É verdade que o desenvolvimento infantil não acontece de forma exatamente igual para todos, mas no dia a dia, a percepção da família também merece atenção. Quem convive diariamente com a criança costuma notar pequenas mudanças de comportamento, comunicação, interação social e aprendizado que podem passar despercebidas em consultas ou avaliações pontuais.
Quando os responsáveis sentem que algo não está acontecendo como esperado, é importante levar a preocupação a sério, mesmo que ainda não exista um diagnóstico ou um exame que confirme alguma alteração.
A grande maioria dos transtornos de desenvolvimento, como o TDAH ou atrasos na fala, tem o diagnóstico feito de forma clínica, baseada na observação do comportamento. E ninguém observa uma criança melhor do que quem cuida dela todos os dias.
“Pais e mães têm uma percepção do filho que vai além de qualquer check-list. Não ignore esse sentimento, busque avaliação”, aponta a neuropediatra Bárbara Macedo.
O papel do instinto materno e paterno no desenvolvimento infantil
O desenvolvimento infantil é acompanhado de perto por mães e pais que convivem diariamente com a criança. A rotina, as brincadeiras, as conversas e os momentos compartilhados fazem com que a família conheça detalhes do comportamento e das necessidades do filho que muitas vezes passam despercebidos por outras pessoas.
Com o passar do tempo, a familiaridade permite identificar também mudanças mais sutis, como dificuldades na fala, alterações no comportamento, problemas de interação social ou desafios na aprendizagem.
Isso não significa que toda preocupação dos pais indique a presença de um transtorno ou atraso no desenvolvimento. As crianças possuem ritmos diferentes de crescimento e aprendizagem, e muitas variações fazem parte do desenvolvimento normal. Ainda assim, quando uma preocupação persiste por semanas ou meses, ela merece ser levada em consideração.
Além de ajudar na identificação precoce de possíveis dificuldades, o olhar atento da família também contribui para que a criança tenha um desenvolvimento saudável. Quando ela recebe estímulos adequados, interação frequente, acolhimento emocional e apoio diante dos desafios, ela tende a desenvolver melhor as habilidades cognitivas, sociais e emocionais.
Sinais de alerta no desenvolvimento do bebê e da criança
Cada criança tem o próprio ritmo de desenvolvimento, mas existem marcos esperados para cada idade. Quando habilidades motoras, de linguagem ou de interação social demoram muito para surgir, é importante buscar orientação profissional. Veja alguns sinais de alerta:
Sinais de alerta nos bebês (até 1 ano)
Nessa fase, a atenção costuma estar voltada para o contato visual, a resposta aos estímulos sonoros, a interação social e o desenvolvimento motor.
Aos 2 meses
- O bebê não acompanha objetos em movimento com os olhos;
- O bebê não reage a sons altos ou vozes próximas.
Aos 4 a 6 meses
- O bebê não sorri em resposta ao sorriso de outras pessoas (sorriso social);
- O bebê não tenta alcançar brinquedos ou objetos próximos;
- O bebê apresenta dificuldade para sustentar a cabeça.
Aos 9 meses
- O bebê não responde quando é chamado pelo nome;
- O bebê não balbucia sons como “ba-ba” ou “da-da”;
- O bebê apresenta pouco ou nenhum contato visual.
Aos 12 meses
- O bebê não aponta para pedir ou mostrar algo;
- O bebê não realiza gestos simples, como dar tchau ou mandar beijo;
- O bebê não engatinha ou não consegue permanecer em pé com apoio.
Sinais de alerta em crianças pequenas (1 a 3 anos)
Nesta faixa etária, a linguagem, a interação social e a autonomia motora costumam se desenvolver de forma mais intensa.
Aos 18 meses (1 ano e meio)
- A criança não fala palavras com significado, como “mamãe” ou “água”;
- A criança não anda sozinha;
- A criança anda frequentemente na ponta dos pés.
Aos 2 anos
- A criança não imita ações ou palavras de adultos;
- A criança não consegue seguir instruções simples, como “pegue a bola”;
- A criança perdeu habilidades que já havia adquirido, como falar palavras ou manter contato visual.
Aos 3 anos
- A fala é muito difícil de compreender para pessoas fora do convívio familiar;
- A criança demonstra pouco interesse em brincar com outras crianças;
- A criança apresenta brincadeiras repetitivas, como alinhar ou girar objetos continuamente, sem utilizá-los de forma funcional durante a brincadeira.
Atenção à perda de habilidades
A perda de habilidades já adquiridas é um dos sinais que mais precisam de atenção em qualquer idade. Quando a criança deixa de falar palavras que já conhecia, perde habilidades motoras, reduz o contato visual ou deixa de realizar comportamentos que antes eram comuns, a avaliação médica deve acontecer o mais rápido possível.
Por que não esperar para procurar uma avaliação médica?
O medo de um diagnóstico pode fazer com que algumas famílias escolham esperar para ver se a criança consegue se desenvolver no próprio tempo, só que nos primeiros anos de vida, o cérebro apresenta uma grande capacidade de adaptação e aprendizagem, o que é conhecido como neuroplasticidade.
A criança consegue formar novas conexões cerebrais com facilidade, o que favorece o desenvolvimento de diversas habilidades.
Quando os pais procuram ajuda logo nos primeiros sinais de preocupação, ela pode receber o apoio necessário em uma fase em que o cérebro aprende e se desenvolve com mais facilidade. Isso aumenta as chances de avanços importantes e pode reduzir dificuldades no futuro, favorecendo a autonomia e a qualidade de vida da criança.
“Na pior das hipóteses, você vai ter a tranquilidade de saber que está tudo bem. Ou você pode descobrir que realmente tinha razão, mas que a gente conseguiu detectar algo precocemente, e é exatamente quando faz a maior diferença”, finaliza Bárbara.
Leia mais: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização
Perguntas frequentes
1. Existe exame de sangue para detectar autismo ou atraso no desenvolvimento?
Não, o diagnóstico de transtornos do desenvolvimento como o autismo (TEA) ou TDAH é totalmente clínico, baseado na observação do comportamento da criança por especialistas.
2. Meu filho não olha nos olhos quando é chamado. Isso é normal?
Não é o esperado. A falta de contato visual sustentado e a ausência de resposta ao chamado pelo nome são dois dos principais sinais de alerta no desenvolvimento social.
3. Andar na ponta dos pés sempre é sinal de autismo?
Não necessariamente, mas é um sinal de alerta que merece investigação se for um comportamento frequente, pois pode estar ligado a questões sensoriais ou motoras.
4. Com quantos meses o bebê precisa começar a engatinhar?
A maioria dos bebês engatinha entre os 7 e 10 meses. Contudo, o mais importante é que ele se desloque (mesmo arrastando) e consiga ficar em pé com apoio aos 12 meses.
5. Qual médico especialista cuida do desenvolvimento infantil?
O neuropediatra (ou neurologista infantil) e o psiquiatra infantil são os médicos especialistas mais indicados para diagnosticar e coordenar o tratamento de atrasos do desenvolvimento.
6. Como registrar as minhas suspeitas para mostrar ao médico?
Anote em um papel as atitudes que chamam sua atenção e grave vídeos curtos da criança em casa em momentos espontâneos de brincadeira, choro ou interação.
7. O que são as “estereotipias” em crianças?
São movimentos ou sons repetitivos feitos sem uma função aparente, como balançar as mãos, dar pulinhos frequentes ou andar em círculos, normalmente usados para autorregulação emocional.
8. O uso de telas pode causar atraso no desenvolvimento?
O uso excessivo de telas não causa autismo, mas prejudica a interação social e a estimulação real, gerando atrasos na fala, problemas de atenção e dificuldades de sono na primeira infância.
9. Como o teste do pezinho ajuda no desenvolvimento infantil?
Ele identifica precocemente doenças metabólicas e genéticas graves que, se não tratadas logo nos primeiros dias de vida, podem causar deficiência intelectual e severos atrasos de desenvolvimento.
Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?








