Autor: Dra. Barbara Arraes Guedes Macedo

  • Contato visual na amamentação: o bebê que não olha nos olhos pode ser autista?

    Contato visual na amamentação: o bebê que não olha nos olhos pode ser autista?

    Nos primeiros meses de vida, além de fornecer todos os nutrientes necessários para o crescimento do bebê, a amamentação também é um dos principais momentos de interação entre a mãe e o recém-nascido. Durante as mamadas, acontecem as trocas de olhares, as expressões faciais e diversos estímulos que ajudam no desenvolvimento da comunicação, do vínculo afetivo e das habilidades sociais.

    Segundo a neuropediatra Bárbara Macedo, desde o nascimento, os bebês demonstram uma preferência natural por observar rostos humanos. Como a visão ainda está em desenvolvimento nas primeiras semanas de vida, eles enxergam melhor o que está entre 20 e 30 centímetros de distância, exatamente a distância entre o rosto da mãe e o bebê durante a amamentação.

    Por isso, é comum que eles observem o rosto da mãe e, aos poucos, aprendam a reconhecer expressões e emoções.

    Só que, nos primeiros dois meses, o sistema visual continua amadurecendo. Em alguns momentos, o bebê pode desviar o olhar para uma luz, uma sombra ou simplesmente fechar os olhos porque está relaxado ou satisfeito após mamar. A falta de contato visual, por si só, não significa que exista algum problema, mas vale ficar atento a alguns sinais de alerta.

    O bebê não olhar nos olhos durante a amamentação é normal?

    Sim, principalmente nos primeiros meses de vida. O contato visual não acontece de forma constante desde o nascimento, porque a visão e o cérebro do bebê ainda estão em desenvolvimento.

    Nas primeiras semanas, é normal que ele alterne entre olhar para o rosto da mãe, fechar os olhos durante a mamada ou desviar a atenção para outros estímulos do ambiente.

    Um episódio isolado em que o bebê não faz contato visual normalmente não indica nenhum problema e não deve ser motivo de preocupação. Se ele estava com sono, fome, cólica ou muito cansado, é natural que olhe menos para o rosto dos pais ou dos cuidadores naquele momento.

    Quando a falta de contato visual do bebê acende o alerta?

    O principal sinal de alerta aparece quando a ausência de contato visual é frequente e acontece em diferentes situações do dia a dia. Durante a amamentação, a troca de fraldas, o banho ou as brincadeiras, o bebê parece não responder quando a mãe ou o cuidador tenta chamar sua atenção com sorrisos, conversas ou expressões faciais.

    Em casos assim, o olhar pode permanecer fixo em uma luz, na janela, em um objeto ou simplesmente parecer distante, sem buscar interação com as pessoas ao redor.

    Quando o comportamento continua após os primeiros meses de vida, principalmente a partir dos 2 ou 3 meses, o pediatra pode recomendar uma avaliação mais detalhada do desenvolvimento para entender se existe alguma dificuldade na comunicação e na interação social.

    Um sinal isolado fecha diagnóstico de autismo?

    A ausência de contato visual, sozinha, não confirma o quadro de transtorno do espectro autista (TEA). O diagnóstico depende da avaliação de vários sinais do desenvolvimento e considera tanto dificuldades na comunicação e na interação social quanto comportamentos repetitivos e interesses restritos.

    Segundo Bárbara, o diagnóstico de autismo só pode ser feito a partir de um ano de idade, sendo mais comum entre um ano e três meses e um ano e seis meses.

    Também é importante lembrar que muitas crianças com autismo fazem contato visual normalmente. O diagnóstico nunca é baseado em apenas um comportamento, mas na avaliação completa do desenvolvimento da criança ao longo do tempo.

    A falta de contato visual durante a amamentação deve ser vista apenas como um possível sinal de alerta, principalmente quando aparece junto de outros atrasos no desenvolvimento.

    O que pode ser se não for autismo?

    Quando o bebê apresenta pouca troca de olhares, o autismo é apenas uma das possibilidades que o médico pode investigar. Existem outras condições que também podem provocar o comportamento, como:

    1. Problemas de visão

    Alterações como estrabismo, catarata congênita, miopia, hipermetropia ou astigmatismo podem dificultar que o bebê enxergue com clareza o rosto da mãe durante a amamentação e em outros momentos de interação. A troca de olhares pode ficar reduzida, mesmo sem haver qualquer alteração no desenvolvimento da comunicação.

    2. Alterações na audição

    Os bebês costumam direcionar o olhar para a voz da mãe ou de outras pessoas que conversam com eles. Quando existe alguma dificuldade auditiva, a resposta aos estímulos sonoros pode diminuir, reduzindo também o contato visual durante a amamentação, as brincadeiras e os cuidados do dia a dia.

    3. Atrasos no desenvolvimento da comunicação

    Algumas crianças podem apresentar atrasos no desenvolvimento da linguagem e da comunicação social sem que isso signifique, necessariamente, um diagnóstico de TEA. Cada bebê tem o próprio ritmo de desenvolvimento, e a avaliação médica é necessária para identificar a causa das dificuldades e indicar o acompanhamento mais adequado.

    4. Condições neurológicas ou complicações no nascimento

    A prematuridade, o sofrimento fetal e algumas condições neurológicas ou síndromes genéticas podem atrasar diferentes marcos do desenvolvimento infantil, incluindo o contato visual, a interação com outras pessoas e o desenvolvimento da comunicação.

    O acompanhamento com o pediatra e outros especialistas ajuda a monitorar a evolução da criança e iniciar intervenções precoces quando necessário.

    O que os pais devem fazer ao notar esse comportamento?

    O mais importante é observar o bebê com calma e evitar comparações com outras crianças, já que cada uma tem o próprio ritmo de desenvolvimento.

    Ao mesmo tempo, os pais não devem ignorar uma preocupação persistente. Quem convive diariamente com o bebê costuma perceber mudanças e comportamentos diferentes antes mesmo das consultas de rotina, segundo Bárbara.

    Se surgir a suspeita de que algo não está evoluindo como esperado, algumas atitudes podem ajudar:

    • Observe outros comportamentos: perceba se o bebê responde à voz dos pais, sorri de volta, acompanha pessoas com o olhar e reage aos estímulos do ambiente;
    • Anote ou filme as interações: pequenos vídeos da amamentação, das brincadeiras ou de outros momentos do dia ajudam o pediatra a avaliar o comportamento com mais detalhes;
    • Procure avaliação médica: converse primeiro com o pediatra. Se houver necessidade, o profissional poderá encaminhar a criança para um neuropediatra, oftalmologista, otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo.

    Caso seja identificada alguma alteração no desenvolvimento, a intervenção precoce pode começar mesmo antes de um diagnóstico definitivo.

    Veja também: Atraso na fala: o excesso de telas pode estar por trás do problema?

    Perguntas frequentes

    1. Com quantos meses o bebê deve começar a olhar nos olhos?

    O esperado é que o bebê comece a fixar o olhar no rosto dos pais entre a 4ª e a 6ª semana de vida. Aos 2 ou 3 meses, o contato visual já deve ser firme e frequente.

    2. O que fazer se o bebê não atende pelo nome?

    O primeiro passo é fazer um exame de audição (como o teste do bera) para descartar surdez. Se a audição estiver normal e o comportamento persistir, procure um neuropediatra.

    3. O que são diagnósticos diferenciais do autismo?

    São outras condições que causam sintomas parecidos e precisam ser investigadas, como problemas de visão, deficiência auditiva, TDAH ou transtornos de ansiedade infantil.

    4. O autismo é herdado dos pais?

    A base genética é imensa (mais de 80%), mas não depende de um único gene. É uma combinação de múltiplos genes e fatores ambientais. Em alguns casos, os pais descobrem que são autistas após o diagnóstico do filho.

    5. O que é a hipersensibilidade sensorial na infância?

    É quando o cérebro da criança processa estímulos do ambiente de forma exagerada. Ela pode chorar desesperadamente com barulhos comuns (liquidificador, secador), rejeitar certas texturas de roupas ou ter forte seletividade alimentar devido à textura da comida.

    6. Como diferenciar a birra normal de uma crise do autismo?

    A birra comum tem um objetivo claro (chamar atenção ou conseguir algo) e cessa quando a vontade da criança é atendida ou ela se cansa. A crise no autismo (meltdown) é uma sobrecarga neurológica: a criança perde o controle total de si, não consegue parar sozinha e não é motivada por um ganho material.

    7. Criança muito agitada com 2 anos já pode ter diagnóstico de TDAH?

    Não. Os médicos não fecham o diagnóstico de TDAH antes dos 4 anos porque a região cerebral responsável pelo controle do comportamento (o córtex pré-frontal) ainda é muito imatura. Antes dessa idade, a agitação costuma ser tratada apenas com mudanças de estímulo e rotina.

    Leia mais: É possível investigar TDAH em crianças bem pequenas?

  • O sono do bebê e o neurodesenvolvimento: quando a insônia precoce é um sinal de alerta?

    O sono do bebê e o neurodesenvolvimento: quando a insônia precoce é um sinal de alerta?

    As noites mal dormidas fazem parte da rotina de praticamente todas as famílias que acabam de receber um bebê. Afinal, acordar várias vezes para mamar, trocar a fralda ou procurar conforto é completamente esperado nos primeiros meses de vida.

    Mas e quando o bebê parece nunca conseguir dormir bem, acorda de hora em hora, permanece irritado o tempo todo e nem o colo consegue acalmá-lo? Apesar de cada criança ter o próprio ritmo, um padrão persistente de sono muito irregular pode ser um sinal de que algo merece uma investigação mais cuidadosa.

    Qual a relação entre o sono do bebê e o desenvolvimento do cérebro?

    O ato de dormir é uma das atividades mais importantes para o desenvolvimento do cérebro do bebê. Segundo a neuropediatra Bárbara Macedo, ao longo dos primeiros meses de vida o cérebro vive um período intenso de maturação e de plasticidade cerebral, que é a capacidade de formar novas conexões entre os neurônios.

    Enquanto a criança dorme, o organismo consolida os aprendizados do dia, organiza as memórias e libera hormônios importantes para o crescimento físico e neurológico.

    Um sono de boa qualidade funciona como uma verdadeira manutenção do sistema nervoso central. Durante o sono profundo, o cérebro elimina conexões neurais que não são mais necessárias e fortalece os circuitos estimulados ao longo dos períodos em que o bebê ficou acordado.

    Como explica a especialista, dormir não representa um estado passivo, mas um reflexo ativo da forma como o cérebro está se organizando. Quando uma criança apresenta dificuldades persistentes para dormir desde os primeiros meses de vida, pode existir alguma alteração no funcionamento dos mecanismos responsáveis pela regulação cerebral e pelo processamento dos estímulos sensoriais.

    Despertares normais ou insônia precoce: como diferenciar?

    Como o estômago do bebê ainda é pequeno e os ciclos de sono são naturalmente mais curtos do que os de um adulto, acordar durante a madrugada para mamar ou receber conforto é completamente esperado.

    Mas, segundo Bárbara Macedo, existe uma diferença importante entre os despertares normais e um quadro de insônia precoce. Para facilitar a identificação, as principais características podem ser observadas da seguinte forma:

    Despertares normais

    O bebê acorda a cada duas ou três horas, mama, recebe conforto dos pais e, depois de estar alimentado e com a fralda limpa, consegue relaxar e voltar a dormir com relativa facilidade. Durante o dia, demonstra atenção, disposição e responde aos estímulos de acordo com os marcos esperados para a idade.

    Insônia precoce

    O padrão de desregulação do sono é intenso e contínuo. Segundo Bárbara, o sinal de alerta aparece quando um bebê de um, dois ou três meses mantém uma rotina na qual o sono não se estabiliza nem melhora com o passar das semanas.

    A criança acorda praticamente de hora em hora e, quando consegue dormir, permanece apenas em ciclos muito curtos, de cerca de 15 minutos, ficando constantemente irritada e cansada.

    Bárbara explica que o principal sinal de alerta é quando o bebê não consegue manter um sono regular e a falta de descanso começa a afetar o comportamento, deixando a criança constantemente irritada, estressada e cansada.

    Quando o sono volátil e a irritação acendem o alerta para o autismo?

    Nem toda dificuldade para dormir nos primeiros meses de vida está relacionada ao transtorno do espectro autista (TEA), mas estudos apontam que as alterações do sono estão entre as comorbidades mais frequentes em crianças neurodivergentes.

    Segundo Bárbara, a combinação entre distúrbios de sono muito precoces e irritabilidade persistente merece atenção durante a avaliação neuropediátrica. Veja alguns sinais de alerta:

    • Dificuldade persistente para dormir, mesmo após os primeiros meses de vida;
    • Sono muito fragmentado, com despertares praticamente de hora em hora;
    • Ciclos de sono muito curtos, com duração de cerca de 15 minutos;
    • Irritabilidade intensa e dificuldade para se acalmar, mesmo após mamar, receber colo ou carinho;
    • Preferência por permanecer sozinho no berço, demonstrando desconforto com o contato físico ou com o colo;
    • Necessidade de seguir uma rotina extremamente rígida para conseguir dormir, como ser balançado sempre da mesma forma, durante o mesmo tempo e ouvindo a mesma música;
    • Grande dificuldade para lidar com mudanças na rotina do sono, reagindo com muito choro ou irritação quando algum detalhe é alterado.

    Vale apontar que a presença de um ou mais sinais não confirma um diagnóstico de autismo. O mais importante é observar o conjunto do desenvolvimento da criança e procurar orientação médica quando o comportamento persiste ou começa a interferir no bem-estar do bebê e da família.

    O que fazer se bebê apresentar os sinais?

    O desenvolvimento de cada criança acontece em um ritmo próprio, por isso é normal que alguns marcos apareçam um pouco antes ou um pouco depois.

    No entanto, quando as dificuldades para dormir continuam por um longo período, vêm acompanhadas de irritabilidade constante ou começam a prejudicar o bem-estar do bebê e a rotina da família, é importante procurar orientação médica.

    Se o bebê apresenta um padrão persistente de sono irregular e irritabilidade, algumas atitudes podem ajudar durante a investigação:

    • Crie um diário do sono: anote os horários em que o bebê dorme, quanto tempo cada sono dura, quantas vezes acorda durante a noite e quanto tempo leva para voltar a dormir. As anotações ajudam o médico a entender melhor o padrão de sono da criança;
    • Grave vídeos do comportamento: registrar os momentos de irritação, a dificuldade para adormecer ou a reação ao colo pode fornecer informações importantes durante a consulta, já que o bebê pode agir de forma diferente no consultório;
    • Procure profissionais qualificados: converse com o pediatra e, se houver necessidade, procure também um neuropediatra para uma avaliação mais detalhada.

    A família não precisa aguardar um diagnóstico definitivo para iniciar os cuidados e, quando existem atrasos no desenvolvimento ou dificuldades que interferem na evolução da criança, o encaminhamento para terapias de intervenção precoce (como a fonoaudiologia e a terapia ocupacional) pode começar o quanto antes.

    Veja também: Atraso na fala: o excesso de telas pode estar por trás do problema?

    Perguntas frequentes

    1. Com quantos meses o sono do bebê começa a ficar mais regular?

    Normalmente, a partir dos 3 ou 4 meses o bebê começa a produzir mais melatonina (o hormônio do sono) e a diferenciar melhor o dia da noite, tornando o sono mais previsível.

    2. Bebê que dorme mal pode ter o desenvolvimento afetado?

    Sim, se for um problema crônico e severo. A privação constante de sono prejudica a regulação emocional, a atenção, o aprendizado e pode sobrecarregar o sistema nervoso do bebê.

    3. Por que alguns bebês rejeitam o colo quando estão com sono?

    Algumas crianças apresentam hipersensibilidade tátil, ou seja, sentem o toque e o movimento de forma muito intensa ou incômoda. Para esses bebês, o contato físico gera estresse em vez de relaxamento, fazendo com que prefiram o berço estático.

    4. O uso de telas, como TV e celular, afeta o sono do bebê?

    Sim! A luz azul emitida pelas telas bloqueia a produção de melatonina, o hormônio responsável por sinalizar ao cérebro que é hora de dormir, deixando o bebê hiperestimulado e dificultando o sono profundo.

    5. O sono agitado com movimentos bruscos é normal?

    Os movimentos esporádicos são comuns. Mas, se o bebê apresenta movimentos muito repetitivos, rítmicos e contínuos de balanço para adormecer, isso pode ser um mecanismo de autorregulação sensorial que merece atenção.

    6. Devo deixar o bebê chorar até dormir?

    Em bebês com sinais de risco ou desregulação neurológica, métodos que ignoram o choro podem aumentar o estresse e a desorganização sensorial, sendo preferível sempre priorizar técnicas de autorregulação guiada pelos pais.

    6. Ruídos corporais (como se espremer ou gemer) durante o sono são normais?

    Sim, principalmente nos primeiros 3 meses. O sistema digestivo do bebê ainda é muito imaturo, e é comum que ele gema, faça força ou se estique bastante enquanto dorme devido aos gases. Se ele não acordar chorando de dor, não há necessidade de intervir.

    Leia mais: É possível investigar TDAH em crianças bem pequenas?

  • 9 sinais de que uma criança pode ser superdotada 

    9 sinais de que uma criança pode ser superdotada 

    A superdotação na infância, também conhecida como altas habilidades ou superdotação, é uma característica de neurodesenvolvimento em que a criança apresenta um desempenho acima da média em uma ou mais áreas.

    De acordo com a neuropediatra Bárbara Macedo, algumas crianças se destacam na área acadêmica, artística, área criativa ou até na capacidade de resolver problemas.

    A superdotação também não se manifesta da mesma maneira em todos os casos, mas existem alguns sinais que os pais podem identificar no dia a dia. Vamos entender mais, a seguir.

    Quais os sinais de superdotação na infância?

    1. Aprender a ler muito cedo

    Um dos sinais mais conhecidos das altas habilidades é aprender a ler antes da idade esperada, muitas vezes de forma espontânea ou com pouca orientação. A criança costuma demonstrar grande interesse por livros, letras e histórias, reconhecendo palavras e compreendendo textos mais cedo do que os colegas da mesma faixa etária.

    2. Ter um vocabulário avançado para a idade

    Muitas crianças superdotadas utilizam palavras mais sofisticadas e constroem frases mais elaboradas do que o esperado para a idade. Além de se expressarem com facilidade, elas conseguem compreender conversas complexas, explicar ideias com bastante clareza e adaptar a linguagem de acordo com a situação.

    Também é comum apresentarem facilidade para aprender novas palavras, fazer perguntas detalhadas e manter diálogos longos sobre diferentes assuntos, demonstrando uma capacidade de comunicação que costuma chamar a atenção de familiares e professores.

    3. Fazer perguntas profundas e complexas

    Em vez de perguntar apenas “o que é isso?”, a criança costuma querer entender o motivo das coisas acontecerem. Questões sobre o universo, a origem da vida, a natureza, o tempo ou outros assuntos abstratos podem surgir muito cedo, demonstrando uma curiosidade mais incomum.

    4. Demonstrar curiosidade intensa

    A vontade de aprender parece não ter fim e a criança faz perguntas o tempo todo, observa detalhes que passam despercebidos por outras pessoas e busca novas informações sobre diferentes assuntos. Quando encontra um tema interessante, costuma querer saber tudo sobre ele.

    5. Ter interesses intensos por determinados temas

    Também é comum desenvolver uma verdadeira paixão por um assunto específico, como dinossauros, astronomia, matemática, música, tecnologia ou animais. A criança pode acumular uma quantidade impressionante de informações, memorizar detalhes com facilidade e falar sobre o tema com bastante profundidade.

    Muitas vezes, ela busca conhecimento por conta própria, faz pesquisas, lê livros, assiste a vídeos e demonstra um nível de envolvimento que vai muito além da curiosidade comum para a idade.

    6. Aprender novos conteúdos com muita facilidade

    Depois de poucas explicações, a criança compreende conceitos, identifica padrões e consegue aplicar o conhecimento em situações diferentes, muitas vezes precisando de menos repetições do que outras crianças.

    Além de aprender rapidamente, ela costuma fazer associações entre conteúdos distintos, resolver exercícios com facilidade e demonstrar autonomia para adquirir novos conhecimentos, principalmente quando o assunto desperta seu interesse.

    7. Apresentar uma memória acima da média

    Muitas crianças com altas habilidades conseguem lembrar de fatos, datas, histórias, conversas e detalhes com facilidade, mesmo muito tempo depois. A boa memória costuma contribuir para o aprendizado rápido e para a capacidade de relacionar diferentes informações.

    8. Resolver problemas de maneira criativa

    Em vez de seguir apenas as soluções mais óbvias, a criança costuma encontrar caminhos diferentes para resolver desafios. Ela pensa de forma criativa, faz conexões inesperadas entre ideias e consegue encontrar soluções originais para problemas do dia a dia.

    Além disso, muitas vezes propõe respostas que surpreendem os adultos pela lógica, pela inovação ou pela capacidade de enxergar possibilidades que passam despercebidas pela maioria das pessoas.

    9. Demonstrar interesse por assuntos mais comuns em idades maiores

    Enquanto muitas crianças da mesma faixa etária ainda estão descobrindo temas básicos, aquelas com altas habilidades podem demonstrar fascínio por áreas como ciência, astronomia, tecnologia, história ou filosofia.

    Não é raro que passem horas pesquisando, lendo livros, assistindo a documentários ou conversando sobre esses temas com um nível de profundidade que costuma surpreender familiares e professores.

    É importante destacar que nenhum dos sinais confirma, sozinho, o diagnóstico de superdotação. Algumas crianças podem apresentar uma ou várias dessas características sem necessariamente terem altas habilidades.

    Segundo Bárbara, todos os comportamentos devem ser avaliados dentro do contexto do desenvolvimento infantil por profissionais especializados.

    Como é feito o diagnóstico de superdotação?

    O diagnóstico da superdotação é feito por profissionais especializados, como psicólogos ou neuropsicólogos, que analisam diferentes aspectos do desenvolvimento da criança.

    Durante o processo, são feitas entrevistas com os pais para conhecer o histórico da criança, além da aplicação de testes que avaliam a inteligência, a memória, a atenção, o raciocínio e outras habilidades cognitivas. Também são considerados o desempenho escolar, os relatos dos professores, os interesses da criança, o nível de criatividade, a facilidade para aprender e a forma como ela resolve problemas.

    Ao mesmo tempo, os profissionais também observam aspectos emocionais e comportamentais, já que muitas crianças com altas habilidades podem apresentar grande sensibilidade, perfeccionismo ou um desenvolvimento desigual entre a parte intelectual e a emocional.

    “Cada criança se desenvolve de forma diferente e o acompanhamento adequado ajuda a entender melhor esses perfis”, finaliza Bárbara.

    Confira: Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças?

    Perguntas frequentes

    1. Toda pessoa superdotada tem QI acima de 130?

    Não necessariamente. Embora o QI igual ou superior a 130 (percentil 98) seja o critério psicométrico clássico, o diagnóstico moderno também considera a criatividade, o talento artístico e o envolvimento com tarefas.

    2. É possível ser superdotado em apenas uma área?

    Sim. Uma pessoa pode ser brilhante em matemática e lógica, mas ter um desempenho absolutamente mediano em escrita, esportes ou interações sociais.

    3. O que é “assincronia” na superdotação?

    É o descompasso entre o desenvolvimento intelectual, o emocional e o motor. Uma criança pode ter o raciocínio de um adulto de 30 anos, mas a maturidade emocional e a coordenação motora de sua idade real.

    4. Superdotação é genética?

    Existe uma forte base hereditária e predisposição genética, mas o ambiente (estímulos, acolhimento e oportunidades) determina se o potencial vai se desenvolver ou ser sufocado.

    5. O que é dupla excepcionalidade?

    É quando a superdotação coexiste com outro transtorno ou neurodivergência, como o transtorno do espectro autista (TEA), TDAH, dislexia ou ansiedade.

    6. Como é feito o diagnóstico em adultos?

    O processo é similar ao de crianças: envolve testes neuropsicológicos, avaliação de QI, entrevistas sobre o histórico de vida, padrões de pensamento e análise de hiperfocos.

    7. Qual a diferença entre superdotado e gênio?

    O superdotado tem o potencial neurobiológico elevado. O gênio é aquele que pegou esse potencial e gerou uma obra, descoberta ou impacto real e transformador para a humanidade.

    Leia mais: Altas habilidades e superdotação: o que é, sinais mais comuns e como identificar

  • Síndrome de abstinência digital: como lidar com as crises de irritabilidade ao desligar as telas? 

    Síndrome de abstinência digital: como lidar com as crises de irritabilidade ao desligar as telas? 

    Você já ouviu falar na síndrome de abstinência digital? Ela envolve uma série de reações físicas, emocionais e comportamentais que podem surgir quando uma criança ou um adolescente deixa de usar, de forma repentina, dispositivos como celular, tablet, computador ou videogame.

    Ao contrário da dependência em substâncias químicas, na tecnologia o vício é comportamental. Segundo a neuropediatra Bárbara Macedo, os aplicativos, os jogos e as redes sociais são desenvolvidos para prender a atenção por meio de vídeos curtos, mudanças rápidas de imagem, cores vibrantes e recompensas constantes, mantendo o cérebro sempre em busca de mais estímulos.

    A cada curtida recebida, fase concluída, vídeo assistido ou conquista dentro de um jogo, o cérebro libera dopamina, um neurotransmissor ligado às sensações de prazer, motivação e recompensa. Quanto mais frequentes são os estímulos, mais o cérebro se acostuma com aquela descarga de satisfação imediata e passa a esperar que ela aconteça repetidamente.

    Quando o aparelho é desligado de forma repentina, os níveis de dopamina diminuem rapidamente. Como a região do cérebro responsável pelo autocontrole, pelo planejamento e pela regulação das emoções ainda está em desenvolvimento durante a infância, a especialista explica que as crianças têm dificuldade para lidar com a frustração provocada pela interrupção daquele estímulo tão intenso.

    Sintomas de que a criança está viciada em telas

    Como o cérebro das crianças e dos adolescentes ainda está em desenvolvimento, ele é mais sensível aos estímulos das telas. Alguns sinais de que o uso excessivo pode estar causando prejuízos incluem:

    1. Irritabilidade intensa quando a tela é desligada

    A reação mais comum da síndrome de abstinência digital acontece justamente quando chega a hora de guardar o celular, o tablet ou desligar a televisão. A criança pode chorar muito, gritar, ficar agressiva ou apresentar uma crise de raiva que parece desproporcional à situação.

    O comportamento não costuma ser apenas uma tentativa de conseguir mais tempo de tela. Como o cérebro estava acostumado a receber estímulos intensos e constantes, a interrupção provoca uma queda repentina da dopamina, dificultando o controle das emoções.

    2. Perda de interesse pelas brincadeiras e pelas atividades do dia a dia

    Os brinquedos, livros, desenhos para colorir, jogos de tabuleiro e até os passeios ao ar livre podem deixar de despertar interesse na criança. Sem a intensidade dos estímulos oferecidos pelas telas, elas passam a achar qualquer outra atividade sem graça, reclamam de tédio o tempo todo e demonstram dificuldade para brincar usando a imaginação.

    3. Uso escondido do celular ou de outros aparelhos

    Quando a necessidade de acessar as telas se torna muito intensa, algumas crianças começam a esconder comportamentos dos adultos. A criança pode levar o celular escondido para a escola, usar o tablet durante a madrugada ou aproveitar os momentos em que ninguém está olhando para pegar os aparelhos.

    Além de desrespeitar as regras da casa, o comportamento também pode prejudicar a relação de confiança entre a criança e a família.

    4. Ansiedade, a irritação e as dificuldades para dormir

    O uso excessivo das telas, principalmente durante a noite, interfere diretamente na qualidade do sono. A luz emitida pelos aparelhos reduz a produção da melatonina, hormônio responsável por preparar o organismo para dormir.

    Como consequência, a criança pode demorar mais para pegar no sono, acordar várias vezes durante a noite ou ter um descanso pouco reparador. Durante o dia, também podem surgir a ansiedade, a irritação, a impaciência e a dificuldade para relaxar.

    5. Isolamento social e o menor interesse pelas pessoas

    Nos encontros de família, nos passeios, nos restaurantes ou até durante o recreio da escola, a preferência passa a ser o celular em vez das conversas e das brincadeiras com outras pessoas. Com o tempo, o comportamento pode prejudicar o desenvolvimento das habilidades sociais, da comunicação e da capacidade de interpretar emoções e construir relações saudáveis.

    O que fazer ao identificar os sinais?

    De acordo com Bárbara, o ideal não é banir as telas abruptamente, mas reduzir o tempo gradativamente, oferecendo previsibilidade (avisar 10 e 5 minutos antes que o tempo vai acabar) e substituir o aparelho por atividades sensório-motoras, como pintura, esportes, blocos de montar e passeios ao ar livre.

    Aos poucos, o cérebro passa a encontrar prazer em experiências do mundo real, reduzindo a dependência dos estímulos rápidos oferecidos pelas telas e favorecendo um desenvolvimento mais saudável.

    Por que o cérebro da criança não consegue se autorregular?

    O cérebro da criança não se autorregula porque o córtex pré-frontal, área responsável pelo controle dos impulsos e pelas decisões, só termina de se desenvolver entre os 25 e 30 anos. Sem a região madura, a criança é dominada pelo sistema límbico, que rege as emoções e busca a satisfação imediata.

    As telas atuais funcionam como um estímulo muito intenso para o cérebro infantil, provocando picos de dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e recompensa. Quando o celular, o tablet ou a televisão são desligados, ocorre uma queda rápida do estímulo e a criança tem mais dificuldade para lidar com a frustração e regular as próprias emoções, o que pode desencadear crises de choro, gritos, irritação ou até agressividade.

    Na maioria das vezes, a reação não acontece por pirraça, mas porque a criança ainda não desenvolveu totalmente os mecanismos necessários para controlar o que está sentindo.

    Como lidar com a crise de irritabilidade ao desligar as telas?

    O primeiro passo é entender que, em muitos casos, a irritação é uma resposta do cérebro à interrupção de um estímulo muito intenso. Para tornar a transição mais tranquila, Bárbara recomenda uma estratégia baseada em previsibilidade, acolhimento, firmeza e substituição das telas por uma atividades do mundo real:

    1. Avise com antecedência que o tempo de tela está acabando

    O cérebro infantil costuma lidar melhor com mudanças quando elas são previsíveis. Em vez de tirar o celular ou o tablet de repente, Bárbara orienta avisar alguns minutos antes que o horário está chegando ao fim.

    2. Ofereça outra atividade logo em seguida

    Depois de desligar a tela, vale convidar a criança para fazer alguma atividade que envolva movimento, criatividade e interação. A mudança fica mais fácil quando o cérebro encontra outro estímulo prazeroso.

    Bárbara sugere brincadeiras como pintar, montar blocos, jogar bola, passear ao ar livre ou até participar de pequenas tarefas da casa, como colocar os pratos na mesa. O objetivo é incentivar o contato com experiências reais, envolvendo as mãos, o corpo e os sentidos.

    3. Mantenha os limites com calma e acolhimento

    É comum que a criança chore, reclame ou tente negociar mais alguns minutos de tela. Segundo Bárbara, o ideal é manter a regra estabelecida sem recorrer a brigas ou punições.

    Acolher o sentimento da criança, dizendo que entende a frustração, mas reforçando que o tempo terminou, ajuda no processo de aprendizagem. Quando os adultos mantêm o limite com calma e constância, a criança aprende, aos poucos, a lidar melhor com as frustrações.

    4. Evite usar as telas para acalmar ou distrair

    Segundo Bárbara, existem momentos em que o uso das telas deve ser evitado, principalmente durante as refeições e antes de dormir. Comer assistindo a vídeos dificulta a percepção da fome e da saciedade, enquanto o uso dos aparelhos à noite atrapalha a produção de melatonina, hormônio responsável pelo sono.

    Ao criar uma rotina com menos telas nos horários, a criança tende a dormir melhor, participar mais das refeições e desenvolver uma relação mais saudável com a tecnologia.

    Quando o uso excessivo de telas precisa de ajuda médica?

    Os pais devem procurar ajuda especializada ao notar os seguintes sinais de alerta:

    • Atraso para falar ou desenvolver a linguagem;
    • Falta de contato visual e pouca interação com outras pessoas;
    • Preferência pelas telas em vez de brincar ou conviver com outras crianças;
    • Crises intensas de choro, irritação ou agressividade ao desligar os aparelhos;
    • Dificuldade para dormir, despertares frequentes ou sono agitado;
    • Uso escondido do celular, do tablet ou de outros dispositivos;
    • Mentiras frequentes para conseguir mais tempo de tela;
    • Agitação, impulsividade e dificuldade de concentração em atividades sem telas;
    • Recusa em experimentar novos alimentos ou seletividade alimentar;
    • Ganho de peso rápido associado ao hábito de comer em frente às telas.

    O médico pode fazer uma avaliação para identificar se os comportamentos estão relacionados ao uso excessivo das telas e aos hábitos do dia a dia ou se existe algum transtorno do neurodesenvolvimento, como o TDAH ou o Transtorno do Espectro Autista (TEA), que precisa uma investigação mais detalhada e um tratamento específico.

    Confira: Comer em frente a telas faz mal? Conheça os riscos e como diminuir o hábito

    Perguntas frequentes

    1. Abstinência digital é um vício real?

    Sim. Embora não envolva substâncias químicas, o vício em telas é uma dependência comportamental. Ele ativa os mesmos circuitos de recompensa no cérebro que outras compulsões.

    2. O que é o comportamento de barganha digital?

    É quando a criança tenta negociar o tempo todo para adiar o fim do uso da tela, usando argumentos como “só mais 5 minutinhos”, “deixa acabar esse vídeo” ou “amanhã eu não assisto se me deixar usar mais agora”.

    3. A abstinência digital pode causar sintomas físicos?

    Sim. Em casos mais severos, a falta do estímulo digital ou a tentativa de retirá-lo pode gerar dor de cabeça, agitação motora, tremores leves nas mãos, sudorese e aperto no peito causados pela ansiedade.

    4. Como a abstinência afeta o sono das crianças?

    A agitação nervosa combinada com a falta da luz azul (que bloqueia a melatonina) faz com que a criança em abstinência demore a pegar no sono, tenha pesadelos ou sofra com despertares noturnos frequentes.

    5. O que fazer se a criança começar a esconder os aparelhos?

    Isso indica um nível avançado de dependência. Os pais devem recolher os dispositivos, guardá-los em locais trancados, reavaliar o controle parental e, se necessário, buscar suporte psicológico.

    6. Como a escola pode ajudar a identificar a abstinência digital?

    Os professores costumam notar quando o aluno demonstra fadiga excessiva pela manhã, irritabilidade sem motivo aparente, isolamento no recreio (preferindo o celular) ou queda abrupta na capacidade de concentração e foco nas aulas.

    Leia mais: Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar?

  • É possível investigar TDAH em crianças bem pequenas?

    É possível investigar TDAH em crianças bem pequenas?

    Mudanças rápidas de humor, agitação intensa e falta de concentração são só alguns dos sintomas que costumam surgir na primeira infância, quando o cérebro da criança ainda está em desenvolvimento e ela está aprendendo, aos poucos, a controlar as próprias emoções.

    Apesar de completamente normal para a fase, alguns pais podem se perguntar se o comportamento agitado pode ser um sinal de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

    A linha entre a energia natural da infância, especialmente na fase do famoso ‘terrible two’, e os primeiros indícios de um transtorno podem parecer muito semelhantes, mas será que é possível fechar um diagnóstico quando o bebê ou a criança ainda é tão pequena?

    O diagnóstico de TDAH costuma ser mais seguro e preciso entre os 5 e 6 anos de idade, mas a investigação e o olhar atento dos pais e especialistas podem (e devem) começar bem antes.

    O diagnóstico de TDAH é possível antes dos 4 anos?

    Segundo a neuropediatra Bárbara Macedo, o diagnóstico de TDAH ainda não é possível em crianças abaixo de 4 anos de idade. A região do cérebro diretamente ligada ao TDAH é o córtex pré-frontal, responsável pelas chamadas funções executivas: o controle dos impulsos, a capacidade de focar a atenção, a organização e a regulação emocional.

    Em crianças abaixo dos 4 anos, a especialista explica que a estrutura neurológica está apenas iniciando o processo de maturação.

    “Comportamentos como agitação, impulsividade e dificuldade de atenção fazem parte do desenvolvimento normal nessa idade. Não é à toa que todos os pais já falam sobre o terrible two, que na verdade vai até os 4 anos”, explica a especialista.

    Como os comportamentos se sobrepõem bastante aos sintomas do TDAH, é clinicamente muito difícil diferenciar o que faz parte de uma fase normal do desenvolvimento infantil do que realmente representa um transtorno do neurodesenvolvimento.

    Importante: não ser possível fechar o diagnóstico não significa que os pais devam ignorar os sinais. Se a agitação for totalmente desproporcional ou se houver prejuízo no desenvolvimento, a criança já pode entrar em acompanhamento preventivo com um neuropediatra ou psicólogo infantil.

    Sintomas normais da infância vs. Sinais de alerta de TDAH

    Como o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, a diferença entre um comportamento esperado para a idade e um sinal de alerta costuma estar em três fatores principais: a intensidade, a frequência e o impacto que esse comportamento causa no dia a dia da criança.

    O que é esperado no desenvolvimento infantil

    • Distração é seletiva: a criança perde o foco em atividades de que não gosta, mas consegue ficar concentrada por vários minutos brincando, ouvindo uma história ou assistindo a um desenho de que gosta;
    • Muita energia, mas com controle: ela corre, pula e brinca bastante, porém consegue diminuir o ritmo por alguns minutos quando a situação exige, como durante uma refeição ou no colo dos pais;
    • Birras fazem parte da idade: quando é contrariada, pode chorar, gritar ou fazer uma birra, mas costuma se acalmar após receber acolhimento ou quando a atenção é direcionada para outra atividade;
    • Comportamento semelhante ao de outras crianças: o nível de agitação, curiosidade e teimosia é compatível com o esperado para a idade e parecido com o dos colegas da escola ou do parquinho.

    Sinais de alerta para TDAH

    • Não consegue manter a atenção nem em atividades de que gosta: a criança troca de brinquedo ou de atividade o tempo todo, sem conseguir permanecer concentrada por mais do que alguns segundos ou poucos minutos, mesmo quando a brincadeira é nova e divertida;
    • Agitação muito acima do esperado para a idade: parece estar em movimento o tempo inteiro, não consegue ficar sentada nem durante as refeições, corre, sobe em móveis e se movimenta sem parar, mesmo em momentos que demandam calma;
    • Impulsividade que coloca a segurança em risco: age sem pensar nas consequências, podendo correr para a rua, pular de lugares altos ou mexer em objetos perigosos. Também pode apresentar comportamentos agressivos frequentes, como morder, empurrar ou bater sem um motivo claro;
    • Grande dificuldade para seguir a rotina: tarefas simples, como guardar os brinquedos, tomar banho, comer ou ir dormir, geram resistência intensa todos os dias, tornando qualquer mudança de atividade muito difícil e desgastante para a criança e para a família.

    “Se a criança apresenta um nível de agitação muito acima do esperado para a idade, ou uma dificuldade extrema de se concentrar dentro do esperado para a idade, não conseguindo permanecer sentada por mais do que 3 segundos, já é possível acompanhar de perto”, destaca Bárbara.

    Como funciona a investigação do TDAH na infância?

    O diagnóstico do TDAH em crianças pequenas é um processo clínico e multidisciplinar, feito por médicos, psicólogos e, quando necessário, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais da saúde.

    Como não existem exames de laboratório capazes de identificar a condição, a avaliação é baseada na observação detalhada do comportamento da criança, no histórico de desenvolvimento, nos relatos da família e da escola, além da exclusão de outras condições que podem provocar sintomas semelhantes, como ansiedade e transtornos do sono.

    Além disso, os sintomas precisam estar presentes em diferentes ambientes, como em casa e na escola, persistir por um período prolongado e causar prejuízos reais na aprendizagem, na socialização ou na rotina da criança. Só depois de uma investigação cuidadosa é que a equipe pode confirmar ou descartar o diagnóstico de TDAH.

    Por que começar o acompanhamento médico mesmo sem um diagnóstico fechado?

    Mesmo quando ainda não é possível confirmar o TDAH, o acompanhamento médico consegue monitorar o desenvolvimento da criança ao longo do tempo e identificar precocemente qualquer alteração que precise de atenção.

    Quanto mais cedo os profissionais acompanham a evolução dos sintomas, mais fácil é diferenciar o que faz parte do desenvolvimento normal do que realmente indica um transtorno.

    Durante o período, a família também recebe orientações sobre estratégias para lidar com os comportamentos da criança, melhorar a rotina, estabelecer limites e estimular o desenvolvimento de habilidades importantes, como atenção, linguagem e autorregulação.

    Se os sintomas diminuírem com o amadurecimento, provavelmente faziam parte de uma fase do desenvolvimento. Caso eles persistam ou fiquem mais intensos, a criança já estará sendo acompanhada e pode iniciar o tratamento adequado.

    Leia mais: Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar?

    Perguntas frequentes

    1. O que causa o TDAH na infância?

    É um transtorno neurobiológico de forte base genética. Alterações na regulação de neurotransmissores (como a dopamina) e fatores ambientais na gestação também podem influenciar.

    2. Existe exame de sangue ou de imagem para detectar o TDAH?

    Não. O diagnóstico é 100% clínico, baseado na observação do comportamento da criança em diferentes ambientes e no relato de pais e professores.

    3. Qual é a diferença entre birra normal e sintoma de TDAH?

    A birra comum cede após o acolhimento ou distração. No TDAH, a impulsividade e a desregulação emocional são extremas, frequentes e muito difíceis de conter.

    4. Crianças com TDAH demoram mais para falar?

    Não necessariamente, mas atrasos na fala podem coexistir com o TDAH. A dificuldade de comunicação também pode gerar uma agitação parecida com o transtorno.

    5. Qual a diferença entre TDAH e autismo (TEA)?

    No TDAH, o foco principal é a desatenção e a hiperatividade. No autismo, o foco está em dificuldades de comunicação social, interesses restritos e comportamentos repetitivos. Uma criança pode ter ambos.

    6. O TDAH tem cura?

    Não tem cura, pois é uma condição neurobiológica que acompanha a pessoa ao longo da vida. No entanto, com o tratamento adequado, a criança aprende a controlar os sintomas e tem uma vida normal.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

  • Altas habilidades e superdotação: o que é, sinais mais comuns e como identificar

    Altas habilidades e superdotação: o que é, sinais mais comuns e como identificar

    Normalmente confundidas com inteligência acima da média ou facilidade para tirar boas notas na escola, as altas habilidades e a superdotação são características do neurodesenvolvimento que fazem com que uma pessoa apresente um desempenho ou potencial muito acima da média em uma ou mais áreas do conhecimento.

    Ela não significa apenas ter um QI elevado, mas que ela pode aprender com muita facilidade, apresentar criatividade incomum, raciocínio rápido ou talento excepcional em determinados campos, mas nem sempre terá um bom desempenho em todas as disciplinas da escola.

    A Política Nacional de Educação Especial e a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhecem que pessoas com altas habilidades têm necessidades educacionais específicas e podem precisar de estímulos diferentes para desenvolver o próprio potencial.

    Sem o apoio adequado, muitas acabam enfrentando dificuldades emocionais, sociais e até baixo rendimento escolar, mesmo tendo um grande capacidade intelectual.

    Afinal, o que é altas habilidades e superdotação?

    As altas habilidades ou superdotação (AH/SD) é um termo utilizado para definir pessoas que possuem um desempenho visivelmente superior ou um grande potencial em uma ou mais áreas do conhecimento humano, quando comparadas à média da população da mesma idade e ambiente.

    No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) reconhece que as altas habilidades podem se manifestar em diferentes áreas, como a capacidade intelectual geral, o desempenho acadêmico, a criatividade, a liderança, as artes e a capacidade psicomotora.

    A superdotação não significa ser um gênio

    Ao contrário do senso comum, ter altas habilidades ou superdotação não significa saber tudo ou ser bom em absolutamente todas as áreas. Também não quer dizer que a criança será um gênio ou terá um desempenho extraordinário em todas as situações.

    Na verdade, a genialidade é algo muito raro e depende de uma combinação de talento, oportunidades, estudo e muitos anos de dedicação.

    A superdotação significa que a criança tem um potencial acima da média para aprender, raciocinar ou resolver problemas em uma ou mais áreas. Mesmo assim, ela continua sendo uma criança como qualquer outra: pode ter dúvidas, dificuldades, inseguranças, errar, sentir frustração e precisar de apoio ao longo do desenvolvimento.

    Em quais áreas as altas habilidades podem aparecer?

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 3% a 5% da população possui altas habilidades, que podem se manifestar em áreas como:

    • Capacidade intelectual geral: facilidade para aprender, raciocínio rápido, excelente memória e facilidade para compreender ideias mais complexas;
    • Habilidade acadêmica: desempenho acima da média em uma ou mais disciplinas, como matemática, ciências, história, literatura ou idiomas;
    • Criatividade: facilidade para criar soluções diferentes, imaginar novas ideias e pensar de forma original;
    • Liderança: capacidade de organizar grupos, influenciar pessoas, resolver conflitos e assumir responsabilidades desde cedo;
    • Artes: talento acima da média para música, dança, teatro, desenho, pintura ou outras formas de expressão artística;
    • Capacidade psicomotora: grande coordenação motora, equilíbrio, agilidade e facilidade para atividades físicas e esportivas.

    “A criança pode ter um desenvolvimento acima do esperado na área artística, e isso não quer dizer que ela vai extremamente bem na área acadêmica escolar. Muitas das muitas dessas crianças aprendem mais rápido, fazem perguntas complexas e demonstram grande curiosidade”, complementa a neuropediatra Bárbara Macedo.

    Quais são os sinais mais comuns?

    Cada criança apresenta características próprias, mas alguns comportamentos costumam chamar a atenção de pais e professores:

    • Curiosidade intensa e perguntas sobre assuntos complexos;
    • Vocabulário mais desenvolvido do que o esperado para a idade;
    • Facilidade para aprender de forma rápida e, muitas vezes, sozinha;
    • Grande capacidade de concentração em temas de interesse;
    • Criatividade acima da média;
    • Sensibilidade emocional e forte senso de justiça;
    • Memória muito desenvolvida.

    Crianças superdotadas também podem enfrentar dificuldades

    Segundo Bárbara, apesar do grande potencial para aprender, crianças com altas habilidades também podem enfrentar desafios importantes no dia a dia. O desenvolvimento intelectual costuma acontecer em um ritmo muito acelerado, mas o desenvolvimento emocional, social e até motor nem sempre acompanha a mesma velocidade.

    Na prática, uma criança pode compreender assuntos muito avançados para a idade e, ao mesmo tempo, reagir emocionalmente como qualquer outra criança da mesma faixa etária.

    Também vale destacar os casos de dupla excepcionalidade, em que as altas habilidades aparecem junto com outras condições, como transtorno do espectro autista (TEA), TDAH, dislexia ou outros transtornos do neurodesenvolvimento. Como uma condição pode dificultar a identificação da outra, a avaliação tende a ser mais complexa.

    Como é feita a identificação da superdotação?

    A avaliação é feita por uma equipe multidisciplinar e leva em consideração diferentes informações sobre a criança, incluindo:

    • Entrevistas com os pais ou responsáveis para conhecer o histórico do desenvolvimento;
    • Avaliação psicológica e neuropsicológica, com testes que analisam inteligência, memória, atenção e outras funções cognitivas;
    • Observação do comportamento e do desempenho no ambiente escolar.

    O objetivo não é apenas identificar um QI elevado, mas entender o perfil da criança, reconhecendo os pontos fortes, as dificuldades e as necessidades de desenvolvimento.

    A criança precisa de tratamento?

    As altas habilidades não são uma doença, logo, não precisam de um tratamento médico. No cotidiano, o mais importante é oferecer estímulos adequados para que a criança continue aprendendo e se desenvolvendo sem perder o interesse pelos estudos. Entre as estratégias mais utilizadas estão:

    • Enriquecimento curricular, com atividades mais desafiadoras;
    • Atendimento em programas voltados para altas habilidades;
    • Em alguns casos, a aceleração escolar, quando indicada pela equipe responsável.

    O acompanhamento psicológico também pode ser recomendado para ajudar a criança a lidar com ansiedade, perfeccionismo, frustrações, dificuldades de relacionamento ou outros desafios emocionais que possam surgir ao longo do desenvolvimento.

    Leia mais: Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar?

    Perguntas frequentes

    1. Qual o QI de uma pessoa superdotada?

    Tradicionalmente, escalas de testes de QI consideram superdotação uma pontuação a partir de 130. No entanto, a avaliação moderna vai muito além desse número.

    2. A superdotação é hereditária?

    A genética desempenha um papel importante na superdotação. É extremamente comum que pais de crianças superdotadas também apresentem características de altas habilidades, mesmo que nunca tenham sido diagnosticados.

    3. O que acontece se o superdotado não for identificado?

    Ele pode sofrer com tédio crônico, ansiedade, isolamento social, crises de identidade e mascarar sua capacidade para tentar se encaixar no grupo, desperdiçando seu potencial.

    4. O que é aceleração escolar e quando ela é indicada?

    É o adiantamento do aluno para uma série avançada. É indicada quando a maturidade intelectual e emocional da criança mostra que ela já domina o conteúdo da série atual e se beneficiará do novo desafio.

    5. O que é hiperfoco?

    É a capacidade de se concentrar intensamente e por longas horas em um assunto de interesse específico, ignorando distrações externas.

    6. O que os pais devem fazer ao suspeitarem de superdotação?

    Devem buscar a orientação da coordenação pedagógica da escola e o apoio de um psicólogo ou neuropsicólogo especializado na área para realizar uma avaliação formal.

    Veja também: Por que crianças superdotadas também precisam de apoio especializado?

  • Atraso na fala: o excesso de telas pode estar por trás do problema?

    Atraso na fala: o excesso de telas pode estar por trás do problema?

    O primeiro sorriso, os balbucios e, depois, as primeiras palavras e frases fazem parte de uma sequência natural do desenvolvimento infantil. Apesar de cada criança ter o próprio ritmo, existem alguns marcos esperados durante os primeiros anos de vida.

    Por volta dos 6 meses, o bebê começa a balbuciar sons. Entre os 10 e 12 meses, ele costuma falar as primeiras palavras com significado. Já entre os 18 meses e os 2 anos, o vocabulário cresce rapidamente, permitindo que a criança forme pequenas frases e se comunique cada vez melhor.

    Só que, nos últimos anos, com o aumento do tempo de exposição às telas na infância, não é comum que crianças cheguem aos 2 ou 3 anos com dificuldade para falar ou para se comunicar verbalmente.

    O atraso na fala pode ter diferentes causas, como alterações na audição e transtornos do neurodesenvolvimento, mas o uso excessivo de celulares, tablets e televisão também pode comprometer o desenvolvimento da linguagem, principalmente quando substitui as brincadeiras, as conversas e as interações com outras pessoas.

    Por que o cérebro do bebê precisa de pessoas (e não de telas) para falar?

    O desenvolvimento da fala não é um processo de repetição de palavras, mas um desenvolvimento biológico e social que depende muito do vínculo afetivo.

    O cérebro do bebê foi preparado para desenvolver a linguagem por meio da interação humana, observando o rosto de quem conversa, acompanhando o movimento da boca durante a fala, percebendo diferentes tons de voz, expressões faciais, sorrisos, gestos e respostas às próprias tentativas de comunicação.

    Sempre que um adulto conversa com um bebê, mesmo que ele ainda responda apenas com balbucios ou sons, existe uma troca constante de comunicação: a mãe fala, o bebê reage, a mãe interpreta aquela resposta e continua a conversa.

    Cada momento fortalece milhares de conexões entre os neurônios responsáveis pela linguagem, pela atenção e pela comunicação. Aos poucos, a criança aprende que sons possuem significado e descobre como utilizá-los para expressar desejos, emoções e necessidades.

    Já o celular, a televisão ou o tablet funcionam de maneira completamente diferente. Mesmo com imagens coloridas, músicas e personagens chamativos, o conteúdo não responde aos sons produzidos pela criança, não adapta a conversa ao momento vivido nem cria um vínculo afetivo.

    A comunicação acontece apenas em uma direção, fazendo com que o bebê participe muito pouco do processo, o que explica porque nenhum conteúdo digital consegue substituir as interações presenciais durante os primeiros anos de vida.

    O impacto dos vídeos educativos no atraso da linguagem

    Diversos pais recorrem a vídeos musicais, desenhos animados e conteúdos classificados como educativos acreditando que estão estimulando o desenvolvimento infantil.

    No entanto, estudos apontam que conteúdos digitais não oferecem os mesmos benefícios de uma conversa, de uma brincadeira ou de uma leitura compartilhada. Quando o uso acontece por tempo prolongado, o aprendizado da linguagem pode ser prejudicado.

    Nos primeiros anos de vida, o cérebro ainda está em pleno desenvolvimento e não consegue processar tantos estímulos ao mesmo tempo. Como a maioria dos vídeos infantis tem cenas que mudam rapidamente, cores muito chamativas, músicas o tempo todo e vários efeitos visuais, a atenção da criança fica presa ao movimento e às imagens, enquanto a linguagem acaba ficando em segundo plano.

    Na prática, a criança passa bastante tempo olhando para a tela, mas aprende pouco sobre como se comunicar. Ela pode decorar personagens, reconhecer músicas ou até repetir uma palavra ou outra, mas não vivencia o que realmente ajuda o cérebro a aprender a falar: olhar nos olhos de outra pessoa, imitar sons, ouvir perguntas, receber respostas, brincar, conversar e interagir com a família no dia a dia.

    Como a distração digital diminui o vocabulário familiar?

    O prejuízo das telas no atraso da fala não ocorre apenas quando o bebê usa o aparelho, mas também quando os pais estão distraídos pelo próprio celular. O fenômeno, conhecido como tecnociência, acontece quando a tecnologia interrompe ou reduz as interações entre os familiares, diminuindo o tempo de conversas, brincadeiras e momentos de atenção compartilhada.

    Quando pais passam boa parte do dia olhando para o celular, respondendo mensagens ou navegando nas redes sociais, eles acabam conversando menos com a criança sem perceber. Aos poucos, diminuem momentos importantes para o desenvolvimento da linguagem, como contar o que estão fazendo, nomear objetos da casa, cantar músicas, ler histórias ou responder aos balbucios do bebê.

    Pode até parecer pouco, mas são justamente as conversas do dia a dia que ensinam a criança a entender o significado das palavras e, mais tarde, a usá-las para se comunicar. Quanto maior for o contato com adultos falando, fazendo perguntas, esperando respostas e incentivando a interação, maiores são as oportunidades de o cérebro desenvolver as habilidades relacionadas à fala e à linguagem.

    Como saber se o atraso na fala é culpa do celular?

    Nem todo atraso na fala acontece por causa das telas, já que diferentes problemas de saúde também podem comprometer o desenvolvimento da linguagem.

    Ainda assim, quando a criança permanece várias horas por dia diante de dispositivos eletrônicos, alguns comportamentos merecem atenção e indicam a necessidade de uma avaliação médica, como:

    • Pouco contato visual: a criança raramente olha nos olhos dos pais durante as brincadeiras ou quando é chamada pelo nome;
    • Ausência de gestos comunicativos: depois do primeiro ano de vida, não aponta para o que deseja, não bate palmas, não faz o gesto de “tchau” e demonstra pouca intenção de se comunicar;
    • Baixo interesse pelas pessoas: prefere permanecer diante da tela e demonstra pouco interesse por brincadeiras com familiares ou outras crianças;
    • Crises intensas ao desligar o aparelho: quando o celular ou a televisão são retirados, a criança não procura outra atividade nem tenta chamar a atenção dos pais, apresentando choro intenso, irritação ou dificuldade para se acalmar.

    A presença de um ou mais sinais não confirma qualquer diagnóstico, mas indica que o desenvolvimento precisa de uma avaliação realizada por um profissional de saúde.

    O que fazer ao notar o atraso na fala?

    Ao notar que a criança está demorando para falar ou apresenta dificuldades para se comunicar, uma das primeiras medidas consiste em reduzir o tempo de exposição às telas.

    Para menores de 2 anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria recomendam evitar celulares, tablets e televisão, com exceção de videochamadas realizadas com familiares.

    Como o cérebro infantil apresenta grande capacidade de adaptação, a substituição das telas por interações humanas pode favorecer o desenvolvimento da linguagem.

    No dia a dia, também vale adotar algumas medidas simples, como:

    • Converse durante a rotina: fale com a criança durante o banho, as refeições, os passeios e as brincadeiras. Nomeie objetos, descreva o que está fazendo e faça perguntas simples;
    • Leia histórias todos os dias: mostre as figuras, diga o nome dos personagens, aponte objetos e incentive a criança a participar da leitura;
    • Cante músicas e cantigas infantis: repita palavras, faça gestos e incentive a criança a acompanhar a melodia e os movimentos;
    • Brinque sem usar telas: ofereça livros, massinhas, blocos de montar, desenhos, brinquedos de encaixe e atividades ao ar livre;
    • Responda às tentativas de comunicação: sempre que a criança apontar, balbuciar ou tentar falar uma palavra, responda e continue a conversa;
    • Guarde o celular durante os momentos em família: aproveite as refeições, as brincadeiras e o horário de dormir para dar atenção total à criança e conversar mais com ela.

    Se a criança continuar apresentando atraso na fala, pouca comunicação ou dificuldade para interagir, vale buscar uma avaliação médica. Dependendo da situação, poderá ser indicado o acompanhamento com um fonoaudiólogo, neuropediatra ou outro especialista para investigar a causa e iniciar o tratamento o mais cedo possível.

    Leia também: Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças?

    Perguntas frequentes

    1. Com quantos meses o bebê deve falar as primeiras palavras?

    O espero é que por volta dos 12 meses, o bebê comece a falar as primeiras palavras com significado, como “mama”, “papa” ou “água”.

    2. O uso de telas pode fazer o bebê apresentar sinais semelhantes ao autismo?

    Sim. O isolamento provocado pelas telas pode fazer com que o bebê manifeste comportamentos parecidos com o autismo, como não olhar nos olhos e não responder ao chamado.

    3. Como diferenciar o atraso por telas de um transtorno real?

    Ao fazer um detox digital rigoroso por algumas semanas, a criança com atraso por telas volta a interagir e melhora a comunicação. Se os sintomas persistirem, a causa pode ser neurobiológica.

    4. Quanto tempo leva para ver melhora após tirar as telas?

    A plasticidade cerebral infantil é alta. Em média, após duas a três semanas de corte total das telas e estímulo correto, os pais já notam melhora no contato visual e nos balbucios.

    5. Quando é a hora de procurar um fonoaudiólogo?

    Se o bebê completar 1 ano e meio (18 meses) sem falar nenhuma palavra, sem apontar ou sem fazer contato visual, mesmo após retirar as telas, é fundamental buscar a avaliação de um especialista.

    6. As telas podem causar gagueira em crianças pequenas?

    Não causam a gagueira diretamente, mas o hiperestímulo e a ansiedade gerados pelo ritmo acelerado dos vídeos podem sobrecarregar o cérebro da criança, fazendo com que ela trave ou repita sílabas ao tentar organizar o pensamento para falar.

    7. Se a criança já fala bem, o uso de telas está liberado?

    Não. Mesmo que a fala pareça desenvolvida, o excesso de telas continua agindo no sistema de recompensa do cérebro, podendo gerar sintomas de distúrbio de atenção, impulsividade, agressividade e dificuldade de sociabilização na escola.

    Confira: Comer em frente a telas faz mal? Conheça os riscos e como diminuir o hábito

  • Paladar infantil: por que comer vendo vídeos pode causar obesidade?

    Paladar infantil: por que comer vendo vídeos pode causar obesidade?

    Como uma forma de facilitar a alimentação das crianças, é comum o hábito de colocar desenhos, vídeos no celular, tablet ou televisão durante o almoço e o jantar.

    Só que, apesar da praticidade no dia a dia, a prática pode prejudicar o desenvolvimento da relação com os alimentos, alterar o funcionamento natural da fome e da saciedade e aumentar o risco de excesso de peso ao longo da infância.

    Durante os primeiros anos de vida, o cérebro da criança aprende a reconhecer sabores, texturas, cheiros e sinais enviados pelo organismo durante as refeições.

    Quando toda a atenção fica concentrada em vídeos, parte do aprendizado não acontece da maneira que deveria e a criança pode perder o interesse pelos alimentos, comer em quantidade maior do que precisa e criar hábitos alimentares que tendem a permanecer durante a adolescência e a vida adulta.

    Como o uso de telas durante as refeições afeta as crianças?

    Durante as refeições do dia, como almoço e jantar, a criança desenvolve habilidades importantes, como mastigar corretamente, perceber diferentes sabores e identificar quando a fome diminui.

    Se o celular, tablet ou televisão ocupam a maior parte da atenção, parte do processo de aprendizado acontece de forma automática, sem que o cérebro registre plenamente a experiência de comer.

    A distração provocada pelos vídeos reduz a percepção dos sinais naturais enviados pelo organismo, fazendo com que a criança continue aceitando colheradas mesmo depois de já ter ingerido a quantidade suficiente. Além disso, o contato frequente com telas durante as refeições dificulta a criação de uma relação saudável com os alimentos e aumenta a dependência de estímulos externos para comer.

    Também vale destacar o desenvolvimento da autonomia alimentar, uma vez que, para comer bem, a criança precisa aprender a pegar os alimentos, explorar diferentes consistências, recusar quando já está satisfeita e experimentar novos sabores. O uso constante de celulares, tablets e videogames interfere no processo e pode dificultar a construção de hábitos alimentares mais equilibrados.

    Por que comer vendo vídeos aumenta o risco de obesidade infantil?

    Quando uma criança come assistindo a vídeos no celular, tablet ou televisão, o cérebro fica tão sobrecarregado com os estímulos visuais e sonoros da tela que não consegue processar adequadamente o ato de se alimentar.

    Como a distração bloqueia a percepção dos sinais de saciedade que o estômago envia ao cérebro, pode ocorrer:

    • A criança demora mais para perceber que já está satisfeita, o que facilita o consumo de uma quantidade maior de comida do que o corpo realmente precisa;
    • A alimentação acontece de forma automática, sem atenção ao sabor, ao cheiro, à textura e à quantidade dos alimentos ingeridos;
    • O desenvolvimento do paladar fica prejudicado, já que a criança deixa de explorar os alimentos de forma natural e pode apresentar maior resistência para experimentar novos sabores;
    • O hábito de depender da tela para comer se fortalece, tornando cada vez mais difícil fazer refeições sem celular, tablet ou televisão;
    • As refeições costumam ser mais rápidas e menos conscientes, reduzindo o tempo necessário para o cérebro reconhecer os sinais de saciedade;
    • O consumo de alimentos ultraprocessados pode aumentar, já que crianças acostumadas a comer distraídas tendem a aceitar com mais facilidade produtos ricos em açúcar, gordura e sódio.

    “Se eu coloco uma tela, dou um prato de comida e, além de tudo, dou a comida na boca da criança, ela não faz a menor ideia do que está comendo. Ela simplesmente está abrindo a boca e mastigando porque está interessada na tela”, aponta a neuropediatra Bárbara Macedo.

    O que fazer se a criança não quer sentar à mesa sem o celular?

    No começo, pode ser difícil tirar a tela da rotina de uma criança que já se acostumou a comer assistindo a vídeos. Como o cérebro passa a esperar aquele estímulo durante as refeições, é comum a criança ter reações como irritação, choro e frustração quando o celular ou a TV são desligados.

    O ideal é que a mudança aconteça de maneira gradual, respeitando o tempo de adaptação da criança e mantendo uma rotina previsível. Veja algumas dicas:

    1. Mantenha a comida na mesa

    O maior erro dos pais no desespero para fazer o filho comer é pegar o prato e sair correndo atrás da criança pela casa dando comida na boca. Segundo Bárbara, o prato e o garfo devem permanecer na mesa.

    Se a criança levantar durante o almoço ou o jantar, não há necessidade de correr atrás. Ela pode caminhar um pouco e voltar para continuar a refeição. O importante é manter a regra de que a comida permanece na mesa.

    2. Avise antes de desligar a tela

    Antes da refeição, avise a criança para que o cérebro dela se prepare para o fim do estímulo. Frases simples, como “Daqui a 10 minutos vamos almoçar” ou “Quando o desenho terminar, chegou a hora de comer”, ajudam a preparar a criança para a mudança e tornam a transição mais tranquila.

    3. Comece por apenas uma refeição

    Na correria da vida moderna, tentar mudar tudo de uma vez pode ser exaustivo para os pais. Escolha uma refeição principal por dia (como o almoço de sábado ou o jantar, por exemplo) para desligar o celular e a TV. Quando o hábito já estiver tranquilo, você pode expandir a regra para as outras refeições.

    4. Incentive a participação da criança

    Sem a distração dos vídeos, os alimentos devem ocupar o centro da atenção. Vale incentivar a criança a observar as cores, sentir os aromas, experimentar diferentes texturas e participar da refeição.

    Também pode ser interessante convidá-la para pequenas tarefas, como escolher o copo, levar os talheres para a mesa ou ajudar a montar o próprio prato, de acordo com a idade.

    5. Dê o exemplo durante as refeições

    As crianças aprendem principalmente observando os adultos, então para ela entender que a mesa é um lugar de convivência, todos os celulares da casa devem ser guardados em outro cômodo durante o almoço ou o jantar.

    O que esperar dos primeiros dias?

    A criança pode reclamar, comer menos nas primeiras refeições e testar os limites dos adultos, que precisam ter paciência no início da transição. Estando saudável, ela não deixa de comer a ponto de sofrer desnutrição por recusar algumas refeições.

    Com o tempo, o organismo se adapta à nova rotina, e a tendência é que ela volte a comer de forma mais tranquila, prestando atenção ao sabor dos alimentos e reconhecendo melhor os sinais naturais de fome e saciedade.

    Confira: Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças?

    Perguntas frequentes

    1. O que é considerado “tela” hoje em dia?

    Tudo o que emite luz azul e gera estímulo visual ou sonoro: celulares, tablets, computadores, televisões, videogames e até as tecnologias usadas para tarefas escolares.

    2. Videochamadas com a família contam como tempo de tela?

    Não. As videochamadas com avós, tios ou pais não entram na contagem prejudicial, pois são consideradas interações sociais e afetivas com a figura humana.

    3. Qual o limite de tela recomendado para bebês de até 2 anos?

    O limite recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é zero. Nessa fase, o cérebro dobra de tamanho e precisa de estímulos do mundo real.

    4. Quanto tempo de tela uma criança de 3 a 5 anos pode usar?

    O recomendado é no máximo 1 hora por dia, somando todos os aparelhos (TV, tablet e celular), preferencialmente com conteúdos educativos e supervisão.

    5. Como as telas provocam atraso na fala dos bebês?

    A fala se desenvolve pela imitação de rostos, vozes e olhares humanos. Como as telas trazem estímulos prontos e rápidos, a criança deixa de interagir e de praticar a comunicação real.

    6. Quais são os piores horários para a criança usar telas?

    Durante as refeições, pois prejudica o paladar e a saciedade, e até duas horas antes de dormir, já que a luz azul reduz a melatonina e destrói a qualidade do sono.

    7. Quais os riscos das redes sociais para as meninas adolescentes?

    A exposição precoce provoca a comparação constante com padrões de beleza irreais, causando ansiedade, baixa autoestima e riscos elevados de distúrbios de imagem.

    Leia mais: Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar?

  • Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar? 

    Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar? 

    Em idades cada vez menores, as crianças e os adolescentes são expostos a uma grande quantidade de estímulos visuais e sonoros promovidos pelos celulares, tablets e televisões, as vezes durante várias horas por dia.

    Com o aumento da distração e da perda de interesse por atividades que precisam de mais concentração, os pais e os professores podem se perguntar se o comportamento indica um quadro de TDAH. Afinal, como diferenciar um transtorno do neurodesenvolvimento de um problema provocado pelo uso excessivo de telas?

    O transtorno de déficit de atenção é uma condição que afeta o funcionamento do cérebro e interfere na capacidade de manter o foco, controlar os impulsos e regular o nível de atividade. Ela costuma surgir ainda na infância, mas nem toda dificuldade de concentração ou comportamento agitado significa que a criança tenha o transtorno.

    No dia a dia, o consumo em excesso de vídeos curtos, cortes rápidos e jogos hiperestimulantes pode fazer com que o cérebro se acostume a receber estímulos intensos o tempo todo, funcionando de maneira acelerada, provocando sintomas que podem ser confundidos aos do TDAH, mas são resultado de um hábito digital inadequado.

    O que é o distúrbio de atenção causado por telas?

    O distúrbio de atenção causado pelas telas é uma condição comportamental que acontece quando o cérebro passa longos períodos exposto a estímulos intensos, rápidos e constantes, como vídeos curtos, jogos eletrônicos e conteúdos com mudanças frequentes de imagens e sons.

    Com o passar do tempo, a neuropediatra Bárbara Macedo explica que o cérebro se acostuma com o nível de estímulo e começa a preferir atividades que oferecem dopamina instantânea e sem esforço, como o deslizar de dedos em redes sociais de vídeos curtos, por exemplo. Fica muito mais difícil manter o foco em atividades que precisam de concentração prolongada, como estudar, ler, escrever ou até mesmo brincar de forma mais tranquila.

    O resultado é uma criança desatenta, inquieta, impaciente e que tende a perder rapidamente o interesse por tarefas consideradas menos estimulantes. Apesar da semelhança com os sintomas do TDAH, a origem do problema está relacionada principalmente aos hábitos digitais e ao excesso de exposição às telas.

    Segundo um levantamento do Datafolha com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas diariamente às telas, contrariando as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orientam evitar completamente o uso de telas por crianças menores de 2 anos, com exceção das videochamadas com familiares.

    Principais diferenças entre distúrbio por telas e TDAH

    Apesar da desatenção, a impaciência e a agitação estarem presentes nas duas situações, a origem e as características de cada uma são completamente diferentes. O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, ou TDAH, é um transtorno do neurodesenvolvimento com base genética e biológica.

    Em outras palavras, a criança nasce com a condição, que está relacionada a alterações no funcionamento de áreas do cérebro responsáveis pela atenção, pelo controle dos impulsos e pela regulação da atividade. Os sintomas costumam acompanhar a pessoa em diferentes fases da vida e aparecem em vários ambientes, como a casa, a escola e os momentos de lazer, independentemente da presença das telas.

    Já o distúrbio de atenção causado pelo uso excessivo das telas é uma alteração comportamental adquirida ao longo do tempo, diretamente relacionada aos hábitos e ao ambiente.

    A condição surge após a exposição frequente a vídeos curtos, jogos eletrônicos e outros conteúdos altamente estimulantes, segundo Bárbara, que fazem o cérebro se acostumar a buscar recompensas rápidas e constantes.

    Por que crianças com TDAH são mais atraídas pelos celulares?

    O cérebro de uma criança com TDAH apresenta alterações no funcionamento de áreas responsáveis pela atenção, pelo planejamento, pelo controle dos impulsos e pela motivação, que influenciam a ação da dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer, recompensa e motivação.

    Por isso, a criança costuma ter mais dificuldade para manter o interesse em atividades que demandam esforço e cuja recompensa demora para chegar. Isso torna os celulares, videogames e as redes sociais extremamente atraentes, porque oferecem recompensas quase imediatas, com curtidas, fases dos jogos, mudanças rápidas de imagens, sons e vídeos curtos.

    Como explica Bárbara, quando o TDAH não está sendo tratado adequadamente, seja por meio de acompanhamento profissional, terapias ou, em alguns casos, medicamentos, o cérebro tende a procurar formas mais fáceis de obter a estimulação de que precisa.

    Como os dispositivos digitais fornecem recompensas imediatas, a criança pode desenvolver uma preferência cada vez maior pelas telas e perder o interesse por outras atividades do dia a dia, como ler e escrever, por exemplo.

    Sinais de alerta: como saber se a tela está prejudicando seu filho?

    Quando a tecnologia começa a afetar negativamente o neurodesenvolvimento e a saúde mental dos mais jovens, Bárbara aponta que eles podem apresentar:

    • Irritabilidade intensa ao desligar as telas: a criança apresenta crises de choro, explosões de raiva ou comportamentos agressivos quando o celular, o tablet ou a televisão são desligados;
    • Tentativas frequentes de negociar mais tempo: a criança ou o adolescente insiste em conseguir mais alguns minutos de tela, faz promessas como “amanhã eu não uso” ou “depois eu compenso” e demonstra dificuldade para aceitar os limites estabelecidos;
    • Uso escondido dos aparelhos: levar o celular ou o tablet escondido para a escola, usar os dispositivos durante a madrugada ou desrespeitar as regras da família para continuar conectado também pode indicar um problema;
    • Perda de interesse por outras atividades: brincadeiras, esportes, leitura, desenhos e momentos com a família passam a parecer sem graça quando comparados às telas. A criança perde o interesse por atividades que antes faziam parte da rotina;
    • Isolamento social: o adolescente prefere passar o tempo livre nas redes sociais ou em jogos online em vez de conversar, brincar ou conviver pessoalmente com amigos e familiares;
    • Alterações no sono: dormir cada vez mais tarde, demorar para pegar no sono ou acordar cansado pode ser consequência do uso das telas, principalmente quando os aparelhos são utilizados pouco antes de dormir;
    • Alimentação sempre acompanhada por telas: a criança só aceita comer assistindo a vídeos ou desenhos e deixa de prestar atenção na própria refeição. Com o tempo, ela pode comer mais do que precisa, sem perceber os sinais de fome e saciedade.

    Nas crianças pequenas, o excesso de telas pode reduzir as interações com os adultos. A falta de contato visual, a dificuldade para imitar gestos e sons e a demora para falar as primeiras palavras merecem atenção, já que o desenvolvimento da linguagem depende da convivência e da comunicação com outras pessoas.

    Como fazer o detox digital antes de buscar um diagnóstico?

    O detox digital, que consiste em desconectar temporariamente de celulares, videogames e computadores, ajuda a diminuir o excesso de estímulos e permite avaliar com mais clareza o funcionamento do cérebro e a verdadeira origem dos sintomas. Segundo Bárbara, a transição deve ser feita de maneira gradual e estruturada:

    1. Crie uma rotina previsível

    Se você desligar a tela de uma hora para outra, a criança pode ficar irritada e ter crises de choro. O ideal é combinar os horários com antecedência e avisar quando o tempo estiver acabando, para ajudá-la a se preparar para a mudança.

    2. Troque a tela por outras atividades

    Além de tirar o celular ou o tablet, a criança precisa encontrar outras formas de brincar e se divertir. Você pode investir em atividades que estimulam o corpo e os sentidos, como:

    • Pintura com tintas ou lápis de cor;
    • Massinha de modelar;
    • Blocos de montar;
    • Brincadeiras ao ar livre, como correr, andar de bicicleta ou brincar na grama.

    Com o passar dos dias, muitas crianças voltam a se interessar por brincadeiras que haviam sido deixadas de lado por causa do excesso de tempo em frente às telas.

    3. Leve opções para os passeios

    Os restaurantes, consultas e salas de espera costumam ser momentos em que o celular vira a solução mais fácil para entreter a criança. Para evitar isso, leve uma bolsa com livros de histórias, cadernos para desenhar, revistas de atividades, lápis de cor e cartelas de adesivos.

    4. Evite telas nas refeições e antes de dormir

    Segundo Bárbara, as refeições devem acontecer sem celulares, tablets ou televisão ligados. Comer prestando atenção na comida ajuda a criança a reconhecer os sinais de fome e saciedade e favorece a convivência com a família.

    Também é importante desligar os aparelhos entre uma e duas horas antes de dormir. A luz emitida pelas telas reduz a produção de melatonina, hormônio que prepara o organismo para o sono, dificultando o descanso.

    5. Dê o exemplo

    As crianças aprendem principalmente pelo exemplo. Quando pais e cuidadores passam boa parte do tempo no celular, fica mais difícil mostrar que existem outras formas de brincar, se divertir e passar o tempo.

    O recomendado é reservar momentos em que toda a família deixa os aparelhos de lado para conversar, brincar ou fazer as refeições juntos, o que ajuda a hábitos mais saudáveis e fortalece os vínculos entre todos.

    Quando ir ao pediatra?

    Se a criança apresentar os seguintes sintomas, vale agendar uma consulta com o pediatra:

    • Alterações no desenvolvimento ou no comportamento: dificuldade importante para se concentrar, agitação acima do esperado para a idade, atraso para começar a falar, andar ou interagir com outras crianças;
    • Sinais relacionados ao uso das telas: irritabilidade intensa quando os aparelhos são desligados, isolamento social ou crises frequentes de choro;
    • Sintomas físicos persistentes: tosse leve por mais de uma semana, coceira na pele, falta de apetite por vários dias ou dores recorrentes, como dor de cabeça ou dor na barriga;
    • Mudanças no sono ou no intestino: dificuldade para dormir, pesadelos frequentes, prisão de ventre ou diarreia leve que persiste por mais de três dias.

    Na consulta, o pediatra avaliará o histórico da criança, o tempo de duração dos sintomas e o impacto que eles estão causando na rotina. Também poderá investigar se as dificuldades estão relacionadas ao excesso de telas, a algum transtorno do neurodesenvolvimento ou a outro problema de saúde.

    Leia mais: Desenvolvimento infantil: como a percepção dos pais ajuda no diagnóstico precoce?

    Perguntas frequentes

    1. Como o excesso de telas prejudica o sono infantil?

    A luz azul emitida pelos aparelhos inibe a produção de melatonina (o hormônio do sono). Como resultado, a criança demora mais para dormir e tem um sono mais agitado e superficial.

    2. O uso de telas pode atrasar a fala do bebê?

    Sim, a fala é desenvolvida pela imitação e pela troca de afetos humana. A tela é um estímulo passivo onde o bebê apenas assiste, o que prejudica a aquisição da linguagem e do vocabulário.

    3. Por que as crianças têm crises de raiva quando os pais desligam o celular?

    Porque as telas atuais são hiperestimulantes (cortes rápidos e luzes). Ao desligá-las abruptamente, o cérebro sofre uma queda brusca de dopamina, gerando frustração e incapacidade de autorregulação.

    4. O videogame online substitui a socialização real dos adolescentes?

    Não. Nos jogos online atuais, os jovens jogam isolados em seus quartos, e isso não substitui a troca de olhares, o afeto e o aprendizado social que acontecem em interações presenciais.

    5. O que é considerado “tela” para as crianças?

    Qualquer dispositivo que emita luz azul e ofereça estímulos visuais ou sonoros, como smartphones, tablets, televisões, notebooks, videogames e até aparelhos usados para tarefas escolares digitais.

    6. Qual é o tempo de tela recomendado para bebês de até 2 anos?

    O recomendado é zero telas. A única exceção aberta pelos órgãos de saúde são as videochamadas de curta duração para falar com parentes distantes, pois envolvem interação social.

    Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

  • Desenvolvimento infantil: como a percepção dos pais ajuda no diagnóstico precoce? 

    Desenvolvimento infantil: como a percepção dos pais ajuda no diagnóstico precoce? 

    É verdade que o desenvolvimento infantil não acontece de forma exatamente igual para todos, mas no dia a dia, a percepção da família também merece atenção. Quem convive diariamente com a criança costuma notar pequenas mudanças de comportamento, comunicação, interação social e aprendizado que podem passar despercebidas em consultas ou avaliações pontuais.

    Quando os responsáveis sentem que algo não está acontecendo como esperado, é importante levar a preocupação a sério, mesmo que ainda não exista um diagnóstico ou um exame que confirme alguma alteração.

    A grande maioria dos transtornos de desenvolvimento, como o TDAH ou atrasos na fala, tem o diagnóstico feito de forma clínica, baseada na observação do comportamento. E ninguém observa uma criança melhor do que quem cuida dela todos os dias.

    “Pais e mães têm uma percepção do filho que vai além de qualquer check-list. Não ignore esse sentimento, busque avaliação”, aponta a neuropediatra Bárbara Macedo.

    O papel do instinto materno e paterno no desenvolvimento infantil

    O desenvolvimento infantil é acompanhado de perto por mães e pais que convivem diariamente com a criança. A rotina, as brincadeiras, as conversas e os momentos compartilhados fazem com que a família conheça detalhes do comportamento e das necessidades do filho que muitas vezes passam despercebidos por outras pessoas.

    Com o passar do tempo, a familiaridade permite identificar também mudanças mais sutis, como dificuldades na fala, alterações no comportamento, problemas de interação social ou desafios na aprendizagem.

    Isso não significa que toda preocupação dos pais indique a presença de um transtorno ou atraso no desenvolvimento. As crianças possuem ritmos diferentes de crescimento e aprendizagem, e muitas variações fazem parte do desenvolvimento normal. Ainda assim, quando uma preocupação persiste por semanas ou meses, ela merece ser levada em consideração.

    Além de ajudar na identificação precoce de possíveis dificuldades, o olhar atento da família também contribui para que a criança tenha um desenvolvimento saudável. Quando ela recebe estímulos adequados, interação frequente, acolhimento emocional e apoio diante dos desafios, ela tende a desenvolver melhor as habilidades cognitivas, sociais e emocionais.

    Sinais de alerta no desenvolvimento do bebê e da criança

    Cada criança tem o próprio ritmo de desenvolvimento, mas existem marcos esperados para cada idade. Quando habilidades motoras, de linguagem ou de interação social demoram muito para surgir, é importante buscar orientação profissional. Veja alguns sinais de alerta:

    Sinais de alerta nos bebês (até 1 ano)

    Nessa fase, a atenção costuma estar voltada para o contato visual, a resposta aos estímulos sonoros, a interação social e o desenvolvimento motor.

    Aos 2 meses

    • O bebê não acompanha objetos em movimento com os olhos;
    • O bebê não reage a sons altos ou vozes próximas.

    Aos 4 a 6 meses

    • O bebê não sorri em resposta ao sorriso de outras pessoas (sorriso social);
    • O bebê não tenta alcançar brinquedos ou objetos próximos;
    • O bebê apresenta dificuldade para sustentar a cabeça.

    Aos 9 meses

    • O bebê não responde quando é chamado pelo nome;
    • O bebê não balbucia sons como “ba-ba” ou “da-da”;
    • O bebê apresenta pouco ou nenhum contato visual.

    Aos 12 meses

    • O bebê não aponta para pedir ou mostrar algo;
    • O bebê não realiza gestos simples, como dar tchau ou mandar beijo;
    • O bebê não engatinha ou não consegue permanecer em pé com apoio.

    Sinais de alerta em crianças pequenas (1 a 3 anos)

    Nesta faixa etária, a linguagem, a interação social e a autonomia motora costumam se desenvolver de forma mais intensa.

    Aos 18 meses (1 ano e meio)

    • A criança não fala palavras com significado, como “mamãe” ou “água”;
    • A criança não anda sozinha;
    • A criança anda frequentemente na ponta dos pés.

    Aos 2 anos

    • A criança não imita ações ou palavras de adultos;
    • A criança não consegue seguir instruções simples, como “pegue a bola”;
    • A criança perdeu habilidades que já havia adquirido, como falar palavras ou manter contato visual.

    Aos 3 anos

    • A fala é muito difícil de compreender para pessoas fora do convívio familiar;
    • A criança demonstra pouco interesse em brincar com outras crianças;
    • A criança apresenta brincadeiras repetitivas, como alinhar ou girar objetos continuamente, sem utilizá-los de forma funcional durante a brincadeira.

    Atenção à perda de habilidades

    A perda de habilidades já adquiridas é um dos sinais que mais precisam de atenção em qualquer idade. Quando a criança deixa de falar palavras que já conhecia, perde habilidades motoras, reduz o contato visual ou deixa de realizar comportamentos que antes eram comuns, a avaliação médica deve acontecer o mais rápido possível.

    Por que não esperar para procurar uma avaliação médica?

    O medo de um diagnóstico pode fazer com que algumas famílias escolham esperar para ver se a criança consegue se desenvolver no próprio tempo, só que nos primeiros anos de vida, o cérebro apresenta uma grande capacidade de adaptação e aprendizagem, o que é conhecido como neuroplasticidade.

    A criança consegue formar novas conexões cerebrais com facilidade, o que favorece o desenvolvimento de diversas habilidades.

    Quando os pais procuram ajuda logo nos primeiros sinais de preocupação, ela pode receber o apoio necessário em uma fase em que o cérebro aprende e se desenvolve com mais facilidade. Isso aumenta as chances de avanços importantes e pode reduzir dificuldades no futuro, favorecendo a autonomia e a qualidade de vida da criança.

    “Na pior das hipóteses, você vai ter a tranquilidade de saber que está tudo bem. Ou você pode descobrir que realmente tinha razão, mas que a gente conseguiu detectar algo precocemente, e é exatamente quando faz a maior diferença”, finaliza Bárbara.

    Leia mais: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização

    Perguntas frequentes

    1. Existe exame de sangue para detectar autismo ou atraso no desenvolvimento?

    Não, o diagnóstico de transtornos do desenvolvimento como o autismo (TEA) ou TDAH é totalmente clínico, baseado na observação do comportamento da criança por especialistas.

    2. Meu filho não olha nos olhos quando é chamado. Isso é normal?

    Não é o esperado. A falta de contato visual sustentado e a ausência de resposta ao chamado pelo nome são dois dos principais sinais de alerta no desenvolvimento social.

    3. Andar na ponta dos pés sempre é sinal de autismo?

    Não necessariamente, mas é um sinal de alerta que merece investigação se for um comportamento frequente, pois pode estar ligado a questões sensoriais ou motoras.

    4. Com quantos meses o bebê precisa começar a engatinhar?

    A maioria dos bebês engatinha entre os 7 e 10 meses. Contudo, o mais importante é que ele se desloque (mesmo arrastando) e consiga ficar em pé com apoio aos 12 meses.

    5. Qual médico especialista cuida do desenvolvimento infantil?

    O neuropediatra (ou neurologista infantil) e o psiquiatra infantil são os médicos especialistas mais indicados para diagnosticar e coordenar o tratamento de atrasos do desenvolvimento.

    6. Como registrar as minhas suspeitas para mostrar ao médico?

    Anote em um papel as atitudes que chamam sua atenção e grave vídeos curtos da criança em casa em momentos espontâneos de brincadeira, choro ou interação.

    7. O que são as “estereotipias” em crianças?

    São movimentos ou sons repetitivos feitos sem uma função aparente, como balançar as mãos, dar pulinhos frequentes ou andar em círculos, normalmente usados para autorregulação emocional.

    8. O uso de telas pode causar atraso no desenvolvimento?

    O uso excessivo de telas não causa autismo, mas prejudica a interação social e a estimulação real, gerando atrasos na fala, problemas de atenção e dificuldades de sono na primeira infância.

    9. Como o teste do pezinho ajuda no desenvolvimento infantil?

    Ele identifica precocemente doenças metabólicas e genéticas graves que, se não tratadas logo nos primeiros dias de vida, podem causar deficiência intelectual e severos atrasos de desenvolvimento.

    Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?