Autor: Dra. Barbara Arraes Guedes Macedo

  • Desenvolvimento infantil: como a percepção dos pais ajuda no diagnóstico precoce? 

    Desenvolvimento infantil: como a percepção dos pais ajuda no diagnóstico precoce? 

    É verdade que o desenvolvimento infantil não acontece de forma exatamente igual para todos, mas no dia a dia, a percepção da família também merece atenção. Quem convive diariamente com a criança costuma notar pequenas mudanças de comportamento, comunicação, interação social e aprendizado que podem passar despercebidas em consultas ou avaliações pontuais.

    Quando os responsáveis sentem que algo não está acontecendo como esperado, é importante levar a preocupação a sério, mesmo que ainda não exista um diagnóstico ou um exame que confirme alguma alteração.

    A grande maioria dos transtornos de desenvolvimento, como o TDAH ou atrasos na fala, tem o diagnóstico feito de forma clínica, baseada na observação do comportamento. E ninguém observa uma criança melhor do que quem cuida dela todos os dias.

    “Pais e mães têm uma percepção do filho que vai além de qualquer check-list. Não ignore esse sentimento, busque avaliação”, aponta a neuropediatra Bárbara Macedo.

    O papel do instinto materno e paterno no desenvolvimento infantil

    O desenvolvimento infantil é acompanhado de perto por mães e pais que convivem diariamente com a criança. A rotina, as brincadeiras, as conversas e os momentos compartilhados fazem com que a família conheça detalhes do comportamento e das necessidades do filho que muitas vezes passam despercebidos por outras pessoas.

    Com o passar do tempo, a familiaridade permite identificar também mudanças mais sutis, como dificuldades na fala, alterações no comportamento, problemas de interação social ou desafios na aprendizagem.

    Isso não significa que toda preocupação dos pais indique a presença de um transtorno ou atraso no desenvolvimento. As crianças possuem ritmos diferentes de crescimento e aprendizagem, e muitas variações fazem parte do desenvolvimento normal. Ainda assim, quando uma preocupação persiste por semanas ou meses, ela merece ser levada em consideração.

    Além de ajudar na identificação precoce de possíveis dificuldades, o olhar atento da família também contribui para que a criança tenha um desenvolvimento saudável. Quando ela recebe estímulos adequados, interação frequente, acolhimento emocional e apoio diante dos desafios, ela tende a desenvolver melhor as habilidades cognitivas, sociais e emocionais.

    Sinais de alerta no desenvolvimento do bebê e da criança

    Cada criança tem o próprio ritmo de desenvolvimento, mas existem marcos esperados para cada idade. Quando habilidades motoras, de linguagem ou de interação social demoram muito para surgir, é importante buscar orientação profissional. Veja alguns sinais de alerta:

    Sinais de alerta nos bebês (até 1 ano)

    Nessa fase, a atenção costuma estar voltada para o contato visual, a resposta aos estímulos sonoros, a interação social e o desenvolvimento motor.

    Aos 2 meses

    • O bebê não acompanha objetos em movimento com os olhos;
    • O bebê não reage a sons altos ou vozes próximas.

    Aos 4 a 6 meses

    • O bebê não sorri em resposta ao sorriso de outras pessoas (sorriso social);
    • O bebê não tenta alcançar brinquedos ou objetos próximos;
    • O bebê apresenta dificuldade para sustentar a cabeça.

    Aos 9 meses

    • O bebê não responde quando é chamado pelo nome;
    • O bebê não balbucia sons como “ba-ba” ou “da-da”;
    • O bebê apresenta pouco ou nenhum contato visual.

    Aos 12 meses

    • O bebê não aponta para pedir ou mostrar algo;
    • O bebê não realiza gestos simples, como dar tchau ou mandar beijo;
    • O bebê não engatinha ou não consegue permanecer em pé com apoio.

    Sinais de alerta em crianças pequenas (1 a 3 anos)

    Nesta faixa etária, a linguagem, a interação social e a autonomia motora costumam se desenvolver de forma mais intensa.

    Aos 18 meses (1 ano e meio)

    • A criança não fala palavras com significado, como “mamãe” ou “água”;
    • A criança não anda sozinha;
    • A criança anda frequentemente na ponta dos pés.

    Aos 2 anos

    • A criança não imita ações ou palavras de adultos;
    • A criança não consegue seguir instruções simples, como “pegue a bola”;
    • A criança perdeu habilidades que já havia adquirido, como falar palavras ou manter contato visual.

    Aos 3 anos

    • A fala é muito difícil de compreender para pessoas fora do convívio familiar;
    • A criança demonstra pouco interesse em brincar com outras crianças;
    • A criança apresenta brincadeiras repetitivas, como alinhar ou girar objetos continuamente, sem utilizá-los de forma funcional durante a brincadeira.

    Atenção à perda de habilidades

    A perda de habilidades já adquiridas é um dos sinais que mais precisam de atenção em qualquer idade. Quando a criança deixa de falar palavras que já conhecia, perde habilidades motoras, reduz o contato visual ou deixa de realizar comportamentos que antes eram comuns, a avaliação médica deve acontecer o mais rápido possível.

    Por que não esperar para procurar uma avaliação médica?

    O medo de um diagnóstico pode fazer com que algumas famílias escolham esperar para ver se a criança consegue se desenvolver no próprio tempo, só que nos primeiros anos de vida, o cérebro apresenta uma grande capacidade de adaptação e aprendizagem, o que é conhecido como neuroplasticidade.

    A criança consegue formar novas conexões cerebrais com facilidade, o que favorece o desenvolvimento de diversas habilidades.

    Quando os pais procuram ajuda logo nos primeiros sinais de preocupação, ela pode receber o apoio necessário em uma fase em que o cérebro aprende e se desenvolve com mais facilidade. Isso aumenta as chances de avanços importantes e pode reduzir dificuldades no futuro, favorecendo a autonomia e a qualidade de vida da criança.

    “Na pior das hipóteses, você vai ter a tranquilidade de saber que está tudo bem. Ou você pode descobrir que realmente tinha razão, mas que a gente conseguiu detectar algo precocemente, e é exatamente quando faz a maior diferença”, finaliza Bárbara.

    Leia mais: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

    Perguntas frequentes

    1. Existe exame de sangue para detectar autismo ou atraso no desenvolvimento?

    Não, o diagnóstico de transtornos do desenvolvimento como o autismo (TEA) ou TDAH é totalmente clínico, baseado na observação do comportamento da criança por especialistas.

    2. Meu filho não olha nos olhos quando é chamado. Isso é normal?

    Não é o esperado. A falta de contato visual sustentado e a ausência de resposta ao chamado pelo nome são dois dos principais sinais de alerta no desenvolvimento social.

    3. Andar na ponta dos pés sempre é sinal de autismo?

    Não necessariamente, mas é um sinal de alerta que merece investigação se for um comportamento frequente, pois pode estar ligado a questões sensoriais ou motoras.

    4. Com quantos meses o bebê precisa começar a engatinhar?

    A maioria dos bebês engatinha entre os 7 e 10 meses. Contudo, o mais importante é que ele se desloque (mesmo arrastando) e consiga ficar em pé com apoio aos 12 meses.

    5. Qual médico especialista cuida do desenvolvimento infantil?

    O neuropediatra (ou neurologista infantil) e o psiquiatra infantil são os médicos especialistas mais indicados para diagnosticar e coordenar o tratamento de atrasos do desenvolvimento.

    6. Como registrar as minhas suspeitas para mostrar ao médico?

    Anote em um papel as atitudes que chamam sua atenção e grave vídeos curtos da criança em casa em momentos espontâneos de brincadeira, choro ou interação.

    7. O que são as “estereotipias” em crianças?

    São movimentos ou sons repetitivos feitos sem uma função aparente, como balançar as mãos, dar pulinhos frequentes ou andar em círculos, normalmente usados para autorregulação emocional.

    8. O uso de telas pode causar atraso no desenvolvimento?

    O uso excessivo de telas não causa autismo, mas prejudica a interação social e a estimulação real, gerando atrasos na fala, problemas de atenção e dificuldades de sono na primeira infância.

    9. Como o teste do pezinho ajuda no desenvolvimento infantil?

    Ele identifica precocemente doenças metabólicas e genéticas graves que, se não tratadas logo nos primeiros dias de vida, podem causar deficiência intelectual e severos atrasos de desenvolvimento.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

  • Como reconhecer os sintomas de TDAH na infância? 

    Como reconhecer os sintomas de TDAH na infância? 

    O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, mais conhecido como TDAH, é uma condição neurobiológica que normalmente começa a dar os primeiros sinais ainda na infância e afeta áreas do cérebro responsáveis pela atenção, pelo controle dos impulsos e pela organização do comportamento.

    O diagnóstico nem sempre é simples nos primeiros anos de vida, já que é natural que as crianças sejam agitadas, curiosas, falem bastante, tenham muita energia e se distraiam com facilidade durante brincadeiras, atividades escolares ou situações do dia a dia.

    Mas então, como diferenciar a agitação natural das crianças de um sinal do transtorno? A seguir, explicamos as principais características do TDAH na infância e o que fazer ao notar os sintomas no dia a dia.

    Como identificar os sinais de TDAH na infância?

    O diagnóstico do TDAH é feito a partir de uma análise clínica do comportamento da criança em múltiplos ambientes, como em casa e na escola. “Existe um marcador que é fundamental no diagnóstico de TDAH, que é a discrepância da atenção de acordo com a atividade, o momento e o grau de motivação dessa criança para a atividade”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Segundo a especialista, a criança pode apresentar muita dificuldade para se concentrar em algumas atividades, esquecer compromissos e tarefas, perder objetos com frequência e até não conseguir concluir o que começou.

    Por outro lado, quando a atividade desperta grande interesse, é possível que ela fique extremamente focada por horas seguidas, demonstrando um padrão de atenção que varia bastante conforme o nível de motivação.

    Para ajudar a identificar o transtorno, os sinais costumam ser divididos em três grupos principais de comportamento no dia a dia:

    Sinais de desatenção

    • Deixar tarefas escolares ou atividades cotidianas incompletas;
    • Distrair-se facilmente com estímulos externos, como barulhos na rua ou um objeto na sala;
    • Parecer não ouvir quando alguém fala diretamente com ela;
    • Ter grande dificuldade para organizar horários, materiais escolares e brinquedos;
    • Evitar ou demonstrar forte resistência a atividades que exijam esforço mental prolongado.

    Sinais de hiperatividade

    • Agitar as mãos ou os pés e remexer-se na cadeira com frequência;
    • Ficar de pé em momentos ou situações em que se espera que permaneça sentada, como durante as refeições ou na aula;
    • Correr ou subir em móveis de maneira excessiva e inadequada;
    • Dificuldade para brincar ou se envolver em atividades de lazer de forma calma;
    • Falar demais ou demonstrar uma energia constante, agindo como se estivesse “ligada a um motor”.

    Sinais de impulsividade

    • Responder a perguntas antes mesmo que elas sejam concluídas;
    • Ter muita dificuldade para esperar a sua vez em filas ou brincadeiras de grupo;
    • Interromper conversas de adultos ou se intrometer nas atividades e jogos de outras crianças;
    • Agir sem avaliar os riscos físicos envolvidos, o que pode levar a quedas ou acidentes frequentes.

    Como os sinais mudam na escola e em casa?

    O TDAH se manifesta de formas diferentes dependendo do ambiente e das regras de cada local. Em casa, a criança pode apresentar:

    • Dificuldade para seguir a rotina e concluir tarefas simples do dia a dia, como escovar os dentes, tomar banho ou guardar os brinquedos;
    • Esquecimento frequente de orientações e perda constante de objetos de uso diário, como chinelos, casacos e brinquedos;
    • Agitação durante momentos de lazer, com dificuldade para permanecer sentada durante um filme ou uma refeição em família;
    • Baixa tolerância à frustração, com irritabilidade, impaciência e reações impulsivas quando algo não acontece como esperado.

    Já na escola, é possível notar:

    • Queda no desempenho escolar, com erros frequentes por distração, cadernos incompletos e dificuldade para copiar o conteúdo da lousa;
    • Dificuldade para seguir regras em brincadeiras e jogos em grupo, interrompendo os colegas ou agindo por impulso, o que pode gerar conflitos;
    • Comportamento inquieto em sala de aula, levantando da carteira várias vezes, mexendo em objetos o tempo todo ou parecendo distraído durante as explicações;
    • Esquecimento frequente de materiais escolares, como livros e cadernos, além de dificuldade para anotar ou entregar as tarefas no prazo correto.

    Com qual idade é possível fazer o diagnóstico?

    Não existe uma idade mínima exata, mas o diagnóstico de TDAH costuma pode ser feito a partir dos 6 anos, quando a criança já frequenta a escola e precisa lidar com atividades que exigem mais atenção, organização, controle da impulsividade e capacidade de permanecer concentrada por mais tempo.

    Nessa fase da vida, fica mais fácil perceber se os comportamentos estão além do esperado para a idade e se estão causando problemas no aprendizado, nas relações sociais ou na rotina.

    Antes dos 6 anos, alguns sinais podem chamar a atenção dos pais, como agitação excessiva, impulsividade intensa e grande dificuldade para seguir orientações simples. Só que o diagnóstico costuma exigir cautela, já que muitas das características também podem fazer parte do desenvolvimento normal da infância.

    “Outro ponto importante: esses comportamentos precisam ser frequentes e acontecer em mais do que um ambiente, principalmente na criança, em casa e na escola. E precisam interferir na rotina, eles precisam causar prejuízo”, complementa Bárbara.

    O que fazer ao suspeitar de TDAH no meu filho?

    Se você notar sinais persistentes de desatenção, impulsividade ou hiperatividade que estejam causando dificuldades na escola, em casa ou na convivência com outras pessoas, o ideal é procurar uma avaliação com um profissional especializado, como um neuropediatra, pediatra ou psiquiatra infantil.

    Quanto mais cedo o quadro for identificado, maiores são as chances de desenvolver medidas que ajudem a criança a lidar melhor com os desafios do dia a dia.

    Uma dica também é conversar com os professores e a coordenação pedagógica da escola, uma vez que eles acompanham a criança por várias horas do dia e podem relatar comportamentos que passam despercebidos em casa. O diagnóstico do TDAH depende justamente da observação dos sintomas em mais de um ambiente.

    Vale lembrar que os comportamentos da criança não são intencionais ou por pirraça, e castigar a criança apenas contribui para aumentar a ansiedade e a baixa autoestima.

    Leia mais: TDAH em adultos: 7 dicas para viver com mais foco

    Perguntas frequentes

    1. O TDAH tem cura?

    Não, o TDAH é uma condição crônica, o que significa que não tem cura. No entanto, com o tratamento adequado, a criança aprende a gerenciar os sintomas e pode ter uma vida perfeitamente saudável e produtiva.

    2. Meninas e meninos apresentam os mesmos sinais?

    Nem sempre. Em meninos, os sinais de hiperatividade e impulsividade costumam ser mais visíveis. Já em meninas, o TDAH tende a se manifestar mais pelo tipo desatento, fazendo com que pareçam quietas, distraídas ou “no mundo da lua”, o que pode atrasar o diagnóstico.

    3. O uso excessivo de telas pode causar TDAH?

    Não, as telas não causam o transtorno, que é uma condição neurobiológica de nascença. Mas o uso exagerado de celulares e tablets pode agravar os sintomas de desatenção, ansiedade e impulsividade em crianças que já possuem o diagnóstico.

    4. O que é o tipo predominantemente desatento do TDAH?

    É o subtipo do transtorno em que a falta de foco, o esquecimento, a desorganização e a facilidade de se distrair são os sintomas principais, enquanto a agitação física e a impulsividade são poucas ou inexistentes.

    5. Como criar uma rotina em casa ajuda a criança com TDAH?

    Crianças com TDAH têm dificuldade com prazos e previsibilidade. Uma rotina visual bem estruturada reduz a ansiedade, diminui os esquecimentos e ajuda a criança a entender o que se espera dela a cada momento.

    6. Qual o papel da psicoterapia no tratamento do TDAH?

    A terapia ajuda a criança a desenvolver habilidades emocionais e comportamentais. A abordagem mais recomendada é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que ensina o manejo da frustração, técnicas de organização e formas de controlar a impulsividade no convívio social.

    7. O medicamento para TDAH causa dependência em crianças?

    Quando prescritos por médicos especialistas e utilizados nas doses corretas, os medicamentos estimulantes modernos são seguros e não causam dependência química.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

  • O que significa quando a criança não olha nos seus olhos? 

    O que significa quando a criança não olha nos seus olhos? 

    Sabia que o contato visual é uma das primeiras formas de comunicação entre a criança e o mundo ao redor? É por meio do olhar que os bebês e as crianças pequenas começam a interagir, expressar emoções e criar vínculos com os pais.

    Quando uma criança evita olhar nos olhos com frequência ou parece não responder ao olhar de outras pessoas, é natural se perguntar se é um sinal de neurodivergência ou dificuldade visual.

    Em alguns casos, a dificuldade de manter contato visual pode fazer parte do desenvolvimento normal, mas quando ele é frequente ou está acompanhado de outros sinais, vale buscar a avaliação de um especialista.

    O contato visual no desenvolvimento infantil

    O olhar funciona como a base para o desenvolvimento da linguagem, da cognição e das habilidades sociais. Desde as primeiras semanas de vida, os bebês buscam o rosto dos pais para entender o ambiente e aprender a decifrar expressões faciais. Por volta dos 2 meses, ele já consegue fixar o olhar e sorrir em resposta ao estímulo visual dos cuidadores.

    À medida que a criança cresce, o contato visual ganha algumas novas funções, como a atenção compartilhada, que acontece quando ela olha para um brinquedo ou objeto, depois olha para os pais e volta a olhar para o objeto, como se estivesse dizendo “olha isso!”. O comportamento costuma aparecer e se fortalecer ao longo do primeiro ano de vida.

    Quando o ato de olhar nos olhos não acontece de maneira natural no dia a dia, alguns marcos importantes do desenvolvimento podem ser afetados. A criança pode ter mais dificuldade para compreender pistas sociais, interpretar emoções, compartilhar interesses e desenvolver formas de comunicação não verbal, que são fundamentais antes mesmo do surgimento da fala.

    Por isso, observar como ela usa o olhar em cada fase do desenvolvimento ajuda a entender se está adquirindo as habilidades esperadas para a idade ou se pode precisar de mais estímulos e acompanhamento especializado.

    Principais causas para a falta de contato visual

    Nem sempre a falta de contato visual indica um problema grave, mas o acompanhamento médico é importante para entender o quadro. Entre algumas das possíveis causas, é possível destacar:

    1. Transtorno do espectro autista (TEA)

    A dificuldade em manter o contato visual é um dos aspectos avaliados durante a investigação do transtorno do espectro autista. Para muitas pessoas com TEA, olhar diretamente nos olhos pode ser desconfortável devido ao excesso de estímulos sensoriais ou à dificuldade de interpretar sinais sociais.

    “A falta de contato visual não significa automaticamente autismo. Precisamos de vários outros sintomas, mas toda vez que essa queixa aparece, ela precisa ser avaliada com muito cuidado”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Além do contato visual reduzido, a criança com TEA pode apresentar dificuldades na comunicação, interesses restritos e comportamentos repetitivos.

    2. Dificuldades visuais

    Condições como estrabismo, sensibilidade à luz, miopia, hipermetropia ou astigmatismo podem dificultar a focalização de rostos e objetos. A criança pode evitar olhar diretamente para as pessoas simplesmente porque não consegue enxergar com nitidez ou porque a atividade causa desconforto nos olhos, o que requer a avaliação de um oftalmologista.

    3. Timidez e traços de personalidade

    Algumas crianças possuem um temperamento naturalmente mais reservado e podem demorar mais para se sentirem confortáveis em interações sociais.

    A presença de pessoas desconhecidas, os ambientes movimentados ou as situações que causam ansiedade podem fazer com que elas evitem o contato visual temporariamente. Quando a criança se sente segura, o comportamento costuma melhorar de forma espontânea.

    4. Uso excessivo de telas

    O contato frequente e prolongado com os celulares, os tablets e as televisões expõe o cérebro infantil a estímulos rápidos, repetitivos e altamente atrativos.

    Quando o tempo de tela substitui os momentos de brincadeiras, as conversas e as interações presenciais, a criança pode ter menos oportunidades de desenvolver habilidades sociais importantes, incluindo o contato visual, a atenção compartilhada e a comunicação não verbal.

    Por isso, a Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde recomendam limites adequados para o uso das telas durante a infância:

    • Até 2 anos: nenhum contato com telas, incluindo a exposição passiva, como a televisão ligada em segundo plano;
    • De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, sempre com a supervisão de um adulto e priorizando conteúdos educativos;
    • De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia, com acompanhamento dos responsáveis e acesso apenas a conteúdos adequados para a idade;
    • De 11 a 18 anos: entre 2 e 3 horas por dia, evitando o uso durante a madrugada e o isolamento prolongado no quarto.

    Sinais de alerta para ficar atento

    Os pais devem acender o sinal de alerta quando a falta de contato visual vem acompanhado de outras manifestações no dia a dia, como:

    • A criança não responde quando é chamada pelo nome;
    • Apresenta atraso na fala ou na emissão dos primeiros sons e palavras;
    • Não imita gestos simples, como dar tchau, mandar beijo ou bater palmas;
    • Prefere brincar sozinha e demonstra pouco interesse por interações sociais;
    • Usa os brinquedos de forma incomum, focando em detalhes ou organizando-os repetidamente;
    • Apresenta movimentos repetitivos, como balançar o corpo, andar na ponta dos pés ou chacoalhar as mãos;
    • Tem dificuldade para compreender ou seguir comandos simples da rotina;
    • Demonstra forte resistência a mudanças ou orientações do dia a dia.

    Se a criança apresentar dois ou mais sinais, vale procurar a orientação de um especialista para realizar uma avaliação mais detalhada do desenvolvimento.

    Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. Com quantos meses o bebê começa a olhar nos olhos?

    O bebê começa a fixar o olhar no rosto dos pais por volta dos 2 meses de vida. O marco do desenvolvimento demonstra o início da comunicação social.

    2. Como o autismo afeta o olhar da criança?

    A criança com autismo pode achar o contato visual direto desconfortável ou muito cansativo devido ao excesso de estímulos sensoriais. O desvio do olhar funciona como uma forma de regulação.

    3. Qual médico avalia a falta de contato visual?

    O pediatra realiza a primeira avaliação do desenvolvimento. Caso haja necessidade, o profissional encaminha o paciente para o neuropediatra, psiquiatra infantil ou oftalmologista.

    4. O bebê que não olha quando é chamado pode ter surdez?

    Sim, a falta de reação ao chamado pode indicar perda auditiva total ou parcial. Um teste de audição ajuda a descartar a suspeita.

    5. Como posso estimular o contato visual do meu filho?

    Brinque de frente com a criança, use brinquedos perto dos seus próprios olhos e faça expressões faciais divertidas. Evite ambientes com poluição visual ou sonora durante o treino.

    6. O uso de óculos pode corrigir o desvio de olhar infantil?

    Sim, caso a causa do desvio seja um problema de refração como o astigmatismo. Ao enxergar o ambiente com nitidez, a criança passa a ter mais segurança para focar nos rostos.

    7. O contato visual pode melhorar sem tratamento?

    Quando a causa envolve apenas timidez ou uma fase de desenvolvimento, o olhar tende a se normalizar com o amadurecimento. Nos casos de TEA ou problemas visuais, a intervenção profissional é importante para haver melhora.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

  • Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças? 

    Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças? 

    A recomendação oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde é de zero telas para crianças de até 2 anos, mas você sabe por que a orientação é tão rigorosa? Nos primeiros anos de vida, o cérebro do bebê está em pleno desenvolvimento e depende diretamente das interações com o mundo real para formar novas conexões neuronais.

    O cérebro da criança pequena não consegue processar as informações da tela da mesma forma que as interações reais, como o toque, o contato visual, o som da voz dos pais e a exploração do ambiente.

    Como consequência, o uso precoce e prolongado do celular, tablet e televisão está diretamente ligado a atrasos na fala, distúrbios do sono e dificuldades de socialização.

    “Quando a gente vai comparar um bebê fazendo a mesma atividade com uma interação ao vivo e fazendo uma interação por meio de um vídeo, o resultado não é idêntico. O desenvolvimento do bebê que realizou a interação ao vivo foi muito superior”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Como o excesso de telas afeta o cérebro infantil?

    Nos primeiros dois anos de vida, a criança está numa fase de desenvolvimento sensório-motor, de acordo com Bárbara. Ela aprende por meio de sentidos, movimentos e experiências reais, como brincar, conversar, explorar o ambiente, mexer em objetos e interagir com outras pessoas.

    Quando a criança passa muito tempo em frente às telas, parte das experiências é substituída por estímulos digitais, o que pode impactar áreas importantes do neurodesenvolvimento, como:

    1. Desenvolvimento da linguagem

    O aprendizado da fala acontece principalmente por meio da interação com outras pessoas e, durante as conversas, o bebê observa as expressões faciais, escuta diferentes tons de voz, responde aos estímulos e aprende a se comunicar.

    Como a tela é uma comunicação de via única, em que a maior parte do conteúdo é consumida de forma passiva, o excesso pode estar associado a atrasos na linguagem e a dificuldades de comunicação.

    2. Atenção e capacidade de concentração

    Os vídeos e jogos infantis atuais mudam de cena em poucos segundos e entregam cores e sons intensos de forma muito rápida, o que libera uma quantidade artificialmente alta de dopamina, o neurotransmissor do prazer.

    O cérebro da criança se acostuma com o ritmo acelerado, então ela pode recusar atividades naturais mais lentas, como ler um livro, desenhar ou prestar atenção na escola. O resultado é a redução do tempo de concentração e o aumento da impulsividade.

    3. Regulação das emoções

    O córtex pré-frontal, region do cérebro responsável pelo controle dos impulsos, pela tomada de decisões e pela regulação emocional, continua se desenvolvendo ao longo da infância. Ela amadurece gradualmente por meio das experiências do dia a dia, das pequenas frustrações e das brincadeiras.

    Como as telas oferecem distração imediata para momentos de tédio, incômodo ou choro, o uso frequente dos dispositivos para acalmar a criança pode reduzir as oportunidades de ela aprender a lidar com as próprias emoções.

    Principais sinais de que a tela está prejudicando a criança

    Quando o uso de telas ultrapassa os limites recomendados para cada faixa etária, a criança pode começar a apresentar sinais de que o excesso de estímulos está interferindo no desenvolvimento e na rotina diária, como:

    • Atraso para começar a falar ou tem dificuldade para formular frases simples para a idade;
    • Irritação extrema, choro ou agressividade quando o aparelho é retirado;
    • Perda de interesse por brinquedos físicos, desenhos ou interações com a família;
    • Dificuldade visível para manter a concentração em uma conversa ou atividade escolar;
    • O sono se torna agitado, com resistência para dormir ou despertares frequentes durante a noite;
    • Crises frequentes de ansiedade ou tédio quando o dispositivo não está disponível;
    • Apatia ou falta de reação aos estímulos e chamados dos pais enquanto usa a tela.

    Os impactos variam de acordo com a idade, o tempo de exposição e o tipo de conteúdo consumido, mas alguns sinais costumam ser mais frequentes e precisam de atenção dos pais e cuidadores.

    Tempo de tela recomendado por idade

    O tempo de tela ideal varia de acordo com a fase de desenvolvimento, segundo diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde:

    • Até os dois anos: zero, nenhum contato com telas, inclusive de forma passiva, como TV ligada ao fundo;
    • 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, sempre com a supervisão de um adulto e conteúdo educativo;
    • 6 a 10 anos: no máximo 1 a 2 horas por dia, limitando o acesso a jogos e vídeos adequados à idade;
    • 11 a 18 anos: no máximo 2 a 3 horas por dia, evitando o isolamento no quarto e o uso durante a madrugada.

    Para prevenir problemas associados ao sono da criança, é importante desligar celulares, tablets, computadores e televisões entre uma e duas horas antes do horário de sono, já que a luz emitida pelos dispositivos pode interferir na produção de melatonina, hormônio responsável por regular o sono.

    Durante as refeições, também é recomendado não utilizar celulares nem manter a televisão ligada, pois o hábito pode prejudicar a percepção de saciedade, além de reduzir momentos importantes de convivência e interação com a família.

    O que fazer para reduzir o tempo de tela?

    Para reduzir o tempo de tela das crianças, os pais podem adotar algumas medidas no dia a dia, como:

    • Estabelecer horários e locais livres de telas: defina regras claras, como proibir o uso de celulares e tablets durante as refeições, no carro e nos quartos. Os aparelhos devem ser carregados em uma área comum da casa à noite;
    • Criar uma rotina de transição antes de dormir: desligue todos os aparelhos de 1 a 2 horas antes do horário de dormir. Substitua as telas por atividades relaxantes, como ler um livro físico, contar histórias ou ouvir uma música calma;
    • Oferecer alternativas de lazer físico: estimule brincadeiras que envolvam o corpo e a criatividade, como jogos de tabuleiro, desenho, blocos de montar, caminhadas ao ar livre ou passeios em parques;
    • Envolver a criança nas tarefas domésticas: chame a criança para ajudar em atividades seguras e adequadas para a idade dela, como organizar os brinquedos, regar as plantas ou ajudar a preparar o lanche;
    • Dar o exemplo dentro de casa: as crianças tendem a imitar o comportamento dos adultos. Evite usar o celular de forma excessiva na presença dos filhos e mantém a televisão desligada quando ninguém estiver assistindo.
    • Fazer uma redução gradual: se a criança passa muitas horas no celular, reduza o tempo aos poucos. Comece diminuindo 30 minutos por dia até atingir o limite recomendado para a idade dela, explicando para ela o motivo da mudança.

    A adaptação pode levar algum tempo, principalmente quando a criança já está acostumada a passar várias horas por dia diante das telas. Nos primeiros dias, é comum ter resistência, reclamações e até momentos de irritação. O mais importante é manter a consistência nas regras e oferecer alternativas interessantes para ocupar o tempo livre.

    Leia mais: Transtornos de neurodesenvolvimento: o que são, tipos e como é feito o diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. As telas podem causar TDAH?

    Não causam o transtorno diretamente, mas o estímulo hiperveloz das telas vicia os circuitos de recompensa do cérebro, reduzindo a capacidade de foco e piorando sintomas de desatenção e impulsividade.

    2. Por que as crianças ficam irritadas quando a tela é retirada?

    As telas geram picos rápidos de dopamina, hormônio do prazer. Retirar o aparelho causa uma queda brusca do neurotransmissor, gerando crises de birra e frustração.

    3. Como o uso de telas afeta o sono infantil?

    A luz azul emitida pelos aparelhos bloqueia a produção de melatonina, hormônio do sono, dificultando o adormecer e deixando o sono mais superficial e fragmentado.

    4. Como o uso de telas afeta a socialização?

    Ao interagir menos com pessoas, a criança deixa de treinar a leitura de expressões faciais, o tom de voz e a empatia, tornando-se mais retraída ou com dificuldade de se integrar.

    5. Quais os sinais de que a criança está “viciada” em telas?

    Isolamento social, queda no rendimento escolar, agressividade extrema ao desligar o aparelho, perda de interesse por outras brincadeiras e alteração de sono/apetite.

    6. Como substituir o tempo de tela de forma saudável?

    Com brincadeiras livres (blocos, desenhos), passeios ao ar livre, leitura de livros físicos, inclusão da criança em tarefas domésticas leves e, acima de tudo, tempo de atenção de qualidade com os pais.

    Veja também: Por que crianças superdotadas também precisam de apoio especializado?

  • TDAH em adultos: por que o transtorno pode passar anos sem diagnóstico?

    TDAH em adultos: por que o transtorno pode passar anos sem diagnóstico?

    O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, ou TDAH, é um distúrbio de neurodesenvolvimento que acomete entre 2.5% e 3% da população adulta mundial. No Brasil, cerca de 2 milhões de adultos convivem com a condição, que por muito tempo foi considerada um transtorno da infância e da adolescência.

    Como já sabemos que o transtorno tem origem genética e está presente desde o nascimento, os sintomas acompanham a pessoa desde os primeiros anos de vida. Para pessoas que passam anos sem o diagnóstico, os sinais podem passar despercebidos ou ser interpretados como características da personalidade, falta de disciplina, distração excessiva ou até mesmo desinteresse pelas atividades do dia a dia.

    “Existe um grupo de pessoas com TDAH que passa anos sem diagnóstico ou, quando tem seu diagnóstico, ele é invalidado por todo mundo: ‘não, não existia nada de TDAH’. Isso acontece especialmente em meninas”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    O que é o TDAH e por que ele pode passar despercebido?

    O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta funções importantes do cérebro relacionadas à atenção, ao planejamento, ao controle dos impulsos e à organização das tarefas do dia a dia.

    Apesar de normalmente associado a imagem de uma criança inquieta que não consegue se concentrar, o transtorno pode se manifestar de diferentes maneiras, atrasando o diagnóstico durante anos.

    O predomínio do tipo desatento

    O TDAH é dividido em três apresentações principais: predominantemente hiperativa/impulsiva, predominantemente desatenta e combinada. Quando a pessoa apresenta a forma desatenta, os sintomas normalmente não envolvem a agitação física clássica associada ao transtorno.

    As dificuldades costumam estar mais relacionadas à falta de foco, aos esquecimentos frequentes, à desorganização e aos problemas para concluir tarefas e administrar o tempo.

    No ambiente escolar, por exemplo, Bárbara explica que a criança costuma ficar no “mundo da lua”. Como ela não gera indisciplina, não atrapalha os professores e nem incomoda os colegas, a falta de atenção e o sofrimento passam completamente despercebidos.

    De acordo com pesquisas, o diagnóstico tardio acontece especialmente em meninas, porque elas frequentemente apresentam predominância de desatenção em vez de hiperatividade física. A hiperatividade nelas muitas vezes é mental (pensamentos acelerados e ansiedade), o que torna a condição invisível aos olhos de pais e educadores.

    Mecanismos de mascaramento (masking)

    O masking, também conhecido como camuflagem social, é um mecanismo de defesa e enfrentamento desenvolvido por pessoas neurodivergentes, normalmente de maneira inconsciente, para esconder ou compensar as dificuldades causadas pelo transtorno no dia a dia.

    Para evitar erros, esquecimentos ou críticas, por exemplo, é comum criar rotinas extremamente rígidas, usar listas para tudo, programar diversos alarmes no celular ou dedicar muito mais tempo do que o necessário para concluir tarefas.

    Apesar de contribuir para reduzir os impactos dos sintomas na rotina, o esforço constante pode levar ao esgotamento físico e mental, aumentando o risco de Burnout, ansiedade crônica, depressão e baixa autoestima.

    Principais sinais de TDAH em adultos

    Na vida adulta, os sintomas de TDAH se manifestam de forma muito mais interna e comportamental, como:

    • Desorganização frequente e dificuldade para manter a rotina em ordem;
    • Esquecimento de compromissos, prazos e objetos do dia a dia;
    • Tendência a adiar tarefas, principalmente as mais longas ou burocráticas;
    • Dificuldade para começar atividades, mesmo quando elas são importantes;
    • Sensação de mente acelerada e pensamentos constantes;
    • Impulsividade em decisões, compras ou durante conversas;
    • Facilidade para se distrair com estímulos externos ou com os próprios pensamentos;
    • Dificuldade para manter a atenção em tarefas que exigem concentração prolongada;
    • Episódios de hiperfoco, passando horas concentrado em algo de grande interesse;
    • Irritabilidade e baixa tolerância a frustrações do cotidiano;
    • Oscilações emocionais e sensação frequente de não estar rendendo o próprio potential;
    • Cansaço mental causado pelo esforço constante para se organizar e manter o foco.

    Consequências do TDAH não tratado ao longo da vida

    Quando o TDAH não é tratado ao longo da vida, a pessoa acumula uma série de prejuízos emocionais, sociais e profissionais, como:

    1. Ansiedade, depressão e baixa autoestima

    Ao longo dos anos, quando o rendimento escolar ou profissional fica abaixo do esperado, a pessoa é frequentemente chamada de desatenta, incapaz ou preguiçosa. O esforço exaustivo para mascarar os sintomas e tentar se adequar ao padrão neurotípico também pode evoluir para quadros graves de ansiedade generalizada, depressão crônica e burnout.

    2. Impacto na vida profissional e acadêmica

    A falta de tratamento compromete diretamente a capacidade de gerenciar prazos, focar em tarefas longas e manter a organização. Na vida adulta, as pessoas com TDAH têm maior probabilidade de mudar de emprego frequentemente, pedir demissão por impulso ou serem demitidos devido a erros por distração e atrasos crônicos.

    Também é comum encontrar pessoas extremamente inteligentes que não conseguem progredir na carreira ou que abandonaram a faculdade porque o modelo tradicional de ensino ou trabalho demanda uma atenção sustentada que o cérebro delas não consegue manter sem suporte.

    3. Problemas em relacionamentos afetivos e familiares

    Dificuldades com organização, gerenciamento do tempo, atenção e impulsividade são sintomas que podem causar situações que são frequentemente interpretadas pelos outros como falta de interesse, descuido ou irresponsabilidade.

    Seja na família ou em relacionamentos, esquecer compromissos, interromper conversas, ter dificuldade para ouvir com atenção ou não cumprir tarefas combinadas podem causar conflitos e frustrações, afetando a comunicação e a convivência.

    Como é feito o diagnóstico na vida adulta?

    Como não existem exames de sangue, de imagem ou mapeamentos cerebrais que podem diagnosticar o TDAH, é necessário uma avaliação cuidadosa de um profissional de saúde mental especializado, a partir de etapas como:

    • Investigação do histórico desde a infância: como o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, os primeiros sintomas precisam ter surgido ainda na infância, normalmente antes dos 12 anos de idade, mesmo que não tenham sido reconhecidos ou tenham sido mascarados naquele período;
    • Entrevista clínica detalhada: o médico ou psicólogo avalia o histórico do paciente e utiliza questionários específicos para entender a frequência, a intensidade e o impacto dos sintomas na rotina atual;
    • Análise dos prejuízos no dia a dia: para confirmar o diagnóstico, os sintomas precisam causar dificuldades significativas em diferentes áreas da vida, como trabalho, estudos, relacionamentos ou organização da rotina;
    • Avaliação neuropsicológica: embora não seja obrigatória em todos os casos, pode ser recomendada para analisar funções cognitivas como atenção, memória, planejamento, controle dos impulsos e outras habilidades executivas.

    O profissional também investiga outras condições que podem causar sintomas semelhantes, como ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono ou alterações hormonais.

    Opções de tratamento para o TDAH em adultos

    O tratamento ideal para o TDAH na vida adulta combina diferentes medidas para reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida, o que envolve especialmente:

    • Uso de medicamentos, que ajudam a regular os neurotransmissores no cérebro, principalmente a dopamina e a noradrenalina;
    • Terapia, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que ajuda a pessoa a lidar com os comportamentos moldados por anos sem diagnóstico.

    Também é importante adotar pequenos ajustes no dia a dia, como a prática regular de atividade física, bons hábitos de sono e o uso de ferramentas de apoio (agendas, aplicativos de lembretes, alarmes e listas de tarefas).

    Com o tempo, as estratégias ajudam a melhorar o foco, a organização e a gestão da rotina, reduzindo os impactos do transtorno nas atividades diárias, no trabalho e nos relacionamentos.

    Leia mais: TDAH em adultos: 7 dicas para viver com mais foco

    Perguntas frequentes

    1. O que causa o TDAH?

    O TDAH tem causa multifatorial, com forte base genética e neurológica. Segundo estudos, os fatores hereditários respondem por cerca de 80% dos casos, além de alterações na regulação de neurotransmissores como a dopamina.

    2. TDAH tem cura?

    Não, o TDAH é uma condição crônica do neurodesenvolvimento e não tem cura. No entanto, com o tratamento adequado, é perfeitamente possível controlar os sintomas e ter excelente qualidade de vida.

    3. Qual médico procurar para investigar o TDAH?

    O ideal é agendar uma consulta com um psiquiatra ou um neurologista, profissionais responsáveis por realizar a avaliação clínica, fechar o diagnóstico e prescrever medicamentos, se necessário.

    4. O TDAH pode surgir apenas na idade adulta?

    Não. Por ser um transtorno do neurodesenvolvimento, os sintomas obrigatoriamente começam na infância, antes dos 12 anos.

    5. Todo mundo que tem TDAH precisa tomar remédio?

    Não necessariamente. O uso de medicamentos depende da intensidade dos sintomas e do nível de prejuízo na vida da pessoa.

    6. Quem tem TDAH têm inteligência abaixo da média?

    Não, isso é um mito. O TDAH não afeta a capacidade intelectual do indivíduo, apenas altera apenas a habilidade do cérebro de gerenciar a atenção, o foco e a execução de tarefas cotidianas.

    7. O TDAH pode melhorar com a idade?

    Os sintomas de hiperatividade física tendem a diminuir ou se transformar em inquietude mental com o passar dos anos. No entanto, os desafios com desatenção, foco e memória de trabalho costumam persistir ao longo de toda a vida adulta.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

  • Olhos secos, insônia e cansaço? 7 sinais de que o tempo de tela já passou dos limites

    Olhos secos, insônia e cansaço? 7 sinais de que o tempo de tela já passou dos limites

    Celulares, computadores, tablets e televisões já fazem parte da rotina de forma tão natural que, muitas vezes, é difícil lembrar como era a vida antes deles. As telas facilitam o trabalho, os estudos e a comunicação, mas, para que o uso seja saudável e não afete a saúde física e mental, ele não pode acontecer de maneira excessiva.

    Para se ter uma ideia, cada rolagem de feed, curtida ou notificação visualizada aciona o sistema de recompensa, liberando doses rápidas de dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer e à satisfação imediata.

    Só que, no dia a dia, o cérebro se acostuma rapidamente com o fluxo constante de estímulos, precisando de cada vez mais tempo online para sentir o mesmo bem-estar, o que é semelhante com o que acontece em outros tipos de dependência.

    A exposição frequente à luz azul dos aparelhos também bloqueia a produção de melatonina, o hormônio que avisa ao organismo que é hora de dormir, mantendo a mente em um estado constante de alerta e estresse. Consequentemente, você pode ter mais dificuldade para pegar no sono, acordar constantemente ao longo da noite e acordar com a sensação de que não descansou.

    Mas afinal, como saber quando o uso de telas deixou de ser apenas um hábito e passou a representar um problema para a saúde? Para adultos, o ideal para lazer é não ultrapassar 2 a 3 horas diárias, mas o corpo costuma dar alguns sinais de que você está passando mais tempo conectado do que deveria.

    Sinais de que o tempo de tela já passou dos limites

    1. Olhos secos, vermelhos ou visão embaçada

    Quando passamos muito tempo olhando para um ponto luminoso fixo, o cérebro reduz automaticamente a frequência das piscadas. O normal é piscar cerca de 15 a 20 vezes por minuto, mas diante das telas o número pode cair para menos da metade.

    Como resultado, acontece uma evaporação mais rápida da lágrima, provocando ressecamento, sensação de areia nos olhos, vermelhidão e fadiga ocular, condição conhecida como astenopia digital. O esforço prolongado para focar objetos próximos também pode fazer com que a visão fique temporariamente embaçada ao olhar para longe.

    2. Dores frequentes na coluna, pescoço e ombros

    Ao usar o celular ou o notebook, é comum inclinar a cabeça para a frente e para baixo, alterando o alinhamento natural do corpo.

    A cada centímetro de inclinação da cabeça para a frente, a carga exercida sobre a coluna cervical aumenta significativamente. Com o passar do tempo, a sobrecarga pode provocar tensão muscular, contraturas nos ombros e acelerar o desgaste das articulações da coluna.

    3. Dificuldade para pegar no sono ou insônia

    A luz azul emitida por celulares, tablets, computadores e televisores é interpretada pelo cérebro de forma semelhante à luz natural do dia. Por causa disso, a produção de melatonina, hormônio responsável por preparar o organismo para dormir, fica reduzida ou atrasada.

    O resultado é uma sensação prolongada de alerta, que dificulta o adormecer e prejudica o ritmo natural do sono.

    4. Ansiedade ou pressa excessiva para checar notificações

    A sensação de ansiedade é um dos principais sinais comportamentais da relação excessiva com os estímulos digitais.

    Devido a liberação de dopamina, quando o uso de telas é excessivo, o cérebro passa a buscar as recompensas com mais frequência, o que pode gerar ansiedade, vontade constante de verificar o celular e até mesmo a chamada síndrome da vibração fantasma, quando a pessoa acredita que o aparelho vibrou sem que nenhuma notificação tenha sido recebida.

    5. Dores de cabeça persistentes ao longo do dia

    As dores de cabeça causadas pelo excesso de telas costumam estar relacionadas à tensão acumulada no corpo, e se manifestam na testa, atrás dos olhos ou na nuca.

    O brilho intenso e o contraste da tela exigem mais esforço dos olhos, enquanto a má postura sobrecarrega os músculos do pescoço e dos ombros. O excesso de estímulos também mantém o cérebro em estado de alerta por mais tempo.

    6. Irritabilidade e falta de paciência com atividades offline

    A internet oferece estímulos rápidos o tempo todo, como vídeos curtos, notificações, mensagens e novidades constantes. Elas fazem com que o cérebro se acostume a receber informação de forma imediata e, com o passar do tempo, atividades mais lentas podem parecer menos interessantes.

    Por isso, é comum sentir mais impaciência durante conversas longas, dificuldade para se concentrar na leitura de um livro ou irritação ao realizar tarefas do dia a dia que precisam de mais atenção e tempo.

    7. Sensação de cansaço crônico, mesmo após acordar

    Passar muito tempo em frente às telas, principalmente durante a noite, pode prejudicar a qualidade do sono e manter o cérebro em um estado de ativação acima do ideal, mesmo após o momento de deitar.

    O descanso acaba não sendo tão reparador quanto deveria, o que faz com que a pessoa acorde cansada, com menos energia, dificuldade para se concentrar e uma sensação constante de cansaço.

    Sinais de que as crianças passaram do limite com as telas

    Diferentemente dos adultos, as crianças nem sempre conseguem verbalizar que estão cansadas ou sentindo algum mal-estar físico causado pelo excesso de dispositivos eletrônicos.

    “Às vezes, as crianças apresentam comportamentos que mostram para a gente que o uso de telas já passou do limite. Mas muitos pais ainda normalizam esse tipo de situação”, aponta a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Entre alguns dos principais sinais de que a criança já passou tempo demais usando as telas, é possível destacar:

    • Irritabilidade extrema ou crises de choro ao desligar o aparelho: é comum que a criança demonstre uma frustração desproporcional, raiva ou agressividade quando o tempo de tela termina, funcionando quase como uma reação de abstinência;
    • Perda de interesse por brincadeiras físicas e interações sociais: a criança deixa de querer brincar, correr, desenhar ou interagir com familiares e amigos, preferindo ficar isolada com o dispositivo;
    • Agitação motora e dificuldade de concentração: o excesso de estímulos rápidos presentes em vídeos e jogos pode deixar o sistema nervoso hiperestimulado, o que pode se refletir em dificuldades para se concentrar nas atividades escolares e em uma agitação fora do habitual;
    • Alterações no sono e pesadelos frequentes: as telas em excesso podem causar dificuldade para adormecer, despertares durante a noite e sono agitado. Em crianças menores, o excesso de telas antes de dormir também está associado a terrores noturnos e pesadelos;
    • Atraso no desenvolvimento da fala ou da socialização: especialmente em bebês e crianças pequenas, o tempo excessivo diante das telas pode substituir momentos importantes de conversa, interação e troca de olhares com os pais, prejudicando o desenvolvimento da linguagem e das habilidades socioemocionais;
    • Alimentação distraída ou falta de percepção da saciedade: comer enquanto assistir a vídeos ou utiliza dispositivos faz com que a criança preste menos atenção aos sabores, às texturas e aos sinais de saciedade enviados pelo próprio corpo.

    Para crianças menores de 2 anos, a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de zero tempo de tela. O uso deve ser evitado ao máximo, com exceção de videochamadas curtas com familiares que moram longe.

    A partir dessa idade, o tempo de exposição precisa ser controlado. Entre 2 e 5 anos, o ideal é limitar o uso a, no máximo, 1 hora por dia, sempre com a supervisão de um adulto. Já entre 6 e 10 anos, a recomendação é que o tempo de tela não ultrapasse 2 horas diárias.

    Leia mais: Muito estressado? Veja o que o estresse prolongado faz com o corpo?

    Perguntas frequentes

    1. Qual é o tempo de tela considerado ideal para um adulto?

    A maioria dos especialistas sugere que o tempo de tela voltado para o lazer (redes sociais, séries, jogos) não ultrapasse 2 horas por dia. Se você trabalha na frente do computador, é importante fazer pausas frequentes.

    2. Usar o celular no escuro faz mal à saúde?

    Sim, pois no escuro, a pupila se dilata para captar mais luz, o que aumenta a exposição direta dos olhos à luminosidade da tela. Isso acelera o cansaço visual, causa dores de cabeça e confunde ainda mais o relógio biológico, prejudicando o sono.

    3. Os óculos com filtro de luz azul realmente funcionam?

    Eles ajudam a reduzir o desconforto visual e a fadiga causados pelo brilho das telas, além de diminuir o impacto da luz azul na produção de melatonina à noite. No entanto, eles não anulam os efeitos da má postura ou do tempo excessivo de uso.

    4. O uso excessivo de telas pode causar depressão e ansiedade?

    O uso prolongado, especialmente de redes sociais, está associado ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão devido ao isolamento social real, à comparação constante com a vida alheia e à dependência química da dopamina gerada pelas notificações.

    5. Como saber se sou viciado em celular?

    Os principais sinais de dependência incluem a incapacidade de reduzir o uso mesmo sabendo dos prejuízos, crises de ansiedade quando o aparelho está sem bateria ou sinal, e o hábito de negligenciar obrigações ou relações sociais para ficar online.

    6. Por que o uso de telas antes de dormir causa insônia?

    Porque as telas emitem luz azul, um comprimento de onda que o cérebro interpreta como a luz do sol, o que bloqueia a liberação de melatonina, o hormônio que avisa ao organismo que é hora de desacelerar e dormir.

    7. Deixar o celular no modo noturno (luz amarelada) resolve o problema?

    O modo noturno reduz a emissão de luz azul, o que é melhor para os olhos e para o sono, mas o conteúdo consumido (mensagens, vídeos estimulantes) continua mantendo o cérebro em estado de alerta.

    8. O que é um detox digital e como fazer?

    É um período voluntário de afastamento ou redução drástica do uso de dispositivos. Pode ser feito reservando finais de semana sem redes sociais, estabelecendo um horário limite para desligar o celular à noite ou passando um dia inteiro offline.

    Veja também: Ansiedade também dói: 12 sinais que aparecem no corpo

  • Por que crianças superdotadas também precisam de apoio especializado?

    Por que crianças superdotadas também precisam de apoio especializado?

    Com uma facilidade fora do comum para aprender, decorar ou criar, a expectativa para uma criança superdotada costuma ser de um excelente desempenho em todas as áreas da vida. Só que, na realidade, ter altas habilidades não a torna livre de dificuldades, inseguranças ou desafios emocionais e sociais.

    No dia a dia, a facilidade para compreender conteúdos complexos pode coexistir com a dificuldade de lidar com frustrações, de se relacionar com colegas da mesma idade ou de encontrar estímulos compatíveis com seu potencial. Em alguns casos, a sensação de ser diferente pode gerar isolamento, ansiedade e até desinteresse pela escola.

    A superdotação também não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas, de modo que reconhecer e compreender as características das altas habilidades é necessário para oferecer o suporte necessário ao desenvolvimento saudável da criança.

    O que é superdotação na infância?

    A superdotação na infância, também chamada de altas habilidades ou superdotação, é um conjunto de características que faz com que a criança apresente uma potencial acima da média em uma ou mais áreas, como a criatividade, a liderança, as artes, a capacidade acadêmica ou as habilidades psicomotoras.

    De maneira geral, ser superdotado não significa apenas ter notas altas ou apresentar um QI elevado, mas demonstrar uma forma diferenciada de aprender, entender informações e interagir com o mundo.

    Diversas crianças com altas habilidades têm uma grande facilidade para adquirir novos conhecimentos, resolver problemas complexos e fazer conexões entre ideias que nem sempre são percebidas por outras pessoas da mesma idade.

    Vale destacar que a superdotação não é um transtorno ou doença, mas uma característica do neurodesenvolvimento. O cérebro funciona e processa as informações de uma forma diferente, mais rápida e intensa, o que torna necessário ter um ambiente estimulante, acolhedor e focado nas necessidades específicas de aprendizado da criança.

    Sinais de superdotação em crianças

    As manifestações da superdotação podem variar bastante, mas podem incluir:

    • Aprender com rapidez e precisar de poucas repetições para compreender novos conteúdos;
    • Demonstrar curiosidade intensa e fazer perguntas frequentes sobre diversos assuntos;
    • Apresentar vocabulário avançado para a idade;
    • Ter excelente memória para fatos, informações e experiências;
    • Mostrar interesse por temas considerados complexos para a faixa etária;
    • Resolver problemas com facilidade e encontrar soluções criativas;
    • Gostar de desafios intelectuais e atividades que precisam de raciocínio;
    • Aprender a ler, escrever ou contar mais cedo do que o esperado;
    • Demonstrar grande capacidade de observação e atenção aos detalhes;
    • Apresentar criatividade acima da média em brincadeiras, histórias e desenhos.

    Muitas crianças superdotadas também possuem um senso de justiça muito desenvolvido, demonstram empatia, são bastante sensíveis a críticas e podem ficar frustradas quando não conseguem atingir as próprias expectativas.

    Crianças superdotadas também podem ter dificuldades?

    Apesar das habilidades acima da média, uma criança com superdotação também pode enfrentar desafios emocionais, sociais e escolares que podem passar despercebidos por familiares e educadores.

    “Algumas podem ter problemas de socialização, sentir-se deslocadas e não se identificar com os colegas da mesma idade. Nessas situações, vemos crianças superdotadas escondendo o próprio conhecimento, fingindo que não sabem ou fingindo que sabem o mesmo que os amigos para poderem se sentir parte do grupo”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    O cérebro de uma criança superdotada processa tudo de forma acelerada, mas o desenvolvimento emocional não acompanha a velocidade da inteligência. Isso causa um descompasso, chamado na psicologia de dissincronia, que se reflete em dificuldades bem específicas.

    Principais dificuldades enfrentadas por crianças superdotadas

    1. No ambiente escolar

    Como as crianças superdotadas costumam aprender muito rápido, podem acabar ficando entediadas no ambiente escolar quando o conteúdo é repetido várias vezes ou quando as atividades não oferecem desafios suficientes.

    Com o passar do tempo, o desinteresse pode fazer com que a criança pare de prestar atenção às aulas, deixe de realizar tarefas e perca a motivação para aprender. Em alguns casos, isso pode até levar a um desempenho escolar abaixo do esperado, mesmo quando ela tem um grande potencial.

    Muitas crianças superdotadas também aprendem com tanta facilidade durante os primeiros anos de estudo que não desenvolvem hábitos de organização e técnicas de estudo. Quando encontram conteúdos mais difíceis no futuro, elas podem sentir frustração e dificuldade para lidar com outros desafios.

    2. No aspecto emocional

    Uma característica comum da superdotação é o chamado desenvolvimento desigual, em que a capacidade intelectual pode estar muito avançada, mas a maturidade emocional continua compatível com a idade da criança. Por isso, é comum ela apresentar:

    • Ansiedade e preocupações excessivas, especialmente diante de assuntos complexos que consegue compreender, mas ainda não possui maturidade emocional para processar completamente;
    • Sensibilidade emocional intensa, reagindo de forma mais profunda a situações de tristeza, injustiça, críticas ou conflitos;
    • Grande empatia, o que pode fazer com que se preocupe excessivamente com o sofrimento de outras pessoas e até absorva emoções do ambiente ao seu redor;
    • Perfeccionismo, com uma forte necessidade de acertar e alcançar resultados considerados ideais, o que pode gerar medo de errar e frustração diante de pequenas falhas;
    • Autocobrança elevada, especialmente quando está acostumada a receber elogios pelo desempenho e inteligência;
    • Frustração com facilidade, principalmente quando encontra desafios que precisam de mais tempo, esforço ou persistência para serem resolvidos;
    • Sensação de inadequação, por perceber que pensa, sente ou se interessa por assuntos diferentes dos colegas da mesma idade;
    • Oscilações emocionais mais intensas, com reações que podem parecer exageradas para quem não compreende as características da superdotação.

    Assim como as habilidades intelectuais, as emoções também precisam de atenção e acolhimento para que a criança consiga se desenvolver de forma equilibrada e lidar melhor com os desafios do cotidiano.

    3. Nas relações sociais

    A socialização também pode ser um problema para algumas crianças superdotadas, pois normalmente os seus interesses são diferentes dos interesses mais comuns entre os colegas da mesma idade.

    Enquanto outras crianças podem querer conversar sobre brincadeiras, jogos ou desenhos, a criança superdotada pode estar interessada em assuntos mais específicos e complexos, o que pode dificultar a criação de vínculos e gerar a sensação de não se encaixar completamente nos grupos.

    Dupla excepcionalidade

    A dupla excepcionalidade acontece quando a criança apresenta superdotação e, ao mesmo tempo, algum transtorno, deficiência ou condição do neurodesenvolvimento, de acordo com Bárbara.

    Basicamente, ela possui habilidades acima da média em uma ou mais áreas, mas também enfrenta dificuldades que podem afetar a aprendizagem, o comportamento ou a socialização.

    As combinações mais comuns incluem:

    • Superdotação + Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH);
    • Superdotação + Transtorno do Espectro Autista (TEA);
    • Superdotação + Dislexia (ou outros transtornos de aprendizagem).

    A identificação da dupla excepcionalidade costuma ser difícil porque uma característica pode mascarar a outra. Em alguns casos, as altas habilidades compensam as dificuldades, fazendo com que o transtorno passe despercebido. Em outros, as dificuldades recebem toda a atenção, enquanto o potencial da criança não é reconhecido.

    “Por isso, olhar apenas para o alto desempenho não é suficiente. Essa criança precisa de um acompanhamento em todas as áreas do desenvolvimento”, complementa Bárbara.

    Como identificar os sinais de que a criança precisa de apoio?

    Os pais e professores devem acender o alerta quando a criança passa a demonstrar uma mudança brusca de comportamento ou reações desproporcionais à rotina. Os sinais mais evidentes incluem:

    • Isolamento social e recusa em brincar com crianças da mesma idade;
    • Apatia, tédio constante ou desinteresse crônico pelas aulas;
    • Queda inexplicável no desempenho escolar e notas vermelhas;
    • Recusa em ir à escola ou em fazer as tarefas de casa;
    • Crises de choro, raiva ou paralisia diante de pequenos erros (perfeccionismo extremo);
    • Ansiedade severa e preocupação obsessiva com temas complexos;
    • Sintomas físicos sem causa médica, como dores de cabeça ou de estômago frequentes antes das aulas;
    • Crises de irritabilidade causadas por excesso de estímulos, como barulhos, luzes ou texturas de roupas;
    • Camuflagem do próprio conhecimento para tentar se encaixar no grupo de amigos.

    Quando a inteligência da criança passa a gerar mais angústia do que prazer, é o momento de buscar a orientação de psicólogos ou psicopedagogos.

    Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. O que causa a superdotação?

    A superdotação é resultado de uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Para que ela se manifeste, o cérebro com predisposição precisa encontrar um ambiente estimulante e acolhedor.

    2. Superdotação é o mesmo que QI alto?

    O QI alto mede a capacidade lógico-matemática e linguística, sendo um dos critérios usados. Porém, a superdotação vai além disso e engloba criatividade, liderança, talentos artísticos e psicomotricidade.

    3. Como é feito o diagnóstico de superdotação?

    O diagnóstico é clínico e multiprofissional, realizado por psicólogos, neuropsicólogos e psicopedagogos através de testes de QI, avaliação comportamental, análise do histórico escolar e entrevistas com a família.

    4. Superdotação é considerada uma deficiência?

    Não, ela é classificada como uma característica do neurodesenvolvimento. Juridicamente, ela faz parte do público-alvo da Educação Especial, garantindo o direito a atendimento pedagógico especializado.

    5. O que fazer quando o aluno superdotado fica entediado na aula?

    A escola deve oferecer enriquecimento curricular, como atividades mais complexas sobre o mesmo tema, ou avaliar a aceleração de série, conforme previsto em lei e orientado por profissionais.

    6. Existe medicação para a superdotação?

    Não, pois a superdotação não é uma doença. Os remédios só são indicados se a criança apresentar comorbidades que precisam de tratamento medicamentoso, como depressão, ansiedade severa ou TDAH associado.

    7. Qual é a diferença entre uma criança precoce e uma superdotada?

    A criança precoce aprende algo antes do tempo esperado (como ler aos 3 anos), mas pode se estabilizar e igualar-se aos colegas na adolescência. Já o superdotado mantém o ritmo de desenvolvimento acelerado e o potencial superior ao longo de toda a vida.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

  • Transtornos de neurodesenvolvimento: o que são, tipos e como é feito o diagnóstico 

    Transtornos de neurodesenvolvimento: o que são, tipos e como é feito o diagnóstico 

    Os primeiros anos de vida são um período de intenso desenvolvimento cerebral, em que a criança aprende a falar, caminhar, se comunicar, interagir com outras pessoas, desenvolver habilidades motoras e adquirir conhecimentos importantes para a vida. Porém, quando há alguma interrupção ou alteração nesse processo natural, podem surgir os chamados transtornos do neurodesenvolvimento.

    As condições, como o TDAH e transtorno do espectro ausista (TEA), costumam se manifestar ainda na primeira infância e podem impactar aspectos importantes do dia a dia da criança, como a fala, a aprendizagem, a atenção e o comportamento, de acordo com a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Mas, apesar dos desafios que podem trazer, os transtornos do neurodesenvolvimento não estão relacionados à falta de inteligência. Na verdade, conviver com a condição significa apenas que o cérebro processa o mundo de uma forma diferente, e não que a criança seja incapaz de aprender e se desenvolver.

    O que são transtornos do neurodesenvolvimento?

    Os transtornos do neurodesenvolvimento são um grupo de condições que afetam o funcionamento do sistema nervoso e o desenvolvimento do cérebro. Eles costumam se manifestar muito cedo, normalmente antes de a criança entrar na escola, e podem afetar uma ou várias áreas do desenvolvimento infantil, como:

    • Linguagem e comunicação;
    • Aprendizagem;
    • Atenção e concentração;
    • Habilidades motoras;
    • Interação social;
    • Controle emocional;
    • Comportamento.

    A intensidade dos sintomas varia bastante: enquanto algumas crianças apresentem dificuldades leves e conseguem realizar as atividades com poucas adaptações, outras podem precisar de acompanhamento especializado e suporte contínuo.

    O que NÃO são transtornos do neurodesenvolvimento?

    Como existem diversas dúvidas ao redor dos transtornos de neurodesenvolvimento, vale destacar dois pontos principais:

    • Eles não indicam falta de inteligência: muitas pessoas que convivem com os transtornos têm inteligência na média ou até acima da média. A dificuldade está em como o cérebro processa e expressa o conhecimento;
    • Não é culpa dos pais: os transtornos não são causados por falta de limites, excesso de telas ou traumas familiares. São condições biológicas que envolvem diferenças no desenvolvimento e no funcionamento do cérebro, influenciadas principalmente por fatores genéticos e neurológicos.

    O mais importante é buscar orientação especializada, acolher as necessidades da criança e oferecer o suporte adequado para favorecer o seu desenvolvimento.

    Tipos de transtorno de neurodesenvolvimento

    1. Transtorno do espectro autista (TEA)

    O TEA é caracterizado por diferenças na comunicação social e pela presença de comportamentos, interesses ou atividades repetitivas e restritas. Os principais sinais podem incluir:

    • Dificuldade para interagir socialmente;
    • Pouco contato visual;
    • Atraso na fala ou diferenças na comunicação;
    • Interesse intenso por temas específicos;
    • Necessidade de rotina;
    • Sensibilidade aumentada a sons, luzes, texturas ou cheiros.

    Os sintomas variam bastante de uma pessoa para outra, motivo pelo qual o autismo é considerado um espectro. Algumas precisam de bastante suporte para as atividades diárias, enquanto outras são mais independentes.

    2. Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH)

    O TDAH é um transtorno que afeta principalmente a atenção, o controle dos impulsos e a capacidade de organização. Ele pode se manifestar mais pela falta de atenção, mais pela agitação, ou por uma combinação das duas coisas. Alguns dos principais sinais incluem:

    • Dificuldade para manter o foco;
    • Esquecimentos frequentes;
    • Agitação excessiva;
    • Impulsividade;
    • Dificuldade para seguir instruções;
    • Problemas de organização.

    Os sinais costumam aparecer na infância, mas podem persistir durante a adolescência e a vida adulta.

    3. Transtornos específicos da aprendizagem

    Os transtornos específicos de aprendizagem são condições que afetam a capacidade de processar informações específicas, tornando o aprendizado escolar muito desafiador, mesmo que a criança seja inteligente. Os mais conhecidos são:

    • Dislexia: transtorno da aprendizagem que afeta principalmente a leitura. A criança pode ter dificuldade para reconhecer palavras de forma rápida e fluente, compreender textos, identificar sons das letras e realizar atividades de leitura e escrita compatíveis com a idade;
    • Discalculia: transtorno que interfere na compreensão dos números e dos conceitos matemáticos. Pode causar dificuldades para realizar cálculos simples, entender quantidades, memorizar operações básicas, interpretar problemas matemáticos e lidar com noções de tempo e medidas;
    • Disgrafia: alteração que afeta a habilidade de escrita, de modo que a criança pode apresentar letra pouco legível, dificuldade para organizar palavras e frases no papel, lentidão para escrever e problemas para coordenar os movimentos necessários durante a escrita.

    Como os transtornos muitas vezes podem ser confundidos com falta de interesse, o diagnóstico pode acontecer anos mais tarde.

    4. Transtornos da comunicação

    Os transtornos de comunicação afetam a fala e a linguagem, de maneira que a criança pode entender perfeitamente o que dizem a ela, mas ter dificuldades sérias para se expressar verbalmente, estruturar frases ou pronunciar os sons corretamente. Quanto mais cedo as alterações forem identificadas, maiores são as chances de intervenção eficaz.

    5. Transtornos do desenvolvimento da coordenação motora

    Nos transtornos do desenvolvimento motor, a criança apresenta dificuldades para realizar movimentos e executar tarefas motoras esperadas para a sua idade. O principal exemplo é o transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC), também conhecido como dispraxia, condição que pode afetar atividades do dia a dia, como escrever, correr, se vestir ou praticar esportes.

    O grupo também inclui os transtornos de tiques, caracterizados por movimentos ou vocalizações involuntárias e repetitivas, como ocorre na Síndrome de Tourette.

    6. Transtorno do desenvolvimento intelectual

    O transtorno do desenvolvimento intelectual envolve limitações nas funções intelectuais, como raciocínio, aprendizagem, resolução de problemas e planejamento, além de dificuldades no comportamento adaptativo, que inclui habilidades necessárias para o dia a dia, como comunicação, autocuidado, interação social e realização de atividades práticas.

    A condição pode variar de leve a profunda, dependendo do grau de comprometimento e da necessidade de suporte da pessoa.

    Quais os sinais de alerta mais comuns?

    Cada transtorno possui características próprias, mas os pais podem ficar atentos a alguns sinais que podem indicar que a criança precisa de uma avaliação especializada, como:

    • Atraso para falar;
    • Pouco interesse em interações sociais;
    • Dificuldade para manter contato visual;
    • Problemas persistentes de atenção;
    • Agitação excessiva;
    • Dificuldade de aprendizagem;
    • Comportamentos repetitivos;
    • Sensibilidade exagerada a estímulos;
    • Atrasos tempos;
    • Dificuldade para seguir instruções compatíveis com a idade.

    A presença de um ou mais sinais não significa necessariamente que exista um transtorno, mas merece investigação quando persiste ao longo do tempo.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico dos transtornos do neurodesenvolvimento é clínico e deve ser realizado por profissionais especializados, como neuropediatras, pediatras do desenvolvimento, psiquiatras infantis, psicólogos e fonoaudiólogos, dependendo do caso. A avaliação costuma envolver diferentes etapas:

    • Entrevista com a família: os profissionais investigam o histórico da criança desde a gestação, incluindo o desenvolvimento motor, da linguagem, social e escolar. As informações fornecidas pelos pais ou cuidadores são necessárias para entender quando os sintomas surgiram e como eles afetam a rotina;
    • Observação do comportamento: durante as consultas, o especialista observa como a criança interage, se comunica, brinca e responde aos estímulos do ambiente. A etapa ajuda a identificar características específicas de cada transtorno;
    • Avaliações específicas: dependendo da suspeita clínica, podem ser aplicados testes e escalas padronizadas para analisar aspectos como atenção, linguagem, cognição, habilidades sociais e aprendizagem. Em muitos casos, a avaliação é feita por uma equipe multidisciplinar;
    • Investigação de outras condições: o médico também pode solicitar exames quando necessário para descartar problemas que possam causar sintomas semelhantes, como alterações auditivas, visuais, neurológicas ou metabólicas.

    É importante destacar que não existe um exame de sangue, de imagem ou um teste único capaz de diagnosticar a maioria dos transtornos do neurodesenvolvimento.

    Como é feito o tratamento dos transtornos de neurodesenvolvimento?

    O tratamento dos transtornos do neurodesenvolvimento varia de acordo com o diagnóstico, a idade da criança e as dificuldades apresentadas.

    Não existe uma abordagem única para todos os casos, uma vez que o acompanhamento costuma ser individualizado e adaptado às necessidades de cada criança. Contudo, alguns pilares podem envolver:

    • Terapias de estimulação: incluem o acompanhamento com psicólogo, para trabalhar questões emocionais e comportamentais; fonoaudiólogo, para auxiliar no desenvolvimento da fala e da linguagem. E terapeuta ocupacional, para estimular habilidades motoras, sensoriais e a autonomia nas atividades do dia a dia;
    • Medicamentos: podem ser indicados em alguns casos para controlar sintomas específicos que prejudicam a rotina e o desenvolvimento da criança, como desatenção intensa, impulsividade, hiperatividade, ansiedade ou alterações do sono;
    • Apoio escolar: envolve adaptações pedagógicas de acordo com as necessidades da criança, como tempo adicional para realizar atividades e provas, estratégias de ensino individualizadas e, quando necessário, o acompanhamento de um profissional de apoio;
    • Orientação informal: ajuda os pais e cuidadores a compreender melhor o transtorno e a desenvolver estratégias para organizar a rotina, estimular o desenvolvimento da criança e lidar com os desafios do dia a dia de forma acolhedora e eficaz.

    Também vale apontar que o tratamento não foca em uma cura, uma vez que as fazem parte da forma como o cérebro da pessoa é estruturado, mas em estimular o cérebro desenvolver habilidades e oferecer ferramentas para que a criança tenha o máximo de autonomia, qualidade de vida e bem-estar.

    O acompanhamento envolve uma equipe multidisciplinar, que pode incluir neuropediatra, pediatra, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo e fisioterapeuta, dependendo das necessidades da criança.

    Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

    Perguntas frequentes

    1. Com qual idade os primeiros sinais começam a aparecer?

    Os sinais costumam surgir logo na primeira infância, frequentemente antes dos 3 anos de idade. Pais e cuidadores podem notar atrasos na fala, falta de contato visual, agitação extrema ou dificuldade para interagir com outras crianças.

    2. O que causa os transtornos do neurodesenvolvimento?

    Os transtornos do neurodesenvolvimento são causados por uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais que interferem no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação ou nos primeiros anos de vid

    3. Toda criança com TDAH precisa tomar remédio?

    Não necessariamente. O uso de medicamentos depende da gravidade dos sintomas e do quanto eles atrapalham o aprendizado e as relações sociais da criança.

    4. É possível ter mais de um transtorno do neurodesenvolvimento ao mesmo tempo?

    Sim, isso é muito comum e é chamado de comorbidade. Uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, também pode apresentar TDAH ou um transtorno de aprendizagem, como a dislexia.

    5. Como a escola pode ajudar uma criança com os transtornos?

    A escola deve oferecer acessibilidade pedagógica, o que inclui adaptar o formato das provas, dar tempo extra para atividades, fragmentar comandos longos, sentar a criança perto do professor e, quando necessário, disponibilizar um mediador escolar.

    6. Adultos também podem ser diagnosticados com esses transtornos?

    Sim, muitas pessoas passam a infância sem diagnóstico e só descobrem o TDAH ou o autismo na vida adulta, normalmente ao buscarem ajuda para problemas de ansiedade, organização, foco ou dificuldades no trabalho e nos relacionamentos.

    7. O que os pais devem fazer ao suspeitarem de algum sinal?

    O primeiro passo é conversar com o pediatra que acompanha a criança e relatar as observações. Se o médico achar necessário, ele encaminhará a família para um especialista (como neuropediatra ou psicólogo infantil) para uma avaliação detalhada.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

  • Diagnóstico tardio: por que tantas pessoas só descobrem a neurodivergência na vida adulta?

    Diagnóstico tardio: por que tantas pessoas só descobrem a neurodivergência na vida adulta?

    Você sabe o que significa o termo neurodivergente? O termo é usado para descrever pessoas que apresentam um funcionamento cerebral, de desenvolvimento ou neurológico diferente do considerado o padrão mais comum na sociedade, chamado de neurotípico.

    É o caso de pessoas que convivem com transtorno do espectro autista (TEA), o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), a dislexia e as altas habilidades, por exemplo. As condições acompanham a pessoa desde o nascimento, mas nem sempre elas são diagnosticadas na infância.

    Um número cada vez maior de pessoas vem descobrindo que é neurodivergente apenas na vida adulta. Para se ter uma ideia, um estudo publicado na revista científica JAMA Network revealed que, entre 2011 e 2022, o diagnóstico do TEA em adultos de 26 a 34 anos aumentou 450% nos Estados Unidos.

    Mas por que tantas pessoas passam a infância e a juventude inteiras sem receber a resposta? “Umas das frases que mais ouço dentro do consultório, dos pais e que pode estar atrasando o diagnóstico do seu filho: ‘Ele é pequeno ainda. A pediatra disse que é fase. O primo dele também foi assim’. Eu ouço isso toda semana e, algumas vezes, as frases custam meses preciosos de intervenção”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Por que o diagnóstico de neurodivergências costuma atrasar?

    O atraso no diagnóstico de neurodivergências pode acontecer por diversos fatores, que vão desde a falta de informação até a capacidade de camuflar os sintomas para se adequar ao ambiente.

    1. Os sinais podem ser sutis ou diferentes do esperado

    Nem todas as pessoas que convivem com transtornos de neurodesenvolvimento apresentam características consideradas clássicas. Alguns manifestam os sintomas de forma mais discreta, o que dificulta a identificação da neurodivergência por familiares, professores e até profissionais de saúde.

    Em alguns casos, os sintomas da neurodivergência frequentemente são mascarados ou confundidos com transtornos de humor. É muito comum que adultos passem anos tratando apenas a ansiedade, a depressão ou o burnout, sem que a causa raiz (a neurodivergência) seja investigada.

    2. O fenômeno do masking

    O masking, também conhecido como camuflagem social, é uma estratégia consciente ou inconsciente usada especialmente por mulheres para esconder características de condição e se adaptar às expectativas das outras pessoas. O comportamento é mais observado no autismo, mas também pode ocorrer em indivíduos com TDAH e outras neurodivergências.

    Na prática, o masking pode envolver imitar expressões faciais, ensaiar conversas mentalmente, forçar contato visual, controlar movimentos repetitivos, copiar comportamentos de outras pessoas ou esconder dificuldades para parecer mais alinhado ao que é considerado socialmente esperado.

    Com o passar dos anos, o mascaramento pode se tornar tão automático que a própria pessoa tem dificuldade para reconhecer quais comportamentos são naturais e quais foram aprendidos para se encaixar socialmente.

    3. Falta de informação e conscientização

    Há algumas décadas, condições como o TDAH e o autismo eram entendidas como transtornos que afetavam apenas crianças. Os critérios diagnósticos também eram mais restritos e o conhecimento sobre o tema era muito menor do que é atualmente.

    Por isso, muitas pessoas que cresceram nas décadas de 1980, 1990 e no início dos anos 2000 simplesmente não foram avaliadas ou sequer cogitadas para uma investigação. Em muitos casos, as dificuldades eram atribuídas à personalidade, timidez, falta de atenção ou até mesmo falta de interesse.

    4. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica detalhada

    Diferentemente de muitas outras condições de saúde, a maioria das neurodivergências não pode ser confirmada por exames laboratoriais, testes genéticos ou exames de imagem.

    A identificação é feita por meio de uma avaliação clínica detalhada, que considera a história de vida da pessoa, o desenvolvimento desde a infância, os comportamentos, dificuldades, habilidades e sintomas ao longo do tempo.

    Para chegar a um diagnóstico, o profissional analisa a história de vida da pessoa, o seu desenvolvimento desde a infância, seus comportamentos, dificuldades e a forma como ela lida com diferentes situações do dia a dia. Em alguns casos, familiares também podem ser ouvidos para ajudar a entender melhor como aqueles sinais apareceram ao longo dos anos.

    Como cada pessoa é única e os sintomas podem variar bastante, a avaliação precisa ser cuidadosa e individualizada.

    Principais sinais de neurodivergência que passam despercebidos

    Os principais sinais de neurodivergência que podem passar despercebidos na infância e adolescência incluem:

    • Cansaço extremo após interações sociais, com necessidade de ficar sozinho para recuperar as energias;
    • Sensação frequente de não se encaixar, como se as outras pessoas entendessem regras sociais que você desconhece;
    • Dificuldade com conversas superficiais e preferência por assuntos mais profundos ou de interesse específico;
    • Travar diante de tarefas simples por não saber por onde começar;
    • Conseguir passar horas focado em algo que desperta interesse, mas ter dificuldade para se concentrar em atividades consideradas monótonas;
    • Adiar tarefas importantes repetidamente, mesmo sabendo que isso pode trazer problemas ou gerar culpa;
    • Incômodo intenso com sons, luzes, cheiros, texturas ou outros estímulos que passam despercebidos para a maioria das pessoas;
    • Aversão persistente a determinadas texturas, cheiros ou combinações de alimentos, mesmo na vida adulta;
    • Tendência a interpretar falas de forma literal, com dificuldade para perceber ironias, sarcasmo ou sentidos implícitos;
    • Falar longamente sobre temas de interesse sem perceber que a outra pessoa pode estar perdendo o interesse na conversa.

    “Existe uma diferença entre a variação normal do desenvolvimento e um atraso que precisa de atenção. É importante que você aprenda a identificar os marcos do desenvolvimento e entender quando não alcançá-los é um sinal de que está na hora de buscar uma avaliação”, destaca Bárbara.

    Como é feito o diagnóstico em adultos?

    O diagnóstico de neurodivergências na vida adulta começa com uma avaliação clínica detalhada realizada por um profissional, como neurologista, psiquiatra ou neuropsicólogo.

    Durante a consulta, o profissional costuma fazer perguntas sobre a infância, o desempenho escolar, os relacionamentos, a rotina de trabalho, as dificuldades do dia a dia e os sintomas que motivaram a busca por ajuda. Como muitas neurodivergências surgem ainda nos primeiros anos de vida, entender o histórico de desenvolvimento é uma etapa importante da avaliação.

    Em alguns casos, quando possível, informações de pais, irmãos, parceiros ou amigos próximos podem complementar a avaliação. Eles ajudam a identificar características que podem ter passado despercebidas ou sido interpretadas de outra forma ao longo dos anos.

    Aplicação de testes e questionários

    Dependendo do caso, podem ser utilizados questionários padronizados e instrumentos específicos para avaliar atenção, memória, funções executivas, habilidades sociais, linguagem e outros aspectos cognitivos e comportamentais.

    No caso do TDAH, por exemplo, é comum a utilização da escala ASRS-v1.1 (Adult ADHD Self-Report Scale), um questionário desenvolvido para rastrear sintomas em adultos. Já na avaliação do autismo, podem ser utilizados instrumentos mais aprofundados, como o ADOS-2 e o ADI-R, além de questionários de rastreio, como o RAADS-R e o AQ (Autism Spectrum Quotient).

    Vale destacar que os testes não confirmam o diagnóstico de forma isolada, mas servem como ferramentas de apoio dentro de uma avaliação clínica mais ampla e detalhada.

    Descobri a neurodivergência tarde, e agora?

    Depois de uma investigação longa, receber o diagnóstico de um transtorno do neurodesenvolvimento pode despertar uma série de sentimentos, desde o alívio por finalmente encontrar respostas para dificuldades que acompanham a pessoa desde a infância, até a tristeza e a frustração ao imaginar como a vida poderia ter sido diferente si a descoberta tivesse acontecido antes.

    É comum pensar nas experiências do passado e perceber que muitos desafios enfrentados na escola, no trabalho ou nos relacionamentos estavam relacionados a características da neurodivergência e não a falhas pessoais. Inclusive, o processo de olhar para trás pode ser importante para diminuir o peso da culpa e da autocobrança.

    Nesse momento de adaptação, vale considerar algumas coisas:

    • Entenda que nunca é tarde para se conhecer melhor e buscar estratégias que melhorem a sua qualidade de vida;
    • Procure informações em fontes confiáveis para compreender melhor a sua condição, seus desafios e suas potencialidades;
    • Considere o acompanhamento de profissionais especializados, como psicólogos, psiquiatras, neurologistas ou terapeutas ocupacionais;
    • Reavalie cobranças e expectativas que talvez não respeitem as suas características e necessidades individuais;
    • Reconheça e valorize os seus pontos fortes, como criatividade, capacidade de concentração em temas de interesse, atenção aos detalhes e facilidade para identificar padrões;
    • Tenha paciência consigo mesmo durante o processo de adaptação e autoconhecimento;
    • Lembre-se de que o diagnóstico não define quem você é, mas pode ajudar a entender melhor a sua trajetória e como o seu cérebro funciona.

    Com o tempo, fica mais fácil desenvolver um olhar mais gentil sobre si mesmo, com menos culpa, menos cobranças e mais compreensão sobre quem você é.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?

    Perguntas frequentes

    1. É possível desenvolver TDAH ou autismo depois de adulto?

    Não, as neurodivergências nascem com a pessoa. O que acontece na vida adulta é a descoberta da condição, normalmente porque as cobranças da maturidade superam a capacidade da pessoa de camuflar os sintomas.

    2. Como saber se sou neurodivergente ou se é apenas ansiedade?

    A ansiedade costuma surgir em fases específicas da vida. A neurodivergência é crônica, esteve presente desde a infância e molda a forma como você percebe o mundo o tempo todo. Um profissional precisa fazer essa distinção.

    3. O diagnóstico tardio dá direito a algum benefício por lei?

    Pessoas diagnosticadas com TEA (Autismo) são consideradas por lei como pessoas com deficiência (PCD) e têm direitos garantidos, como atendimento prioritário e vagas reservadas.

    4. O que é o burnout autista?

    É um estado de exaustão física e mental severa que acontece quando o adulto passa anos camuflando os traços e forçando o próprio cérebro além do limite para parecer neurotípico.

    5. O que é hipersensibilidade sensorial em adultos?

    É quando o cérebro não consegue filtrar estímulos do ambiente corretamente. Na prática, o adulto sente dores físicas ou irritação extrema com luzes fortes, barulhos de conversas paralelas, cheiros específicos ou texturas de roupas e alimentos que outras pessoas nem notam.

    5. Qual a diferença de diagnóstico entre homens e mulheres?

    Em mulheres, o diagnóstico costuma ser muito mais tardio porque elas tendem a internalizar o sofrimento e são historicamente mais cobradas a serem sociáveis, o que as torna especialistas em camuflar os sinais

    6. O que são altas habilidades na vida adulta?

    É uma neurodivergência caracterizada por uma capacidade cognitiva significativamente acima da média em uma ou mais áreas, como lógica, artes ou criatividade.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização