Sabia que o contato visual é uma das primeiras formas de comunicação entre a criança e o mundo ao redor? É por meio do olhar que os bebês e as crianças pequenas começam a interagir, expressar emoções e criar vínculos com os pais.
Quando uma criança evita olhar nos olhos com frequência ou parece não responder ao olhar de outras pessoas, é natural se perguntar se é um sinal de neurodivergência ou dificuldade visual.
Em alguns casos, a dificuldade de manter contato visual pode fazer parte do desenvolvimento normal, mas quando ele é frequente ou está acompanhado de outros sinais, vale buscar a avaliação de um especialista.
O contato visual no desenvolvimento infantil
O olhar funciona como a base para o desenvolvimento da linguagem, da cognição e das habilidades sociais. Desde as primeiras semanas de vida, os bebês buscam o rosto dos pais para entender o ambiente e aprender a decifrar expressões faciais. Por volta dos 2 meses, ele já consegue fixar o olhar e sorrir em resposta ao estímulo visual dos cuidadores.
À medida que a criança cresce, o contato visual ganha algumas novas funções, como a atenção compartilhada, que acontece quando ela olha para um brinquedo ou objeto, depois olha para os pais e volta a olhar para o objeto, como se estivesse dizendo “olha isso!”. O comportamento costuma aparecer e se fortalecer ao longo do primeiro ano de vida.
Quando o ato de olhar nos olhos não acontece de maneira natural no dia a dia, alguns marcos importantes do desenvolvimento podem ser afetados. A criança pode ter mais dificuldade para compreender pistas sociais, interpretar emoções, compartilhar interesses e desenvolver formas de comunicação não verbal, que são fundamentais antes mesmo do surgimento da fala.
Por isso, observar como ela usa o olhar em cada fase do desenvolvimento ajuda a entender se está adquirindo as habilidades esperadas para a idade ou se pode precisar de mais estímulos e acompanhamento especializado.
Principais causas para a falta de contato visual
Nem sempre a falta de contato visual indica um problema grave, mas o acompanhamento médico é importante para entender o quadro. Entre algumas das possíveis causas, é possível destacar:
1. Transtorno do espectro autista (TEA)
A dificuldade em manter o contato visual é um dos aspectos avaliados durante a investigação do transtorno do espectro autista. Para muitas pessoas com TEA, olhar diretamente nos olhos pode ser desconfortável devido ao excesso de estímulos sensoriais ou à dificuldade de interpretar sinais sociais.
“A falta de contato visual não significa automaticamente autismo. Precisamos de vários outros sintomas, mas toda vez que essa queixa aparece, ela precisa ser avaliada com muito cuidado”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.
Além do contato visual reduzido, a criança com TEA pode apresentar dificuldades na comunicação, interesses restritos e comportamentos repetitivos.
2. Dificuldades visuais
Condições como estrabismo, sensibilidade à luz, miopia, hipermetropia ou astigmatismo podem dificultar a focalização de rostos e objetos. A criança pode evitar olhar diretamente para as pessoas simplesmente porque não consegue enxergar com nitidez ou porque a atividade causa desconforto nos olhos, o que requer a avaliação de um oftalmologista.
3. Timidez e traços de personalidade
Algumas crianças possuem um temperamento naturalmente mais reservado e podem demorar mais para se sentirem confortáveis em interações sociais.
A presença de pessoas desconhecidas, os ambientes movimentados ou as situações que causam ansiedade podem fazer com que elas evitem o contato visual temporariamente. Quando a criança se sente segura, o comportamento costuma melhorar de forma espontânea.
4. Uso excessivo de telas
O contato frequente e prolongado com os celulares, os tablets e as televisões expõe o cérebro infantil a estímulos rápidos, repetitivos e altamente atrativos.
Quando o tempo de tela substitui os momentos de brincadeiras, as conversas e as interações presenciais, a criança pode ter menos oportunidades de desenvolver habilidades sociais importantes, incluindo o contato visual, a atenção compartilhada e a comunicação não verbal.
Por isso, a Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde recomendam limites adequados para o uso das telas durante a infância:
- Até 2 anos: nenhum contato com telas, incluindo a exposição passiva, como a televisão ligada em segundo plano;
- De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, sempre com a supervisão de um adulto e priorizando conteúdos educativos;
- De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia, com acompanhamento dos responsáveis e acesso apenas a conteúdos adequados para a idade;
- De 11 a 18 anos: entre 2 e 3 horas por dia, evitando o uso durante a madrugada e o isolamento prolongado no quarto.
Sinais de alerta para ficar atento
Os pais devem acender o sinal de alerta quando a falta de contato visual vem acompanhado de outras manifestações no dia a dia, como:
- A criança não responde quando é chamada pelo nome;
- Apresenta atraso na fala ou na emissão dos primeiros sons e palavras;
- Não imita gestos simples, como dar tchau, mandar beijo ou bater palmas;
- Prefere brincar sozinha e demonstra pouco interesse por interações sociais;
- Usa os brinquedos de forma incomum, focando em detalhes ou organizando-os repetidamente;
- Apresenta movimentos repetitivos, como balançar o corpo, andar na ponta dos pés ou chacoalhar as mãos;
- Tem dificuldade para compreender ou seguir comandos simples da rotina;
- Demonstra forte resistência a mudanças ou orientações do dia a dia.
Se a criança apresentar dois ou mais sinais, vale procurar a orientação de um especialista para realizar uma avaliação mais detalhada do desenvolvimento.
Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico
Perguntas frequentes
1. Com quantos meses o bebê começa a olhar nos olhos?
O bebê começa a fixar o olhar no rosto dos pais por volta dos 2 meses de vida. O marco do desenvolvimento demonstra o início da comunicação social.
2. Como o autismo afeta o olhar da criança?
A criança com autismo pode achar o contato visual direto desconfortável ou muito cansativo devido ao excesso de estímulos sensoriais. O desvio do olhar funciona como uma forma de regulação.
3. Qual médico avalia a falta de contato visual?
O pediatra realiza a primeira avaliação do desenvolvimento. Caso haja necessidade, o profissional encaminha o paciente para o neuropediatra, psiquiatra infantil ou oftalmologista.
4. O bebê que não olha quando é chamado pode ter surdez?
Sim, a falta de reação ao chamado pode indicar perda auditiva total ou parcial. Um teste de audição ajuda a descartar a suspeita.
5. Como posso estimular o contato visual do meu filho?
Brinque de frente com a criança, use brinquedos perto dos seus próprios olhos e faça expressões faciais divertidas. Evite ambientes com poluição visual ou sonora durante o treino.
6. O uso de óculos pode corrigir o desvio de olhar infantil?
Sim, caso a causa do desvio seja um problema de refração como o astigmatismo. Ao enxergar o ambiente com nitidez, a criança passa a ter mais segurança para focar nos rostos.
7. O contato visual pode melhorar sem tratamento?
Quando a causa envolve apenas timidez ou uma fase de desenvolvimento, o olhar tende a se normalizar com o amadurecimento. Nos casos de TEA ou problemas visuais, a intervenção profissional é importante para haver melhora.
Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?
