TDAH em adultos: por que o transtorno pode passar anos sem diagnóstico?

Homem adulto em consulta psicológica durante avaliação para TDAH

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, ou TDAH, é um distúrbio de neurodesenvolvimento que acomete entre 2.5% e 3% da população adulta mundial. No Brasil, cerca de 2 milhões de adultos convivem com a condição, que por muito tempo foi considerada um transtorno da infância e da adolescência.

Como já sabemos que o transtorno tem origem genética e está presente desde o nascimento, os sintomas acompanham a pessoa desde os primeiros anos de vida. Para pessoas que passam anos sem o diagnóstico, os sinais podem passar despercebidos ou ser interpretados como características da personalidade, falta de disciplina, distração excessiva ou até mesmo desinteresse pelas atividades do dia a dia.

“Existe um grupo de pessoas com TDAH que passa anos sem diagnóstico ou, quando tem seu diagnóstico, ele é invalidado por todo mundo: ‘não, não existia nada de TDAH’. Isso acontece especialmente em meninas”, explica a neuropediatra Bárbara Macedo.

O que é o TDAH e por que ele pode passar despercebido?

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta funções importantes do cérebro relacionadas à atenção, ao planejamento, ao controle dos impulsos e à organização das tarefas do dia a dia.

Apesar de normalmente associado a imagem de uma criança inquieta que não consegue se concentrar, o transtorno pode se manifestar de diferentes maneiras, atrasando o diagnóstico durante anos.

O predomínio do tipo desatento

O TDAH é dividido em três apresentações principais: predominantemente hiperativa/impulsiva, predominantemente desatenta e combinada. Quando a pessoa apresenta a forma desatenta, os sintomas normalmente não envolvem a agitação física clássica associada ao transtorno.

As dificuldades costumam estar mais relacionadas à falta de foco, aos esquecimentos frequentes, à desorganização e aos problemas para concluir tarefas e administrar o tempo.

No ambiente escolar, por exemplo, Bárbara explica que a criança costuma ficar no “mundo da lua”. Como ela não gera indisciplina, não atrapalha os professores e nem incomoda os colegas, a falta de atenção e o sofrimento passam completamente despercebidos.

De acordo com pesquisas, o diagnóstico tardio acontece especialmente em meninas, porque elas frequentemente apresentam predominância de desatenção em vez de hiperatividade física. A hiperatividade nelas muitas vezes é mental (pensamentos acelerados e ansiedade), o que torna a condição invisível aos olhos de pais e educadores.

Mecanismos de mascaramento (masking)

O masking, também conhecido como camuflagem social, é um mecanismo de defesa e enfrentamento desenvolvido por pessoas neurodivergentes, normalmente de maneira inconsciente, para esconder ou compensar as dificuldades causadas pelo transtorno no dia a dia.

Para evitar erros, esquecimentos ou críticas, por exemplo, é comum criar rotinas extremamente rígidas, usar listas para tudo, programar diversos alarmes no celular ou dedicar muito mais tempo do que o necessário para concluir tarefas.

Apesar de contribuir para reduzir os impactos dos sintomas na rotina, o esforço constante pode levar ao esgotamento físico e mental, aumentando o risco de Burnout, ansiedade crônica, depressão e baixa autoestima.

Principais sinais de TDAH em adultos

Na vida adulta, os sintomas de TDAH se manifestam de forma muito mais interna e comportamental, como:

  • Desorganização frequente e dificuldade para manter a rotina em ordem;
  • Esquecimento de compromissos, prazos e objetos do dia a dia;
  • Tendência a adiar tarefas, principalmente as mais longas ou burocráticas;
  • Dificuldade para começar atividades, mesmo quando elas são importantes;
  • Sensação de mente acelerada e pensamentos constantes;
  • Impulsividade em decisões, compras ou durante conversas;
  • Facilidade para se distrair com estímulos externos ou com os próprios pensamentos;
  • Dificuldade para manter a atenção em tarefas que exigem concentração prolongada;
  • Episódios de hiperfoco, passando horas concentrado em algo de grande interesse;
  • Irritabilidade e baixa tolerância a frustrações do cotidiano;
  • Oscilações emocionais e sensação frequente de não estar rendendo o próprio potential;
  • Cansaço mental causado pelo esforço constante para se organizar e manter o foco.

Consequências do TDAH não tratado ao longo da vida

Quando o TDAH não é tratado ao longo da vida, a pessoa acumula uma série de prejuízos emocionais, sociais e profissionais, como:

1. Ansiedade, depressão e baixa autoestima

Ao longo dos anos, quando o rendimento escolar ou profissional fica abaixo do esperado, a pessoa é frequentemente chamada de desatenta, incapaz ou preguiçosa. O esforço exaustivo para mascarar os sintomas e tentar se adequar ao padrão neurotípico também pode evoluir para quadros graves de ansiedade generalizada, depressão crônica e burnout.

2. Impacto na vida profissional e acadêmica

A falta de tratamento compromete diretamente a capacidade de gerenciar prazos, focar em tarefas longas e manter a organização. Na vida adulta, as pessoas com TDAH têm maior probabilidade de mudar de emprego frequentemente, pedir demissão por impulso ou serem demitidos devido a erros por distração e atrasos crônicos.

Também é comum encontrar pessoas extremamente inteligentes que não conseguem progredir na carreira ou que abandonaram a faculdade porque o modelo tradicional de ensino ou trabalho demanda uma atenção sustentada que o cérebro delas não consegue manter sem suporte.

3. Problemas em relacionamentos afetivos e familiares

Dificuldades com organização, gerenciamento do tempo, atenção e impulsividade são sintomas que podem causar situações que são frequentemente interpretadas pelos outros como falta de interesse, descuido ou irresponsabilidade.

Seja na família ou em relacionamentos, esquecer compromissos, interromper conversas, ter dificuldade para ouvir com atenção ou não cumprir tarefas combinadas podem causar conflitos e frustrações, afetando a comunicação e a convivência.

Como é feito o diagnóstico na vida adulta?

Como não existem exames de sangue, de imagem ou mapeamentos cerebrais que podem diagnosticar o TDAH, é necessário uma avaliação cuidadosa de um profissional de saúde mental especializado, a partir de etapas como:

  • Investigação do histórico desde a infância: como o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, os primeiros sintomas precisam ter surgido ainda na infância, normalmente antes dos 12 anos de idade, mesmo que não tenham sido reconhecidos ou tenham sido mascarados naquele período;
  • Entrevista clínica detalhada: o médico ou psicólogo avalia o histórico do paciente e utiliza questionários específicos para entender a frequência, a intensidade e o impacto dos sintomas na rotina atual;
  • Análise dos prejuízos no dia a dia: para confirmar o diagnóstico, os sintomas precisam causar dificuldades significativas em diferentes áreas da vida, como trabalho, estudos, relacionamentos ou organização da rotina;
  • Avaliação neuropsicológica: embora não seja obrigatória em todos os casos, pode ser recomendada para analisar funções cognitivas como atenção, memória, planejamento, controle dos impulsos e outras habilidades executivas.

O profissional também investiga outras condições que podem causar sintomas semelhantes, como ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono ou alterações hormonais.

Opções de tratamento para o TDAH em adultos

O tratamento ideal para o TDAH na vida adulta combina diferentes medidas para reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida, o que envolve especialmente:

  • Uso de medicamentos, que ajudam a regular os neurotransmissores no cérebro, principalmente a dopamina e a noradrenalina;
  • Terapia, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que ajuda a pessoa a lidar com os comportamentos moldados por anos sem diagnóstico.

Também é importante adotar pequenos ajustes no dia a dia, como a prática regular de atividade física, bons hábitos de sono e o uso de ferramentas de apoio (agendas, aplicativos de lembretes, alarmes e listas de tarefas).

Com o tempo, as estratégias ajudam a melhorar o foco, a organização e a gestão da rotina, reduzindo os impactos do transtorno nas atividades diárias, no trabalho e nos relacionamentos.

Leia mais: TDAH em adultos: 7 dicas para viver com mais foco

Perguntas frequentes

1. O que causa o TDAH?

O TDAH tem causa multifatorial, com forte base genética e neurológica. Segundo estudos, os fatores hereditários respondem por cerca de 80% dos casos, além de alterações na regulação de neurotransmissores como a dopamina.

2. TDAH tem cura?

Não, o TDAH é uma condição crônica do neurodesenvolvimento e não tem cura. No entanto, com o tratamento adequado, é perfeitamente possível controlar os sintomas e ter excelente qualidade de vida.

3. Qual médico procurar para investigar o TDAH?

O ideal é agendar uma consulta com um psiquiatra ou um neurologista, profissionais responsáveis por realizar a avaliação clínica, fechar o diagnóstico e prescrever medicamentos, se necessário.

4. O TDAH pode surgir apenas na idade adulta?

Não. Por ser um transtorno do neurodesenvolvimento, os sintomas obrigatoriamente começam na infância, antes dos 12 anos.

5. Todo mundo que tem TDAH precisa tomar remédio?

Não necessariamente. O uso de medicamentos depende da intensidade dos sintomas e do nível de prejuízo na vida da pessoa.

6. Quem tem TDAH têm inteligência abaixo da média?

Não, isso é um mito. O TDAH não afeta a capacidade intelectual do indivíduo, apenas altera apenas a habilidade do cérebro de gerenciar a atenção, o foco e a execução de tarefas cotidianas.

7. O TDAH pode melhorar com a idade?

Os sintomas de hiperatividade física tendem a diminuir ou se transformar em inquietude mental com o passar dos anos. No entanto, os desafios com desatenção, foco e memória de trabalho costumam persistir ao longo de toda a vida adulta.

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