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  • O que significa quando a criança não olha nos seus olhos? 

    O que significa quando a criança não olha nos seus olhos? 

    Sabia que o contato visual é uma das primeiras formas de comunicação entre a criança e o mundo ao redor? É por meio do olhar que os bebês e as crianças pequenas começam a interagir, expressar emoções e criar vínculos com os pais.

    Quando uma criança evita olhar nos olhos com frequência ou parece não responder ao olhar de outras pessoas, é natural se perguntar se é um sinal de neurodivergência ou dificuldade visual.

    Em alguns casos, a dificuldade de manter contato visual pode fazer parte do desenvolvimento normal, mas quando ele é frequente ou está acompanhado de outros sinais, vale buscar a avaliação de um especialista.

    O contato visual no desenvolvimento infantil

    O olhar funciona como a base para o desenvolvimento da linguagem, da cognição e das habilidades sociais. Desde as primeiras semanas de vida, os bebês buscam o rosto dos pais para entender o ambiente e aprender a decifrar expressões faciais. Por volta dos 2 meses, ele já consegue fixar o olhar e sorrir em resposta ao estímulo visual dos cuidadores.

    À medida que a criança cresce, o contato visual ganha algumas novas funções, como a atenção compartilhada, que acontece quando ela olha para um brinquedo ou objeto, depois olha para os pais e volta a olhar para o objeto, como se estivesse dizendo “olha isso!”. O comportamento costuma aparecer e se fortalecer ao longo do primeiro ano de vida.

    Quando o ato de olhar nos olhos não acontece de maneira natural no dia a dia, alguns marcos importantes do desenvolvimento podem ser afetados. A criança pode ter mais dificuldade para compreender pistas sociais, interpretar emoções, compartilhar interesses e desenvolver formas de comunicação não verbal, que são fundamentais antes mesmo do surgimento da fala.

    Por isso, observar como ela usa o olhar em cada fase do desenvolvimento ajuda a entender se está adquirindo as habilidades esperadas para a idade ou se pode precisar de mais estímulos e acompanhamento especializado.

    Principais causas para a falta de contato visual

    Nem sempre a falta de contato visual indica um problema grave, mas o acompanhamento médico é importante para entender o quadro. Entre algumas das possíveis causas, é possível destacar:

    1. Transtorno do espectro autista (TEA)

    A dificuldade em manter o contato visual é um dos aspectos avaliados durante a investigação do transtorno do espectro autista. Para muitas pessoas com TEA, olhar diretamente nos olhos pode ser desconfortável devido ao excesso de estímulos sensoriais ou à dificuldade de interpretar sinais sociais.

    “A falta de contato visual não significa automaticamente autismo. Precisamos de vários outros sintomas, mas toda vez que essa queixa aparece, ela precisa ser avaliada com muito cuidado”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Além do contato visual reduzido, a criança com TEA pode apresentar dificuldades na comunicação, interesses restritos e comportamentos repetitivos.

    2. Dificuldades visuais

    Condições como estrabismo, sensibilidade à luz, miopia, hipermetropia ou astigmatismo podem dificultar a focalização de rostos e objetos. A criança pode evitar olhar diretamente para as pessoas simplesmente porque não consegue enxergar com nitidez ou porque a atividade causa desconforto nos olhos, o que requer a avaliação de um oftalmologista.

    3. Timidez e traços de personalidade

    Algumas crianças possuem um temperamento naturalmente mais reservado e podem demorar mais para se sentirem confortáveis em interações sociais.

    A presença de pessoas desconhecidas, os ambientes movimentados ou as situações que causam ansiedade podem fazer com que elas evitem o contato visual temporariamente. Quando a criança se sente segura, o comportamento costuma melhorar de forma espontânea.

    4. Uso excessivo de telas

    O contato frequente e prolongado com os celulares, os tablets e as televisões expõe o cérebro infantil a estímulos rápidos, repetitivos e altamente atrativos.

    Quando o tempo de tela substitui os momentos de brincadeiras, as conversas e as interações presenciais, a criança pode ter menos oportunidades de desenvolver habilidades sociais importantes, incluindo o contato visual, a atenção compartilhada e a comunicação não verbal.

    Por isso, a Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde recomendam limites adequados para o uso das telas durante a infância:

    • Até 2 anos: nenhum contato com telas, incluindo a exposição passiva, como a televisão ligada em segundo plano;
    • De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, sempre com a supervisão de um adulto e priorizando conteúdos educativos;
    • De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia, com acompanhamento dos responsáveis e acesso apenas a conteúdos adequados para a idade;
    • De 11 a 18 anos: entre 2 e 3 horas por dia, evitando o uso durante a madrugada e o isolamento prolongado no quarto.

    Sinais de alerta para ficar atento

    Os pais devem acender o sinal de alerta quando a falta de contato visual vem acompanhado de outras manifestações no dia a dia, como:

    • A criança não responde quando é chamada pelo nome;
    • Apresenta atraso na fala ou na emissão dos primeiros sons e palavras;
    • Não imita gestos simples, como dar tchau, mandar beijo ou bater palmas;
    • Prefere brincar sozinha e demonstra pouco interesse por interações sociais;
    • Usa os brinquedos de forma incomum, focando em detalhes ou organizando-os repetidamente;
    • Apresenta movimentos repetitivos, como balançar o corpo, andar na ponta dos pés ou chacoalhar as mãos;
    • Tem dificuldade para compreender ou seguir comandos simples da rotina;
    • Demonstra forte resistência a mudanças ou orientações do dia a dia.

    Se a criança apresentar dois ou mais sinais, vale procurar a orientação de um especialista para realizar uma avaliação mais detalhada do desenvolvimento.

    Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. Com quantos meses o bebê começa a olhar nos olhos?

    O bebê começa a fixar o olhar no rosto dos pais por volta dos 2 meses de vida. O marco do desenvolvimento demonstra o início da comunicação social.

    2. Como o autismo afeta o olhar da criança?

    A criança com autismo pode achar o contato visual direto desconfortável ou muito cansativo devido ao excesso de estímulos sensoriais. O desvio do olhar funciona como uma forma de regulação.

    3. Qual médico avalia a falta de contato visual?

    O pediatra realiza a primeira avaliação do desenvolvimento. Caso haja necessidade, o profissional encaminha o paciente para o neuropediatra, psiquiatra infantil ou oftalmologista.

    4. O bebê que não olha quando é chamado pode ter surdez?

    Sim, a falta de reação ao chamado pode indicar perda auditiva total ou parcial. Um teste de audição ajuda a descartar a suspeita.

    5. Como posso estimular o contato visual do meu filho?

    Brinque de frente com a criança, use brinquedos perto dos seus próprios olhos e faça expressões faciais divertidas. Evite ambientes com poluição visual ou sonora durante o treino.

    6. O uso de óculos pode corrigir o desvio de olhar infantil?

    Sim, caso a causa do desvio seja um problema de refração como o astigmatismo. Ao enxergar o ambiente com nitidez, a criança passa a ter mais segurança para focar nos rostos.

    7. O contato visual pode melhorar sem tratamento?

    Quando a causa envolve apenas timidez ou uma fase de desenvolvimento, o olhar tende a se normalizar com o amadurecimento. Nos casos de TEA ou problemas visuais, a intervenção profissional é importante para haver melhora.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

  • Por que crianças superdotadas também precisam de apoio especializado?

    Por que crianças superdotadas também precisam de apoio especializado?

    Com uma facilidade fora do comum para aprender, decorar ou criar, a expectativa para uma criança superdotada costuma ser de um excelente desempenho em todas as áreas da vida. Só que, na realidade, ter altas habilidades não a torna livre de dificuldades, inseguranças ou desafios emocionais e sociais.

    No dia a dia, a facilidade para compreender conteúdos complexos pode coexistir com a dificuldade de lidar com frustrações, de se relacionar com colegas da mesma idade ou de encontrar estímulos compatíveis com seu potencial. Em alguns casos, a sensação de ser diferente pode gerar isolamento, ansiedade e até desinteresse pela escola.

    A superdotação também não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas, de modo que reconhecer e compreender as características das altas habilidades é necessário para oferecer o suporte necessário ao desenvolvimento saudável da criança.

    O que é superdotação na infância?

    A superdotação na infância, também chamada de altas habilidades ou superdotação, é um conjunto de características que faz com que a criança apresente uma potencial acima da média em uma ou mais áreas, como a criatividade, a liderança, as artes, a capacidade acadêmica ou as habilidades psicomotoras.

    De maneira geral, ser superdotado não significa apenas ter notas altas ou apresentar um QI elevado, mas demonstrar uma forma diferenciada de aprender, entender informações e interagir com o mundo.

    Diversas crianças com altas habilidades têm uma grande facilidade para adquirir novos conhecimentos, resolver problemas complexos e fazer conexões entre ideias que nem sempre são percebidas por outras pessoas da mesma idade.

    Vale destacar que a superdotação não é um transtorno ou doença, mas uma característica do neurodesenvolvimento. O cérebro funciona e processa as informações de uma forma diferente, mais rápida e intensa, o que torna necessário ter um ambiente estimulante, acolhedor e focado nas necessidades específicas de aprendizado da criança.

    Sinais de superdotação em crianças

    As manifestações da superdotação podem variar bastante, mas podem incluir:

    • Aprender com rapidez e precisar de poucas repetições para compreender novos conteúdos;
    • Demonstrar curiosidade intensa e fazer perguntas frequentes sobre diversos assuntos;
    • Apresentar vocabulário avançado para a idade;
    • Ter excelente memória para fatos, informações e experiências;
    • Mostrar interesse por temas considerados complexos para a faixa etária;
    • Resolver problemas com facilidade e encontrar soluções criativas;
    • Gostar de desafios intelectuais e atividades que precisam de raciocínio;
    • Aprender a ler, escrever ou contar mais cedo do que o esperado;
    • Demonstrar grande capacidade de observação e atenção aos detalhes;
    • Apresentar criatividade acima da média em brincadeiras, histórias e desenhos.

    Muitas crianças superdotadas também possuem um senso de justiça muito desenvolvido, demonstram empatia, são bastante sensíveis a críticas e podem ficar frustradas quando não conseguem atingir as próprias expectativas.

    Crianças superdotadas também podem ter dificuldades?

    Apesar das habilidades acima da média, uma criança com superdotação também pode enfrentar desafios emocionais, sociais e escolares que podem passar despercebidos por familiares e educadores.

    “Algumas podem ter problemas de socialização, sentir-se deslocadas e não se identificar com os colegas da mesma idade. Nessas situações, vemos crianças superdotadas escondendo o próprio conhecimento, fingindo que não sabem ou fingindo que sabem o mesmo que os amigos para poderem se sentir parte do grupo”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    O cérebro de uma criança superdotada processa tudo de forma acelerada, mas o desenvolvimento emocional não acompanha a velocidade da inteligência. Isso causa um descompasso, chamado na psicologia de dissincronia, que se reflete em dificuldades bem específicas.

    Principais dificuldades enfrentadas por crianças superdotadas

    1. No ambiente escolar

    Como as crianças superdotadas costumam aprender muito rápido, podem acabar ficando entediadas no ambiente escolar quando o conteúdo é repetido várias vezes ou quando as atividades não oferecem desafios suficientes.

    Com o passar do tempo, o desinteresse pode fazer com que a criança pare de prestar atenção às aulas, deixe de realizar tarefas e perca a motivação para aprender. Em alguns casos, isso pode até levar a um desempenho escolar abaixo do esperado, mesmo quando ela tem um grande potencial.

    Muitas crianças superdotadas também aprendem com tanta facilidade durante os primeiros anos de estudo que não desenvolvem hábitos de organização e técnicas de estudo. Quando encontram conteúdos mais difíceis no futuro, elas podem sentir frustração e dificuldade para lidar com outros desafios.

    2. No aspecto emocional

    Uma característica comum da superdotação é o chamado desenvolvimento desigual, em que a capacidade intelectual pode estar muito avançada, mas a maturidade emocional continua compatível com a idade da criança. Por isso, é comum ela apresentar:

    • Ansiedade e preocupações excessivas, especialmente diante de assuntos complexos que consegue compreender, mas ainda não possui maturidade emocional para processar completamente;
    • Sensibilidade emocional intensa, reagindo de forma mais profunda a situações de tristeza, injustiça, críticas ou conflitos;
    • Grande empatia, o que pode fazer com que se preocupe excessivamente com o sofrimento de outras pessoas e até absorva emoções do ambiente ao seu redor;
    • Perfeccionismo, com uma forte necessidade de acertar e alcançar resultados considerados ideais, o que pode gerar medo de errar e frustração diante de pequenas falhas;
    • Autocobrança elevada, especialmente quando está acostumada a receber elogios pelo desempenho e inteligência;
    • Frustração com facilidade, principalmente quando encontra desafios que precisam de mais tempo, esforço ou persistência para serem resolvidos;
    • Sensação de inadequação, por perceber que pensa, sente ou se interessa por assuntos diferentes dos colegas da mesma idade;
    • Oscilações emocionais mais intensas, com reações que podem parecer exageradas para quem não compreende as características da superdotação.

    Assim como as habilidades intelectuais, as emoções também precisam de atenção e acolhimento para que a criança consiga se desenvolver de forma equilibrada e lidar melhor com os desafios do cotidiano.

    3. Nas relações sociais

    A socialização também pode ser um problema para algumas crianças superdotadas, pois normalmente os seus interesses são diferentes dos interesses mais comuns entre os colegas da mesma idade.

    Enquanto outras crianças podem querer conversar sobre brincadeiras, jogos ou desenhos, a criança superdotada pode estar interessada em assuntos mais específicos e complexos, o que pode dificultar a criação de vínculos e gerar a sensação de não se encaixar completamente nos grupos.

    Dupla excepcionalidade

    A dupla excepcionalidade acontece quando a criança apresenta superdotação e, ao mesmo tempo, algum transtorno, deficiência ou condição do neurodesenvolvimento, de acordo com Bárbara.

    Basicamente, ela possui habilidades acima da média em uma ou mais áreas, mas também enfrenta dificuldades que podem afetar a aprendizagem, o comportamento ou a socialização.

    As combinações mais comuns incluem:

    • Superdotação + Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH);
    • Superdotação + Transtorno do Espectro Autista (TEA);
    • Superdotação + Dislexia (ou outros transtornos de aprendizagem).

    A identificação da dupla excepcionalidade costuma ser difícil porque uma característica pode mascarar a outra. Em alguns casos, as altas habilidades compensam as dificuldades, fazendo com que o transtorno passe despercebido. Em outros, as dificuldades recebem toda a atenção, enquanto o potencial da criança não é reconhecido.

    “Por isso, olhar apenas para o alto desempenho não é suficiente. Essa criança precisa de um acompanhamento em todas as áreas do desenvolvimento”, complementa Bárbara.

    Como identificar os sinais de que a criança precisa de apoio?

    Os pais e professores devem acender o alerta quando a criança passa a demonstrar uma mudança brusca de comportamento ou reações desproporcionais à rotina. Os sinais mais evidentes incluem:

    • Isolamento social e recusa em brincar com crianças da mesma idade;
    • Apatia, tédio constante ou desinteresse crônico pelas aulas;
    • Queda inexplicável no desempenho escolar e notas vermelhas;
    • Recusa em ir à escola ou em fazer as tarefas de casa;
    • Crises de choro, raiva ou paralisia diante de pequenos erros (perfeccionismo extremo);
    • Ansiedade severa e preocupação obsessiva com temas complexos;
    • Sintomas físicos sem causa médica, como dores de cabeça ou de estômago frequentes antes das aulas;
    • Crises de irritabilidade causadas por excesso de estímulos, como barulhos, luzes ou texturas de roupas;
    • Camuflagem do próprio conhecimento para tentar se encaixar no grupo de amigos.

    Quando a inteligência da criança passa a gerar mais angústia do que prazer, é o momento de buscar a orientação de psicólogos ou psicopedagogos.

    Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. O que causa a superdotação?

    A superdotação é resultado de uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Para que ela se manifeste, o cérebro com predisposição precisa encontrar um ambiente estimulante e acolhedor.

    2. Superdotação é o mesmo que QI alto?

    O QI alto mede a capacidade lógico-matemática e linguística, sendo um dos critérios usados. Porém, a superdotação vai além disso e engloba criatividade, liderança, talentos artísticos e psicomotricidade.

    3. Como é feito o diagnóstico de superdotação?

    O diagnóstico é clínico e multiprofissional, realizado por psicólogos, neuropsicólogos e psicopedagogos através de testes de QI, avaliação comportamental, análise do histórico escolar e entrevistas com a família.

    4. Superdotação é considerada uma deficiência?

    Não, ela é classificada como uma característica do neurodesenvolvimento. Juridicamente, ela faz parte do público-alvo da Educação Especial, garantindo o direito a atendimento pedagógico especializado.

    5. O que fazer quando o aluno superdotado fica entediado na aula?

    A escola deve oferecer enriquecimento curricular, como atividades mais complexas sobre o mesmo tema, ou avaliar a aceleração de série, conforme previsto em lei e orientado por profissionais.

    6. Existe medicação para a superdotação?

    Não, pois a superdotação não é uma doença. Os remédios só são indicados se a criança apresentar comorbidades que precisam de tratamento medicamentoso, como depressão, ansiedade severa ou TDAH associado.

    7. Qual é a diferença entre uma criança precoce e uma superdotada?

    A criança precoce aprende algo antes do tempo esperado (como ler aos 3 anos), mas pode se estabilizar e igualar-se aos colegas na adolescência. Já o superdotado mantém o ritmo de desenvolvimento acelerado e o potencial superior ao longo de toda a vida.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

  • Transtornos de neurodesenvolvimento: o que são, tipos e como é feito o diagnóstico 

    Transtornos de neurodesenvolvimento: o que são, tipos e como é feito o diagnóstico 

    Os primeiros anos de vida são um período de intenso desenvolvimento cerebral, em que a criança aprende a falar, caminhar, se comunicar, interagir com outras pessoas, desenvolver habilidades motoras e adquirir conhecimentos importantes para a vida. Porém, quando há alguma interrupção ou alteração nesse processo natural, podem surgir os chamados transtornos do neurodesenvolvimento.

    As condições, como o TDAH e transtorno do espectro ausista (TEA), costumam se manifestar ainda na primeira infância e podem impactar aspectos importantes do dia a dia da criança, como a fala, a aprendizagem, a atenção e o comportamento, de acordo com a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Mas, apesar dos desafios que podem trazer, os transtornos do neurodesenvolvimento não estão relacionados à falta de inteligência. Na verdade, conviver com a condição significa apenas que o cérebro processa o mundo de uma forma diferente, e não que a criança seja incapaz de aprender e se desenvolver.

    O que são transtornos do neurodesenvolvimento?

    Os transtornos do neurodesenvolvimento são um grupo de condições que afetam o funcionamento do sistema nervoso e o desenvolvimento do cérebro. Eles costumam se manifestar muito cedo, normalmente antes de a criança entrar na escola, e podem afetar uma ou várias áreas do desenvolvimento infantil, como:

    • Linguagem e comunicação;
    • Aprendizagem;
    • Atenção e concentração;
    • Habilidades motoras;
    • Interação social;
    • Controle emocional;
    • Comportamento.

    A intensidade dos sintomas varia bastante: enquanto algumas crianças apresentem dificuldades leves e conseguem realizar as atividades com poucas adaptações, outras podem precisar de acompanhamento especializado e suporte contínuo.

    O que NÃO são transtornos do neurodesenvolvimento?

    Como existem diversas dúvidas ao redor dos transtornos de neurodesenvolvimento, vale destacar dois pontos principais:

    • Eles não indicam falta de inteligência: muitas pessoas que convivem com os transtornos têm inteligência na média ou até acima da média. A dificuldade está em como o cérebro processa e expressa o conhecimento;
    • Não é culpa dos pais: os transtornos não são causados por falta de limites, excesso de telas ou traumas familiares. São condições biológicas que envolvem diferenças no desenvolvimento e no funcionamento do cérebro, influenciadas principalmente por fatores genéticos e neurológicos.

    O mais importante é buscar orientação especializada, acolher as necessidades da criança e oferecer o suporte adequado para favorecer o seu desenvolvimento.

    Tipos de transtorno de neurodesenvolvimento

    1. Transtorno do espectro autista (TEA)

    O TEA é caracterizado por diferenças na comunicação social e pela presença de comportamentos, interesses ou atividades repetitivas e restritas. Os principais sinais podem incluir:

    • Dificuldade para interagir socialmente;
    • Pouco contato visual;
    • Atraso na fala ou diferenças na comunicação;
    • Interesse intenso por temas específicos;
    • Necessidade de rotina;
    • Sensibilidade aumentada a sons, luzes, texturas ou cheiros.

    Os sintomas variam bastante de uma pessoa para outra, motivo pelo qual o autismo é considerado um espectro. Algumas precisam de bastante suporte para as atividades diárias, enquanto outras são mais independentes.

    2. Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH)

    O TDAH é um transtorno que afeta principalmente a atenção, o controle dos impulsos e a capacidade de organização. Ele pode se manifestar mais pela falta de atenção, mais pela agitação, ou por uma combinação das duas coisas. Alguns dos principais sinais incluem:

    • Dificuldade para manter o foco;
    • Esquecimentos frequentes;
    • Agitação excessiva;
    • Impulsividade;
    • Dificuldade para seguir instruções;
    • Problemas de organização.

    Os sinais costumam aparecer na infância, mas podem persistir durante a adolescência e a vida adulta.

    3. Transtornos específicos da aprendizagem

    Os transtornos específicos de aprendizagem são condições que afetam a capacidade de processar informações específicas, tornando o aprendizado escolar muito desafiador, mesmo que a criança seja inteligente. Os mais conhecidos são:

    • Dislexia: transtorno da aprendizagem que afeta principalmente a leitura. A criança pode ter dificuldade para reconhecer palavras de forma rápida e fluente, compreender textos, identificar sons das letras e realizar atividades de leitura e escrita compatíveis com a idade;
    • Discalculia: transtorno que interfere na compreensão dos números e dos conceitos matemáticos. Pode causar dificuldades para realizar cálculos simples, entender quantidades, memorizar operações básicas, interpretar problemas matemáticos e lidar com noções de tempo e medidas;
    • Disgrafia: alteração que afeta a habilidade de escrita, de modo que a criança pode apresentar letra pouco legível, dificuldade para organizar palavras e frases no papel, lentidão para escrever e problemas para coordenar os movimentos necessários durante a escrita.

    Como os transtornos muitas vezes podem ser confundidos com falta de interesse, o diagnóstico pode acontecer anos mais tarde.

    4. Transtornos da comunicação

    Os transtornos de comunicação afetam a fala e a linguagem, de maneira que a criança pode entender perfeitamente o que dizem a ela, mas ter dificuldades sérias para se expressar verbalmente, estruturar frases ou pronunciar os sons corretamente. Quanto mais cedo as alterações forem identificadas, maiores são as chances de intervenção eficaz.

    5. Transtornos do desenvolvimento da coordenação motora

    Nos transtornos do desenvolvimento motor, a criança apresenta dificuldades para realizar movimentos e executar tarefas motoras esperadas para a sua idade. O principal exemplo é o transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC), também conhecido como dispraxia, condição que pode afetar atividades do dia a dia, como escrever, correr, se vestir ou praticar esportes.

    O grupo também inclui os transtornos de tiques, caracterizados por movimentos ou vocalizações involuntárias e repetitivas, como ocorre na Síndrome de Tourette.

    6. Transtorno do desenvolvimento intelectual

    O transtorno do desenvolvimento intelectual envolve limitações nas funções intelectuais, como raciocínio, aprendizagem, resolução de problemas e planejamento, além de dificuldades no comportamento adaptativo, que inclui habilidades necessárias para o dia a dia, como comunicação, autocuidado, interação social e realização de atividades práticas.

    A condição pode variar de leve a profunda, dependendo do grau de comprometimento e da necessidade de suporte da pessoa.

    Quais os sinais de alerta mais comuns?

    Cada transtorno possui características próprias, mas os pais podem ficar atentos a alguns sinais que podem indicar que a criança precisa de uma avaliação especializada, como:

    • Atraso para falar;
    • Pouco interesse em interações sociais;
    • Dificuldade para manter contato visual;
    • Problemas persistentes de atenção;
    • Agitação excessiva;
    • Dificuldade de aprendizagem;
    • Comportamentos repetitivos;
    • Sensibilidade exagerada a estímulos;
    • Atrasos tempos;
    • Dificuldade para seguir instruções compatíveis com a idade.

    A presença de um ou mais sinais não significa necessariamente que exista um transtorno, mas merece investigação quando persiste ao longo do tempo.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico dos transtornos do neurodesenvolvimento é clínico e deve ser realizado por profissionais especializados, como neuropediatras, pediatras do desenvolvimento, psiquiatras infantis, psicólogos e fonoaudiólogos, dependendo do caso. A avaliação costuma envolver diferentes etapas:

    • Entrevista com a família: os profissionais investigam o histórico da criança desde a gestação, incluindo o desenvolvimento motor, da linguagem, social e escolar. As informações fornecidas pelos pais ou cuidadores são necessárias para entender quando os sintomas surgiram e como eles afetam a rotina;
    • Observação do comportamento: durante as consultas, o especialista observa como a criança interage, se comunica, brinca e responde aos estímulos do ambiente. A etapa ajuda a identificar características específicas de cada transtorno;
    • Avaliações específicas: dependendo da suspeita clínica, podem ser aplicados testes e escalas padronizadas para analisar aspectos como atenção, linguagem, cognição, habilidades sociais e aprendizagem. Em muitos casos, a avaliação é feita por uma equipe multidisciplinar;
    • Investigação de outras condições: o médico também pode solicitar exames quando necessário para descartar problemas que possam causar sintomas semelhantes, como alterações auditivas, visuais, neurológicas ou metabólicas.

    É importante destacar que não existe um exame de sangue, de imagem ou um teste único capaz de diagnosticar a maioria dos transtornos do neurodesenvolvimento.

    Como é feito o tratamento dos transtornos de neurodesenvolvimento?

    O tratamento dos transtornos do neurodesenvolvimento varia de acordo com o diagnóstico, a idade da criança e as dificuldades apresentadas.

    Não existe uma abordagem única para todos os casos, uma vez que o acompanhamento costuma ser individualizado e adaptado às necessidades de cada criança. Contudo, alguns pilares podem envolver:

    • Terapias de estimulação: incluem o acompanhamento com psicólogo, para trabalhar questões emocionais e comportamentais; fonoaudiólogo, para auxiliar no desenvolvimento da fala e da linguagem. E terapeuta ocupacional, para estimular habilidades motoras, sensoriais e a autonomia nas atividades do dia a dia;
    • Medicamentos: podem ser indicados em alguns casos para controlar sintomas específicos que prejudicam a rotina e o desenvolvimento da criança, como desatenção intensa, impulsividade, hiperatividade, ansiedade ou alterações do sono;
    • Apoio escolar: envolve adaptações pedagógicas de acordo com as necessidades da criança, como tempo adicional para realizar atividades e provas, estratégias de ensino individualizadas e, quando necessário, o acompanhamento de um profissional de apoio;
    • Orientação informal: ajuda os pais e cuidadores a compreender melhor o transtorno e a desenvolver estratégias para organizar a rotina, estimular o desenvolvimento da criança e lidar com os desafios do dia a dia de forma acolhedora e eficaz.

    Também vale apontar que o tratamento não foca em uma cura, uma vez que as fazem parte da forma como o cérebro da pessoa é estruturado, mas em estimular o cérebro desenvolver habilidades e oferecer ferramentas para que a criança tenha o máximo de autonomia, qualidade de vida e bem-estar.

    O acompanhamento envolve uma equipe multidisciplinar, que pode incluir neuropediatra, pediatra, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo e fisioterapeuta, dependendo das necessidades da criança.

    Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. Com qual idade os primeiros sinais começam a aparecer?

    Os sinais costumam surgir logo na primeira infância, frequentemente antes dos 3 anos de idade. Pais e cuidadores podem notar atrasos na fala, falta de contato visual, agitação extrema ou dificuldade para interagir com outras crianças.

    2. O que causa os transtornos do neurodesenvolvimento?

    Os transtornos do neurodesenvolvimento são causados por uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais que interferem no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação ou nos primeiros anos de vid

    3. Toda criança com TDAH precisa tomar remédio?

    Não necessariamente. O uso de medicamentos depende da gravidade dos sintomas e do quanto eles atrapalham o aprendizado e as relações sociais da criança.

    4. É possível ter mais de um transtorno do neurodesenvolvimento ao mesmo tempo?

    Sim, isso é muito comum e é chamado de comorbidade. Uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, também pode apresentar TDAH ou um transtorno de aprendizagem, como a dislexia.

    5. Como a escola pode ajudar uma criança com os transtornos?

    A escola deve oferecer acessibilidade pedagógica, o que inclui adaptar o formato das provas, dar tempo extra para atividades, fragmentar comandos longos, sentar a criança perto do professor e, quando necessário, disponibilizar um mediador escolar.

    6. Adultos também podem ser diagnosticados com esses transtornos?

    Sim, muitas pessoas passam a infância sem diagnóstico e só descobrem o TDAH ou o autismo na vida adulta, normalmente ao buscarem ajuda para problemas de ansiedade, organização, foco ou dificuldades no trabalho e nos relacionamentos.

    7. O que os pais devem fazer ao suspeitarem de algum sinal?

    O primeiro passo é conversar com o pediatra que acompanha a criança e relatar as observações. Se o médico achar necessário, ele encaminhará a família para um especialista (como neuropediatra ou psicólogo infantil) para uma avaliação detalhada.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

  • Diagnóstico tardio: por que tantas pessoas só descobrem a neurodivergência na vida adulta?

    Diagnóstico tardio: por que tantas pessoas só descobrem a neurodivergência na vida adulta?

    Você sabe o que significa o termo neurodivergente? O termo é usado para descrever pessoas que apresentam um funcionamento cerebral, de desenvolvimento ou neurológico diferente do considerado o padrão mais comum na sociedade, chamado de neurotípico.

    É o caso de pessoas que convivem com transtorno do espectro autista (TEA), o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), a dislexia e as altas habilidades, por exemplo. As condições acompanham a pessoa desde o nascimento, mas nem sempre elas são diagnosticadas na infância.

    Um número cada vez maior de pessoas vem descobrindo que é neurodivergente apenas na vida adulta. Para se ter uma ideia, um estudo publicado na revista científica JAMA Network revealed que, entre 2011 e 2022, o diagnóstico do TEA em adultos de 26 a 34 anos aumentou 450% nos Estados Unidos.

    Mas por que tantas pessoas passam a infância e a juventude inteiras sem receber a resposta? “Umas das frases que mais ouço dentro do consultório, dos pais e que pode estar atrasando o diagnóstico do seu filho: ‘Ele é pequeno ainda. A pediatra disse que é fase. O primo dele também foi assim’. Eu ouço isso toda semana e, algumas vezes, as frases custam meses preciosos de intervenção”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Por que o diagnóstico de neurodivergências costuma atrasar?

    O atraso no diagnóstico de neurodivergências pode acontecer por diversos fatores, que vão desde a falta de informação até a capacidade de camuflar os sintomas para se adequar ao ambiente.

    1. Os sinais podem ser sutis ou diferentes do esperado

    Nem todas as pessoas que convivem com transtornos de neurodesenvolvimento apresentam características consideradas clássicas. Alguns manifestam os sintomas de forma mais discreta, o que dificulta a identificação da neurodivergência por familiares, professores e até profissionais de saúde.

    Em alguns casos, os sintomas da neurodivergência frequentemente são mascarados ou confundidos com transtornos de humor. É muito comum que adultos passem anos tratando apenas a ansiedade, a depressão ou o burnout, sem que a causa raiz (a neurodivergência) seja investigada.

    2. O fenômeno do masking

    O masking, também conhecido como camuflagem social, é uma estratégia consciente ou inconsciente usada especialmente por mulheres para esconder características de condição e se adaptar às expectativas das outras pessoas. O comportamento é mais observado no autismo, mas também pode ocorrer em indivíduos com TDAH e outras neurodivergências.

    Na prática, o masking pode envolver imitar expressões faciais, ensaiar conversas mentalmente, forçar contato visual, controlar movimentos repetitivos, copiar comportamentos de outras pessoas ou esconder dificuldades para parecer mais alinhado ao que é considerado socialmente esperado.

    Com o passar dos anos, o mascaramento pode se tornar tão automático que a própria pessoa tem dificuldade para reconhecer quais comportamentos são naturais e quais foram aprendidos para se encaixar socialmente.

    3. Falta de informação e conscientização

    Há algumas décadas, condições como o TDAH e o autismo eram entendidas como transtornos que afetavam apenas crianças. Os critérios diagnósticos também eram mais restritos e o conhecimento sobre o tema era muito menor do que é atualmente.

    Por isso, muitas pessoas que cresceram nas décadas de 1980, 1990 e no início dos anos 2000 simplesmente não foram avaliadas ou sequer cogitadas para uma investigação. Em muitos casos, as dificuldades eram atribuídas à personalidade, timidez, falta de atenção ou até mesmo falta de interesse.

    4. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica detalhada

    Diferentemente de muitas outras condições de saúde, a maioria das neurodivergências não pode ser confirmada por exames laboratoriais, testes genéticos ou exames de imagem.

    A identificação é feita por meio de uma avaliação clínica detalhada, que considera a história de vida da pessoa, o desenvolvimento desde a infância, os comportamentos, dificuldades, habilidades e sintomas ao longo do tempo.

    Para chegar a um diagnóstico, o profissional analisa a história de vida da pessoa, o seu desenvolvimento desde a infância, seus comportamentos, dificuldades e a forma como ela lida com diferentes situações do dia a dia. Em alguns casos, familiares também podem ser ouvidos para ajudar a entender melhor como aqueles sinais apareceram ao longo dos anos.

    Como cada pessoa é única e os sintomas podem variar bastante, a avaliação precisa ser cuidadosa e individualizada.

    Principais sinais de neurodivergência que passam despercebidos

    Os principais sinais de neurodivergência que podem passar despercebidos na infância e adolescência incluem:

    • Cansaço extremo após interações sociais, com necessidade de ficar sozinho para recuperar as energias;
    • Sensação frequente de não se encaixar, como se as outras pessoas entendessem regras sociais que você desconhece;
    • Dificuldade com conversas superficiais e preferência por assuntos mais profundos ou de interesse específico;
    • Travar diante de tarefas simples por não saber por onde começar;
    • Conseguir passar horas focado em algo que desperta interesse, mas ter dificuldade para se concentrar em atividades consideradas monótonas;
    • Adiar tarefas importantes repetidamente, mesmo sabendo que isso pode trazer problemas ou gerar culpa;
    • Incômodo intenso com sons, luzes, cheiros, texturas ou outros estímulos que passam despercebidos para a maioria das pessoas;
    • Aversão persistente a determinadas texturas, cheiros ou combinações de alimentos, mesmo na vida adulta;
    • Tendência a interpretar falas de forma literal, com dificuldade para perceber ironias, sarcasmo ou sentidos implícitos;
    • Falar longamente sobre temas de interesse sem perceber que a outra pessoa pode estar perdendo o interesse na conversa.

    “Existe uma diferença entre a variação normal do desenvolvimento e um atraso que precisa de atenção. É importante que você aprenda a identificar os marcos do desenvolvimento e entender quando não alcançá-los é um sinal de que está na hora de buscar uma avaliação”, destaca Bárbara.

    Como é feito o diagnóstico em adultos?

    O diagnóstico de neurodivergências na vida adulta começa com uma avaliação clínica detalhada realizada por um profissional, como neurologista, psiquiatra ou neuropsicólogo.

    Durante a consulta, o profissional costuma fazer perguntas sobre a infância, o desempenho escolar, os relacionamentos, a rotina de trabalho, as dificuldades do dia a dia e os sintomas que motivaram a busca por ajuda. Como muitas neurodivergências surgem ainda nos primeiros anos de vida, entender o histórico de desenvolvimento é uma etapa importante da avaliação.

    Em alguns casos, quando possível, informações de pais, irmãos, parceiros ou amigos próximos podem complementar a avaliação. Eles ajudam a identificar características que podem ter passado despercebidas ou sido interpretadas de outra forma ao longo dos anos.

    Aplicação de testes e questionários

    Dependendo do caso, podem ser utilizados questionários padronizados e instrumentos específicos para avaliar atenção, memória, funções executivas, habilidades sociais, linguagem e outros aspectos cognitivos e comportamentais.

    No caso do TDAH, por exemplo, é comum a utilização da escala ASRS-v1.1 (Adult ADHD Self-Report Scale), um questionário desenvolvido para rastrear sintomas em adultos. Já na avaliação do autismo, podem ser utilizados instrumentos mais aprofundados, como o ADOS-2 e o ADI-R, além de questionários de rastreio, como o RAADS-R e o AQ (Autism Spectrum Quotient).

    Vale destacar que os testes não confirmam o diagnóstico de forma isolada, mas servem como ferramentas de apoio dentro de uma avaliação clínica mais ampla e detalhada.

    Descobri a neurodivergência tarde, e agora?

    Depois de uma investigação longa, receber o diagnóstico de um transtorno do neurodesenvolvimento pode despertar uma série de sentimentos, desde o alívio por finalmente encontrar respostas para dificuldades que acompanham a pessoa desde a infância, até a tristeza e a frustração ao imaginar como a vida poderia ter sido diferente si a descoberta tivesse acontecido antes.

    É comum pensar nas experiências do passado e perceber que muitos desafios enfrentados na escola, no trabalho ou nos relacionamentos estavam relacionados a características da neurodivergência e não a falhas pessoais. Inclusive, o processo de olhar para trás pode ser importante para diminuir o peso da culpa e da autocobrança.

    Nesse momento de adaptação, vale considerar algumas coisas:

    • Entenda que nunca é tarde para se conhecer melhor e buscar estratégias que melhorem a sua qualidade de vida;
    • Procure informações em fontes confiáveis para compreender melhor a sua condição, seus desafios e suas potencialidades;
    • Considere o acompanhamento de profissionais especializados, como psicólogos, psiquiatras, neurologistas ou terapeutas ocupacionais;
    • Reavalie cobranças e expectativas que talvez não respeitem as suas características e necessidades individuais;
    • Reconheça e valorize os seus pontos fortes, como criatividade, capacidade de concentração em temas de interesse, atenção aos detalhes e facilidade para identificar padrões;
    • Tenha paciência consigo mesmo durante o processo de adaptação e autoconhecimento;
    • Lembre-se de que o diagnóstico não define quem você é, mas pode ajudar a entender melhor a sua trajetória e como o seu cérebro funciona.

    Com o tempo, fica mais fácil desenvolver um olhar mais gentil sobre si mesmo, com menos culpa, menos cobranças e mais compreensão sobre quem você é.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

    Perguntas frequentes

    1. É possível desenvolver TDAH ou autismo depois de adulto?

    Não, as neurodivergências nascem com a pessoa. O que acontece na vida adulta é a descoberta da condição, normalmente porque as cobranças da maturidade superam a capacidade da pessoa de camuflar os sintomas.

    2. Como saber se sou neurodivergente ou se é apenas ansiedade?

    A ansiedade costuma surgir em fases específicas da vida. A neurodivergência é crônica, esteve presente desde a infância e molda a forma como você percebe o mundo o tempo todo. Um profissional precisa fazer essa distinção.

    3. O diagnóstico tardio dá direito a algum benefício por lei?

    Pessoas diagnosticadas com TEA (Autismo) são consideradas por lei como pessoas com deficiência (PCD) e têm direitos garantidos, como atendimento prioritário e vagas reservadas.

    4. O que é o burnout autista?

    É um estado de exaustão física e mental severa que acontece quando o adulto passa anos camuflando os traços e forçando o próprio cérebro além do limite para parecer neurotípico.

    5. O que é hipersensibilidade sensorial em adultos?

    É quando o cérebro não consegue filtrar estímulos do ambiente corretamente. Na prática, o adulto sente dores físicas ou irritação extrema com luzes fortes, barulhos de conversas paralelas, cheiros específicos ou texturas de roupas e alimentos que outras pessoas nem notam.

    5. Qual a diferença de diagnóstico entre homens e mulheres?

    Em mulheres, o diagnóstico costuma ser muito mais tardio porque elas tendem a internalizar o sofrimento e são historicamente mais cobradas a serem sociáveis, o que as torna especialistas em camuflar os sinais

    6. O que são altas habilidades na vida adulta?

    É uma neurodivergência caracterizada por uma capacidade cognitiva significativamente acima da média em uma ou mais áreas, como lógica, artes ou criatividade.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização