Seja no ritual pós-banho ou para aliviar aquela coceira incômoda, o uso das hastes flexíveis de algodão, conhecido como cotonete, ainda faz parte da rotina de muitos brasileiros. Só que, ao contrário do que parece, ele não limpa de verdade o canal auditivo e ainda pode te causar uma série de problemas.
O ouvido já possui um sistema natural de proteção e autolimpeza que funciona sem a necessidade de objetos introduzidos no canal auditivo. Inclusive, a cera produzida pela região, chamada cerúmen, funciona como uma barreira natural de proteção, ajudando a impedir a entrada de poeira, microrganismos e outras impurezas.
Quando o cotonete é introduzido no canal auditivo, parte da cera pode ser empurrada para regiões mais profundas, favorecendo obstruções, irritações e até mesmo lesões. Vamos entender mais, a seguir.
Por que nós produzimos cera de ouvido? (ela não é sujeira!)
O cerume, ou cera de ouvido, é uma secreção natural produzida pelo próprio corpo, formada pela mistura de secreções das glândulas sebáceas, queratina e células descamadas da pele. Ela funciona como uma espécie de mecanismo de defesa do organismo, atuando a partir de três ações:
- Barreira protetora: devido à sua textura pegajosa, ela atua como uma fita adesiva natural, retendo poeira, sujeira, pelos e pequenas partículas que poderiam chegar até o tímpano;
- Ação bactericida e antifúngica: a cera possui propriedades químicas e um pH levemente ácido que ajudam a combater a proliferação de microrganismos. Sem ele, o ouvido fica mais exposto a infecções causadas por fungos e bactérias;
- Lubrificação: a cera evita que a pele sensível do canal auditivo fique ressecada, descame ou apresente fissuras, ajudando a prevenir a coceira persistente na região.
Portanto, ao tentar remover toda a cera do ouvido, você deixa a região mais desprotegida e exposta a riscos desnecessários.
O mecanismo de autolimpeza do corpo
O ouvido já possui um sistema natural de autolimpeza que funciona de forma contínua, sem necessidade de cotonetes ou de qualquer outro objeto introduzido no canal auditivo.
A pele que reveste a parte interna do ouvido cresce lentamente em direção à saída da orelha, promovendo um movimento natural que empurra gradualmente o excesso de cerume para a região externa. O processo ainda é impulsionado pelos movimentos naturais da mandíbula, como ao falar, mastigar ou bocejar.
Durante o percurso, o cerume atua como uma espécie de barreira de proteção, carregando junto poeira, células mortas, microrganismos e pequenas partículas que ficam acumuladas na região, permitindo que tudo seja eliminado naturalmente pelo próprio organismo.
Basicamente, isso significa que, na maior parte das vezes, o ouvido consegue manter sozinho o equilíbrio entre a produção e a eliminação da cera, sem precisar de limpezas internas frequentes.
Qual o perigo de usar cotonete para limpar o ouvido?
Em vez de limpar o excesso de cerume no ouvido, o cotonete empurra a cera para o fundo do canal auditivo, interrompendo o processo natural de limpeza do corpo. Como a haste é mais larga do que o espaço disponível, ela funciona compactuando a cera contra o tímpano, podendo causar:
- Formação de tampão de cera: ao compactar a substância no fundo do ouvido, ela acumula e endurece. Isso bloqueia a passagem do som, causando perda temporária de audição, sensação de ouvido abafado, zumbido e tontura;
- Infecções (otites): o uso do cotonete remove a camada de cera protetora e pode causar microfissuras na pele sensível do canal auditivo. Sem proteção e com pequenas feridas, o ouvido fica exposto à entrada de água, bactérias e fungos, causando otites dolorosas;
- Perfuração do tímpano: a membrana do tímpano é extremamente fina e delicada, de modo que um movimento brusco, um esbarrão ou uma introdução mais profunda da haste pode rasgar a membrana, causando dor intensa, sangramento e a necessidade de tratamento médico ou cirúrgico para corrigir a lesão.
Afinal, como limpar os ouvidos do jeito certo?
Para limpar os ouvidos do jeito certo, a recomendação é simples: limpe apenas até onde o seu dedo indicador alcança, e o canal interno não deve ser mexido.
Com o ouvido úmido após o banho, envolva a ponta do dedo indicador em uma toalha macia (ou gaze) e limpe apenas o pavilhão auricular (a parte externa da orelha) e a entrada do canal auditivo. Isso é o suficiente para remover a cera que o próprio corpo já expeliu.
Durante o banho, a água morna do chuveiro que entra naturalmente na orelha ajuda a amolecer o excesso de cera na borda externa, facilitando a remoção com a toalha depois. Não use jatos de água forte direcionados para dentro do ouvido.
Além do cotonete, nunca use grampos, tampas de caneta, chaves ou as unhas para coçar ou limpar o ouvido, pois o risco de ferimento e infecção é muito alto.
Quando é hora de procurar um médico?
É importante procurar avaliação médica, especialmente com um otorrinolaringologista, quando surgirem sintomas como:
- Sensação persistente de ouvido entupido;
- Diminuição da audição;
- Dor ou desconforto no ouvido;
- Zumbidos;
- Coceira intensa e frequente;
- Tontura;
- Saída de secreção, pus ou sangue;
- Sensação de pressão dentro do ouvido.
Ah, e se você sentir que seu ouvido está entupido, com o som abafado ou com acúmulo excessivo de cera, não tente resolver em casa. Nesses casos, o correto é procurar um médico para avaliar a causa do problema e realizar a limpeza de forma segura, quando necessário.
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Perguntas frequentes
1. Posso usar cotonete se for só na bordinha do ouvido?
Sim, o uso na parte externa (pavilhão auricular) é seguro. O erro está em introduzir a haste no canal auditivo. No entanto, uma toalha macia após o banho faz esse mesmo papel de forma mais segura.
2. O que acontece se eu perfurar o tímpano com o cotonete?
Você sentirá uma dor aguda imediata, seguida de sangramento ou saída de secreção e diminuição da audição. Na maioria dos casos, o tímpano se regenera sozinho em algumas semanas, mas é obrigatório passar por avaliação médica para evitar infecções crônicas.
3. Sinto muita coceira no ouvido. Se não posso usar cotonete, faço o quê?
A coceira normalmente é sinal de ressecamento (muitas vezes causado pelo próprio uso do cotonete que tirou a proteção) ou de fungos. Para aliviar, você pode usar uma compressa morna pelo lado de fora. Se persistir, consulte um médico, ele pode receitar gotas específicas.
4. Água oxigenada ajuda a derreter a cera em casa?
Não use por conta própria. A água oxigenada pode borbulhar e expandir a cera, piorando o entupimento, além de correr o risco de irritar a pele sensível do canal auditivo ou causar dor si houver alguma lesão oculta.
5. Cotonetes ecológicos (de papel ou bambu) são mais seguros?
Eles são melhores para o meio ambiente, mas o risco para a sua saúde auditiva é exatamente o mesmo. O problema não é o material da haste, mas sim o ato mecânico de empurrar a cera e o risco de ferir o canal.
6. O que é a lavagem de ouvido feita pelo médico?
É um procedimento simples onde o profissional injeta água morna ou soro fisiológico com uma seringa apropriada no canal auditivo para remover o excesso de cera compactada. Também pode ser feita a remoção por aspiração ou com pinças especiais.
7. Afinal, para que serve o cotonete se não posso usar no ouvido?
As hastes flexíveis foram criadas para funções de precisão: corrigir ou remover maquiagem, aplicar medicamentos em feridas pequenas na pele, limpar dobrinhas de bebês (como o umbigo), higienizar eletrônicos e fazer artesanato.
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