O sofrimento fetal é uma condição em que o bebê não recebe a quantidade de oxigênio ideal dentro do útero, o que é conhecido como hipóxia. Quando isso acontece, o organismo dele tenta direcionar o oxigênio que resta para os órgãos mais importantes, como o cérebro e o coração.
Apesar de não ser considerado uma doença em si, o sofrimento fetal é uma situação de atenção e precisa de monitoramento cuidadoso da equipe médica para identificar rapidamente qualquer alteração no bem-estar do bebê.
Segundo a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, o sofrimento fetal pode acontecer em diferentes momentos da gestação e também durante o trabalho de parto, sendo classificado de acordo com o momento em que surgem os sinais de redução da oxigenação do bebê.
Afinal, o que é o sofrimento fetal?
O sofrimento fetal acontece quando o bebê não recebe a quantidade de oxigênio necessária através da placenta, ou quando existe alguma dificuldade para manter uma boa circulação de sangue entre a mãe, a placenta e o bebê.
Como o oxigênio é necessário para o funcionamento de todos os órgãos, qualquer redução importante na troca pode levar o organismo fetal a entrar em estado de adaptação e alerta. Segundo Andreia, o sofrimento fetal pode se manifestar de duas maneiras diferentes:
Sofrimento fetal crônico (anteparto)
O sofrimento fetal crônico acontece de forma gradual, ainda durante a gestação. Ele normalmente está relacionado a problemas na placenta, como entupimentos ou infartos placentários, que fazem com que o bebê receba menos oxigênio e nutrientes ao longo de dias ou semanas.
Com o tempo, a redução na oxigenação pode comprometer o desenvolvimento do bebê, causando um crescimento abaixo do esperado e diminuição do volume do líquido amniótico.
Sofrimento fetal agudo (intraparto)
O sofrimento fetal agudo acontece de forma rápida, na maioria das vezes durante o trabalho de parto. O próprio parto funciona como um momento de estresse natural para o bebê, porque, a cada contração, o útero comprime temporariamente os vasos sanguíneos e reduz a passagem de sangue e oxigênio.
Um bebê saudável costuma ter uma boa reserva de oxigênio para tolerar as alterações sem dificuldade, mas quando a reserva já está reduzida ou quando as contrações são muito intensas, frequentes ou prolongadas, o bebê pode apresentar sinais de sofrimento fetal agudo e precisar de avaliação imediata da equipe médica.
O que acontece no corpo do bebê durante o sofrimento fetal?
Quando o oxigênio começa a diminuir, o organismo do bebê entra em um mecanismo de defesa para tentar se proteger. O corpo passa a economizar energia e direciona o fluxo de sangue disponível para os órgãos mais importantes, chamados de órgãos nobres, como o cérebro, o coração e as glândulas suprarrenais.
De maneira geral, o processo é uma tentativa natural de preservar as funções vitais enquanto o bebê enfrenta a redução da oxigenação. Por isso, o monitoramento fetal durante a gestação e o parto é tão importante: os médicos precisam identificar rapidamente os primeiros sinais de que o bebê pode não estar tolerando bem a falta de oxigênio.
Se a hipóxia se prolongar por muito tempo ou se tornar muito intensa, o cérebro pode começar a sofrer danos pela falta de oxigenação adequada, aumentando o risco de complicações e sequelas neurológicas após o nascimento.
Como o médico descobre o sofrimento fetal durante o parto?
Durante o parto, a equipe médica acompanha o bebê o tempo todo para avaliar se ele está recebendo oxigênio adequadamente. As duas principais formas de identificar um possível sofrimento fetal são:
Alterações nos batimentos cardíacos do bebê (cardiotocografia)
A cardiotocografia é o exame mais utilizado para acompanhar o bem-estar fetal durante o trabalho de parto. Nele, dois sensores são posicionados na barriga da gestante: um monitora as contrações uterinas e o outro registra os batimentos cardíacos do bebê.
No exame, Andreia explica que a equipe observa alguns sinais importantes:
- Frequência cardíaca fetal, pois é esperado que os batimentos do bebê em média, entre 110 e 160 batimentos por minuto;
- Variabilidade dos batimentos, uma vez que o coração do bebê não deve bater de forma completamente uniforme. Pequenas oscilações são um sinal de boa oxigenação e de funcionamento adequado do sistema nervoso fetal;
- Aumentos temporários da frequência cardíaca, normalmente associados aos movimentos do bebê, que costumam indicar boa vitalidade fetal;
- Desacelerações cardíacas, que podem ser benignas, mas determinados padrões (especialmente quando acontecem repetidamente após as contrações) podem sugerir que o bebê está tendo dificuldade para tolerar o trabalho de parto.
Presença de mecônio no líquido amniótico
O mecônio é a primeira evacuação do bebê, uma substância mais grossa e esverdeada que normalmente seria eliminada apenas depois do nascimento.
Em algumas situações de estresse ou falta de oxigênio, Andreia explica que o bebê pode evacuar ainda dentro do útero. Quando a bolsa rompe e o líquido amniótico fica verde ou escuro, a equipe médica aumenta a atenção, principalmente se também existirem alterações nos batimentos cardíacos do bebê.
Como o líquido amniótico é deglutido pelo feto e também pode ser aspirado, existe o risco de o bebê aspirar o mecônio para os pulmões antes ou durante o nascimento. Segundo Andreia, quando o mecônio se mistura ao líquido amniótico e é aspirado, ele pode irritar os pulmões e os brônquios do bebê, causando uma condição chamada pneumonite meconial.
A médica destaca ainda que a presença de mecônio, principalmente quando ele é mais espesso e em grande quantidade, é considerada um sinal importante de sofrimento fetal.
Por que o estetoscópio antigo (Pinard) não é mais usado?
O estetoscópio de Pinard era usado antigamente para escutar os batimentos cardíacos do bebê durante a gestação e o trabalho de parto. Ele é um instrumento de madeira ou metal, parecido com uma pequena trombeta, que era apoiado na barriga da gestante para que o profissional de saúde pudesse ouvir o coração fetal diretamente.
Hoje, como o estetoscópio de Pinard não gera um registro gravado para análise e não permite acompanhar, em tempo real, como o coração do bebê reage durante o pico das contrações, ele foi substituído pelo sonar Doppler e pela cardiotocografia contínua durante o parto.
O que causa o sofrimento do bebê na hora do parto?
O sofrimento fetal agudo na hora do parto acontece quando o equilíbrio na troca de oxigênio entre a mãe e o bebê é quebrado. Durante o nascimento, cada contração do útero diminui temporariamente o fluxo de sangue que vai para a placenta.
Se o trabalho de parto estiver correndo muito bem e o bebê tiver boas reservas, ele passa por isso sem nenhum problema. Mas algumas situações específicas podem esgotar as reservas de oxigênio rapidamente, como:
1. Contrações muito intensas ou frequentes
Quando o útero contrai de forma excessiva ou com intervalos muito curtos, uma condição chamada de taquissistolia, a placenta não consegue se reoxigenar adequadamente entre uma contração e outra.
Assim, o bebê pode receber menos oxigênio, o que pode acontecer espontaneamente ou após o uso excessivo de ocitocina, medicamento utilizado para induzir ou acelerar o parto.
2. Trabalho de parto muito prolongado
Quando o trabalho de parto dura muitas horas, especialmente na fase ativa e com contrações fortes e frequentes, o bebê pode começar a gastar toda a sua reserva de energia e oxigênio.
Com o passar do tempo, isso pode dificultar a adaptação ao estresse natural do nascimento e aumentar o risco de sinais de sofrimento fetal, principalmente se já existir algum outro fator associado.
3. Problemas com o cordão umbilical
Algumas situações podem comprometer temporariamente a passagem de sangue e oxigênio pelo cordão umbilical, como:
- Circular de cordão apertada no pescoço;
- Nós verdadeiros no cordão umbilical;
- Compressão do cordão durante as contrações;
- Compressão do cordão durante a descida do bebê pelo canal de parto.
Dependendo da intensidade e da duração da compressão, os batimentos cardíacos do bebê podem apresentar alterações.
4. Problemas agudos na placenta
O descolamento prematuro da placenta (DPP) é uma emergência obstétrica grave em que a placenta se desprende parcial ou totalmente do útero antes do nascimento do bebê. Como é a placenta que leva oxigênio e nutrientes ao feto, a separação pode interromper rapidamente o fornecimento de oxigênio e colocar em risco tanto a mãe quanto o bebê.
5. Problemas de saúde maternos
Alterações importantes na saúde da mãe, como quedas bruscas da pressão arterial ou crises hipertensivas durante o parto, também podem reduzir o fluxo de sangue oxigenado que chega até a placenta e ao bebê.
Bebês que já entram no parto em risco
O tratamento do parto natural costuma ser contraindicado quando há histórico de sofrimento crônico, decorrente de diabetes descontrolado, pressão alta na gravidez, restrição de crescimento fetal ou insuficiência placentária, situações nas quais os bebês já começam o trabalho de parto sem nenhuma reserva de oxigênio.
O que o médico faz quando o bebê está sofrendo?
Quando o exame mostra que o bebê está em sofrimento, o primeiro passo é adotar medidas de reanimação fetal, feitas ainda na sala de parto para tentar normalizar o oxigênio:
- Mudar a grávida de lado: virar a mãe de lado (de preferência para o esquerdo) alivia a pressão do útero sobre as grandes veias, melhorando o fluxo de sangue para o bebê;
- Dar oxigênio para a mãe: a grávida recebe oxigênio por uma máscara para aumentar a quantidade que chega ao bebê;
- Ajustar a medicação: se o parto estiver sendo induzido com ocitocina, o soro é desligado imediatamente para diminuir a intensidade e a frequência das contrações;
- Hidratação na veia: dar soro para a mãe ajuda a estabilizar a pressão dela e melhora a circulação na placenta.
Se o coração do bebê se recuperar com as medidas, o trabalho de parto pode continuar com monitoramento contínuo. Se o traçado do coração não melhorar em poucos minutos, a equipe médica interrompe o processo e pode indicar uma cesárea de emergência.
O sofrimento fetal deixa sequelas no bebê?
Na maioria dos casos, o sofrimento fetal sendo identificado precocemente, os bebês que apresentam sinais transitórios de sofrimento fetal nascem saudáveis e sem consequências a longo prazo.
Os casos mais preocupantes costumam estar relacionados a situações em que a hipóxia é intensa e prolongada sem correção adequada, algo que hoje é muito menos frequente devido ao acompanhamento contínuo da equipe médica.
Nesses casos raros, a ausência de oxigênio pode causar a morte de neurônios, levando a complicações como:
- Atraso no desenvolvimento motor e cognitivo;
- Paralisia cerebral;
- Problemas de audição ou visão;
- Dificuldades de aprendizagem no futuro.
Existem formas de prevenir o sofrimento fetal?
A melhor maneira de prevenir o sofrimento fetal é através de um acompanhamento pré-natal de qualidade. Durante as consultas, o obstetra consegue identificar e tratar fatores que poderiam prejudicar a chegada de oxigênio até o bebê na hora do parto.
As medidas envolvem especialmente manter o controle das condições de saúde da mãe, como diabetes e hipertensão, acompanhar o crescimento do bebê e manter um estilo de vida mais saudável, com uma alimentação equilibrada, boa hidratação, sono adequado e evitando o cigarro, o álcool e outras substâncias que possam comprometer a oxigenação fetal.
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Perguntas frequentes
1. O que é o Perfil Biofísico Fetal (PBF) e quando ele é indicado?
É um exame de ultrassom detalhado, associado à cardiotocografia, que avalia cinco parâmetros do bebê: os batimentos cardíacos, os movimentos corporais, os movimentos respiratórios, o tônus muscular e o volume do líquido amniótico. Ele é indicado no terceiro trimestre para gestantes de alto risco para avaliar se há sinais de sofrimento fetal crônico.
2. Qual a diferença entre o sofrimento fetal e a asfixia perinatal?
O sofrimento fetal é o termo usado antes ou durante o parto para indicar que o bebê está em risco de falta de oxigênio. Já a asfixia perinatal é o diagnóstico dado após o nascimento, quando se confirma que o bebê realmente sofreu uma falta grave de oxigênio e apresenta critérios como sangue do cordão umbilical muito ácido (pH baixo) e baixa nota no teste de Apgar.
3. O cordão umbilical em volta do pescoço (circular de cordão) sempre causa sofrimento fetal?
Não. Cerca de um em cada três bebês nasce com o cordão em volta do pescoço e a maioria absoluta nasce de parto normal sem sofrer nada. O cordão é elástico e gelatinoso. Ele só causa sofrimento fetal se estiver muito apertado ou se der um “nó verdadeiro”, o que é raro.
4. A infecção urinária na grávida pode evoluir para sofrimento fetal?
Sim, as infecções urinárias não tratadas podem causar contrações uterinas precoces (trabalho de parto prematuro) ou infecção dentro do útero (corioamnionite). A infecção gera febre na mãe e no bebê, aumentando o consumo de oxigênio do feto e podendo levá-lo ao sofrimento.
5. Como a mãe pode perceber sinais de sofrimento fetal ainda em casa?
O principal sinal de alerta em casa é a redução drástica ou ausência de movimentos do bebê. Se o bebê costuma mexer bastante e, de repente, passar horas sem se mover (mesmo após a mãe se alimentar e deitar de lado), é fundamental ir à maternidade imediatamente para fazer uma avaliação.
6. Quantas vezes o bebê deve mexer por dia para ser considerado saudável?
Não existe um número exato universal, pois cada bebê tem seu ritmo. No entanto, a regra geral dos obstetras é que o bebê deve se mexer pelo menos 4 a 6 vezes em um período de 1 a 2 horas, logo após as principais refeições da mãe.
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