é mais observado no autismo, mas também pode ocorrer em indivíduos com TDAH e outras neurodivergências.

Na prática, o masking pode envolver imitar expressões faciais, ensaiar conversas mentalmente, forçar contato visual, controlar movimentos repetitivos, copiar comportamentos de outras pessoas ou esconder dificuldades para parecer mais alinhado ao que é considerado socialmente esperado.

Com o passar dos anos, o mascaramento pode se tornar tão automático que a própria pessoa tem dificuldade para reconhecer quais comportamentos são naturais e quais foram aprendidos para se encaixar socialmente.

3. Falta de informação e conscientização

Há algumas décadas, condições como o TDAH e o autismo eram entendidas como transtornos que afetavam apenas crianças. Os critérios diagnósticos também eram mais restritos e o conhecimento sobre o tema era muito menor do que é atualmente.

Por isso, muitas pessoas que cresceram nas décadas de 1980, 1990 e no início dos anos 2000 simplesmente não foram avaliadas ou sequer cogitadas para uma investigação. Em muitos casos, as dificuldades eram atribuídas à personalidade, timidez, falta de atenção ou até mesmo falta de interesse.

4. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica detalhada

Diferentemente de muitas outras condições de saúde, a maioria das neurodivergências não pode ser confirmada por exames laboratoriais, testes genéticos ou exames de imagem.

A identificação é feita por meio de uma avaliação clínica detalhada, que considera a história de vida da pessoa, o desenvolvimento desde a infância, os comportamentos, dificuldades, habilidades e sintomas ao longo do tempo.

Para chegar a um diagnóstico, o profissional analisa a história de vida da pessoa, o seu desenvolvimento desde a infância, seus comportamentos, dificuldades e a forma como ela lida com diferentes situações do dia a dia. Em alguns casos, familiares também podem ser ouvidos para ajudar a entender melhor como aqueles sinais apareceram ao longo dos anos.

Como cada pessoa é única e os sintomas podem variar bastante, a avaliação precisa ser cuidadosa e individualizada.

Principais sinais de neurodivergência que passam despercebidos

Os principais sinais de neurodivergência que podem passar despercebidos na infância e adolescência incluem:

  • Cansaço extremo após interações sociais, com necessidade de ficar sozinho para recuperar as energias;
  • Sensação frequente de não se encaixar, como se as outras pessoas entendessem regras sociais que você desconhece;
  • Dificuldade com conversas superficiais e preferência por assuntos mais profundos ou de interesse específico;
  • Travar diante de tarefas simples por não saber por onde começar;
  • Conseguir passar horas focado em algo que desperta interesse, mas ter dificuldade para se concentrar em atividades consideradas monótonas;
  • Adiar tarefas importantes repetidamente, mesmo sabendo que isso pode trazer problemas ou gerar culpa;
  • Incômodo intenso com sons, luzes, cheiros, texturas ou outros estímulos que passam despercebidos para a maioria das pessoas;
  • Aversão persistente a determinadas texturas, cheiros ou combinações de alimentos, mesmo na vida adulta;
  • Tendência a interpretar falas de forma literal, com dificuldade para perceber ironias, sarcasmo ou sentidos implícitos;
  • Falar longamente sobre temas de interesse sem perceber que a outra pessoa pode estar perdendo o interesse na conversa.

“Existe uma diferença entre a variação normal do desenvolvimento e um atraso que precisa de atenção. É importante que você aprenda a identificar os marcos do desenvolvimento e entender quando não alcançá-los é um sinal de que está na hora de buscar uma avaliação”, destaca Bárbara.

Como é feito o diagnóstico em adultos?

O diagnóstico de neurodivergências na vida adulta começa com uma avaliação clínica detalhada realizada por um profissional, como neurologista, psiquiatra ou neuropsicólogo.

Durante a consulta, o profissional costuma fazer perguntas sobre a infância, o desempenho escolar, os relacionamentos, a rotina de trabalho, as dificuldades do dia a dia e os sintomas que motivaram a busca por ajuda. Como muitas neurodivergências surgem ainda nos primeiros anos de vida, entender o histórico de desenvolvimento é uma etapa importante da avaliação.

Em alguns casos, quando possível, informações de pais, irmãos, parceiros ou amigos próximos podem complementar a avaliação. Eles ajudam a identificar características que podem ter passado despercebidas ou sido interpretadas de outra forma ao longo dos anos.

Aplicação de testes e questionários

Dependendo do caso, podem ser utilizados questionários padronizados e instrumentos específicos para avaliar atenção, memória, funções executivas, habilidades sociais, linguagem e outros aspectos cognitivos e comportamentais.

No caso do TDAH, por exemplo, é comum a utilização da escala ASRS-v1.1 (Adult ADHD Self-Report Scale), um questionário desenvolvido para rastrear sintomas em adultos. Já na avaliação do autismo, podem ser utilizados instrumentos mais aprofundados, como o ADOS-2 e o ADI-R, além de questionários de rastreio, como o RAADS-R e o AQ (Autism Spectrum Quotient).

Vale destacar que os testes não confirmam o diagnóstico de forma isolada, mas servem como ferramentas de apoio dentro de uma avaliação clínica mais ampla e detalhada.

Descobri a neurodivergência tarde, e agora?

Depois de uma investigação longa, receber o diagnóstico de um transtorno do neurodesenvolvimento pode despertar uma série de sentimentos, desde o alívio por finalmente encontrar respostas para dificuldades que acompanham a pessoa desde a infância, até a tristeza e a frustração ao imaginar como a vida poderia ter sido diferente si a descoberta tivesse acontecido antes.

É comum pensar nas experiências do passado e perceber que muitos desafios enfrentados na escola, no trabalho ou nos relacionamentos estavam relacionados a características da neurodivergência e não a falhas pessoais. Inclusive, o processo de olhar para trás pode ser importante para diminuir o peso da culpa e da autocobrança.

Nesse momento de adaptação, vale considerar algumas coisas:

  • Entenda que nunca é tarde para se conhecer melhor e buscar estratégias que melhorem a sua qualidade de vida;
  • Procure informações em fontes confiáveis para compreender melhor a sua condição, seus desafios e suas potencialidades;
  • Considere o acompanhamento de profissionais especializados, como psicólogos, psiquiatras, neurologistas ou terapeutas ocupacionais;
  • Reavalie cobranças e expectativas que talvez não respeitem as suas características e necessidades individuais;
  • Reconheça e valorize os seus pontos fortes, como criatividade, capacidade de concentração em temas de interesse, atenção aos detalhes e facilidade para identificar padrões;
  • Tenha paciência consigo mesmo durante o processo de adaptação e autoconhecimento;
  • Lembre-se de que o diagnóstico não define quem você é, mas pode ajudar a entender melhor a sua trajetória e como o seu cérebro funciona.

Com o tempo, fica mais fácil desenvolver um olhar mais gentil sobre si mesmo, com menos culpa, menos cobranças e mais compreensão sobre quem você é.

Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

Perguntas frequentes

1. É possível desenvolver TDAH ou autismo depois de adulto?

Não, as neurodivergências nascem com a pessoa. O que acontece na vida adulta é a descoberta da condição, normalmente porque as cobranças da maturidade superam a capacidade da pessoa de camuflar os sintomas.

2. Como saber se sou neurodivergente ou se é apenas ansiedade?

A ansiedade costuma surgir em fases específicas da vida. A neurodivergência é crônica, esteve presente desde a infância e molda a forma como você percebe o mundo o tempo todo. Um profissional precisa fazer essa distinção.

3. O diagnóstico tardio dá direito a algum benefício por lei?

Pessoas diagnosticadas com TEA (Autismo) são consideradas por lei como pessoas com deficiência (PCD) e têm direitos garantidos, como atendimento prioritário e vagas reservadas.

4. O que é o burnout autista?

É um estado de exaustão física e mental severa que acontece quando o adulto passa anos camuflando os traços e forçando o próprio cérebro além do limite para parecer neurotípico.

5. O que é hipersensibilidade sensorial em adultos?

É quando o cérebro não consegue filtrar estímulos do ambiente corretamente. Na prática, o adulto sente dores físicas ou irritação extrema com luzes fortes, barulhos de conversas paralelas, cheiros específicos ou texturas de roupas e alimentos que outras pessoas nem notam.

5. Qual a diferença de diagnóstico entre homens e mulheres?

Em mulheres, o diagnóstico costuma ser muito mais tardio porque elas tendem a internalizar o sofrimento e são historicamente mais cobradas a serem sociáveis, o que as torna especialistas em camuflar os sinais

6. O que são altas habilidades na vida adulta?

É uma neurodivergência caracterizada por uma capacidade cognitiva significativamente acima da média em uma ou mais áreas, como lógica, artes ou criatividade.

Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização