Nos últimos anos, a busca pelo parto domiciliar cresceu como uma alternativa ao ambiente hospitalar, por ser um lugar em que algumas mulheres se sentem mais confortáveis e acolhidas. Ele é feito de maneira semelhante ao parto no hospital, em que a gestante é acompanhada por uma equipe de profissionais especializados, como obstetras, enfermeiros obstetras e parteiras.
No entanto, como o nascimento acontece fora de uma estrutura hospitalar, existem riscos que devem ser considerados e avaliados com cuidado.
De acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, a obstetrícia é uma especialidade com uma dinâmica imprevisível: um trabalho de parto pode transcorrer normalmente por horas e, em poucos minutos, se transformar em uma emergência que precisa de atendimento imediato e recursos disponíveis apenas em um hospital.
Por isso, a decisão pelo local do nascimento precisa se basear em alguns critérios rigorosos de segurança e na compreensão real dos riscos envolvidos. Vamos entender mais, a seguir.
Afinal, o parto domiciliar é seguro?
O parto domiciliar planejado é considerado seguro exclusivamente para gestações de baixo risco, desde que com acompanhamento de uma equipe qualificada e um plano de transferência rápida para o hospital, caso necessário. No entanto, há divergência entre os órgãos oficiais.
No Brasil, a prática não é recomendada pelo Ministério da Saúde, que considera o ambiente hospitalar o local mais seguro para o parto, devido à disponibilidade imediata de equipes multiprofissionais, banco de sangue, anestesia, medicamentos de uso restrito e estrutura para atender emergências maternas e neonatais.
Através da Nota Técnica nº 2/2021, a principal preocupação em relação ao parto domiciliar é a dificuldade de acesso imediato aos recursos necessários caso ocorra uma complicação inesperada durante o trabalho de parto ou logo após o nascimento.
Situações de emergência durante o parto domiciliar
Segundo Andreia, uma situação que está perfeitamente bem pode se transformar em uma emergência grave em questão de minutos. Mesmo em gestações saudáveis, complicações severas podem surgir de forma súbita e sem qualquer aviso prévio durante o pré-natal, como:
- Hemorragia pós-parto: se o útero não contrair adequadamente após a saída da placenta, a mulher pode perder grande quantidade de sangue em poucos minutos. A hemorragia pós-parto é uma das principais causas de morte materna no mundo;
- Sofrimento fetal por falta de oxigênio: pode ocorrer, por exemplo, devido à compressão do cordão umbilical. Sem atendimento imediato, há risco de morte ou de sequelas neurológicas permanentes;
- Distocia de ombro: acontece quando a cabeça do bebê nasce, mas os ombros ficam presos na pelve materna. É uma emergência que exige manobras rápidas para evitar lesões e asfixia;
- Prolapso de cordão umbilical: ocorre quando o cordão sai antes do bebê e pode ser comprimido durante o parto, interrompendo o fornecimento de oxigênio;
- Necessidade de reanimação neonatal: alguns recém-nascidos precisam de ajuda para iniciar a respiração após o nascimento, com suporte especializado e equipamentos adequados;
- Parada de progressão do trabalho de parto: ocorre quando o parto deixa de evoluir normalmente, podendo haver necessidade de cesariana de urgência;
- Aspiração de mecônio: acontece quando o bebê elimina mecônio no líquido amniótico e aspira esse material para os pulmões, o que pode causar problemas respiratórios importantes.
Andreia complementa que, mesmo quando há um médico presente no domicílio, ele pode ficar limitado pela falta de infraestrutura.
É possível utilizar um aparelho de cardiotocografia portátil para monitorar os batimentos cardíacos do bebê e as contrações uterinas, mas a grande questão é o que fazer caso seja identificado um sofrimento fetal agudo. No ambiente doméstico, os recursos para uma intervenção imediata são limitados.
O fator “tempo de transporte”
Um plano de parto domiciliar precisa prever a transferência para um hospital caso alguma coisa dê errado. Na obstetrícia, o tempo é um fator decisivo: o período gasto para colocar a gestante ou o recém-nascido no carro, enfrentar o trânsito e dar entrada no pronto-socorro fazem a diferença para evitar complicações graves e garantir a segurança da mãe e do bebê.
E quando o parto em casa é planejado?
Para aumentar a segurança, o parto domiciliar costuma ser indicado apenas em situações muito específicas, considerando critérios como:
- Gestação de baixo risco;
- Com apenas um bebê, posicionado de cabeça para baixo;
- Sem problemas de saúde maternos ou fetais;
- Gravidez a termo, entre 37 e 42 semanas;
- Acesso rápido a um hospital.
De acordo com Andreia, são muitos os critérios que precisam ser atendidos, e poucas gestações se encaixam perfeitamente em todos eles. Além disso, mesmo em gestações de baixo risco, complicações podem surgir de forma repentina, sem tempo suficiente para uma transferência segura ao hospital.
Doulas podem estar presentes no parto hospitalar?
No Brasil, a presença da doula em hospitais públicos e privados é garantida por lei em grande parte do país. Inclusive, a Lei Federal nº 14.737/2023 assegura que toda mulher tem o direito de ser acompanhada por uma pessoa de sua livre escolha durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.
No entanto, Andreia ressalta que a doula não substitui a equipe técnica. Ela não possui formação em enfermagem obstétrica ou medicina, e sua função é oferecer apoio emocional, acolhimento e conforto à gestante durante o trabalho de parto.
A doula pode auxiliar com técnicas de relaxamento, massagens, exercícios de respiração e medidas para aliviar o desconforto das contrações. Apesar de importante para a experiência da mulher, ela não realiza procedimentos médicos, não monitora a saúde da mãe e do bebê e não está habilitada a identificar ou tratar complicações obstétricas
Associação Brasileira de Enfermeiras Obstetras defende o parto domiciliar
Em contrapartida ao Ministério da Saúde, a Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO) defende que o parto domiciliar planejado pode ser uma opção segura para algumas gestantes.
Segundo um boletim científico divulgado pela entidade em 2023, existem estudos que apontam o parto em casa como uma alternativa possível para mulheres com gestações de baixo risco.
De acordo com a associação, quando o parto é cuidadosamente planejado e acompanhado por profissionais capacitados, ele pode estar associado a uma menor realização de intervenções médicas e apresentar resultados maternos e neonatais semelhantes aos observados em alguns serviços hospitalares.
Porém, a avaliação deve ser feita caso a caso, levando em consideração as características de cada gestação e a disponibilidade de uma rede de apoio e atendimento de emergência.
Quem NÃO deve fazer o parto domiciliar em hipótese alguma?
O parto domiciliar é absolutamente contraindicado para gestantes de alto risco ou que apresentem qualquer complicação que possa exigir intervenção médica imediata, como:
- Pré-eclâmpsia ou hipertensão gestacional;
- Diabetes gestacional ou diabetes pré-existente;
- Doenças crônicas maternas, como problemas cardíacos, renais, neurológicos ou distúrbios de coagulação;
- Bebê prematuro (antes de 37 semanas);
- Bebê em posição pélvica (sentado) ou transversa;
- Gestação múltipla (gêmeos ou mais);
- Restrição de crescimento fetal;
- Placenta prévia;
- Alterações no líquido amniótico, como oligoidrâmnio ou polidrâmnio;
- Residência distante de um hospital com centro cirúrgico e UTI neonatal;
- Ausência de uma equipe técnica qualificada para acompanhar o parto e reconhecer emergências rapidamente.
Andreia ainda complementa que mulheres com cesárea anterior que desejam tentar um parto vaginal jamais deveriam considerar o parto domiciliar, devido ao risco de ruptura uterina.
O que é necessário para um parto em casa planejado?
Para realizar um parto domiciliar, é necessário que haja uma equipe capacitada em parto domiciliar, com treinamento específico para monitoramento de sinais de complicações. A equipe precisa levar equipamentos portáteis, como um cardiotocógrafo, além de materiais para sutura, soros, acessos venosos e medicamentos de emergência.
Por fim, é fundamental que exista um plano para uma possível transferência ao hospital, com a maternidade de referência já definida e o trajeto previamente planejado.
Como algumas emergências obstétricas podem evoluir em poucos minutos, chegar ao hospital o mais rápido possível pode fazer toda a diferença para a segurança da mãe e do bebê.
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Perguntas frequentes
1. Como o nervosismo pode afetar o parto em casa?
O medo, a ansiedade e o estresse podem aumentar a liberação de adrenalina no organismo, o que pode deixar as contrações mais intensas e frequentes, reduzindo a oxigenação do bebê e aumentando o risco de sofrimento fetal.
2. Qual é a distância ideal até um hospital?
O ideal é que a casa fique a, no máximo, 15 a 20 minutos de uma maternidade de referência.
3. Médicos podem fazer partos em casa?
Sim, não existe proibição para que médicos acompanhem partos domiciliares. Porém, mesmo com uma equipe experiente, o ambiente doméstico não conta com recursos como centro cirúrgico, banco de sangue e UTI.
4. Qual é a diferença entre doula e enfermeira obstétrica?
A doula oferece apoio físico e emocional, com massagens, técnicas de respiração e acolhimento. Já a enfermeira obstétrica é uma profissional de saúde habilitada para acompanhar o trabalho de parto, monitorar mãe e bebê e realizar partos de baixo risco.
5. É possível ter um parto humanizado no hospital?
Sim, o parto humanizado não depende do local, mas do respeito às escolhas da mulher, da liberdade de movimento e do uso apenas das intervenções realmente necessárias.
6. Como o bebê é monitorado durante o parto em casa?
A equipe acompanha os batimentos cardíacos do bebê com aparelhos portáteis, como o sonar Doppler ou o cardiotocógrafo, realizando avaliações periódicas durante o trabalho de parto.
7. Como é feito o alívio da dor no parto domiciliar?
No parto em casa não é possível utilizar anestesia peridural. Por isso, o alívio da dor é feito com medidas como banho morno, massagens, exercícios com bola de pilates, técnicas de respiração e compressas quentes.
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