É possível reverter o pré-diabetes? Endocrinologista explica

Pessoa realiza teste de glicemia com glicosímetro em casa para monitorar os níveis de açúcar no sangue, ilustrando o diagnóstico e o acompanhamento do pré-diabetes.

No Brasil, cerca de trinta milhões de pessoas convivem com o pré-diabetes, uma condição em que os níveis de glicose no sangue estão acima do normal, mas ainda não são altos o suficiente para configurar um quadro de diabetes tipo 2. Como normalmente não causa sintomas, é comum identificar a alteração apenas durante os exames de rotina.

Apesar de não ser considerada uma doença propriamente dita, o pré-diabetes funciona como um sinal de alerta de que o corpo já está encontrando dificuldades para controlar a glicose. Sem o acompanhamento adequado, a condição pode evoluir para o diabetes tipo 2 e aumentar o risco de complicações cardiovasculares, como infarto e AVC.

Mas afinal, como é possível reverter o pré-diabetes? Como o problem está relacionado principalmente à resistência à insulina, existem alguns hábitos que podem ajudar o organismo a utilizar o hormônio de forma mais eficiente e, consequentemente, reduzir os níveis de glicose no sangue.

O pré-diabetes tem cura?

Diferente do diabetes tipo 2, o pré-diabetes tem cura e o quadro pode ser totalmente revertido, de acordo com o endocrinologista André Colapietro. Como as células do corpo estão apenas começando a apresentar resistência à insulina, o pâncreas ainda consegue produzir o hormônio em boa quantidade e, por isso, é possível recuperar o controle da glicose por meio de mudanças no estilo de vida.

Na prática, a reversão acontece quando os exames de sangue voltam a mostrar níveis de glicose dentro da faixa considerada normal:

  • Glicemia de jejum: deixa de ficar entre 100 mg/dL e 125 mg/dL e volta a apresentar valores abaixo de 100 mg/dL;
  • Hemoglobina glicada: deixa de ficar entre 5,7% e 6,4% e volta a apresentar valores abaixo de 5,7%.

Vale destacar que, embora a reversão seja possível, isso não significa que o risco desaparece. Se você abandonar os hábitos saudáveis, os níveis de glicose podem voltar a subir ao longo do tempo, aumentando novamente o risco de desenvolver pré-diabetes ou diabetes tipo 2.

Como reverter o pré-diabetes?

1. Ajuste na alimentação e a contagem de carboidratos

As mudanças na alimentação são a primeira medida para reverter o pré-diabetes e fazer os níveis de glicose no sangue voltarem aos valores considerados normais.

O recomendado é reduzir o consumo de carboidratos simples e refinados, como arroz branco, pães, massas, doces e refrigerantes, pois eles são digeridos rapidamente e causam picos de glicose no sangue.

Em vez disso, a alimentação deve priorizar alimentos que ajudam a controlar os níveis de glicose e aumentam a sensação de saciedade ao longo do dia, como:

  • Vegetais e legumes como brócolis, couve, espinafre, abobrinha, cenoura, chuchu e berinjela, que são ricos em fibras e nutrientes importantes para a saúde;
  • Grãos integrais como aveia, arroz integral, quinoa, chia e linhaça, que ajudam a desacelerar a absorção do açúcar pelo organismo;
  • Frutas in natura como maçã, pera, laranja, morango e kiwi, consumidas preferencialmente com casca ou bagaço sempre que possível;
  • Proteínas magras como frango, peixe, ovos, tofu e cortes magros de carne, que contribuem para a manutenção da massa muscular e ajudam a prolongar a saciedade;
  • Leguminosas como feijão, lentilha, grão-de-bico e ervilha, que combinam fibras, proteínas e carboidratos de absorção mais lenta;
  • Gorduras saudáveis presentes no azeite de oliva, abacate, castanhas, nozes, amêndoas e sementes, que fazem parte de uma alimentação equilibrada e ajudam na saúde cardiovascular;
  • Laticínios com baixo teor de gordura, como leite, iogurte natural e queijos magros, quando indicados pelo profissional de saúde.

Como as necessidades nutricionais variam de acordo com a idade, o peso, o nível de atividade física e a presença de outras condições de saúde, sempre que possível, a alimentação deve ser planejada com o acompanhamento de um médico ou nutricionista.

2. Prática regular de exercícios físicos

A prática regular de exercícios ajuda os músculos a utilizarem a glicose como fonte de energia, reduzindo a quantidade de açúcar circulando no sangue e melhorando a sensibilidade à insulina. Como resultado, o organismo passa a responder melhor à ação do hormônio, facilitando o controle da glicemia.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que os adultos pratiquem entre 150 e 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada por semana, como caminhada rápida, ciclismo ou dança, ou entre 75 e 150 minutos de atividades vigorosas, como corrida e natação intensa.

A OMS também orienta a realização de exercícios de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana e destaca a importância de reduzir o tempo sedentário, evitando permanecer muitas horas seguidas sentado.

3. Perda de peso consciente e sustentável

O acúmulo de gordura corporal, especialmente a gordura visceral, localizada na região abdominal, libera substâncias inflamatórias que bloqueiam a ação da insulina. Para pessoas que estão acima do peso ou convivem com a obesidade, a perda de peso é necessária para melhorar a sensibilidade à insulina e facilitar o controle dos níveis de glicose no sangue.

“Mesmo a perda de 5 a 10% do peso corporal, para quem está acima do peso, já faz muita diferença. Quanto mais cedo agir, maiores as chances de evitar o diabetes”, explica André.

4. Melhora na qualidade do sono

Quando o corpo passa por noites de sono insuficientes ou de má qualidade (menos de 7 horas por noite), há um aumento na produção de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. O cortisol alto estimula o fígado a liberar mais glicose na corrente sanguínea e, ao mesmo tempo, aumenta a resistência à insulina nas células.

Além disso, a privação de sono desregula os hormônios da saciedade, aumentando o apetite por alimentos calóricos e doces no dia seguinte.

5. Uso de medicamentos quando indicado pelo médico

O medicamento normalmente prescrito para o pré-diabetes é a metformina, que atua diminuindo a quantidade de glicose produzida pelo fígado e aumentando a sensibilidade dos músculos à insulina.

O uso de remédios costuma ser indicado pelo endocrinologista para pacientes com maior risco de evolução para o diabetes tipo 2, como pessoas com obesidade severa, histórico de diabetes gestacional ou que não conseguiram baixar os níveis de glicose apenas com dieta e exercícios.

Quanto tempo leva para reverter o pré-diabetes?

O tempo necessário para reverter o pré-diabetes varia de pessoa para pessoa, pois depende de fatores como genética, idade, peso corporal e, principalmente, do comprometimento com as mudanças no estilo de vida.

Nas primeiras semanas após a adoção de hábitos mais saudáveis, o organismo já começa a responder melhor à insulina, o que ajuda a reduzir os picos de glicose após as refeições. Em alguns casos, os níveis de glicemia de jejum também podem começar a apresentar melhora nesse período.

No entanto, para confirmar que o pré-diabetes foi revertido, é necessário observar uma melhora consistente nos exames de laboratório, especialmente na hemoglobina glicada (HbA1c). Como o exame mostra a média dos níveis de glicose no sangue dos últimos dois a três meses, os resultados costumam aparecer de forma mais clara após cerca de 3 a 6 meses.

O que acontece se o pré-diabetes não for tratado?

Sem mudanças na alimentação, na prática de atividade física e em outros hábitos de vida, o pâncreas precisa trabalhar mais para produzir insulina, enquanto as células do organismo se tornam progressivamente mais resistentes à ação desse hormônio.

Com o passar dos anos, a sobrecarga pode levar ao desenvolvimento do diabetes tipo 2 e aumentar o risco de diversas complicações de saúde, como:

  • Diabetes tipo 2, quando os níveis de glicose permanecem elevados de forma persistente;
  • Doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC);
  • Pressão alta e alterações do colesterol, que aumentam ainda mais o risco cardiovascular;
  • Doença hepática gordurosa (esteatose hepática), conhecida popularmente como gordura no fígado;
  • Problemas nos rins, que podem surgir devido aos danos causados pela glicose elevada;
  • Lesões nos nervos, provocando sintomas como formigamento, dormência e perda de sensibilidade, principalmente nos pés e nas mãos;
  • Alterações na visão, que podem comprometer a saúde dos olhos ao longo do tempo.

Vale apontar que o pré-diabetes é uma condição silenciosa e não costuma causar sintomas evidentes, o que torna importante manter uma rotina periódica de exames de rotina.

Leia mais: Diabetes: quando usar medicamentos orais e quando a insulina se torna necessária?

Perguntas frequentes

1. Qual exame detecta o pré-diabetes e o diabetes?

Os principais exames são a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada, que medem a quantidade de açúcar circulando no sangue.

2. Qual o valor da glicemia em jejum no pré-diabetes?

O resultado do exame de sangue fica entre 100 miligramas por decilitro e 125 miligramas por decilitro.

3. Quem tem pré-diabetes pode comer doce?

O consumo deve ser evitado ao máximo e reservado para ocasiões muito raras e em quantidades bem pequenas.

4. O que é diabetes tipo 1?

É uma doença autoimune onde o próprio corpo destrói as células do pâncreas que produzem a insulina.

5. Quais são os sintomas clássicos do diabetes?

Os principais sintomas são sede excessiva, aumento da vontade de urinar, perda de peso sem motivo aparente, fome frequente e visão embaçada.

6. O que é a insulina e para que serve?

A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas que funciona como uma chave. Ela permite que o açúcar do sangue entre nas células para virar energia.

7. O diabetes é uma doença hereditária?

Existe um forte fator genético, principalmente no diabetes tipo 2. Quem tem pais ou irmãos com a doença tem maior risco de desenvolver a condição.

8. Quais são as principais complicações do diabetes não tratado?

A glicose alta por muito tempo danifica os vasos sanguíneos e pode causar infarto, derrame cerebral, problemas de visão, insuficiência nos rins e problemas de cicatrização nos pés.

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