Autor: Dr. Gabriel Bordim Collaço Simomura

  • Esqueceu tudo de repente? Entenda a amnésia global transitória

    Esqueceu tudo de repente? Entenda a amnésia global transitória

    Imagine conversar normalmente e, de repente, não conseguir se lembrar do que aconteceu nos últimos minutos. A pessoa reconhece a própria família, sabe falar e consegue andar, mas passa a repetir perguntas como: “onde eu estou?”, “como cheguei aqui?” ou “o que aconteceu?”.

    Essa situação assustadora pode ser causada por uma condição chamada amnésia global transitória.

    Apesar de impressionar familiares e frequentemente ser confundida com um acidente vascular cerebral (AVC), a amnésia global transitória costuma ser benigna, temporária e deixar poucas ou nenhuma sequela permanente.

    Mesmo assim, todo episódio de perda súbita de memória deve ser avaliado imediatamente, pois outras doenças potencialmente graves podem provocar sintomas semelhantes.

    O que é amnésia global transitória?

    A amnésia global transitória é uma síndrome neurológica caracterizada por uma perda súbita da capacidade de formar novas memórias, acompanhada de dificuldade para recordar acontecimentos recentes.

    Durante o episódio, a pessoa:

    • Permanece acordada;
    • Reconhece a própria identidade;
    • Consegue conversar;
    • Mantém a capacidade de caminhar e realizar movimentos;
    • Não apresenta perda de consciência.

    O principal problema é que ela não consegue registrar novas informações.

    Por isso, pode repetir as mesmas perguntas diversas vezes. A pessoa ouve e compreende a resposta, mas pouco tempo depois já não se lembra dela e volta a perguntar a mesma coisa.

    A pessoa esquece quem ela é?

    Na maioria dos casos, não. Esse é um dos principais equívocos relacionados à amnésia global transitória.

    Durante o episódio, a pessoa geralmente:

    • Sabe seu nome;
    • Reconhece familiares e amigos;
    • Conhece sua profissão;
    • Mantém sua personalidade;
    • Conserva habilidades aprendidas ao longo da vida.

    O comprometimento ocorre principalmente na memória recente e na capacidade de formar novas lembranças durante o episódio.

    Alguns pacientes também apresentam dificuldade para recordar acontecimentos ocorridos pouco antes do início da crise, quadro chamado de amnésia retrógrada de curta duração.

    A perda da própria identidade, entretanto, é extremamente incomum na amnésia global transitória.

    Quais são os sintomas da amnésia global transitória?

    O quadro costuma começar de forma súbita. Os sinais mais característicos são:

    • Esquecimento repentino;
    • Repetição constante das mesmas perguntas;
    • Incapacidade de memorizar acontecimentos recentes;
    • Confusão em relação ao horário ou ao local;
    • Ansiedade provocada pelo próprio esquecimento.

    Ao mesmo tempo, algumas funções permanecem preservadas, como:

    • Linguagem;
    • Coordenação motora;
    • Consciência;
    • Capacidade de reconhecer pessoas;
    • Força muscular.

    Essa combinação de características ajuda os médicos a diferenciar a amnésia global transitória de outras condições neurológicas.

    Quanto tempo dura a amnésia global transitória?

    Na maioria das vezes, o episódio dura entre 2 e 8 horas. Por definição, os sintomas desaparecem completamente em até 24 horas.

    À medida que o quadro melhora, a pessoa recupera a capacidade de formar novas memórias e costuma voltar ao seu funcionamento habitual.

    Entretanto, geralmente permanece uma lacuna na memória referente ao período da crise e aos minutos ou horas imediatamente anteriores ao início dos sintomas.

    Ou seja, mesmo depois da recuperação, a pessoa pode nunca se lembrar exatamente do que aconteceu durante aquele período.

    O que pode desencadear uma amnésia global transitória?

    A causa exata da amnésia global transitória ainda não é totalmente conhecida. No entanto, alguns acontecimentos são frequentemente relatados antes do início dos episódios e podem atuar como desencadeantes em pessoas predispostas.

    Estresse emocional intenso

    Alguns episódios acontecem após situações de grande impacto emocional, como:

    • Receber uma notícia muito impactante;
    • Discussões importantes;
    • Luto;
    • Ansiedade intensa.

    Isso não significa que todo episódio de estresse possa provocar amnésia global transitória, mas situações emocionalmente intensas aparecem entre os desencadeantes descritos.

    Esforço físico vigoroso

    A amnésia global transitória também pode surgir após:

    • Exercícios muito intensos;
    • Levantamento de peso;
    • Corridas longas;
    • Atividades que envolvem esforço máximo.

    Manobra de Valsalva

    Esforços que aumentam temporariamente a pressão dentro do tórax, como a manobra de Valsalva também podem estar associados ao início do episódio.

    Entre eles:

    • Levantar objetos muito pesados;
    • Tossir intensamente;
    • Fazer força para evacuar.

    Contato com água muito fria ou muito quente

    Alguns pacientes relatam o início dos sintomas após situações como:

    • Entrar subitamente em água fria;
    • Tomar banhos muito quentes;
    • Mergulhar.

    Esses acontecimentos são descritos como possíveis gatilhos, mas não são considerados causas diretas da doença.

    Relação sexual

    A relação sexual também aparece entre os desencadeantes descritos em alguns estudos. Isso pode estar relacionado à combinação entre esforço físico e alterações transitórias da circulação cerebral.

    O estresse realmente pode afetar a memória?

    Sim. Situações de intenso estresse físico ou emocional desencadeiam respostas hormonais importantes no organismo, envolvendo substâncias como adrenalina e cortisol.

    Na amnésia global transitória, acredita-se que esses eventos possam estar associados a alterações transitórias no funcionamento do hipocampo, região do cérebro fundamental para a formação de novas memórias.

    Estudos realizados com ressonância magnética mostram pequenas alterações temporárias nessa região em parte dos pacientes, reforçando essa hipótese.

    No entanto, a causa exata da amnésia global transitória ainda não é completamente compreendida.

    Amnésia global transitória é um AVC?

    Na maioria das vezes, não. Entretanto, não é possível ter certeza apenas observando os sintomas em casa.

    Por isso, toda perda súbita de memória deve ser tratada inicialmente como uma situação que exige avaliação médica imediata.

    Além do AVC, outras condições podem causar manifestações semelhantes, como:

    • Crises epilépticas;
    • Hipoglicemia;
    • Traumatismo craniano;
    • Encefalites;
    • Intoxicações por medicamentos ou drogas.

    Somente a avaliação médica, associada aos exames considerados necessários, permite estabelecer o diagnóstico correto.

    Como os médicos fazem o diagnóstico?

    O diagnóstico da amnésia global transitória é principalmente clínico, ou seja, baseado nas características apresentadas durante o episódio.

    O médico também realiza um exame neurológico completo e pode solicitar exames para descartar outras possíveis causas da perda de memória.

    Ressonância magnética do cérebro

    A ressonância magnética é o exame de imagem mais útil na investigação.

    Quando realizada entre 24 e 72 horas após o início dos sintomas, pode revelar pequenas alterações no hipocampo.

    Entretanto, a ressonância também pode apresentar resultado completamente normal.

    Tomografia computadorizada

    A tomografia computadorizada é frequentemente realizada na emergência para excluir AVC hemorrágico ou outras alterações estruturais.

    Exames laboratoriais

    Podem ser solicitados exames para investigar alterações metabólicas ou outras condições, como:

    • Hipoglicemia;
    • Distúrbios eletrolíticos;
    • Infecções.

    Eletroencefalograma (EEG)

    O eletroencefalograma pode ser indicado quando existe suspeita de epilepsia como possível explicação para o episódio.

    Existe tratamento para a amnésia global transitória?

    Não existe um tratamento específico para a amnésia global transitória. Após excluir causas graves para a perda súbita de memória, o manejo pode envolver:

    • Observação clínica;
    • Controle dos sintomas;
    • Orientação e tranquilização do paciente e da família;
    • Investigação de possíveis fatores desencadeantes.

    Na maioria dos casos, a recuperação ocorre espontaneamente ao longo das horas.

    A amnésia global transitória deixa sequelas?

    Em geral, não. Após o episódio:

    • A memória volta ao funcionamento habitual;
    • As funções cognitivas permanecem preservadas;
    • Não ocorre perda permanente da inteligência.

    O que costuma permanecer é uma lacuna na memória correspondente ao período da crise.

    A pessoa pode saber, posteriormente, que passou por um episódio de amnésia porque familiares contaram o que aconteceu, mas não necessariamente conseguirá recuperar as lembranças daquele período.

    O problema pode acontecer novamente?

    Pode, mas a recorrência é relativamente incomum. Os números variam entre os estudos, mas novos episódios ocorrem em aproximadamente 5% a 15% dos pacientes ao longo da vida.

    Mesmo quando acontece uma nova crise, o prognóstico costuma permanecer favorável.

    A amnésia global transitória aumenta o risco de demência?

    As evidências atuais indicam que não. A amnésia global transitória não é considerada uma doença neurodegenerativa e não parece aumentar de maneira significativa o risco de desenvolver doença de Alzheimer ou outras demências.

    Da mesma forma, a maioria dos estudos mostra que a amnésia global transitória não aumenta de maneira importante o risco futuro de AVC.

    Isso não significa, porém, que fatores de risco cardiovasculares possam ser ignorados. Quando presentes, eles devem ser avaliados e tratados normalmente.

    Quando procurar atendimento imediatamente?

    Sempre que houver perda súbita de memória. Mesmo que o quadro pareça compatível com amnésia global transitória, não é possível confirmar o diagnóstico em casa.

    A avaliação se torna ainda mais urgente quando o esquecimento aparece acompanhado de:

    • Fraqueza em um lado do corpo;
    • Dificuldade para falar;
    • Alterações da visão;
    • Convulsões;
    • Perda de consciência;
    • Dor de cabeça muito intensa;
    • Febre;
    • Confusão persistente.

    Esses sinais podem indicar doenças graves que exigem diagnóstico e tratamento rápidos.

    Confira: Ansiedade causa esquecimento? Sinais de que a sua mente está sobrecarregada

    Perguntas frequentes sobre amnésia global transitória

    1. O que é amnésia global transitória?

    É uma perda súbita e temporária da capacidade de formar novas memórias, geralmente com duração de poucas horas e recuperação completa em até 24 horas.

    2. A pessoa esquece quem ela é?

    Na maioria dos casos, não. Ela costuma reconhecer a própria identidade, os familiares e informações pessoais importantes. O principal comprometimento ocorre na memória recente e na capacidade de formar novas lembranças durante o episódio.

    3. O estresse pode desencadear esse problema?

    Sim. Situações de intenso estresse físico ou emocional estão entre os possíveis desencadeantes mais frequentemente descritos.

    Entretanto, a causa exata da amnésia global transitória ainda não é totalmente conhecida.

    4. Amnésia global transitória é um AVC?

    Geralmente não. No entanto, os sintomas podem ser confundidos com os de outras condições neurológicas. Por isso, toda perda súbita de memória precisa ser avaliada imediatamente para excluir AVC e outras causas graves.

    5. Existe tratamento?

    Não existe tratamento específico para a amnésia global transitória. Depois que outras doenças graves são descartadas, o quadro costuma melhorar espontaneamente ao longo de poucas horas.

    6. Pode acontecer novamente?

    Sim, mas a recorrência é relativamente incomum e ocorre em uma minoria dos pacientes.

    7. A amnésia global transitória deixa sequelas?

    Na maioria das pessoas, não. A memória e as demais funções cognitivas retornam ao funcionamento habitual. O que geralmente permanece é apenas a ausência de lembranças referentes ao período em que ocorreu o episódio.

    Veja também: Exercícios físicos ajudam a proteger o cérebro? Saiba quais os melhores para praticar no dia a dia

  • Pressão arterial em idosos: por que a pressão aumenta com a idade e qual deve ser a meta?

    Pressão arterial em idosos: por que a pressão aumenta com a idade e qual deve ser a meta?

    É comum ouvir que é normal a pressão subir depois de certa idade. De fato, o envelhecimento favorece o aumento da pressão arterial, mas isso não significa que toda pressão elevada seja normal ou possa ser ignorada.

    A hipertensão arterial continua sendo um dos principais fatores de risco para infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e doença renal crônica, independentemente da idade.

    Ao mesmo tempo, a redução excessiva da pressão pode não ser bem tolerada por alguns idosos e provocar tonturas, desmaios e outros efeitos adversos.

    Por isso, embora atualmente a meta abaixo de 130/80 mmHg seja recomendada para a maioria dos idosos com hipertensão, o tratamento deve levar em consideração fatores como fragilidade, capacidade funcional, presença de outras doenças e tolerância aos medicamentos.

    Por que a pressão aumenta com o envelhecimento?

    O aumento da pressão arterial está relacionado a diversas mudanças que ocorrem no sistema cardiovascular ao longo dos anos. Uma das principais é o enrijecimento das artérias.

    Com o envelhecimento, os vasos sanguíneos perdem parte de sua elasticidade e tornam-se mais rígidos.

    Quando isso acontece, as artérias apresentam maior dificuldade para se expandir e acomodar o sangue bombeado pelo coração, o que favorece principalmente o aumento da pressão arterial sistólica, que corresponde ao primeiro número da medida.

    O que acontece com as artérias ao longo dos anos?

    As paredes das artérias possuem fibras elásticas que permitem que os vasos se expandam a cada batimento cardíaco.

    Com o avanço da idade, podem ocorrer alterações como:

    • Redução da elasticidade;
    • Aumento da deposição de colágeno;
    • Espessamento da parede dos vasos;
    • Calcificação arterial em alguns pacientes.

    Essas mudanças tornam os vasos mais rígidos e dificultam a acomodação do fluxo sanguíneo, favorecendo o aumento da pressão arterial.

    Por que a pressão sistólica sobe mais?

    Nos idosos, é muito comum ocorrer a chamada hipertensão sistólica isolada.

    Nesse quadro:

    • A pressão sistólica, que corresponde ao valor mais alto da aferição, está elevada;
    • A pressão diastólica, o valor mais baixo, permanece normal ou pode até diminuir.

    Esse padrão está diretamente relacionado à perda de elasticidade das grandes artérias e representa uma forma muito frequente de hipertensão após os 60 anos.

    Mesmo quando apenas a pressão sistólica está elevada, existe aumento do risco cardiovascular.

    Apenas a idade explica a hipertensão?

    Não. Embora o envelhecimento favoreça o aumento da pressão, diversos outros fatores contribuem para o desenvolvimento da hipertensão.

    Entre eles:

    • Excesso de peso;
    • Sedentarismo;
    • Alimentação rica em sal;
    • Diabetes;
    • Doença renal crônica;
    • Consumo excessivo de álcool;
    • Tabagismo;
    • Predisposição genética.

    Por isso, envelhecer não significa necessariamente desenvolver hipertensão. O estilo de vida e as condições de saúde acumuladas ao longo dos anos também exercem influência importante.

    Qual é o novo limite saudável da pressão em idosos?

    Essa é uma dúvida muito comum, e as recomendações mudaram nos últimos anos.

    De acordo com a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, a meta recomendada para a maioria dos idosos com hipertensão é manter a pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg.

    Em idosos muito frágeis, institucionalizados, com múltiplas doenças ou maior risco de quedas, metas menos rigorosas, como manter a pressão sistólica abaixo de 140 a 150 mmHg, podem ser mais apropriadas.

    Entretanto, o tratamento não deve ser igual para todos.

    Além da idade, devem ser considerados fatores como:

    • Estado funcional;
    • Grau de fragilidade;
    • Presença de outras doenças;
    • Tolerância ao tratamento;
    • Risco de hipotensão;
    • Expectativa de vida.

    Para idosos frágeis, muito idosos ou com condições que comprometam a expectativa de vida, a recomendação é reduzir a pressão até o menor valor que seja bem tolerado pelo paciente.

    Ou seja, o objetivo é oferecer proteção cardiovascular sem provocar efeitos adversos pelo excesso de redução da pressão.

    Pressão mais baixa é sempre melhor?

    Não necessariamente. Embora o controle adequado da hipertensão reduza o risco cardiovascular, valores excessivamente baixos podem não ser tolerados por alguns pacientes.

    Isso pode provocar:

    • Tonturas;
    • Desmaios;
    • Hipotensão sintomática;
    • Lesão renal aguda em alguns pacientes.

    O cuidado deve ser ainda maior em idosos frágeis, pessoas com 80 anos ou mais e pacientes que apresentam queda da pressão ao se levantar, condição chamada hipotensão ortostática.

    Por isso, quando a meta abaixo de 130/80 mmHg não é tolerada, o objetivo passa a ser atingir o menor valor de pressão que o paciente consiga manter com segurança.

    Como os médicos definem a meta ideal?

    Mais importante do que considerar apenas a idade cronológica é avaliar as condições gerais daquele idoso.

    Além dos valores da pressão arterial, o médico pode observar:

    • Se o idoso é independente para as atividades do dia a dia;
    • Presença de comprometimento cognitivo;
    • Grau de fragilidade;
    • Histórico de quedas;
    • Doenças cardiovasculares;
    • Função renal;
    • Uso de múltiplos medicamentos.

    Esse conjunto de informações ajuda a definir a estratégia de tratamento mais segura e eficaz para cada pessoa.

    Um idoso de 80 anos independente, ativo e com boa condição funcional pode ter necessidades diferentes das de outro paciente da mesma idade que apresente fragilidade importante e várias doenças associadas.

    O que é hipotensão ortostática?

    A hipotensão ortostática é a queda da pressão arterial que acontece quando a pessoa se levanta.

    Ela pode provocar sintomas como:

    • Tontura;
    • Sensação de fraqueza;
    • Visão turva;
    • Desequilíbrio;
    • Desmaio.

    Essa condição merece atenção especial em idosos porque pode aumentar o risco de quedas.

    Por isso, durante o tratamento da hipertensão, não basta observar apenas se os números da pressão diminuíram. Também é importante avaliar como o paciente se sente e se apresenta sintomas ao mudar de posição.

    Como é feito o diagnóstico da hipertensão?

    O diagnóstico de hipertensão não deve ser baseado em uma única medida isolada da pressão.

    Em geral, são necessárias:

    • Aferições repetidas;
    • Medidas realizadas com técnica adequada;
    • Avaliação do comportamento da pressão ao longo do tempo.

    Em alguns casos, também podem ser utilizados exames como a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) ou a Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA).

    Esses métodos permitem acompanhar a pressão fora do consultório e ajudam a identificar situações como a hipertensão do avental branco e a hipertensão mascarada.

    Nos idosos, o acompanhamento fora do consultório também pode ser útil devido à maior variabilidade da pressão arterial.

    O tratamento sempre envolve medicamentos?

    Nem sempre. Mudanças no estilo de vida fazem parte do tratamento da hipertensão e continuam importantes mesmo quando também é necessário utilizar medicamentos.

    Entre as principais medidas estão:

    • Redução do consumo de sal;
    • Alimentação rica em frutas, verduras e legumes;
    • Controle do peso;
    • Prática regular de atividade física;
    • Limitação do consumo de álcool;
    • Suspensão do tabagismo.

    Quando essas medidas não são suficientes ou quando existe indicação de acordo com os níveis da pressão e o risco cardiovascular, medicamentos anti-hipertensivos podem ser necessários.

    É perigoso interromper o tratamento porque a pressão “normalizou”?

    Sim. Muitas pessoas acreditam que podem suspender os medicamentos quando percebem que a pressão voltou ao normal.

    Na realidade, em grande parte dos casos, a pressão está controlada justamente porque o tratamento está funcionando.

    Interromper os medicamentos sem orientação médica pode fazer com que os níveis voltem a subir e aumentar o risco de complicações cardiovasculares.

    Isso também vale para idosos que apresentam valores mais baixos ao longo do tratamento.

    Caso surjam tonturas, fraqueza ou outros sintomas, o ideal é procurar o médico para avaliar a necessidade de ajustar as doses ou os medicamentos, e não interrompê-los por conta própria.

    Como medir corretamente a pressão em casa?

    A técnica utilizada para medir a pressão interfere diretamente no resultado.

    Para obter valores mais confiáveis:

    • Repouse por pelo menos cinco minutos antes da medida;
    • Evite café, cigarro e exercícios físicos nos 30 minutos anteriores;
    • Sente-se com as costas apoiadas e os pés no chão;
    • Apoie o braço na altura do coração;
    • Não converse durante a aferição;
    • Utilize aparelho validado e manguito adequado ao tamanho do braço.

    Também é útil registrar as medidas realizadas em dias diferentes.

    Esse acompanhamento ajuda o médico a avaliar como a pressão se comporta fora do consultório e se o tratamento está conseguindo atingir a meta proposta.

    Quando procurar atendimento imediatamente?

    Uma pressão elevada merece atenção especial quando aparece acompanhada de sintomas que podem indicar uma condição grave.

    Procure atendimento de urgência diante de sinais como:

    • Dor no peito;
    • Falta de ar;
    • Fraqueza em um lado do corpo;
    • Alteração da fala;
    • Perda da visão;
    • Dor de cabeça intensa e súbita;
    • Confusão mental.

    Esses sintomas podem estar relacionados a uma emergência hipertensiva ou a outras condições graves e precisam de avaliação imediata.

    Confira: Remédio para pressão e coração acelerado: como funciona o atenolol

    Perguntas frequentes sobre pressão arterial em idosos

    1. É normal a pressão aumentar com a idade?

    O envelhecimento favorece o aumento da pressão devido, principalmente, ao enrijecimento das artérias. Isso, porém, não significa que a hipertensão seja uma consequência normal da idade ou que possa ser ignorada.

    2. Qual é a pressão ideal para um idoso?

    Atualmente, a meta recomendada é manter a pressão abaixo de 130/80 mmHg para a maioria dos idosos com hipertensão.

    Em idosos frágeis, muito idosos ou com condições que comprometam a expectativa de vida, a meta deve considerar a tolerância individual, buscando o menor valor que possa ser mantido com segurança.

    3. A pressão sistólica alta é preocupante mesmo com a diastólica normal?

    Sim. A hipertensão sistólica isolada é muito comum nos idosos e também está associada ao aumento do risco cardiovascular.

    Por isso, a elevação apenas do primeiro número da pressão não deve ser considerada inofensiva.

    4. Pressão muito baixa pode ser perigosa?

    Pode. Em alguns idosos, uma redução excessiva da pressão pode provocar sintomas como tontura e desmaio e aumentar o risco de efeitos adversos.

    Por esse motivo, além dos números obtidos na aferição, é importante avaliar a tolerância do paciente ao tratamento.

    5. Mudanças no estilo de vida ainda ajudam na terceira idade?

    Sim. Alimentação saudável, redução do consumo de sal, atividade física, controle do peso, limitação do álcool e abandono do tabagismo continuam sendo medidas importantes para o controle da pressão arterial.

    6. Posso parar o remédio quando a pressão estiver normal?

    Não por conta própria. Na maioria das vezes, a pressão está normal justamente porque o tratamento está funcionando. Qualquer redução, troca ou suspensão do medicamento deve ser orientada pelo médico.

    7. Por que alguns idosos precisam de metas diferentes de pressão?

    Porque idade cronológica não é o único fator que determina o tratamento. Fragilidade, capacidade funcional, doenças associadas, risco de efeitos adversos e tolerância à redução da pressão também precisam ser considerados.

    O objetivo é oferecer proteção cardiovascular sem comprometer a segurança e a qualidade de vida do paciente.

    Veja mais: Artérias endurecidas: por que a condição aumenta o risco de infarto e AVC

  • Olhos amarelos: além de hepatite, o que pode ser?

    Olhos amarelos: além de hepatite, o que pode ser?

    Perceber que a parte branca dos olhos ficou amarelada costuma causar preocupação imediata. Para muitas pessoas, esse sinal é automaticamente associado à hepatite. Embora a hepatite realmente seja uma das causas de icterícia, ela está longe de ser a única.

    Os olhos amarelos podem surgir por alterações no fígado, na vesícula biliar, nos ductos biliares, no sangue e até por algumas condições hereditárias benignas. Por isso, a icterícia deve ser encarada como um sinal clínico, e não como um diagnóstico.

    Em alguns casos, representa uma condição leve e transitória. Em outros, pode indicar doenças que exigem avaliação e tratamento rápidos.

    O que é icterícia?

    A icterícia é a coloração amarelada da pele, das mucosas e, principalmente, da parte branca dos olhos, chamada esclera.

    Ela acontece quando existe aumento da bilirrubina no sangue.

    A esclera costuma ser um dos primeiros locais onde essa alteração é percebida, pois suas estruturas apresentam grande afinidade pela bilirrubina.

    Por isso, muitas vezes os olhos ficam amarelados antes mesmo de a pele mudar de cor.

    O que é a bilirrubina?

    A bilirrubina é um pigmento amarelo produzido durante a degradação natural das hemácias, os glóbulos vermelhos. Todos os dias, milhões dessas células envelhecem e são substituídas.

    Nesse processo:

    1. A hemoglobina é degradada;
    2. Forma-se a bilirrubina indireta, também chamada de não conjugada;
    3. Ela é transportada até o fígado;
    4. O fígado transforma essa bilirrubina em uma forma solúvel, chamada bilirrubina direta ou conjugada;
    5. A bile transporta a bilirrubina até o intestino, onde ela será eliminada.

    Qualquer alteração nesse caminho pode provocar acúmulo de bilirrubina no sangue e levar à icterícia.

    Quais são as principais causas de olhos amarelos?

    As causas de icterícia podem ser divididas em três grandes grupos, de acordo com o ponto em que ocorre a alteração no metabolismo da bilirrubina.

    Antes do fígado: causas pré-hepáticas

    Acontecem quando existe destruição acelerada das hemácias, processo chamado hemólise.

    Entre os exemplos estão:

    • Anemia hemolítica autoimune;
    • Anemia falciforme;
    • Talassemias;
    • Reações transfusionais;
    • Algumas infecções.

    Nessas situações, o organismo produz mais bilirrubina do que o fígado consegue processar.

    No fígado: causas hepáticas

    São doenças que comprometem a capacidade do fígado de metabolizar ou eliminar a bilirrubina.

    Entre elas:

    • Hepatites virais;
    • Hepatite alcoólica;
    • Esteatose hepática avançada;
    • Cirrose;
    • Lesão hepática causada por medicamentos;
    • Hepatite autoimune;
    • Doenças metabólicas do fígado.

    Nesses casos, o problema está diretamente relacionado ao funcionamento do próprio fígado.

    Após o fígado: causas pós-hepáticas

    Acontecem quando existe alguma obstrução à saída da bile.

    Entre as causas estão:

    • Pedras na vesícula que migram para o colédoco;
    • Tumores do pâncreas;
    • Câncer das vias biliares;
    • Estreitamentos dos ductos biliares;
    • Inflamações das vias biliares.

    Nesses casos, a bilirrubina conjugada não consegue chegar adequadamente ao intestino e acaba retornando para a corrente sanguínea.

    Síndrome de Gilbert: uma causa benigna de olhos amarelos

    Uma das causas mais frequentes de icterícia leve em adultos jovens é a síndrome de Gilbert. Trata-se de uma condição hereditária em que o fígado apresenta menor capacidade de processar a bilirrubina indireta.

    Ela pode provocar episódios de olhos discretamente amarelados durante situações como:

    • Jejum prolongado;
    • Estresse físico ou emocional;
    • Infecções;
    • Exercícios intensos;
    • Privação de sono.

    A síndrome de Gilbert não causa lesão no fígado, não evolui para cirrose e não necessita de tratamento.

    Reconhecer essa condição também pode evitar exames desnecessários e reduzir a preocupação do paciente.

    Quais sintomas podem acompanhar a icterícia?

    Os sintomas associados dependem da causa do aumento da bilirrubina.

    Podem surgir:

    • Cansaço;
    • Náuseas;
    • Vômitos;
    • Dor abdominal;
    • Febre;
    • Coceira intensa;
    • Urina escura, descrita muitas vezes como “cor de Coca-Cola”;
    • Fezes muito claras ou esbranquiçadas;
    • Perda de apetite;
    • Perda de peso.

    Essas manifestações ajudam o médico a direcionar a investigação e a identificar a possível origem da icterícia.

    O que significa urina escura junto com olhos amarelos?

    Quando existe aumento da bilirrubina conjugada, parte dela pode ser eliminada pelos rins, deixando a urina mais escura.

    Isso pode acontecer em situações como:

    • Hepatites;
    • Obstruções biliares;
    • Algumas doenças hepáticas.

    Já na hemólise isolada, a urina pode permanecer com cor normal, porque a bilirrubina indireta não é filtrada pelos rins.

    A combinação entre olhos amarelos e urina escura, portanto, fornece uma pista importante durante a investigação da causa.

    Fezes claras indicam algum problema?

    Podem indicar.

    Fezes muito claras ou esbranquiçadas podem sugerir que pouca ou nenhuma bile está chegando ao intestino.

    Isso pode acontecer em casos de:

    • Obstrução dos ductos biliares;
    • Pedras na via biliar;
    • Tumores pancreáticos;
    • Algumas doenças hepáticas graves.

    Quando essa alteração é persistente, merece avaliação médica.

    Icterícia sempre significa doença grave?

    Não. A gravidade depende da causa.

    Entre as condições que podem provocar icterícia sem representar uma doença grave estão:

    • Síndrome de Gilbert;
    • Icterícia fisiológica do recém-nascido, em contexto específico e sob acompanhamento.

    Já algumas causas potencialmente graves incluem:

    • Hepatite aguda;
    • Cirrose descompensada;
    • Colangite;
    • Obstrução da via biliar;
    • Câncer de pâncreas;
    • Insuficiência hepática.

    Por isso, a presença de icterícia deve ser avaliada para que sua origem seja identificada.

    Como o médico descobre a causa?

    A investigação começa pela história clínica e pelo exame físico.

    O médico avalia fatores como o início dos sintomas, presença de dor ou febre, uso de medicamentos, consumo de álcool e outras alterações associadas.

    Depois, podem ser solicitados exames complementares.

    Exames de sangue

    Entre os exames que podem fazer parte da investigação estão:

    • Bilirrubina total e frações;
    • AST, também chamada TGO;
    • ALT, também chamada TGP;
    • Fosfatase alcalina;
    • Gama-GT;
    • Hemograma;
    • Marcadores de hemólise;
    • Sorologias para hepatites.

    A combinação desses resultados ajuda a diferenciar causas relacionadas ao sangue, ao fígado e às vias biliares.

    Exames de imagem

    Dependendo da suspeita clínica, podem ser solicitados:

    • Ultrassonografia abdominal;
    • Tomografia computadorizada;
    • Ressonância magnética das vias biliares, também chamada colangiorressonância;
    • Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, a CPRE, em casos selecionados.

    A escolha do exame depende da provável origem da icterícia.

    Existe tratamento para a icterícia?

    O tratamento depende completamente da causa.

    Por exemplo:

    • Hepatites virais podem exigir acompanhamento específico ou antivirais, dependendo do tipo;
    • Pedras na via biliar podem necessitar de retirada por endoscopia ou cirurgia;
    • Anemias hemolíticas exigem tratamento direcionado à causa da hemólise;
    • Síndrome de Gilbert geralmente não requer tratamento.

    Portanto, o objetivo não é simplesmente fazer a coloração amarelada desaparecer, mas tratar a doença ou alteração responsável pelo aumento da bilirrubina.

    Quando a icterícia é uma emergência?

    Alguns sintomas associados à icterícia exigem avaliação imediata.

    Procure atendimento de urgência se os olhos amarelos surgirem acompanhados de:

    • Febre alta;
    • Dor intensa no lado direito do abdome;
    • Confusão mental;
    • Sonolência excessiva;
    • Sangramentos;
    • Vômitos persistentes;
    • Queda importante da pressão;
    • Dificuldade para acordar.

    Esses sinais podem indicar infecções graves das vias biliares, insuficiência hepática aguda ou outras condições potencialmente graves.

    É possível prevenir a icterícia?

    Nem todas as causas de icterícia podem ser prevenidas. No entanto, algumas medidas ajudam a reduzir o risco de doenças hepáticas que podem provocar aumento da bilirrubina.

    Entre elas:

    • Manter a vacinação contra hepatite A e B quando indicada;
    • Moderar ou evitar o consumo de álcool;
    • Manter um peso saudável;
    • Evitar automedicação, especialmente com medicamentos potencialmente tóxicos para o fígado;
    • Praticar sexo seguro;
    • Não compartilhar seringas ou objetos perfurocortantes;
    • Controlar doenças metabólicas, como diabetes e obesidade.

    Essas medidas não eliminam todas as possíveis causas de olhos amarelos, mas ajudam a proteger a saúde do fígado.

    Quando procurar um médico por olhos amarelos?

    O aparecimento de uma coloração amarelada na parte branca dos olhos merece avaliação médica, principalmente quando a causa ainda não é conhecida.

    A consulta se torna ainda mais importante quando a icterícia vem acompanhada de:

    • Urina muito escura;
    • Fezes claras;
    • Dor abdominal;
    • Febre;
    • Coceira intensa;
    • Perda de peso;
    • Náuseas ou vômitos;
    • Mal-estar importante.

    O objetivo é identificar a causa e avaliar se existe necessidade de tratamento específico.

    Confira: O que muda na alimentação depois da retirada da vesícula?

    Perguntas frequentes sobre olhos amarelos

    1. Olhos amarelos sempre significam hepatite?

    Não. As hepatites são apenas uma das possíveis causas. Alterações nas vias biliares, doenças do sangue, condições hereditárias e tumores também podem provocar icterícia.

    2. A síndrome de Gilbert é perigosa?

    Não. É uma condição hereditária benigna que provoca elevação leve da bilirrubina indireta, sem causar lesão hepática ou necessidade de tratamento específico.

    3. Qual é a diferença entre bilirrubina direta e indireta?

    A bilirrubina indireta ainda não foi processada pelo fígado. Já a direta foi conjugada pelo órgão e normalmente seria eliminada por meio da bile.

    Essa diferença ajuda o médico a investigar em qual etapa do metabolismo da bilirrubina pode estar o problema.

    4. Urina escura junto com olhos amarelos é preocupante?

    Essa combinação merece avaliação médica.

    Ela pode indicar aumento da bilirrubina conjugada e estar relacionada a doenças do fígado ou a obstruções das vias biliares.

    5. Fezes claras são normais?

    Fezes persistentemente muito claras ou esbranquiçadas podem indicar redução da chegada de bile ao intestino e precisam ser investigadas.

    6. Quem está com icterícia deve evitar álcool?

    Sim. Até que a causa da icterícia seja esclarecida, é recomendado evitar bebidas alcoólicas, pois elas podem agravar doenças do fígado.

    7. Quando devo procurar atendimento imediatamente?

    Se a icterícia vier acompanhada de febre alta, dor abdominal intensa, confusão mental, sonolência excessiva, sangramentos, vômitos persistentes ou outros sinais importantes de piora, procure atendimento de urgência.

    Veja também: Gordura no fígado: conheça os sintomas e como tratar essa doença

  • O que as suas unhas revelam sobre a sua saúde? Conheça os sinais de alerta

    O que as suas unhas revelam sobre a sua saúde? Conheça os sinais de alerta

    As unhas fazem muito mais do que proteger as pontas dos dedos. Elas também podem fornecer pistas importantes sobre a saúde. Mudanças na cor, na espessura, no formato ou na textura costumam ser atribuídas apenas ao envelhecimento ou ao uso de esmaltes.

    Em alguns casos, porém, podem estar associadas a anemias, doenças pulmonares, hepáticas, renais, cardiovasculares, endocrinológicas ou deficiências nutricionais.

    É importante destacar que nenhuma alteração isolada da unha permite diagnosticar uma doença. Muitas mudanças são benignas ou resultam de traumas repetitivos. No entanto, quando aparecem de forma persistente, acometem várias unhas ou vêm acompanhadas de outros sintomas, merecem avaliação médica.

    Por que as unhas podem refletir doenças?

    As unhas são produzidas pela matriz ungueal, uma estrutura localizada sob a pele na base da unha. O crescimento depende de fatores como:

    • Boa circulação sanguínea;
    • Oxigenação adequada;
    • Estado nutricional;
    • Produção hormonal;
    • Renovação celular.

    Doenças que alteram qualquer um desses processos podem modificar o aspecto das unhas.

    Como elas crescem lentamente, cerca de 2 a 3 mm por mês nas mãos e ainda mais devagar nos pés, algumas alterações podem refletir problemas ocorridos semanas ou meses antes.

    Unhas em colher (coiloniquia): um possível sinal de anemia por deficiência de ferro

    A coiloniquia é caracterizada por unhas finas, frágeis e com uma depressão central que lembra uma colher. Ela está classicamente associada à anemia por deficiência de ferro, embora também possa ocorrer em:

    • Hemocromatose;
    • Hipotireoidismo;
    • Traumas repetitivos;
    • Algumas doenças hereditárias.

    Nem toda pessoa com anemia desenvolve coiloniquia, e nem toda coiloniquia significa anemia. Entretanto, sua presença justifica investigação, especialmente quando acompanhada de:

    • Cansaço;
    • Palidez;
    • Falta de ar aos esforços;
    • Queda de cabelo.

    Unhas muito pálidas podem indicar anemia?

    Sim. A palidez do leito ungueal pode ser um dos sinais de anemia, principalmente quando associada à palidez da pele e das mucosas. Entretanto, a observação das unhas, isoladamente, não confirma o diagnóstico.

    O exame que permite identificar a anemia é o hemograma, complementado, quando necessário, por dosagens de ferro, ferritina, vitamina B12 e ácido fólico.

    Baqueteamento digital: quando as unhas ficam mais arredondadas

    O baqueteamento digital ocorre quando as pontas dos dedos aumentam de volume e as unhas se tornam mais curvas e convexas.

    Essa alteração costuma se desenvolver lentamente e pode estar relacionada a diversas doenças, especialmente:

    Doenças pulmonares

    • Câncer de pulmão;
    • Bronquiectasias;
    • Fibrose pulmonar;
    • Fibrose cística.

    Doenças cardíacas

    • Cardiopatias congênitas cianóticas;
    • Endocardite infecciosa.

    Doenças gastrointestinais

    • Doença inflamatória intestinal;
    • Cirrose hepática.

    Embora possa ocorrer em pessoas saudáveis por predisposição familiar, o surgimento recente de baqueteamento digital exige investigação médica.

    Linhas de Beau: quando a unha para de crescer

    As linhas de Beau são sulcos horizontais que atravessam a unha. Elas aparecem quando ocorre uma interrupção temporária do crescimento da matriz ungueal.

    As causas incluem:

    • Febre alta;
    • Pneumonia;
    • Covid-19;
    • Cirurgias de grande porte;
    • Quimioterapia;
    • Traumas importantes;
    • Desnutrição.

    Como a unha cresce lentamente, essas linhas funcionam quase como um registro de um evento ocorrido semanas antes.

    Unhas brancas podem indicar doenças?

    Depende do tipo de alteração.

    Leuconíquia

    Pequenas manchas brancas são muito comuns. Na maioria das vezes, representam pequenos traumas na matriz da unha e não indicam deficiência de cálcio, ao contrário do que diz um mito bastante difundido.

    Unhas de Terry

    Quando quase toda a unha fica branca, restando apenas uma fina faixa rosada ou acastanhada na extremidade, pode haver associação com:

    • Cirrose hepática;
    • Insuficiência cardíaca;
    • Diabetes;
    • Envelhecimento.

    Metade branca e metade escura: unhas de Lindsay

    As chamadas unhas de Lindsay apresentam:

    • Metade proximal branca;
    • Metade distal avermelhada ou acastanhada.

    Essa alteração é observada com maior frequência em pessoas com doença renal crônica, embora também possa ocorrer em outras condições.

    Unhas amareladas podem ser sinal de doença?

    Sim, mas as causas são variadas. As mais comuns são:

    • Micose de unha, chamada de onicomicose;
    • Envelhecimento;
    • Tabagismo;
    • Uso prolongado de esmaltes escuros.

    Mais raramente, unhas muito espessas, amareladas e de crescimento lento podem fazer parte da síndrome das unhas amarelas, condição rara associada a:

    • Linfedema;
    • Derrame pleural;
    • Doenças respiratórias crônicas.

    Linhas escuras na unha merecem atenção?

    Sim. Uma faixa escura longitudinal pode ser completamente benigna, principalmente em pessoas de pele negra ou asiática.

    Entretanto, é fundamental procurar um dermatologista o quanto antes quando ela:

    • Surge apenas em uma unha;
    • Aumenta de largura;
    • Apresenta coloração irregular;
    • Pigmenta a pele ao redor da unha, alteração conhecida como sinal de Hutchinson.

    Essas alterações podem representar um melanoma subungueal, um tipo raro de câncer de pele.

    Unhas quebradiças sempre indicam falta de vitaminas?

    Não. Essa é uma das alterações mais comuns e possui diversas causas.

    Entre elas:

    • Envelhecimento;
    • Contato frequente com água e produtos químicos;
    • Uso excessivo de acetona;
    • Traumas repetitivos;
    • Hipotireoidismo;
    • Deficiência de ferro;
    • Deficiência de biotina, que é mais rara.

    Na maioria dos casos, não é necessário tomar suplementos vitamínicos sem investigação.

    Alterações nas unhas podem indicar problemas da tireoide?

    Sim. No hipotireoidismo, as unhas podem crescer mais lentamente, tornando-se secas e quebradiças. Já no hipertireoidismo, algumas pessoas apresentam descolamento parcial da unha do leito ungueal, chamado de onicólise, especialmente nos dedos das mãos.

    Essas alterações costumam vir acompanhadas de outros sintomas característicos das doenças da tireoide.

    Quando a mudança nas unhas é apenas estética?

    Muitas alterações não representam doenças sistêmicas.

    É o caso de:

    • Traumas repetitivos;
    • Roer as unhas;
    • Uso frequente de esmaltes e removedores;
    • Contato constante com detergentes;
    • Envelhecimento natural.

    Mesmo assim, alterações persistentes devem ser avaliadas quando houver dúvida.

    Quando procurar um médico?

    É recomendável procurar avaliação se ocorrer:

    • Mudança súbita na cor de várias unhas;
    • Faixa escura que aumenta progressivamente;
    • Baqueteamento digital de início recente;
    • Unhas muito deformadas sem explicação;
    • Alterações acompanhadas de perda de peso, falta de ar, cansaço intenso ou febre;
    • Dor, secreção ou inflamação persistente.

    Dependendo da suspeita, a investigação pode incluir exames laboratoriais, avaliação dermatológica e exames de imagem.

    É possível prevenir alterações nas unhas?

    Nem todas as alterações podem ser evitadas, mas alguns cuidados ajudam a manter as unhas saudáveis:

    • Manter uma alimentação equilibrada;
    • Tratar adequadamente doenças crônicas;
    • Usar luvas ao lidar com produtos químicos;
    • Evitar retirar excessivamente as cutículas;
    • Manter as unhas limpas e secas;
    • Não compartilhar instrumentos de manicure que não tenham sido esterilizados.

    Essas medidas reduzem o risco de traumas e infecções, embora não impeçam alterações relacionadas a doenças sistêmicas.

    Confira: Unha encravou? Saiba como prevenir e tratar o incômodo no pé

    Perguntas frequentes sobre mudanças nas unhas

    1. Unhas podem indicar anemia?

    Sim. Algumas alterações, como palidez do leito ungueal e unhas em colher, chamadas de coiloniquia, podem estar associadas à anemia por deficiência de ferro, mas o diagnóstico depende de exames laboratoriais.

    2. Manchas brancas nas unhas significam falta de cálcio?

    Não. Na maioria dos casos, elas são consequência de pequenos traumas na matriz da unha e não têm relação com deficiência de cálcio.

    3. O que é baqueteamento digital?

    É uma alteração em que as pontas dos dedos aumentam de volume e as unhas ficam mais curvas. Pode estar associada a doenças pulmonares, cardíacas e hepáticas, exigindo investigação médica quando surge de forma recente.

    4. Uma faixa preta na unha é sempre melanoma?

    Não. Muitas faixas escuras são benignas. No entanto, alterações recentes, irregulares ou que aumentam de tamanho devem ser avaliadas rapidamente por um dermatologista.

    5. Unhas quebradiças significam falta de vitaminas?

    Nem sempre. As causas mais comuns incluem envelhecimento, contato frequente com água, produtos químicos e traumas. Algumas deficiências nutricionais também podem contribuir.

    6. Doenças da tireoide podem alterar as unhas?

    Sim. Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem provocar mudanças no crescimento, na resistência e na aderência das unhas.

    7. Quando devo me preocupar com alterações nas unhas?

    Quando as mudanças aparecem de forma persistente, acometem várias unhas, surgem sem causa aparente ou vêm acompanhadas de outros sintomas, como cansaço intenso, perda de peso, falta de ar ou febre.

    Confira: Unhas amareladas: 7 possíveis causas e quando ir ao médico

  • Desidratação no inverno: por que sentimos menos sede e quais são os riscos

    Desidratação no inverno: por que sentimos menos sede e quais são os riscos

    Quando o calor chega, é comum sentir sede o tempo todo. No inverno, porém, muitas pessoas passam horas sem beber água simplesmente porque não sentem vontade. Esse comportamento é tão frequente que faz da desidratação um problema comum durante os meses mais frios, mesmo sem suor intenso.

    Embora a perda de líquidos realmente seja menor do que em dias muito quentes, o organismo continua eliminando água pela respiração, urina, pele e fezes. Além disso, o frio reduz naturalmente a sensação de sede, fazendo com que muitas pessoas ingiram menos líquidos do que o necessário.

    O resultado pode ser um estado de desidratação leve, mas persistente, capaz de afetar a concentração, o desempenho físico, a função renal e aumentar o risco de algumas doenças.

    Por que sentimos menos sede no inverno?

    A sede é controlada por mecanismos complexos que envolvem o cérebro, os rins e diferentes hormônios. No frio, ocorre uma resposta conhecida como diurese induzida pelo frio.

    Quando a temperatura ambiente diminui, os vasos sanguíneos da pele se contraem, processo chamado de vasoconstrição, para preservar o calor corporal. Com isso, uma quantidade maior de sangue permanece circulando na região central do corpo.

    O organismo interpreta esse aumento do volume circulante como um excesso de líquido e responde reduzindo a liberação do hormônio antidiurético (ADH), aumentando a produção de urina.

    Ao mesmo tempo, a sensação de sede também diminui. Ou seja, mesmo eliminando mais água pela urina, muitas pessoas acabam bebendo menos líquidos.

    Também perdemos água pela respiração?

    Sim. Esse é um detalhe pouco conhecido. Sempre que respiramos, o organismo aquece e umidifica o ar inspirado.

    Nos dias frios, especialmente quando o ar está seco, é necessário utilizar mais água para umidificar esse ar antes que ele chegue aos pulmões. Consequentemente, aumenta a perda de água pela respiração.

    Esse efeito costuma ser ainda mais intenso em pessoas que praticam exercícios ao ar livre durante o inverno.

    Se quase não transpiro, ainda preciso beber água?

    Sim. Embora o suor diminua em temperaturas mais baixas, ele não é a única forma de perda de líquidos.

    Todos os dias perdemos água por meio de:

    • Urina;
    • Respiração;
    • Fezes;
    • Evaporação pela pele, mesmo sem suor visível.

    Por isso, a necessidade de hidratação permanece durante o inverno.

    Quais são os riscos da desidratação no inverno?

    Mesmo uma desidratação leve pode provocar sintomas e prejudicar o funcionamento do organismo.

    Diminuição da concentração

    A redução do volume de água corporal pode afetar funções cognitivas, causando:

    • Dificuldade de atenção;
    • Lentidão de raciocínio;
    • Queda no desempenho intelectual;
    • Sensação de fadiga.

    Dor de cabeça

    A desidratação é uma causa frequente de dor de cabeça. Em muitas pessoas, aumentar a ingestão de líquidos ajuda a aliviar esse sintoma.

    Prisão de ventre

    Quando há pouca água disponível, o intestino absorve mais líquido das fezes. Como consequência, elas ficam mais endurecidas e difíceis de eliminar.

    Maior risco de cálculos renais

    A baixa ingestão de líquidos deixa a urina mais concentrada. Isso favorece a formação de cristais que podem evoluir para cálculos renais em pessoas predispostas.

    Infecção urinária

    Embora beber pouca água não seja a única causa, a baixa produção de urina reduz a frequência de esvaziamento da bexiga, favorecendo a permanência de bactérias no trato urinário, principalmente em mulheres.

    Queda do desempenho físico

    Mesmo perdas discretas de líquidos podem reduzir:

    • Resistência física;
    • Capacidade aeróbica;
    • Recuperação muscular.

    Esse efeito também ocorre durante atividades realizadas no inverno.

    A pele fica mais ressecada por falta de água?

    Nem sempre. O ressecamento da pele no inverno ocorre principalmente devido à combinação de:

    • Baixa umidade do ar;
    • Banhos muito quentes;
    • Redução da produção de gordura natural da pele.

    Embora uma boa hidratação seja importante para a saúde geral, beber grandes quantidades de água, isoladamente, não costuma resolver o ressecamento da pele. Nesses casos, também pode ser necessário o uso de cremes hidratantes.

    Como saber se estou desidratado?

    Os sinais podem variar conforme a intensidade da perda de líquidos. Os sintomas mais comuns são:

    • Boca seca;
    • Sede, que pode aparecer tardiamente;
    • Urina escura;
    • Redução do volume urinário;
    • Dor de cabeça;
    • Cansaço;
    • Tontura ao levantar;
    • Dificuldade de concentração.

    Em idosos, a desidratação pode se manifestar principalmente por:

    • Confusão mental;
    • Sonolência;
    • Fraqueza.

    A cor da urina pode ajudar?

    Sim. Embora não seja um método perfeito, observar a cor da urina é uma maneira prática de acompanhar a hidratação.

    De forma geral:

    • Amarelo bem claro: costuma indicar hidratação adequada;
    • Amarelo escuro ou âmbar: pode indicar necessidade de aumentar a ingestão de líquidos.

    Entretanto, alguns alimentos, vitaminas, como as do complexo B, e medicamentos também podem alterar a cor da urina.

    Quem corre maior risco de desidratação?

    Alguns grupos merecem atenção especial:

    • Idosos;
    • Crianças pequenas;
    • Atletas;
    • Pessoas com doença renal;
    • Pessoas que utilizam diuréticos;
    • Trabalhadores expostos ao frio;
    • Pessoas com febre ou diarreia.

    Nos idosos, o risco é maior porque a sensação de sede diminui naturalmente com o envelhecimento.

    Chás contam como hidratação?

    Sim. A água continua sendo a melhor opção, mas outras bebidas também contribuem para a ingestão diária de líquidos.

    Entre elas:

    • Chá sem açúcar;
    • Café, com moderação;
    • Leite;
    • Sopas;
    • Água de coco.

    Frutas ricas em água, como melancia, melão, laranja e morango, também ajudam na hidratação.

    Existe uma quantidade ideal de água?

    Não existe um valor único para todas as pessoas. A necessidade diária depende de fatores como:

    • Peso corporal;
    • Idade;
    • Atividade física;
    • Temperatura ambiente;
    • Estado de saúde.

    Em vez de focar apenas em um número fixo de litros por dia, é mais útil observar:

    • A cor da urina;
    • A frequência urinária;
    • A presença de sede;
    • As recomendações do médico em caso de doenças específicas, como insuficiência cardíaca ou doença renal.

    Como lembrar de beber água no inverno?

    Algumas estratégias simples ajudam:

    • Manter uma garrafa de água sempre à vista;
    • Estabelecer horários para beber água;
    • Tomar um copo de água ao acordar e outro em cada refeição;
    • Incluir chás sem açúcar e sopas na rotina;
    • Usar aplicativos ou alarmes para lembrar da hidratação;
    • Não esperar sentir sede para beber água.

    Quando procurar atendimento médico?

    Procure avaliação médica se surgirem:

    • Tontura intensa;
    • Confusão mental;
    • Sonolência excessiva;
    • Desmaios;
    • Incapacidade de ingerir líquidos;
    • Redução importante da urina;
    • Sinais de desidratação associados a vômitos ou diarreia persistentes.

    Esses sintomas podem indicar uma desidratação moderada ou grave, que exige tratamento imediato.

    Confira: 7 sintomas de desidratação e quanto de água você deve beber todos os dias

    Perguntas frequentes sobre desidratação no inverno

    1. É normal sentir menos sede no inverno?

    Sim. O frio reduz naturalmente a sensação de sede e aumenta a produção de urina, fazendo com que muitas pessoas bebam menos água do que precisam.

    2. Posso desidratar mesmo sem suar?

    Sim. O organismo continua perdendo água pela respiração, urina, fezes e evaporação pela pele, mesmo quando o suor é pouco perceptível.

    3. O frio aumenta a produção de urina?

    Sim. A vasoconstrição provocada pelo frio aumenta temporariamente o volume de sangue na região central do corpo, favorecendo a chamada diurese induzida pelo frio.

    4. Chá conta como hidratação?

    Sim. Chás sem açúcar, leite, sopas e outras bebidas contribuem para a hidratação diária, embora a água continue sendo a principal recomendação.

    5. Urina escura sempre significa desidratação?

    Não. Ela pode ser influenciada por vitaminas, medicamentos e alguns alimentos. Ainda assim, urina persistentemente escura pode indicar baixa ingestão de líquidos.

    6. Idosos precisam tomar mais cuidado?

    Sim. Com o envelhecimento, a percepção da sede diminui, aumentando o risco de desidratação, principalmente durante o inverno.

    7. Preciso beber a mesma quantidade de água no inverno que no verão?

    A necessidade pode variar conforme o clima, a atividade física e as características individuais. No entanto, a hidratação continua sendo essencial durante o inverno, e não se deve esperar a sede aparecer para ingerir líquidos.

    Veja também: O que acontece com o corpo ao segurar o xixi por muito tempo?

  • Sair do calor para o frio faz mal ou causa paralisia facial? Veja o que a ciência explica

    Sair do calor para o frio faz mal ou causa paralisia facial? Veja o que a ciência explica

    É uma cena comum: alguém sai do calor intenso, entra em um ambiente com ar-condicionado e logo escuta um alerta de que o choque térmico pode causar paralisia facial ou causar um resfriado. Essas ideias fazem parte da cultura popular há décadas, mas o que a ciência realmente mostra?

    A resposta é que a mudança brusca de temperatura, por si só, não causa resfriado nem é considerada a causa direta da paralisia facial. No entanto, ela pode provocar alterações fisiológicas e, em algumas situações, contribuir indiretamente para o aparecimento de sintomas ou favorecer fatores envolvidos em determinadas doenças.

    Entender essa diferença ajuda a separar mitos de fatos.

    O que é choque térmico?

    O termo choque térmico é usado para descrever uma mudança rápida entre ambientes com temperaturas muito diferentes.

    Por exemplo:

    • Sair de uma rua com 38°C e entrar em um ambiente a 20°C;
    • Entrar em uma piscina fria logo após ficar muito tempo ao sol;
    • Sair de um ambiente aquecido para uma rua muito fria.

    Nessas situações, o organismo ativa mecanismos para manter a temperatura corporal estável.

    Entre eles estão:

    • Contração ou dilatação dos vasos sanguíneos;
    • Aumento ou redução da produção de suor;
    • Alterações na frequência cardíaca;
    • Mudanças na circulação da pele.

    Essas respostas são normais e fazem parte da capacidade do corpo de se adaptar ao ambiente.

    Choque térmico causa resfriado?

    Isso é um mito. O resfriado é causado por vírus, principalmente os rinovírus, mas também por coronavírus sazonais, adenovírus e outros agentes. Sem contato com esses vírus, a pessoa não desenvolve um resfriado apenas por mudar de temperatura.

    Portanto, sair do calor e entrar no frio não é suficiente para causar a infecção.

    Então por que tantas pessoas ficam gripadas ou resfriadas no frio?

    Embora o frio não seja o causador direto, ele pode favorecer alguns fatores que aumentam a transmissão dos vírus.

    Permanência em ambientes fechados

    Durante dias frios, as pessoas tendem a permanecer mais tempo em locais fechados e pouco ventilados. Isso facilita a circulação dos vírus respiratórios entre os indivíduos.

    Maior estabilidade de alguns vírus

    Diversos vírus respiratórios sobrevivem por mais tempo em ambientes frios e com baixa umidade relativa do ar. Isso aumenta as oportunidades de transmissão.

    Ressecamento das vias respiratórias

    O ar frio e seco pode reduzir a eficiência das barreiras naturais do nariz e das vias respiratórias. Como consequência, os vírus podem encontrar condições mais favoráveis para iniciar uma infecção.

    Ou seja, o frio não cria o vírus, mas pode facilitar sua disseminação e diminuir temporariamente a eficácia das defesas locais.

    Choque térmico causa paralisia facial?

    Também é considerado um mito afirmar que ele seja a causa direta. A forma mais comum de paralisia facial aguda é a paralisia de Bell. Ela ocorre devido a uma inflamação do nervo facial, responsável pelos movimentos da musculatura de um dos lados da face.

    Embora sua causa exata ainda não seja totalmente conhecida, acredita-se que exista participação importante da reativação de vírus latentes, especialmente do vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), em indivíduos predispostos.

    Até o momento, não existem evidências científicas robustas demonstrando que a mudança brusca de temperatura provoque diretamente a paralisia facial.

    Então por que tantas pessoas associam a paralisia facial ao vento frio?

    Essa associação provavelmente surgiu porque muitos episódios acontecem durante o inverno ou após exposição ao frio. Entretanto, associação não significa causa.

    É possível que alguns fatores relacionados ao frio, como alterações da circulação local ou respostas inflamatórias, coexistam com outros mecanismos envolvidos na doença, mas isso não comprova que o vento frio ou o ar-condicionado sejam responsáveis pela paralisia.

    As principais diretrizes médicas não recomendam evitar correntes de ar como forma comprovada de prevenir a paralisia de Bell.

    O frio pode provocar outros sintomas?

    Sim. Embora não cause diretamente resfriados ou paralisia facial, a exposição ao frio pode desencadear:

    • Dor muscular;
    • Sensação de rigidez;
    • Lacrimejamento;
    • Coriza transitória;
    • Espirros;
    • Dor em pessoas com artrite;
    • Crises de asma em indivíduos predispostos.

    Esses sintomas são respostas fisiológicas do organismo e não significam necessariamente uma infecção.

    Entrar em água gelada faz mal?

    Na maioria das pessoas saudáveis, não. Ao entrar em água fria, ocorre uma resposta chamada reflexo ao frio, que pode provocar:

    • Respiração rápida;
    • Aumento da frequência cardíaca;
    • Vasoconstrição;
    • Elevação temporária da pressão arterial.

    Em indivíduos saudáveis, essas alterações costumam ser transitórias.

    Já pessoas com doenças cardiovasculares importantes devem ter maior cautela, pois a exposição súbita ao frio intenso pode aumentar a sobrecarga sobre o coração.

    Dormir com ventilador ou ar-condicionado causa resfriado?

    Não diretamente. O ventilador e o ar-condicionado não produzem vírus.

    No entanto, podem:

    • Ressecar as vias respiratórias;
    • Irritar nariz e garganta;
    • Favorecer desconforto em pessoas com rinite;
    • Colocar poeira e alérgenos em circulação quando os filtros não são higienizados.

    Esses fatores podem causar sintomas semelhantes aos de um resfriado, mas não representam uma infecção viral.

    Existe alguma situação em que a mudança brusca de temperatura merece atenção?

    Sim. Mudanças extremas de temperatura podem representar maior risco para:

    • Idosos;
    • Recém-nascidos;
    • Pessoas com doenças cardiovasculares;
    • Pacientes com insuficiência cardíaca;
    • Pessoas com hipertensão não controlada;
    • Indivíduos com doença pulmonar crônica.

    Nesses grupos, a adaptação ao frio ou ao calor intenso pode exigir maior esforço do organismo.

    Como reduzir os riscos relacionados às mudanças de temperatura?

    Algumas medidas simples ajudam a minimizar o desconforto:

    • Evite exposição prolongada a temperaturas extremas;
    • Vista-se adequadamente para o clima;
    • Mantenha boa hidratação;
    • Higienize regularmente os filtros do ar-condicionado;
    • Mantenha os ambientes ventilados;
    • Lave as mãos frequentemente durante períodos de maior circulação de vírus respiratórios;
    • Mantenha as vacinas recomendadas em dia, especialmente contra a gripe.

    Essas medidas têm muito mais impacto na prevenção de doenças respiratórias do que tentar evitar toda mudança brusca de temperatura.

    Quando procurar atendimento médico?

    Procure avaliação médica se ocorrer:

    • Fraqueza súbita em um lado da face;
    • Dificuldade para fechar um dos olhos;
    • Assimetria facial;
    • Dor intensa no ouvido associada à paralisia;
    • Febre alta persistente;
    • Falta de ar importante;
    • Dor no peito.

    No caso da paralisia facial, é importante procurar atendimento rapidamente para diferenciar a paralisia de Bell de outras condições, como um acidente vascular cerebral (AVC), e iniciar o tratamento quando indicado.

    Leia mais: Paralisia de Bell: por que um lado do rosto pode paralisar de repente

    Perguntas frequentes sobre choque térmico

    1. Choque térmico causa resfriado?

    Não. O resfriado é causado por vírus. A mudança brusca de temperatura, por si só, não provoca a infecção.

    2. O frio pode causar paralisia facial?

    Não há evidências científicas de que o frio seja a causa direta da paralisia facial. A forma mais comum, a paralisia de Bell, está relacionada à inflamação do nervo facial, provavelmente associada à reativação de vírus em pessoas predispostas.

    3. Entrar no ar-condicionado logo após o calor faz mal?

    Para a maioria das pessoas saudáveis, não. O organismo possui mecanismos para se adaptar às mudanças de temperatura.

    4. Dormir com ventilador ligado provoca gripe?

    Não. Ventiladores e ar-condicionado não causam gripe nem resfriado. Eles podem apenas ressecar as vias respiratórias ou agravar sintomas de rinite quando há poeira ou filtros sujos.

    5. O frio reduz a imunidade?

    A exposição ao frio intenso pode provocar alterações temporárias nas defesas locais das vias respiratórias, mas isso não significa que a imunidade diminua de forma generalizada.

    6. Quem deve tomar mais cuidado com mudanças bruscas de temperatura?

    Idosos, pessoas com doenças cardiovasculares, doenças pulmonares crônicas e recém-nascidos podem apresentar maior sensibilidade às temperaturas extremas.

    7. Como prevenir resfriados no inverno?

    A melhor prevenção inclui higiene frequente das mãos, vacinação quando indicada, boa ventilação dos ambientes, evitar contato próximo com pessoas doentes e manter hábitos saudáveis. Evitar mudanças de temperatura, isoladamente, não impede o aparecimento de infecções respiratórias.

    Veja também: Antibiótico cura gripe? Cardiologista aponta os riscos do uso sem necessidade

  • Chegou ao destino, mas seu corpo não? Entenda o jet lag e como adaptar o relógio biológico ao novo fuso horário

    Chegou ao destino, mas seu corpo não? Entenda o jet lag e como adaptar o relógio biológico ao novo fuso horário

    Você desembarca de uma viagem internacional, mas seu corpo parece não ter chegado ao destino. Essa sensação é conhecida como jet lag, um distúrbio temporário causado pela falta de sincronização entre o relógio biológico e o horário local após a travessia rápida de vários fusos horários.

    Embora geralmente desapareça em alguns dias, o jet lag pode prejudicar o sono, o desempenho físico e mental, o humor e até aumentar o risco de acidentes nos primeiros dias após uma viagem.

    A boa notícia é que existem estratégias baseadas em evidências que ajudam o organismo a se adaptar mais rapidamente ao novo horário.

    O que é jet lag?

    O jet lag é um distúrbio temporário causado pelo desalinhamento entre o relógio biológico interno e o horário local do destino.

    Nosso organismo possui um sistema de sincronização conhecido como ritmo circadiano, que regula diversas funções ao longo de aproximadamente 24 horas, incluindo:

    • Sono e vigília;
    • Produção de hormônios;
    • Temperatura corporal;
    • Apetite;
    • Estado de alerta.

    Quando atravessamos vários fusos horários em poucas horas, o relógio biológico continua funcionando como se ainda estivéssemos no local de origem, enquanto o ambiente ao redor já segue outro horário.

    É essa dessincronização que provoca os sintomas do jet lag.

    O que controla o relógio biológico?

    O principal regulador é uma pequena região do cérebro chamada núcleo supraquiasmático, localizada no hipotálamo. Ela recebe informações da luz que chega aos olhos e utiliza esse sinal para sincronizar o organismo com o ciclo de claro e escuro do ambiente.

    Por isso, a exposição à luz natural é o fator mais importante para reajustar o relógio biológico após uma viagem.

    Quando o jet lag acontece?

    O problema costuma surgir quando a pessoa atravessa três ou mais fusos horários. Quanto maior a diferença entre o horário de origem e o de destino, maior tende a ser o desconforto.

    Voos longos que permanecem no mesmo fuso horário normalmente não provocam jet lag.

    Viajar para leste ou para oeste faz diferença?

    Sim. Veja as diferenças abaixo.

    Viajar para leste

    Geralmente é mais difícil. Nessas viagens, é necessário adiantar o relógio biológico, ou seja, dormir e acordar mais cedo do que o habitual.

    Exemplos:

    • Brasil → Europa;
    • Brasil → África;
    • Estados Unidos → Europa.

    Viajar para oeste

    Costuma ser mais fácil. Nesse caso, o organismo precisa atrasar o relógio biológico, permanecendo acordado por mais tempo.

    Exemplos:

    • Europa → Brasil;
    • Brasil → Estados Unidos, na costa oeste.

    Como o ritmo circadiano humano tende a ser ligeiramente superior a 24 horas, atrasar o sono costuma ser fisiologicamente mais fácil do que antecipá-lo.

    Quais são os sintomas do jet lag?

    Os sintomas variam de intensidade entre as pessoas. Os mais comuns são:

    • Sonolência durante o dia;
    • Insônia;
    • Despertares precoces;
    • Cansaço excessivo;
    • Dificuldade de concentração;
    • Redução do desempenho físico;
    • Irritabilidade;
    • Alterações do humor;
    • Dor de cabeça;
    • Diminuição do apetite;
    • Prisão de ventre ou diarreia.

    Em atletas e profissionais que precisam tomar decisões importantes, esses efeitos podem comprometer significativamente o desempenho.

    Quanto tempo dura o jet lag?

    A adaptação costuma ocorrer gradualmente. Como regra prática, o organismo leva cerca de um dia para cada fuso horário atravessado, embora isso varie conforme:

    • Idade;
    • Direção da viagem;
    • Exposição à luz;
    • Qualidade do sono;
    • Características individuais.

    Em viagens com diferença de seis fusos horários, por exemplo, algumas pessoas podem precisar de quase uma semana para se adaptar completamente.

    Quem sofre mais com o jet lag?

    Algumas pessoas são mais suscetíveis. Entre elas:

    • Idosos;
    • Pessoas com horários de sono muito regulares;
    • Trabalhadores em turnos;
    • Atletas de alto rendimento;
    • Pilotos e comissários de bordo;
    • Pessoas que realizam viagens internacionais frequentes.

    Como reconfigurar o relógio biológico mais rapidamente?

    Diversas estratégias podem acelerar a adaptação.

    Exponha-se à luz natural no horário correto

    A luz é o principal sincronizador do relógio biológico. Dependendo da direção da viagem, pode ser útil:

    • Procurar luz pela manhã;
    • Ou evitar luz intensa nas primeiras horas do dia.

    Em alguns casos, usar óculos escuros em horários específicos também pode ajudar. A estratégia ideal depende do número de fusos atravessados e da direção da viagem.

    Ajuste gradualmente os horários antes da viagem

    Se possível, comece a modificar o horário de dormir e acordar alguns dias antes da partida. Mudanças de 30 a 60 minutos por dia facilitam a adaptação.

    Adote imediatamente o horário local

    Ao chegar ao destino:

    • Faça as refeições nos horários locais;
    • Evite cochilos prolongados;
    • Procure permanecer acordado até um horário adequado para dormir.

    Isso ajuda o cérebro a sincronizar mais rapidamente seus ritmos internos.

    Pratique atividade física

    Exercícios leves ou moderados durante o dia podem melhorar o estado de alerta e favorecer o ajuste do ritmo circadiano. No entanto, exercícios muito intensos próximos ao horário de dormir podem dificultar o início do sono.

    Mantenha boa hidratação

    O ambiente da cabine do avião é bastante seco. Embora a desidratação não seja a causa do jet lag, ela pode intensificar sintomas como fadiga e dor de cabeça.

    Evite excesso de álcool

    O álcool pode fragmentar o sono, aumentar a desidratação e dificultar a adaptação ao novo horário.

    Use cafeína com estratégia

    A cafeína pode ser útil para reduzir a sonolência durante o dia. Entretanto, seu consumo nas horas que antecedem o horário planejado para dormir pode prolongar a insônia.

    A melatonina funciona?

    Sim, em algumas situações. A melatonina é um hormônio naturalmente produzido pelo organismo durante a noite. O uso pode ajudar principalmente quando a viagem exige antecipar o horário de dormir, como ocorre em voos para leste.

    Os melhores resultados costumam ser observados quando:

    • É utilizada próximo ao horário de dormir no destino;
    • É associada à exposição adequada à luz.

    Como existem diferentes doses e formulações, o ideal é utilizá-la com orientação médica, especialmente em pessoas com doenças crônicas ou que utilizam outros medicamentos.

    Dormir durante o voo ajuda?

    Depende. Se o horário do destino corresponder ao período noturno, dormir durante o voo pode facilitar a adaptação. Se ainda for dia no destino, permanecer acordado costuma ser mais vantajoso.

    Por isso, ajustar o comportamento ao horário do local de chegada é mais importante do que simplesmente dormir sempre que possível.

    É possível evitar completamente o jet lag?

    Nem sempre. Quanto maior o número de fusos horários atravessados, maior a probabilidade de ocorrer algum grau de dessintonia do relógio biológico.

    No entanto, combinar estratégias como exposição correta à luz, ajuste gradual dos horários, boa higiene do sono e uso criterioso da melatonina pode reduzir significativamente a intensidade dos sintomas.

    Quando procurar um médico?

    É recomendável procurar avaliação se:

    • Os sintomas persistirem por mais de uma ou duas semanas;
    • A insônia continuar mesmo após a adaptação ao novo fuso;
    • Houver sonolência excessiva que interfira nas atividades diárias;
    • Existirem suspeitas de outros distúrbios do sono, como apneia obstrutiva do sono.

    Leia também: Quando voos longos se tornam perigosos para o coração e a circulação

    Perguntas frequentes sobre jet lag

    1. O que causa o jet lag?

    Ele ocorre porque o relógio biológico permanece sincronizado com o horário do local de origem, enquanto o ambiente já segue o horário do destino.

    2. Quantos fusos horários são necessários para causar jet lag?

    Geralmente, os sintomas aparecem quando são atravessados três ou mais fusos horários, embora isso varie entre as pessoas.

    3. Por que viajar para a Europa costuma ser mais difícil?

    Porque normalmente é necessário adiantar o relógio biológico, algo que o organismo humano tende a fazer com mais dificuldade do que atrasá-lo.

    4. A melatonina ajuda?

    Pode ajudar, especialmente em viagens para leste, quando utilizada no horário adequado e associada a outras medidas para sincronizar o ritmo circadiano.

    5. Café piora o jet lag?

    Não necessariamente. A cafeína pode melhorar o estado de alerta durante o dia, mas deve ser evitada próximo ao horário de dormir.

    6. Quanto tempo leva para o organismo se adaptar?

    Uma regra prática é considerar cerca de um dia de adaptação para cada fuso horário atravessado, embora esse tempo varie de pessoa para pessoa.

    7. O jet lag é perigoso?

    Na maioria dos casos, não. Entretanto, ele pode reduzir a atenção, aumentar o risco de acidentes, prejudicar o desempenho físico e mental e afetar temporariamente o humor e a qualidade de vida.

    Veja mais: Insônia: por que dormir mal afeta corpo e mente

  • Sempre tomou leite e agora passa mal? Entenda por que a intolerância à lactose pode surgir na vida adulta

    Sempre tomou leite e agora passa mal? Entenda por que a intolerância à lactose pode surgir na vida adulta

    Você sempre tomou leite sem problemas, mas, nos últimos anos, passou a sentir estufamento, excesso de gases ou diarreia depois de consumir um café com leite, um milk-shake ou um pedaço de pizza? Essa situação é bastante comum e, na maioria das vezes, está relacionada à intolerância à lactose do tipo primária, também chamada de hipolactasia do adulto.

    Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não é preciso nascer com intolerância à lactose. Em grande parte da população, a produção da enzima responsável por digerir esse açúcar diminui gradualmente após a infância ou a adolescência. Como consequência, os sintomas podem surgir apenas na terceira, quarta ou quinta década de vida.

    Isso significa que uma pessoa pode consumir leite normalmente durante muitos anos e só mais tarde perceber que determinados laticínios passaram a causar desconforto. Entenda mais.

    O que é a intolerância à lactose?

    A lactose é o principal açúcar presente no leite e em seus derivados. Para ser absorvida pelo intestino, ela precisa ser quebrada por uma enzima chamada lactase, produzida pelas células da mucosa do intestino delgado.

    Quando existe pouca lactase, a lactose não é completamente digerida. Ela segue para o intestino grosso, onde é fermentada pelas bactérias da microbiota intestinal, produzindo:

    • Hidrogênio;
    • Metano;
    • Ácidos orgânicos.

    Esse processo leva ao aparecimento dos sintomas característicos da intolerância à lactose.

    Por que a intolerância à lactose pode aparecer depois dos 30 anos?

    A forma mais comum é a deficiência primária de lactase. Em praticamente todos os mamíferos, a produção dessa enzima diminui após o período de amamentação. Nos seres humanos, porém, existe uma grande variação genética.

    Algumas populações mantêm níveis elevados de lactase durante toda a vida, condição conhecida como persistência da lactase, enquanto outras apresentam uma redução gradual da enzima ao longo dos anos.

    Essa queda costuma começar ainda na infância ou adolescência, mas os sintomas só aparecem quando a quantidade de lactase se torna insuficiente para digerir a quantidade de lactose consumida.

    Por isso, muitas pessoas passam décadas ingerindo leite normalmente antes de desenvolver sintomas.

    Todo mundo desenvolve intolerância à lactose com a idade?

    Não. A capacidade de produzir lactase depende principalmente da genética. Em populações do norte da Europa, a persistência da lactase é muito frequente.

    Já em populações asiáticas, africanas, indígenas e em parte da população latino-americana, a redução da lactase na vida adulta é muito mais comum.

    No Brasil, devido à grande diversidade genética, a prevalência varia conforme a ancestralidade de cada indivíduo.

    Quais são os sintomas?

    Os sintomas geralmente surgem entre 30 minutos e duas horas após o consumo de alimentos ricos em lactose.

    Os mais comuns são:

    • Distensão abdominal;
    • Excesso de gases;
    • Dor ou cólicas abdominais;
    • Sensação de estômago inchado;
    • Borborigmos, que são os barulhos intestinais;
    • Diarreia.

    Em algumas pessoas também podem ocorrer:

    • Náuseas;
    • Urgência para evacuar.

    A intensidade dos sintomas varia conforme:

    • A quantidade de lactose ingerida;
    • O grau de deficiência de lactase;
    • A composição da microbiota intestinal;
    • A velocidade do esvaziamento gástrico.

    Por que algumas pessoas toleram queijo, mas não leite?

    Nem todos os laticínios contêm a mesma quantidade de lactose.

    Geralmente possuem mais lactose

    • Leite;
    • Leite condensado;
    • Sorvetes;
    • Leites fermentados;
    • Alguns iogurtes adoçados.

    Geralmente possuem menos lactose

    • Queijos maturados, como parmesão e provolone;
    • Queijo suíço;
    • Cheddar maturado.

    Durante a fabricação e a maturação dos queijos, parte da lactose é consumida pelas bactérias responsáveis pela fermentação. Por isso, muitas pessoas conseguem consumir determinados queijos sem apresentar sintomas.

    É possível desenvolver intolerância de forma temporária?

    Sim. Além da deficiência primária de lactase, existe a intolerância secundária à lactose. Ela acontece quando doenças que lesionam a mucosa intestinal reduzem temporariamente a produção da enzima.

    Algumas causas incluem:

    • Gastroenterites;
    • Doença celíaca;
    • Doença de Crohn;
    • Giardíase;
    • Quimioterapia ou radioterapia envolvendo o intestino.

    Nesses casos, a intolerância pode melhorar após o tratamento da doença de base.

    Intolerância à lactose é a mesma coisa que alergia ao leite?

    Não. São condições completamente diferentes.

    Intolerância à lactose

    • É um problema digestivo;
    • Decorre da deficiência da enzima lactase;
    • Não envolve o sistema imunológico.

    Alergia à proteína do leite

    • É uma doença imunológica;
    • O organismo reage às proteínas do leite;
    • Pode causar urticária, inchaço, falta de ar e até anafilaxia.

    Enquanto a intolerância costuma causar desconforto gastrointestinal, a alergia pode ser potencialmente grave.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico pode ser baseado na história clínica e confirmado por exames quando necessário. Os métodos mais utilizados são os abaixo.

    Teste do hidrogênio no ar expirado

    É considerado o principal exame não invasivo. Após ingerir lactose, mede-se a quantidade de hidrogênio eliminada na respiração. Níveis elevados sugerem má digestão da lactose.

    Teste de tolerância à lactose

    Avalia o aumento da glicemia após a ingestão de lactose. Se a lactose não for adequadamente digerida e absorvida, a glicemia sobe menos do que o esperado.

    Testes genéticos

    Podem identificar variantes associadas à persistência ou à redução da produção de lactase em algumas populações. Entretanto, nem sempre são necessários.

    Preciso cortar todo o leite da alimentação?

    Na maioria dos casos, não. A maior parte das pessoas com intolerância à lactose consegue tolerar pequenas quantidades de lactose, principalmente quando consumidas junto com outros alimentos. O limite varia entre os indivíduos.

    Muitas pessoas conseguem ingerir cerca de 12 gramas de lactose, aproximadamente a quantidade encontrada em um copo de leite, sem sintomas importantes quando o consumo ocorre junto às refeições. Por isso, a recomendação costuma ser individualizada.

    Leite sem lactose é realmente sem lactose?

    Esses produtos ainda contêm lactose, mas ela já foi quebrada pela adição da enzima lactase durante o processamento.

    Como o açúcar já está dividido em glicose e galactose, a digestão torna-se muito mais fácil para pessoas com deficiência de lactase.

    As enzimas de lactase em cápsulas funcionam?

    Podem funcionar para muitas pessoas. Esses suplementos fornecem a enzima lactase imediatamente antes da ingestão de alimentos contendo lactose.

    O benefício depende de fatores como:

    • Quantidade de lactose da refeição;
    • Dose da enzima utilizada;
    • Grau de deficiência de lactase.

    Eles não tratam a causa da intolerância, mas podem reduzir os sintomas em situações específicas.

    Existe risco de deficiência de cálcio?

    Pode existir quando a pessoa elimina todos os laticínios da alimentação sem substituí-los adequadamente.

    O leite e seus derivados são importantes fontes de:

    • Cálcio;
    • Proteínas;
    • Vitamina B12;
    • Riboflavina.

    Quando a restrição é necessária, o médico ou nutricionista pode orientar fontes alternativas ou suplementação, se indicada.

    Quando procurar um médico?

    Procure avaliação se os sintomas:

    • Surgirem repetidamente após o consumo de leite ou derivados;
    • Forem intensos;
    • Vierem acompanhados de perda de peso;
    • Apresentarem sangue nas fezes;
    • Acordarem você durante a noite;
    • Persistirem mesmo após retirar a lactose.

    Esses sinais podem indicar outras doenças gastrointestinais que necessitam de investigação.

    Confira: Intolerância à lactose: quando o leite vira desconforto

    Perguntas frequentes sobre intolerância à lactose

    1. É normal desenvolver intolerância à lactose depois dos 30 anos?

    Sim. A forma mais comum resulta da redução progressiva da produção de lactase ao longo da vida, e os sintomas podem surgir apenas na idade adulta.

    2. Por que antes eu tomava leite normalmente?

    Porque a produção da enzima lactase pode diminuir gradualmente com a idade. Quando ela deixa de ser suficiente para digerir a quantidade de lactose consumida, começam a aparecer os sintomas.

    3. Preciso cortar todos os derivados do leite?

    Não necessariamente. Muitas pessoas toleram pequenas quantidades de lactose ou produtos naturalmente pobres em lactose, como alguns queijos maturados.

    4. Intolerância à lactose pode aparecer de repente?

    Os sintomas podem parecer surgir de forma súbita, mas, na maioria dos casos, a redução da lactase acontece gradualmente. Também existem formas temporárias associadas a doenças intestinais.

    5. Leite sem lactose é seguro para quem tem intolerância?

    Sim. Nesses produtos, a lactose foi previamente quebrada pela enzima lactase, facilitando sua digestão.

    6. Intolerância à lactose é a mesma coisa que alergia ao leite?

    Não. A intolerância é causada pela deficiência de lactase, enquanto a alergia ao leite é uma reação do sistema imunológico às proteínas do leite.

    7. A intolerância à lactose tem cura?

    A forma primária, relacionada à genética, não tem cura. Entretanto, ela pode ser controlada com ajustes alimentares, produtos sem lactose e, quando necessário, suplementos de lactase, permitindo que a maioria das pessoas mantenha uma alimentação variada e nutricionalmente adequada.

    Veja também: Intolerância à lactose: o que comer no dia a dia?

  • Melhorar os hábitos só antes dos exames funciona? Entenda o que realmente muda

    Melhorar os hábitos só antes dos exames funciona? Entenda o que realmente muda

    É uma cena bastante comum. Dias antes de fazer um check-up, muitas pessoas decidem cortar doces, abandonar as frituras, parar de consumir bebidas alcoólicas, voltar para a academia e adotar uma alimentação muito mais saudável. A expectativa é simples: conseguir resultados melhores nos exames de sangue.

    De fato, é uma boa mudança, mas o problema está em não manter esses bons hábitos depois dos exames, o que torna o check-up menos fiel à rotina habitual.

    Alguns exames laboratoriais respondem rapidamente às alterações na alimentação e no estilo de vida, enquanto outros refletem o comportamento do organismo ao longo de semanas ou meses. Por isso, preparar o corpo apenas para o dia da coleta pode transmitir uma imagem diferente da realidade e dificultar a identificação de riscos cardiovasculares, metabólicos e hepáticos.

    O objetivo do check-up não é “passar na prova”, mas mostrar como o organismo realmente está funcionando para que o médico possa orientar as melhores estratégias de prevenção e tratamento.

    O objetivo do check-up não é tirar nota

    Exames laboratoriais não servem para aprovar ou reprovar alguém. Eles ajudam o médico a responder perguntas como:

    • Como está seu metabolismo;
    • Existe risco aumentado de diabetes;
    • O colesterol está controlado;
    • Há sinais de lesão no fígado;
    • Os rins estão funcionando adequadamente.

    Se a rotina habitual não aparece nos exames porque houve mudanças apenas nos dias anteriores, algumas alterações podem parecer menores do que realmente são. Isso pode retardar orientações importantes ou levar a uma falsa sensação de segurança.

    Quais exames podem mudar após poucos dias de hábitos mais saudáveis?

    Nem todos os exames respondem da mesma maneira. Alguns refletem alterações recentes; outros representam a exposição acumulada ao longo de semanas ou meses.

    Triglicerídeos: um dos exames que mais mudam rapidamente

    Os triglicerídeos são muito sensíveis à alimentação recente.

    Reduzir por alguns dias:

    • Bebidas alcoólicas;
    • Refrigerantes;
    • Doces;
    • Excesso de carboidratos refinados;
    • Grandes quantidades de gordura.

    Pode diminuir significativamente seus níveis, principalmente em pessoas que apresentavam valores elevados.

    Por outro lado, uma refeição muito gordurosa ou o consumo importante de álcool nas 24 a 72 horas anteriores também pode elevar o resultado.

    Assim, um exame realizado após uma semana de alimentação “perfeita” pode não representar o padrão habitual do paciente e, com isso, diminuir a chance de o médico orientar e ajustar hábitos permanentes.

    Glicemia pode melhorar em poucos dias?

    Sim. A glicemia de jejum pode diminuir rapidamente após:

    • Redução do consumo de açúcares;
    • Perda inicial de peso;
    • Exercícios físicos;
    • Menor ingestão calórica.

    Entretanto, esse resultado representa apenas o momento da coleta. Por isso, muitas vezes o médico solicita também a hemoglobina glicada (HbA1c), que reflete o comportamento da glicemia durante um período maior de tempo.

    A hemoglobina glicada é mais difícil de “enganar”

    A HbA1c reflete a média da glicemia dos últimos dois a três meses. Isso significa que poucos dias de alimentação saudável dificilmente produzirão mudanças importantes no resultado.

    É justamente por isso que esse exame é amplamente utilizado para avaliar o controle do diabetes e identificar alterações persistentes da glicose.

    O colesterol também melhora em uma ou duas semanas?

    Depende da fração avaliada. O colesterol LDL e o colesterol total podem sofrer pequenas reduções após mudanças na alimentação, mas geralmente as alterações mais consistentes aparecem após várias semanas de manutenção de uma dieta equilibrada.

    O HDL, conhecido como “colesterol bom”, costuma responder ainda mais lentamente às mudanças de estilo de vida. Ou seja, uma semana de alimentação saudável dificilmente normaliza um colesterol elevado há anos.

    Parar de beber álcool antes dos exames muda os resultados?

    Sim. Alguns exames relacionados ao fígado podem melhorar após dias ou semanas sem álcool, especialmente em pessoas que consumiam bebidas alcoólicas com frequência.

    Entre eles:

    • Gama-glutamil transferase (GGT);
    • Triglicerídeos;
    • Em alguns casos, AST (TGO) e ALT (TGP), dependendo da intensidade e da duração do consumo.

    Entretanto, alterações decorrentes de doença hepática estabelecida podem persistir mesmo após a interrupção temporária do álcool.

    Exercício intenso antes do exame também interfere?

    Sim. Curiosamente, fazer uma sessão muito intensa de atividade física na véspera pode alterar alguns exames.

    Entre eles:

    • Creatina quinase (CK);
    • AST (TGO);
    • Lactato desidrogenase (LDH);
    • Creatinina, em alguns casos.

    Essas alterações nem sempre representam doença, mas podem dificultar a interpretação dos resultados. Não deixe de avisar o médico que você fez exercício físico intenso antes do exame.

    Quais exames praticamente não mudam em poucos dias?

    Alguns exames refletem processos de longo prazo e sofrem pouca influência de mudanças temporárias.

    Exemplos incluem:

    • Hemoglobina glicada (HbA1c);
    • Algumas frações do colesterol, com mudanças discretas;
    • Creatinina, quando a função renal é estável;
    • Hemograma, salvo situações específicas;
    • TSH e outros hormônios, na maioria dos casos.

    Esses exames ajudam o médico a avaliar condições que não se modificam rapidamente.

    O maior problema não é melhorar antes do exame

    Adotar hábitos saudáveis nunca é um erro. O problema surge quando a mudança acontece apenas para o dia do check-up e é abandonada logo depois.

    Nesse cenário, o exame pode transmitir uma impressão melhor do que a realidade cotidiana.

    Como consequência:

    • O risco cardiovascular pode ser subestimado;
    • Alterações metabólicas podem parecer menos importantes;
    • O paciente pode acreditar que está tudo bem, enquanto não está;
    • Mudanças realmente necessárias podem ser adiadas.

    O que acontece quando voltam os maus hábitos?

    O risco de desenvolver ou agravar doenças aumenta novamente se, após o check-up, a pessoa retorna ao consumo frequente de:

    • Bebidas alcoólicas;
    • Refrigerantes;
    • Doces;
    • Alimentos ultraprocessados;
    • Grandes quantidades de gordura saturada.

    Algumas doenças que podem se desenvolver ou agravar são:

    • Diabetes tipo 2;
    • Hipertensão arterial;
    • Dislipidemia;
    • Esteatose hepática, conhecida como gordura no fígado;
    • Doença cardiovascular;
    • Infarto;
    • Acidente vascular cerebral (AVC).

    Essas doenças são consequência da exposição crônica aos fatores de risco, e não apenas do que aconteceu na semana anterior ao exame.

    Devo contar ao médico que mudei minha alimentação antes do check-up?

    Sim. Essa informação pode ser muito útil. Se o médico souber que você:

    • Parou de beber há poucos dias;
    • Fez dieta rigorosa apenas na semana anterior;
    • Mudou radicalmente sua alimentação;
    • Iniciou exercícios intensos recentemente.

    Ele poderá interpretar os exames de forma mais adequada e decidir se há necessidade de repetir alguns testes ou acompanhar a evolução ao longo do tempo.

    Como se preparar corretamente para um check-up?

    O ideal é que os exames reflitam sua rotina habitual.

    Algumas recomendações são:

    • Manter seus hábitos habituais nas semanas que antecedem o exame, salvo orientação médica diferente;
    • Respeitar o jejum quando indicado;
    • Evitar consumo excessivo de álcool nas 24 a 72 horas anteriores;
    • Evitar exercício físico extenuante na véspera, quando orientado;
    • Informar todos os medicamentos e suplementos em uso;
    • Comunicar qualquer mudança importante recente no estilo de vida.

    O maior benefício do check-up é fornecer informações confiáveis para orientar decisões de saúde.

    A melhor estratégia é mudar para sempre

    Não existe vantagem em “tirar uma boa nota” no exame se os hábitos prejudiciais retornam logo depois. Os maiores benefícios para a saúde acontecem quando mudanças são mantidas ao longo do tempo, como:

    • Alimentação equilibrada;
    • Atividade física regular;
    • Sono adequado;
    • Controle do peso;
    • Redução do consumo de álcool;
    • Cessação do tabagismo.

    É essa constância que reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, doença renal e diversos outros problemas de saúde.

    Veja também: Triglicérides: do combustível do corpo ao risco para o coração

    Perguntas frequentes sobre hábitos antes do check-up

    1. Fazer dieta uma semana antes do exame melhora os resultados?

    Pode melhorar alguns exames, especialmente triglicerídeos e glicemia de jejum, mas não representa necessariamente como seu organismo funciona no dia a dia.

    2. A hemoglobina glicada muda em poucos dias?

    Não. Ela reflete a média da glicemia dos últimos dois a três meses e praticamente não é influenciada por poucos dias de dieta.

    3. Parar de beber álcool antes do check-up pode alterar os exames?

    Sim. Triglicerídeos e algumas enzimas hepáticas, como a GGT, podem melhorar após dias ou semanas sem consumo de álcool, dependendo do padrão anterior de ingestão.

    4. Fazer exercício intenso na véspera interfere nos exames?

    Pode interferir. CK, AST (TGO), LDH e, ocasionalmente, creatinina podem aumentar temporariamente após atividade física intensa.

    5. O médico consegue perceber que mudei meus hábitos apenas antes do exame?

    Nem sempre. Por isso, informar mudanças recentes na alimentação, no consumo de álcool ou na prática de exercícios ajuda a interpretar os resultados corretamente.

    6. Vale a pena mudar os hábitos apenas antes do check-up?

    Vale a pena começar a mudar em qualquer momento, mas o ideal é manter essas mudanças de forma permanente. Alterações temporárias podem melhorar alguns resultados laboratoriais, porém não reduzem de maneira duradoura o risco de doenças.

    7. O que realmente melhora os exames a longo prazo?

    A combinação de alimentação saudável, atividade física regular, manutenção do peso adequado, sono de qualidade, abandono do tabagismo e consumo moderado ou ausência de álcool produz benefícios sustentados tanto nos exames quanto na saúde geral.

    Leia mais: Exame mostrou glicemia alta? Veja quais são os próximos passos

  • Fibromialgia: o que é, como identificar e como tratar  

    Fibromialgia: o que é, como identificar e como tratar  

    Dor em diferentes partes do corpo por semanas ou meses, cansaço persistente mesmo após uma boa noite de sono e dificuldade de concentração são sintomas que podem comprometer profundamente a rotina. Ainda assim, muitas pessoas convivem com essas queixas durante anos antes de receber um diagnóstico, principalmente porque os exames costumam estar normais.

    Hoje se sabe que a fibromialgia é uma síndrome de dor crônica reconhecida, relacionada a alterações na forma como o sistema nervoso processa a dor, e não a uma inflamação ou lesão dos músculos ou das articulações. Embora ainda não exista cura definitiva, o diagnóstico precoce e uma abordagem multidisciplinar permitem controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida.

    O que é fibromialgia?

    A fibromialgia é uma síndrome caracterizada principalmente por:

    • Dor musculoesquelética difusa;
    • Fadiga persistente;
    • Sono não reparador;
    • Alterações cognitivas;
    • Sensibilidade aumentada à dor.

    O problema não está nos músculos ou nas articulações, mas na forma como o cérebro e a medula espinhal processam os estímulos dolorosos.

    Esse fenômeno é conhecido como sensibilização central, em que estímulos normalmente pouco dolorosos passam a ser percebidos com intensidade exagerada.

    Qual é a incidência da fibromialgia?

    A fibromialgia é relativamente comum.

    Estudos estimam que ela afete aproximadamente 2% a 3% da população mundial, sendo uma das principais causas de dor musculoesquelética generalizada. A incidência aumenta com a idade e é significativamente mais frequente em mulheres, especialmente entre os 20 e 55 anos.

    Apesar disso, homens, idosos, adolescentes e crianças também podem desenvolver a doença.

    O que causa a fibromialgia?

    Não existe uma causa única. Acredita-se que a doença resulte da interação entre fatores:

    • Genéticos;
    • Neurobiológicos;
    • Ambientais;
    • Psicológicos.

    Diversos fatores podem desencadear ou agravar os sintomas, como:

    • Estresse físico ou emocional intenso;
    • Traumas;
    • Infecções;
    • Distúrbios do sono;
    • Predisposição familiar.

    Pessoas com familiares de primeiro grau acometidos apresentam maior risco de desenvolver a síndrome.

    Quais são os principais sintomas?

    Dor generalizada

    É o principal sintoma. A dor costuma:

    • Estar presente nos dois lados do corpo;
    • Acometer regiões acima e abaixo da cintura;
    • Persistir por pelo menos três meses;
    • Ser descrita como profunda, em queimação, peso ou pontadas.

    Muitos pacientes dizem que parece que o corpo inteiro está machucado.

    Fadiga intensa

    Mesmo após dormir várias horas, é comum acordar cansado. A sensação de exaustão pode limitar atividades simples do dia a dia.

    Alterações do sono

    Muitas pessoas apresentam:

    • Sono leve;
    • Despertares frequentes;
    • Sensação de sono não reparador;
    • Insônia.

    A piora do sono costuma intensificar a dor.

    Fibrofog (“névoa mental”)

    A alteração cognitiva, conhecida como fibrofog, pode causar:

    • Dificuldade de concentração;
    • Esquecimentos;
    • Lentidão para raciocinar;
    • Dificuldade para encontrar palavras.

    Embora não cause demência, pode impactar significativamente o desempenho profissional e acadêmico.

    Outros sintomas

    Além da dor, podem ocorrer:

    • Rigidez matinal;
    • Cefaleia;
    • Síndrome do intestino irritável;
    • Sensibilidade ao frio;
    • Ansiedade;
    • Depressão;
    • Dormências e formigamentos;
    • Dor na articulação temporomandibular;
    • Palpitações;
    • Sensação de inchaço sem edema visível.

    Esses sintomas variam bastante entre os pacientes.

    A fibromialgia causa inflamação?

    Não. Ao contrário de doenças como artrite reumatoide ou lúpus, a fibromialgia não provoca inflamação nas articulações nem destruição dos tecidos.

    Por isso:

    • Exames laboratoriais costumam ser normais;
    • Radiografias geralmente não mostram alterações relacionadas à doença.

    Os exames são solicitados principalmente para excluir outras causas de dor difusa.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico é clínico. O médico considera:

    • Dor generalizada por pelo menos três meses;
    • Distribuição da dor em diferentes regiões do corpo;
    • Intensidade dos sintomas;
    • Presença de fadiga, alterações do sono e sintomas cognitivos.

    Os critérios atuais do American College of Rheumatology (ACR) não exigem mais a pesquisa dos antigos “pontos dolorosos” (tender points), valorizando uma avaliação global dos sintomas.

    Quais doenças podem ser confundidas com fibromialgia?

    Entre os principais diagnósticos diferenciais estão:

    • Hipotireoidismo;
    • Artrite reumatoide;
    • Lúpus eritematoso sistêmico;
    • Polimialgia reumática;
    • Miopatias;
    • Deficiência de vitamina D;
    • Síndrome da fadiga crônica;
    • Apneia obstrutiva do sono.

    Em algumas pessoas, essas doenças podem coexistir com a fibromialgia.

    Como é o tratamento?

    O tratamento é individualizado e combina medidas não medicamentosas e medicamentos quando necessário.

    Educação do paciente

    Entender que a fibromialgia é uma condição real e crônica ajuda a reduzir a ansiedade e melhora a adesão ao tratamento.

    Também é importante estabelecer expectativas realistas: o objetivo é controlar os sintomas e melhorar a funcionalidade, e não necessariamente eliminar toda a dor.

    Exercícios físicos

    A prática regular de atividade física é considerada uma das intervenções mais eficazes. Os melhores resultados costumam ocorrer com:

    • Caminhadas;
    • Hidroginástica;
    • Natação;
    • Bicicleta;
    • Exercícios de fortalecimento muscular;
    • Alongamentos.

    O exercício deve ser iniciado de forma gradual.

    Sono adequado

    Melhorar a qualidade do sono faz parte do tratamento.

    Podem ser recomendadas medidas de higiene do sono, como:

    • Dormir e acordar em horários regulares;
    • Evitar telas antes de dormir;
    • Reduzir a cafeína no período noturno.

    Terapia cognitivo-comportamental (TCC)

    A terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode ajudar no manejo da dor, do estresse, da ansiedade e da adaptação às limitações impostas pela doença.

    Ela integra as principais estratégias não farmacológicas recomendadas.

    Medicamentos

    Os medicamentos podem ser úteis em pacientes com sintomas moderados ou intensos.

    Entre os mais utilizados estão:

    • Duloxetina;
    • Milnaciprano;
    • Pregabalina;
    • Amitriptilina.

    Esses medicamentos ajudam a modular a dor e podem melhorar o sono e a fadiga em alguns pacientes.

    Anti-inflamatórios e opioides funcionam?

    Na maioria dos casos, não.

    Como a fibromialgia não é uma doença inflamatória, os anti-inflamatórios apresentam benefício limitado.

    Os opioides também não são recomendados rotineiramente, devido à baixa eficácia e ao risco de dependência e efeitos adversos.

    A fibromialgia tem cura?

    Atualmente, não existe cura definitiva. Entretanto, muitos pacientes conseguem excelente controle dos sintomas com:

    • Exercícios físicos regulares;
    • Tratamento do sono;
    • Controle da ansiedade e da depressão;
    • Estratégias de enfrentamento da dor;
    • Medicamentos quando indicados.

    Os sintomas costumam oscilar, alternando períodos de melhora e de piora.

    Quando procurar um médico?

    Procure avaliação médica se houver:

    • Dor difusa por mais de três meses;
    • Cansaço persistente sem explicação;
    • Sono não reparador;
    • Dificuldade de concentração associada à dor;
    • Limitação das atividades diárias.

    Também é importante investigar quando houver perda de peso, febre, fraqueza muscular progressiva ou alterações nos exames físicos, pois esses sinais sugerem outras doenças.

    Confira: Magnésio é tudo igual? Diferenças que você precisa saber antes de começar a tomar

    Perguntas frequentes sobre fibromialgia

    1. O que é fibromialgia?

    É uma síndrome de dor crônica caracterizada por dor musculoesquelética generalizada, fadiga, alterações do sono e sintomas cognitivos relacionados a alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso central.

    2. A fibromialgia é uma doença inflamatória?

    Não. Ela não provoca inflamação das articulações nem destruição dos músculos.

    3. Os exames costumam estar alterados?

    Na maioria dos casos, não. Os exames laboratoriais e de imagem geralmente são normais e servem para excluir outras doenças.

    4. Quem tem maior risco de desenvolver fibromialgia?

    A doença é mais frequente em mulheres entre 20 e 55 anos, mas pode acometer pessoas de qualquer sexo e idade.

    5. Exercício físico realmente ajuda?

    Sim. A atividade física regular é considerada um dos pilares do tratamento e está associada à redução da dor e à melhora da qualidade de vida.

    6. Anti-inflamatórios são eficazes?

    Em geral, não. Como a fibromialgia não é causada por inflamação, esses medicamentos têm benefício limitado e não são recomendados como tratamento de rotina.

    7. A fibromialgia tem cura?

    Ainda não existe cura definitiva, mas uma abordagem multidisciplinar com exercícios, educação, tratamento dos distúrbios do sono, terapia cognitivo-comportamental e medicamentos quando indicados permite controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida.

    Confira: Cansaço, dor e nevoeiro mental: como reconhecer a fibromialgia