Autor: Dra. Juliana Soares

  • Transtorno bipolar: quando o humor vai além das oscilações normais

    Transtorno bipolar: quando o humor vai além das oscilações normais

    Mudanças de humor fazem parte da vida. Mas quando essas oscilações são intensas, duram semanas e interferem no trabalho, nos relacionamentos e na segurança da pessoa, pode haver algo além de fase ruim. O transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica séria, mas tratável, que exige diagnóstico correto e acompanhamento contínuo.

    Também chamado de transtorno afetivo bipolar (TAB), ele é caracterizado por episódios de elevação anormal do humor (mania ou hipomania) alternados com episódios de depressão. Entre essas fases, a pessoa pode passar por períodos de estabilidade.

    Um dos grandes desafios é que muitas vezes o primeiro episódio é depressivo, o que pode levar ao diagnóstico errado de depressão comum e atrasar o tratamento adequado.

    Quais são os tipos de transtorno bipolar?

    Segundo o manual diagnóstico utilizado em psiquiatria (DSM-5), existem diferentes formas da doença.

    Transtorno bipolar tipo I (TAB I)

    • Presença de pelo menos um episódio de mania (fase de euforia intensa ou irritabilidade com perda de controle);
    • Pode haver episódios depressivos;
    • Pode haver episódios de hipomania, que é uma fase de euforia de menor intensidade.

    Transtorno bipolar tipo II (TAB II)

    • Presença de pelo menos um episódio de hipomania (forma mais leve de euforia);
    • Presença de pelo menos um episódio de depressão maior;
    • Não há histórico de mania completa.

    Transtorno ciclotímico (ciclotimia)

    • Oscilações crônicas de humor mais leves;
    • Sintomas depressivos e de elevação do humor que não chegam a preencher todos os critérios formais;
    • Duração de pelo menos dois anos.

    Quem pode desenvolver?

    O transtorno bipolar pode afetar homens e mulheres de forma semelhante.

    • Início mais comum entre 15 e 24 anos;
    • A maioria apresenta sintomas antes dos 25 anos;
    • Pode haver novo pico de diagnóstico entre 45 e 54 anos.

    Estima-se que cerca de 2,4% da população mundial apresente algum grau do espectro bipolar.

    O que causa o transtorno bipolar?

    Não existe uma única causa. A condição resulta da combinação de vários fatores.

    Entre eles:

    • Predisposição genética (história familiar aumenta o risco);
    • Alterações em substâncias químicas do cérebro, como dopamina e serotonina (neurotransmissores);
    • Eventos estressantes importantes;
    • Alterações estruturais e funcionais no cérebro.

    Situações como perdas, separações, desemprego ou parto podem anteceder crises em pessoas predispostas.

    Como são os episódios?

    Episódio de mania (mais comum no tipo I)

    Dura pelo menos uma semana (ou menos, se houver necessidade de internação).

    Pode envolver:

    • Humor muito elevado ou irritabilidade intensa;
    • Energia exagerada;
    • Redução da necessidade de sono (dormir pouco e não sentir cansaço);
    • Fala acelerada;
    • Pensamentos rápidos;
    • Sensação de grandiosidade (acreditar que tem habilidades ou poderes especiais);
    • Impulsividade (gastos excessivos, decisões arriscadas);
    • Comportamentos de risco.

    Pode causar grande prejuízo social ou profissional. Em alguns casos, há perda de contato com a realidade (sintomas psicóticos).

    Episódio de hipomania (mais comum no tipo II)

    É semelhante à mania, mas:

    • Dura pelo menos 4 dias;
    • Não causa prejuízo grave;
    • Não há sintomas psicóticos;
    • Geralmente não exige internação.

    A pessoa pode parecer apenas “mais animada que o normal”, o que dificulta o diagnóstico.

    Episódio depressivo

    Dura pelo menos duas semanas.

    Pode incluir:

    • Tristeza persistente;
    • Perda de interesse;
    • Alteração do sono;
    • Alteração de apetite;
    • Cansaço excessivo;
    • Culpa exagerada;
    • Dificuldade de concentração;
    • Pensamentos de morte ou suicídio.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico é clínico, feito por psiquiatra com base em:

    • Entrevista detalhada;
    • Histórico de episódios anteriores;
    • Histórico familiar;
    • Exclusão de outras causas, como uso de drogas ou doenças clínicas.

    Não existe exame de sangue específico para confirmar transtorno bipolar.

    É importante diferenciar de:

    • Depressão comum;
    • Transtornos de ansiedade;
    • Transtorno de personalidade borderline;
    • TDAH;
    • Transtornos induzidos por substâncias.

    Como é o tratamento?

    O tratamento combina medicação e psicoterapia, geralmente por longo prazo.

    Tratamento da mania

    • Estabilizadores do humor (como lítio e valproato);
    • Antipsicóticos modernos (como quetiapina e risperidona);
    • Medicamentos para agitação, quando necessário;
    • Eletroconvulsoterapia (ECT) em casos graves.

    Vale lembrar que a eletroconvulsoterapia (ECT) é um procedimento médico seguro realizado sob anestesia e usado em situações específicas.

    Tratamento da depressão bipolar

    • Lítio;
    • Lamotrigina;
    • Antipsicóticos específicos;
    • Antidepressivos não devem ser usados sozinhos, pois podem desencadear mania.

    Tratamento de manutenção

    • Uso contínuo de estabilizadores do humor;
    • Psicoterapia (como terapia cognitivo-comportamental);
    • Monitoramento de efeitos metabólicos;
    • Acompanhamento regular com psiquiatra.

    O lítio é um dos medicamentos mais eficazes na prevenção de recaídas e na redução do risco de suicídio.

    Complicações e riscos

    Sem tratamento adequado, o transtorno bipolar pode estar associado a:

    • Aumento do risco de suicídio;
    • Problemas financeiros e legais;
    • Doenças cardiovasculares e metabólicas;
    • Uso abusivo de álcool e drogas.

    Com tratamento correto, muitos pacientes conseguem estabilização e boa qualidade de vida.

    Quando procurar ajuda?

    Procure avaliação médica se houver:

    • Oscilações intensas de humor;
    • Períodos de energia excessiva com impulsividade;
    • Episódios depressivos repetidos;
    • Ideias de suicídio;
    • Mudança significativa no padrão de sono ou comportamento.

    Veja mais: Depressão de alta funcionalidade: o que é, como reconhecer e por que merece atenção

    Perguntas frequentes sobre transtorno bipolar

    1. Transtorno bipolar é o mesmo que mudança de humor?

    Não. As mudanças são intensas, duram dias ou semanas e causam prejuízo real.

    2. O transtorno bipolar tem cura?

    Não há cura definitiva, mas há controle eficaz com tratamento contínuo.

    3. Quem tem transtorno bipolar pode trabalhar normalmente?

    Sim. Com tratamento adequado, muitas pessoas levam vida produtiva.

    4. Antidepressivo pode piorar o transtorno bipolar?

    Sim, se usado sozinho pode desencadear mania.

    5. O transtorno bipolar é hereditário?

    Há forte componente genético, mas não é 100% determinístico.

    6. É possível prevenir recaídas?

    Sim. Com uso regular da medicação e acompanhamento.

    7. O transtorno bipolar pode aparecer só na fase adulta?

    Sim. Embora geralmente comece antes dos 25 anos, pode surgir mais tarde.

    Veja mais: Por que o domingo à noite mexe tanto com a ansiedade?

  • Cardiopatia congênita: conheça os tipos e as consequências para a saúde

    Cardiopatia congênita: conheça os tipos e as consequências para a saúde

    A cardiopatia congênita, também conhecida como doença cardíaca congênita, consiste em um ou mais problemas na estrutura do coração presentes desde a gravidez.

    As alterações podem afetar o funcionamento do órgão de maneiras diferentes, variando desde quadros leves, que muitas vezes não causam sintomas imediatos, até situações mais complexas, que exigem acompanhamento médico desde os primeiros dias de vida.

    No Brasil, aproximadamente 28,7 mil crianças nascem com uma cardiopatia congênita todos os anos. Na prática, isso significa que, a cada 100 bebês que nascem, cerca de um apresenta uma cardiopatia congênita — o que indica a importância do acompanhamento pré-natal e da atenção logo nos primeiros dias de vida.

    O que são doenças cardíacas congênitas?

    As doenças cardíacas congênitas são malformações que afetam a estrutura ou a função do coração, surgindo devido a alguma alteração no desenvolvimento do órgão durante as primeiras semanas da gestação, de acordo com a cardiologista Juliana Soares.

    Nesse período, o coração do bebê ainda está em formação, de modo que qualquer interferência no processo pode resultar em mudanças anatômicas ou funcionais que variam desde alterações leves até quadros mais complexos, com necessidade de acompanhamento médico desde os primeiros meses de vida.

    O momento em que os sintomas aparecem pode variar. Nos casos de cardiopatias congênitas leves, a criança pode passar toda a infância sem apresentar sintomas, e a condição tende a ser identificada apenas no final da infância ou até na vida adulta. Já nos casos mais graves, o diagnóstico pode ser feito ainda no período intrauterino ou imediatamente após o nascimento.

    Importante: para que uma condição seja considerada uma doença cardíaca congênita, a alteração precisa obrigatoriamente ocorrer durante a gestação. Se uma doença cardíaca aparece depois devido ao envelhecimento ou infecções, ela é considerada “adquirida”.

    Como o coração do bebê se forma na gestação?

    A formação do coração do bebê começa normalmente por volta da terceira semana após a fecundação. No início, surge uma estrutura simples que vai se desenvolvendo aos poucos até formar as cavidades, as válvulas e os vasos sanguíneos responsáveis pela circulação do sangue. Já no primeiro trimestre, o coração costuma estar formado e em funcionamento.

    Durante as semanas seguintes, o órgão continua amadurecendo para acompanhar o crescimento do bebê. Como se trata de um processo muito delicado, qualquer alteração pode interferir no desenvolvimento normal. Por isso, o acompanhamento pré-natal e a realização dos exames recomendados são importantes para avaliar se o coração está se formando de maneira adequada.

    Quais os tipos de cardiopatia congênita?

    As doenças cardíacas congênitas costumam ser classificadas em dois grupos principais: as cardiopatias congênitas cianóticas e as cardiopatias congênitas acianóticas.

    Segundo Juliana, as cardiopatias cianóticas são aquelas que causam deficiência na oxigenação do sangue, levando a uma coloração azulada da pele. Já as cardiopatias acianóticas apresentam alterações menos evidentes na oxigenação e são as mais comuns.

    Entre as cardiopatias congênitas acianóticas mais frequente, é possível destacar:

    • Comunicação interventricular: presença de um orifício na parede que separa os ventrículos;
    • Comunicação interatrial: abertura na parede que separa os átrios;
    • Persistência do canal arterial: canal que deveria se fechar após o parto, mas permanece aberto.

    Entre as cardiopatias cianóticas, a mais conhecida é a tetralogia de Fallot, caracterizada por quatro alterações estruturais no coração que comprometem a função cardiovascular. Elas dificultam a oxigenação adequada do sangue, levando ao quadro de cianose. São elas:

    • Comunicação interventricular (CIV);
    • Estenose da artéria pulmonar;
    • Dextroposição da aorta (deslocamento da aorta para a direita);
    • Hipertrofia do ventrículo direito.

    Juliana complementa que outra cardiopatia congênita relativamente comum é a coartação da aorta, caracterizada por um estreitamento da aorta após a sua emergência, o que dificulta o fluxo adequado do sangue.

    O que pode causar uma cardiopatia congênita?

    Na maioria dos casos, Juliana explica que a cardiopatia congênita ocorre sem causa definida. No entanto, alguns fatores aumentam o risco:

    • Histórico familiar de cardiopatia congênita;
    • Alterações genéticas específicas, como a síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21);
    • Exposição materna a fatores de risco durante a gestação, como diabetes mal controlado, consumo de álcool, uso de algumas medicações e infecções como rubéola.

    Os fatores não determinam obrigatoriamente a doença, mas aumentam a probabilidade de ocorrência.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico pode ocorrer em diferentes momentos, desde a gestação até depois do nascimento do bebê. A identificação precoce permite o acompanhamento adequado e, quando necessário, o início do tratamento o quanto antes.

    Durante o pré-natal, é realizado o ecocardiograma fetal, um exame capaz de identificar diversas cardiopatias a partir de aproximadamente a 20ª semana de gestação. Ele avalia a estrutura e o funcionamento do coração do bebê ainda no útero.

    Após o nascimento, é feita a oximetria de pulso, conhecida como teste do coraçãozinho, exame obrigatório antes da alta da maternidade para detectar cardiopatias congênitas críticas.

    Segundo Juliana, se houver suspeita clínica posteriormente, pode ser feito um ecocardiograma transtorácico no bebê. Sinais como um sopro cardíaco, o cansaço durante a mamada ou a coloração arroxeada dos lábios podem indicar a necessidade de investigação mais detalhada.

    Tratamento das doenças cardíacas congênitas

    O tratamento das cardiopatias congênitas é individualizado e depende do tipo da alteração, da gravidade do quadro e da idade do paciente.

    Em algumas situações, principalmente nos casos mais leves, pode ocorrer um fechamento espontâneo de pequenas comunicações no coração, sem necessidade de intervenção imediata, sendo indicado apenas o acompanhamento regular com o cardiologista.

    Em outros casos, o tratamento pode envolver o uso de medicamentos para controlar sintomas e melhorar o funcionamento do coração ou procedimentos minimamente invasivos, como o cateterismo cardíaco, no qual dispositivos são inseridos geralmente pela região da virilha para corrigir comunicações entre as cavidades do coração sem a necessidade de cirurgia aberta.

    De acordo com Juliana, a cirurgia costuma ser indicada nos casos mais complexos, quando existe necessidade de correção estrutural mais ampla para evitar complicações graves, preservar a função cardíaca e reduzir o risco de morte.

    Acompanhamento cardiológico ao longo da vida

    Mesmo após uma cirurgia bem-sucedida e na ausência de sintomas, Juliana explica que o acompanhamento médico regular é fundamental, pois podem surgir sequelas tardias ou alterações nas estruturas cardíacas ao longo do tempo.

    De forma geral, crianças com defeitos leves ou que passaram por uma correção adequada costumam ter uma vida próxima do normal, incluindo uma alimentação saudável e a prática de atividade física. Uma alimentação equilibrada ajuda a evitar a obesidade e os problemas metabólicos, que podem sobrecarregar um coração mais sensível.

    A atividade física costuma ser incentivada na maioria dos casos. Porém, algumas condições mais graves ou associadas a arritmias podem exigir restrições a esportes competitivos ou de alto impacto. O cardiologista pediátrico é o profissional responsável por orientar, de forma individualizada, qual nível de esforço é mais seguro para cada criança.

    É possível prevenir as doenças cardíacas congênitas?

    A prevenção das doenças cardíacas congênitas nem sempre é possível, já que muitas delas surgem durante a formação do coração do bebê sem uma causa definida. Mesmo assim, alguns cuidados durante a gestação podem ajudar a reduzir riscos e favorecer um desenvolvimento mais saudável do coração fetal, como:

    • Acompanhamento pré-natal regular para monitorar a saúde da mãe e do bebê;
    • Controle adequado do diabetes materno, quando presente;
    • Vacinação recomendada antes ou durante a gestação, conforme orientação médica;
    • Orientação médica sobre o uso de medicamentos durante a gravidez;
    • Evitar o consumo de álcool, cigarro e outras substâncias nocivas;
    • Manutenção de uma alimentação equilibrada durante a gestação;
    • Uso correto do ácido fólico, conforme indicação profissional;
    • Realização dos exames pré-natais recomendados.

    Quando suspeitar de um problema cardíaco congênito no bebê?

    A suspeita de um problema cardíaco congênito pode surgir ainda durante a gestação ou após o nascimento, principalmente quando alguns sinais chamam a atenção da família ou do pediatra.

    Nem sempre os sintomas aparecem logo, mas observar mudanças no comportamento, na respiração ou na coloração da pele do bebê ajuda na identificação precoce. Os principais sinais incluem:

    • Dificuldade para mamar ou cansaço excessivo durante a mamada;
    • Respiração rápida ou esforço para respirar;
    • Coloração arroxeada nos lábios, na língua ou nas extremidades;
    • Baixo ganho de peso ou dificuldade para crescer;
    • Suor excessivo, principalmente durante a alimentação;
    • Presença de sopro cardíaco identificado pelo pediatra.

    Na presença de qualquer um dos sinais, a avaliação com um pediatra ou um cardiologista pediátrico é necessário para esclarecer a causa e garantir o acompanhamento adequado.

    Leia mais: Raiva pode causar infarto? Entenda como emoções intensas afetam o coração

    Perguntas frequentes

    1. Toda cardiopatia congênita precisa de cirurgia?

    Não. Algumas condições, como pequenos furos no coração (comunicação interventricular ou interatrial), podem fechar sozinhos conforme a criança cresce. Outras são monitoradas apenas com medicamentos.

    2. É possível corrigir o defeito sem abrir o peito?

    Sim, através do cateterismo intervencionista. Um tubo fino é inserido por um vaso sanguíneo (geralmente na virilha) até o coração para fechar buracos ou abrir válvulas entupidas, evitando uma cirurgia de grande porte.

    3. O que é o “Teste do Coraçãozinho”?

    É um exame de triagem obrigatório realizado nas primeiras 24 a 48 horas de vida. Um sensor mede a oxigenação no braço e na perna do bebê para detectar precocemente cardiopatias graves que podem não apresentar sintomas imediatos.

    4. A doença pode voltar depois de operada?

    A malformação anatômica é corrigida, mas o paciente pode desenvolver sequelas ou precisar de novos procedimentos ao longo da vida (como a troca de uma válvula). Por isso, o acompanhamento deve ser constante.

    5. Pacientes com cardiopatia congênita podem ser vacinados normalmente?

    Sim, e é altamente recomendado. O calendário vacinal deve estar em dia, incluindo a vacina contra a gripe e o VSR (Vírus Sincicial Respiratório), pois infecções pulmonares podem ser muito graves para essas pessoas.

    6. Quem tem cardiopatia congênita pode fazer tatuagem ou piercing?

    É preciso ter muita cautela, pois o risco de infecção na pele que pode migrar para o coração é real. O cardiologista deve ser consultado antes, e o local escolhido para o procedimento deve seguir normas rigorosas de esterilização.

    Confira: Açúcar faz mal para o coração? Veja como o consumo afeta a saúde cardiovascular

  • Rosácea: por que o rosto fica vermelho e sensível? 

    Rosácea: por que o rosto fica vermelho e sensível? 

    A vermelhidão persistente no rosto nem sempre é apenas pele sensível ou reação ao calor. Quando o rubor aparece com frequência, vem acompanhado de sensação de ardor, pequenos vasos aparentes ou até lesões parecidas com acne, pode se tratar de rosácea, uma condição inflamatória crônica da pele.

    A rosácea atinge principalmente a região central da face e pode afetar não apenas a pele, mas também os olhos. Embora não tenha cura definitiva, há diversas formas de controlar os sintomas e reduzir o impacto estético e emocional da doença.

    O que é rosácea?

    A rosácea é uma doença inflamatória crônica da pele que acomete principalmente:

    • Bochechas;
    • Nariz;
    • Testa;
    • Queixo.

    Pode se manifestar com:

    • Vermelhidão persistente (eritema centrofacial);
    • Pápulas e pústulas;
    • Episódios de rubor (flushing);
    • Telangiectasias (vasos aparentes);
    • Espessamento da pele.

    Em alguns casos, também há comprometimento ocular.

    Quem é mais afetado?

    A rosácea é considerada comum, mas frequentemente subdiagnosticada. Estudos estimam prevalência de cerca de 5% dos adultos.

    Perfil mais afetado:

    • Adultos acima de 30 anos;
    • Mulheres (mais comum);
    • Homens com maior risco de formas fimatosas, como rinofima, que afeta o nariz.

    Embora seja mais associada à pele clara, pode ocorrer em todos os fototipos.

    O que causa a rosácea?

    A causa exata ainda não é totalmente compreendida. Diversos mecanismos parecem estar envolvidos.

    1. Alterações do sistema imune

    • Produção aumentada de peptídeos inflamatórios (como catelicidina);
    • Ativação exagerada da imunidade inata;
    • Participação de mastócitos e células T.

    2. Micro-organismos

    O ácaro Demodex folliculorum é encontrado em maior densidade na pele de pacientes com rosácea.

    3. Hiper-reatividade vascular

    Pessoas com rosácea apresentam maior tendência ao rubor (flushing). Alguns estímulos podem provocar vasodilatação exagerada, como:

    • Calor;
    • Alimentos picantes;
    • Estresse;
    • Álcool.

    4. Radiação ultravioleta

    A exposição solar pode contribuir para:

    • Inflamação cutânea;
    • Formação de vasos;
    • Estresse oxidativo.

    Por isso, usar protetor solar é muito importante.

    5. Fatores genéticos

    História familiar aumenta o risco, sugerindo predisposição genética.

    Principais sinais e sintomas da rosácea

    A rosácea pode se manifestar de diferentes formas. Os médicos costumam classificar a doença de acordo com os padrões de manifestação (fenótipos clínicos).

    Sinais que confirmam o diagnóstico

    • Vermelhidão persistente na região central do rosto (eritema centrofacial fixo);
    • Espessamento irregular da pele, especialmente no nariz, que pode ficar aumentado e com aspecto endurecido (alterações fimatosas, como a rinofima).

    Sinais mais comuns

    • Bolinhas vermelhas ou com pus, parecidas com acne (pápulas e pústulas);
    • Episódios de ondas de calor no rosto, com vermelhidão súbita e intensa (flushing);
    • Vasos sanguíneos aparentes na pele (telangiectasias);
    • Sintomas nos olhos, como vermelhidão, ardor e sensação de areia (rosácea ocular).

    Outros sintomas que podem aparecer

    • Sensação de ardor ou queimação na pele;
    • Inchaço no rosto (edema facial);
    • Pele seca, sensível e que irrita com facilidade.

    Rosácea ocular

    Pode ocorrer antes ou junto com as manifestações cutâneas.

    Sintomas são:

    • Olhos vermelhos;
    • Ardor;
    • Sensação de areia nos olhos;
    • Sensibilidade à luz (fotofobia);
    • Visão borrada.

    Em casos mais graves, pode haver comprometimento da córnea. Avaliação com oftalmologista é indicada quando há sintomas oculares.

    Fatores que pioram a rosácea

    Gatilhos comuns incluem:

    • Sol e calor;
    • Frio intenso;
    • Bebidas quentes;
    • Alimentos picantes;
    • Álcool;
    • Exercício físico intenso;
    • Estresse emocional;
    • Cosméticos irritantes.

    Identificar gatilhos individuais ajuda no controle da doença.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico da rosácea é feito principalmente pela avaliação clínica, ou seja, pela observação dos sinais e sintomas durante a consulta médica.

    Para confirmar o diagnóstico, geralmente é necessário que a pessoa apresente:

    • Pelo menos um sinal considerado típico da doença, como vermelhidão persistente na parte central do rosto (eritema centrofacial fixo), ou;
    • Dois ou mais sinais frequentes da rosácea, como bolinhas inflamadas (pápulas e pústulas), vasos aparentes (telangiectasias), episódios de vermelhidão súbita (flushing) ou sintomas nos olhos (rosácea ocular).

    Na maioria dos casos, não é preciso realizar biópsia (retirada de um pequeno fragmento de pele para análise), pois o diagnóstico costuma ser feito apenas pela avaliação clínica.

    Tratamento

    O objetivo é controlar sintomas e reduzir crises.

    Medidas gerais

    • Evitar gatilhos;
    • Higienização suave;
    • Hidratação diária;
    • Protetor solar FPS ≥ 30.

    Eritema persistente

    • Medicamentos específicos indicados pelo dermatologista;
    • Laser vascular;
    • Luz intensa pulsada.

    Pápulas e pústulas

    • Medicamentos específicos prescritos pelo médico, como ácido azelaico;
    • Antibióticos orais (como doxiciclina) em casos moderados, sempre prescritos por um médico especialista.

    Rosácea ocular

    • Compressas mornas;
    • Higiene palpebral;
    • Antibióticos tópicos ou sistêmicos;
    • Colírios sob orientação oftalmológica.

    Espessamento irregular da pele do nariz (rinofima)

    • Medicamentos específicos prescritos pelo dermatologista;
    • Laser ou cirurgia em casos avançados.

    O que esperar

    A rosácea é crônica e pode apresentar períodos de melhora e piora. Com acompanhamento adequado, é possível manter bom controle e reduzir o impacto psicológico e estético.

    Leia também: Acne: o que é, sintomas, causas e tratamento

    Perguntas frequentes sobre rosácea

    1. Rosácea é acne?

    Não. Embora possa causar pápulas e pústulas, trata-se de doença inflamatória diferente da acne.

    2. Tem cura?

    Não há cura definitiva, mas há controle eficaz.

    3. Sol piora?

    Sim, em muitos casos. A fotoproteção é fundamental.

    4. Álcool causa rosácea?

    Não causa, mas pode desencadear crises.

    5. Pode afetar os olhos?

    Sim. A rosácea ocular pode causar irritação e deve ser avaliada.

    6. Laser resolve?

    Pode melhorar vasos aparentes e vermelhidão persistente.

    7. É contagiosa?

    Não. Rosácea não é uma doença infecciosa.

    Confira: Acne na adolescência: 10 mitos e verdades sobre a condição

  • Síndrome de Down: informação, cuidado e inclusão 

    Síndrome de Down: informação, cuidado e inclusão 

    O nascimento de uma criança com síndrome de Down costuma vir acompanhado de muitas dúvidas. O que exatamente significa esse diagnóstico? Quais serão os desafios? Como será o desenvolvimento ao longo da vida? Informações claras e baseadas em evidências são muito importantes para acolher famílias e combater preconceitos.

    A síndrome de Down é uma condição genética causada pela presença de uma cópia extra — total ou parcial — do cromossomo 21. Essa alteração, chamada trissomia 21, influencia o desenvolvimento físico e intelectual e pode estar associada a algumas condições de saúde específicas.

    No entanto, cada pessoa com síndrome de Down é única, com habilidades, características e potencial próprios.

    O que é a síndrome de Down?

    A síndrome de Down ocorre principalmente devido à trissomia do cromossomo 21, ou seja, a presença de três cromossomos 21 em vez de dois.

    Essa alteração geralmente acontece por um erro na divisão celular durante a formação do óvulo ou do espermatozoide. Na maioria dos casos:

    • Não é herdada diretamente dos pais;
    • Ocorre de forma espontânea;
    • Está associada ao aumento da idade materna, mas pode ocorrer em qualquer gestação.

    O cromossomo extra interfere no desenvolvimento do organismo desde o início da formação embrionária, afetando crescimento, sistema nervoso e diversos órgãos.

    Principais características clínicas

    As manifestações variam amplamente entre as pessoas.

    1. Características físicas

    Algumas características podem estar presentes ao nascimento:

    • Olhos amendoados com prega epicântica;
    • Ponte nasal mais achatada;
    • Baixo tônus muscular (hipotonia);
    • Estatura mais baixa;
    • Dedos curtos;
    • Prega palmar única em algumas crianças.

    Nem todas as pessoas apresentam todos esses sinais.

    2. Desenvolvimento neurológico e cognitivo

    A maioria das pessoas com síndrome de Down apresenta deficiência intelectual de grau leve a moderado.

    Pode haver:

    • Atraso no desenvolvimento motor;
    • Atraso na fala;
    • Dificuldades específicas de aprendizagem;
    • Maior tempo para aquisição de algumas habilidades.

    Com estimulação precoce, muitas crianças desenvolvem boa autonomia.

    3. Condições de saúde associadas

    Há maior risco de algumas condições médicas, como:

    • Defeitos congênitos do coração;
    • Alterações gastrointestinais;
    • Doença celíaca;
    • Hipotireoidismo;
    • Apneia obstrutiva do sono;
    • Infecções respiratórias mais frequentes;
    • Risco aumentado de leucemia na infância.

    Por isso, o acompanhamento médico regular é essencial.

    Como é feito o diagnóstico?

    Diagnóstico pré-natal

    Durante a gestação, a suspeita pode surgir por:

    • Ultrassonografia com marcadores sugestivos;
    • Testes de triagem bioquímicos maternos;
    • Teste pré-natal não invasivo (NIPT).

    A confirmação é feita por exames diagnósticos como:

    • Amniocentese;
    • Biópsia de vilosidades coriônicas;
    • Análise cromossômica fetal.

    Diagnóstico após o nascimento

    Após o parto, o diagnóstico é frequentemente suspeitado pelas características físicas e confirmado por exame de cariótipo, que demonstra a trissomia 21.

    Acompanhamento e cuidados ao longo da vida

    Não existe cura para a síndrome de Down, pois não se trata de uma doença, mas de uma condição genética.

    O acompanhamento envolve equipe multidisciplinar e pode incluir:

    • Estimulação precoce;
    • Fonoaudiologia;
    • Fisioterapia;
    • Acompanhamento cardiológico;
    • Monitoramento da tireoide;
    • Avaliação auditiva e oftalmológica regular;
    • Apoio pedagógico e inclusão escolar.

    O objetivo é promover desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida.

    Expectativa de vida e prognóstico

    Com os avanços no diagnóstico precoce e no tratamento das condições associadas, a expectativa de vida das pessoas com síndrome de Down aumentou significativamente nas últimas décadas.

    Hoje, muitos indivíduos alcançam a vida adulta com boa qualidade de vida, inserção social e participação ativa na comunidade.

    Confira: Remédios na gravidez: o que pode e o que não pode tomar?

    Perguntas frequentes sobre síndrome de Down

    1. A síndrome de Down é uma doença?

    Não. É uma condição genética causada por alteração cromossômica.

    2. Todas as pessoas com síndrome de Down são iguais?

    Não. Existe grande variabilidade nas habilidades, personalidade e saúde.

    3. Pode ser diagnosticada antes do nascimento?

    Sim, por meio de exames de triagem e testes genéticos confirmatórios.

    4. É hereditária?

    Na maioria dos casos, não. Apenas formas raras, como translocações, podem ter componente familiar.

    5. Pessoas com síndrome de Down podem trabalhar?

    Sim. Muitas trabalham, estudam e vivem de forma independente, dependendo do nível de suporte necessário.

    6. Existe tratamento para melhorar o desenvolvimento?

    Sim. Estimulação precoce e acompanhamento multidisciplinar fazem grande diferença.

    7. A idade materna influencia o risco?

    Sim, o risco aumenta com a idade materna, mas pode ocorrer em qualquer faixa etária.

    Veja mais: Primeiro trimestre de gravidez: sintomas, exames e cuidados

  • Rash no rosto e dor nas articulações: pode ser lúpus? Entenda mais

    Rash no rosto e dor nas articulações: pode ser lúpus? Entenda mais

    Cansaço persistente, dores nas articulações, manchas avermelhadas no rosto que pioram após exposição ao sol. Esses sintomas podem parecer isolados ou até confundidos com outras condições comuns. Mas, quando aparecem de forma recorrente e associada, podem ser sinais de uma doença autoimune chamada lúpus.

    A doença é conhecida por seu comportamento imprevisível, alternando períodos de crise e remissão, e afeta principalmente mulheres em idade reprodutiva. Entender seus sinais e buscar diagnóstico precoce é fundamental para reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida.

    O que é lúpus

    O lúpus eritematoso sistêmico (LES), conhecido simplesmente como lúpus, é uma doença autoimune crônica em que o sistema imunológico passa a atacar tecidos saudáveis do próprio corpo. Essa reação provoca inflamação e pode comprometer diferentes órgãos, como pele, articulações, rins, pulmões, coração e sistema nervoso.

    O quadro é bastante variável: algumas pessoas apresentam sintomas leves e controláveis, enquanto outras podem desenvolver complicações mais graves. A doença costuma evoluir em ciclos, com períodos de crise intercalados com fases de remissão. Embora possa afetar qualquer pessoa, é mais comum em mulheres em idade reprodutiva.

    O que causa o lúpus?

    A causa exata do lúpus ainda não é completamente conhecida. Sabe-se que a doença resulta da combinação de fatores genéticos, ambientais e hormonais que levam à perda da tolerância imunológica.

    Fatores genéticos

    Certos genes relacionados à regulação do sistema imunológico aumentam o risco de desenvolver lúpus. Pessoas com familiares que têm doenças autoimunes apresentam maior predisposição.

    Fatores ambientais

    Podem atuar como gatilhos em indivíduos predispostos:

    • Exposição excessiva à luz solar;
    • Infecções;
    • Tabagismo;
    • Uso de alguns medicamentos.

    Fatores hormonais

    O fato de o lúpus ser muito mais frequente em mulheres sugere influência de hormônios como o estrogênio no desenvolvimento da doença.

    Como o lúpus afeta o corpo?

    O lúpus pode comprometer diferentes sistemas do organismo.

    Pele e mucosas

    • Rash malar (vermelhidão em “asa de borboleta” no rosto);
    • Lesões em áreas expostas ao sol;
    • Úlceras orais e nasais;
    • Queda de cabelo.

    Articulações e músculos

    • Dor e inchaço nas articulações;
    • Rigidez matinal;
    • Dor muscular.

    Rins (Nefrite lúpica)

    É uma das manifestações mais graves e pode causar:

    • Proteinúria;
    • Alterações na urina;
    • Insuficiência renal.

    Sistema nervoso

    • Cefaleia;
    • Alterações cognitivas;
    • Convulsões;
    • Alterações de humor.

    Sistema cardiovascular e pulmonar

    • Pericardite;
    • Pleurite;
    • Aumento do risco de doença cardiovascular precoce.

    Sintomas mais comuns

    Os sinais podem variar bastante, mas incluem:

    • Fadiga intensa;
    • Dor articular;
    • Febre baixa persistente;
    • Erupções cutâneas desencadeadas pelo sol;
    • Perda de peso involuntária;
    • Fenômeno de Raynaud (mudança de cor dos dedos ao frio).

    Os sintomas tendem a piorar durante crises e melhorar nos períodos de remissão.

    Como é feito o diagnóstico?

    Não existe um exame único que confirme o lúpus. O diagnóstico é feito com base na combinação de sinais clínicos e exames laboratoriais.

    Exames laboratoriais

    • Anticorpos antinucleares (ANA);
    • Anti-DNA de dupla hélice;
    • Anti-Sm;
    • Avaliação da função renal;
    • Exame de urina.

    O ANA é positivo na maioria dos casos, mas não é exclusivo do lúpus. Por isso, o diagnóstico depende da análise conjunta de sintomas e exames.

    Tratamento e acompanhamento

    O lúpus não tem cura, mas pode ser controlado.

    Medicamentos mais utilizados

    • Antimaláricos (como hidroxicloroquina);
    • Anti-inflamatórios;
    • Corticosteroides;
    • Imunossupressores;
    • Medicamentos biológicos em casos selecionados.

    Cuidados gerais

    • Uso diário de protetor solar;
    • Controle da pressão arterial e colesterol;
    • Acompanhamento regular da função renal;
    • Manutenção de hábitos saudáveis.

    O tratamento é individualizado e pode variar conforme os órgãos acometidos.

    Prognóstico

    O prognóstico depende da gravidade e do comprometimento de órgãos vitais, como rins e sistema nervoso. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, muitos pacientes conseguem manter boa qualidade de vida.

    Leia também: Artrite reumatoide: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

    Perguntas frequentes sobre lúpus

    1. O lúpus é contagioso?

    Não. É uma doença autoimune e não é transmitida de pessoa para pessoa.

    2. Por que afeta mais mulheres?

    Acredita-se que hormônios femininos influenciem a resposta imunológica.

    3. É possível viver normalmente com lúpus?

    Sim. Com acompanhamento adequado, muitos pacientes mantêm rotina ativa.

    4. O lúpus causa infertilidade?

    Não diretamente. No entanto, a doença e alguns medicamentos podem exigir planejamento prévio para gravidez.

    5. Quem tem lúpus pode tomar sol?

    A exposição sem proteção não é recomendada, pois pode desencadear crises cutâneas.

    6. Toda dor nas articulações é lúpus?

    Não. Existem diversas causas para dor articular.

    7. O lúpus sempre é grave?

    Não. A gravidade varia muito entre os pacientes.

    Leia mais: Esclerodermia: como essa doença autoimune afeta o organismo

  • HTLV-1: o vírus pouco conhecido que pode causar doenças graves

    HTLV-1: o vírus pouco conhecido que pode causar doenças graves

    O HTLV-1 (vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1) é um retrovírus que infecta principalmente os linfócitos T CD4+. Ele foi o primeiro retrovírus humano identificado e, apesar de ser menos conhecido do que o HIV, também pode causar doenças importantes.

    Milhões de pessoas no mundo vivem com o HTLV-1. No entanto, a maioria permanece assintomática ao longo da vida. Em uma pequena parcela dos casos, a infecção pode evoluir para complicações graves, como leucemia ou linfoma de células T do adulto ou uma doença neurológica chamada mielopatia associada ao HTLV-1, também conhecida como paraparesia espástica tropical.

    O que é o HTLV-1?

    O HTLV-1 é um retrovírus da família Retroviridae. Após infectar a célula, ele integra seu material genético ao DNA do hospedeiro, permanecendo no organismo por toda a vida.

    Diferente de outros vírus, sua replicação ocorre principalmente pela multiplicação das células infectadas, e não por grande produção de partículas virais livres.

    O vírus tem distribuição mundial, com maior prevalência em:

    • Japão;
    • Caribe;
    • África subsaariana;
    • América do Sul, incluindo o Brasil.

    Como ocorre a transmissão?

    A transmissão do HTLV-1 acontece por contato com células infectadas.

    1. Transmissão sexual

    É uma das principais formas de disseminação, sendo mais comum a transmissão homem-mulher.

    2. Transmissão vertical (mãe para filho)

    Ocorre principalmente por meio da amamentação prolongada. A transmissão intrauterina é menos comum.

    3. Transmissão por seringas ou sangue

    Pode ocorrer por:

    • Compartilhamento de seringas;
    • Transfusão de sangue contaminado (atualmente rara em países com triagem obrigatória).

    O vírus não é transmitido por contato casual, beijo social, abraço ou uso compartilhado de utensílios domésticos.

    Quando suspeitar da infecção?

    A infecção deve ser considerada em pessoas que apresentem:

    • Fraqueza progressiva nas pernas;
    • Rigidez muscular;
    • Alterações urinárias sem causa aparente;
    • Diagnóstico de leucemia/linfoma de células T;
    • Dermatites persistentes;
    • Histórico de parceiro(a) infectado(a);
    • Origem ou residência em área endêmica.

    O teste também faz parte da triagem de doadores de sangue e pode ser incluído no pré-natal, conforme protocolos locais.

    Quais doenças estão associadas ao HTLV-1?

    A maioria dos infectados nunca desenvolverá doença. Estima-se que cerca de 5% evoluam com manifestações clínicas ao longo da vida.

    1. Leucemia/Linfoma de células T do adulto (LLTA)

    É uma neoplasia agressiva que pode se manifestar com:

    • Aumento de linfonodos;
    • Lesões de pele;
    • Hipercalcemia;
    • Comprometimento sistêmico.

    2. Mielopatia associada ao HTLV-1 (Paraparesia espástica tropical)

    Doença inflamatória crônica da medula espinhal caracterizada por:

    • Fraqueza progressiva nas pernas;
    • Rigidez muscular (espasticidade);
    • Alterações urinárias;
    • Dor lombar.

    A evolução costuma ser lenta e progressiva.

    3. Outras manifestações associadas

    Podem incluir:

    • Uveíte;
    • Dermatite infecciosa;
    • Artrite;
    • Maior suscetibilidade a algumas infecções.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico é feito por exames sorológicos que detectam anticorpos contra o HTLV-1.

    O processo geralmente inclui:

    • Teste de triagem (ELISA ou quimioluminescência);
    • Testes confirmatórios (Western blot ou PCR).

    Em casos de doença neurológica associada, podem ser solicitados:

    • Análise do líquor;
    • Exames de imagem.

    Existe tratamento?

    Não existe tratamento capaz de eliminar o vírus do organismo.

    O manejo depende da doença associada:

    • LLTA: quimioterapia e, em casos selecionados, transplante de medula óssea;
    • Mielopatia associada: tratamento sintomático e, em alguns casos, imunomoduladores;
    • Tratamento específico para complicações associadas.

    O acompanhamento médico regular é muito importante.

    Como prevenir a transmissão?

    • Uso de preservativos;
    • Triagem de sangue para transfusão;
    • Orientação sobre amamentação em mães infectadas;
    • Testagem de parceiros.

    Leia também: PrEP e PEP: o que são e como ajudam a prevenir o HIV

    Perguntas frequentes sobre HTLV-1

    1. HTLV-1 é igual ao HIV?

    Não. São vírus diferentes. O HTLV-1 não causa Aids.

    2. Toda pessoa infectada desenvolverá doença?

    Não. A maioria permanece assintomática ao longo da vida.

    3. Existe cura?

    Atualmente não há cura para o HTLV-1.

    4. Quem tem HTLV pode ter filhos?

    Sim, mas é importante receber orientação médica para reduzir o risco de transmissão.

    5. O vírus é transmitido por beijo?

    Não há evidências de transmissão por contato social casual.

    6. O HTLV-1 é comum no Brasil?

    Sim, o vírus HTLV-1 é comum no Brasil.

    7. Toda fraqueza nas pernas pode ser HTLV?

    Não. A maioria dos casos de fraqueza tem outras causas. A investigação depende do contexto clínico.

    Veja mais: HIV: o que é, como se pega e como é o tratamento hoje

  • Epilepsia em adultos: como ela se manifesta e quem está em risco

    Epilepsia em adultos: como ela se manifesta e quem está em risco

    A epilepsia é uma condição neurológica crônica marcada por crises epilépticas recorrentes, que são episódios causados por descargas elétricas anormais no cérebro. Essas crises podem se manifestar de diferentes formas: desde breves momentos de desconexão até convulsões com perda de consciência.

    Embora muitas pessoas associem a epilepsia à infância, ela pode surgir em qualquer fase da vida. Em adultos, é comum que esteja relacionada a lesões cerebrais prévias, como AVC, traumatismo craniano ou tumores. O diagnóstico correto e o tratamento adequado são fundamentais para garantir segurança, autonomia e qualidade de vida.

    O que são crises epilépticas?

    Crises epilépticas são eventos súbitos provocados por descargas elétricas excessivas e sincronizadas entre neurônios. Dependendo da área do cérebro envolvida, os sintomas podem variar bastante.

    Entre as manifestações mais comuns estão:

    • Perda de consciência ou alteração do estado de alerta;
    • Movimentos involuntários (convulsões tônico-clônicas);
    • Espasmos musculares localizados;
    • Sensações visuais, auditivas ou olfativas incomuns;
    • Sensação de déjà vu ou confusão mental;
    • Olhar fixo e ausência de resposta por alguns segundos.

    Nem toda crise envolve convulsão. Algumas podem ser discretas e difíceis de reconhecer.

    Causas e fatores de risco

    A epilepsia em adultos pode estar associada a diversas condições.

    Entre as causas mais frequentes estão:

    • Lesões estruturais cerebrais: sequelas de AVC, traumatismo craniano, tumores ou malformações;
    • Infecções do sistema nervoso central: meningite e encefalite;
    • Alterações metabólicas: hipoglicemia e distúrbios eletrolíticos;
    • Intoxicações ou abstinência alcoólica;
    • Fatores genéticos.

    Além disso, alguns fatores podem precipitar crises em pessoas predispostas:

    • Privação de sono;
    • Consumo excessivo de álcool;
    • Uso de drogas ilícitas;
    • Estresse intenso;
    • Interrupção abrupta de medicação.

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico de epilepsia é essencialmente clínico, baseado na história detalhada das crises.

    A avaliação envolve:

    • Descrição minuciosa do episódio;
    • Relato de testemunhas;
    • Identificação de possíveis gatilhos;
    • Exame neurológico completo.

    Exames complementares

    Podem ser solicitados:

    • Eletroencefalograma (EEG): registra a atividade elétrica cerebral e pode mostrar padrões típicos de epilepsia;
    • Ressonância magnética (RM): identifica lesões estruturais;
    • Tomografia computadorizada (TC), em situações específicas;
    • Exames laboratoriais, quando há suspeita de causas metabólicas.

    Nem sempre o EEG mostra alterações entre as crises, o que não exclui o diagnóstico.

    Tratamento e controle das crises

    O objetivo do tratamento é controlar as crises com o menor número possível de efeitos colaterais.

    1. Medicamentos antiepilépticos

    O tratamento principal é feito com medicamentos antiepilépticos (MAEs). Alguns dos mais utilizados incluem:

    • Lamotrigina;
    • Levetiracetam;
    • Valproato;
    • Carbamazepina;
    • Fenitoína.

    Princípios importantes:

    • Iniciar com um único medicamento, sempre que possível;
    • Ajustar a dose gradualmente;
    • Associar medicamentos apenas quando necessário.

    Com tratamento adequado, grande parte dos pacientes consegue ficar livre de crises.

    2. Adesão ao tratamento

    A regularidade na tomada dos medicamentos é muito importante. Esquecer doses ou interromper o tratamento por conta própria pode desencadear novas crises.

    3. Estratégias complementares

    Além da medicação, ajudam no controle:

    • Sono regular e adequado;
    • Evitar álcool em excesso;
    • Redução do estresse;
    • Acompanhamento psicológico quando necessário.

    Em casos refratários (quando as crises não respondem aos medicamentos), pode-se avaliar:

    • Cirurgia de epilepsia;
    • Estimulação do nervo vago;
    • Outras terapias neuromodulatórias.

    É possível suspender o tratamento?

    Em alguns pacientes que permanecem sem crises por anos, pode-se considerar redução gradual da medicação. Essa decisão deve ser feita exclusivamente com acompanhamento neurológico, pois há risco de recorrência.

    Impacto na vida cotidiana

    A epilepsia pode interferir em diferentes áreas da vida, como:

    • Direção de veículos (há regras específicas conforme controle das crises);
    • Atividades de risco, como nadar sozinho ou trabalhar em altura;
    • Planejamento de gravidez;
    • Escolha de profissão.

    Com tratamento adequado, muitas pessoas levam vida plenamente ativa.

    Quando procurar atendimento de emergência?

    Procure ajuda imediata se houver:

    • Convulsão com duração maior que cinco minutos;
    • Repetição de crises sem recuperação entre elas;
    • Dificuldade respiratória;
    • Trauma importante durante a crise;
    • Primeira crise da vida.

    Leia mais: Desmaiar de calor é perigoso? Saiba por que acontece e o que fazer

    Perguntas frequentes sobre epilepsia

    1. Toda convulsão é epilepsia?

    Não. Uma única crise pode ocorrer por febre, intoxicação ou distúrbio metabólico. A epilepsia envolve tendência recorrente.

    2. É possível ficar anos sem crise?

    Sim. Muitas pessoas alcançam controle completo com tratamento adequado.

    3. Epilepsia tem cura?

    Depende da causa. Em alguns casos, especialmente quando há lesão removível, pode haver remissão completa.

    4. Medicamentos causam dependência?

    Não. Eles não causam dependência, mas não devem ser interrompidos abruptamente.

    5. Quem tem epilepsia pode trabalhar normalmente?

    Na maioria dos casos, sim, desde que as crises estejam controladas.

    6. Crises sempre envolvem convulsões?

    Não. Algumas são discretas e envolvem apenas alterações de consciência ou percepção.

    7. Gravidez é possível para mulheres com epilepsia?

    Sim. É possível, mas exige planejamento e acompanhamento médico cuidadoso.

    Confira: Desmaio: causas, o que fazer e quando procurar o médico

  • Caxumba ainda existe? Saiba como reconhecer e prevenir

    Caxumba ainda existe? Saiba como reconhecer e prevenir

    A caxumba é uma infecção viral bastante conhecida por causar inchaço no rosto, especialmente na região próxima às orelhas. Antes da vacinação em larga escala, era uma doença muito comum na infância. Hoje, graças à vacina tríplice viral, os casos diminuíram drasticamente, mas surtos ainda podem acontecer, principalmente em locais com baixa cobertura vacinal.

    Apesar de geralmente ser uma doença leve e autolimitada, a caxumba pode causar complicações, sobretudo em adolescentes e adultos. Por isso, entender como ela se transmite, quais são os sintomas e quando é preciso buscar atendimento médico é fundamental.

    O que é a caxumba?

    A caxumba é causada por um vírus da família Paramyxoviridae, do gênero Rubulavirus. Trata-se de uma infecção viral sistêmica cuja manifestação mais característica é a parotidite, ou seja, a inflamação das glândulas parótidas.

    O período de incubação varia de 12 a 25 dias (em média 16 a 18 dias). A doença geralmente começa com sintomas inespecíficos, como:

    • Febre;
    • Dor de cabeça;
    • Mal-estar;
    • Fadiga;
    • Dores musculares;
    • Perda de apetite.

    Em até 48 horas, surge o aumento doloroso das glândulas salivares, principalmente das parótidas. O inchaço pode ser:

    • Unilateral;
    • Bilateral (mais comum).

    O inchaço pode durar até 10 dias.

    Como ocorre a transmissão?

    A caxumba é altamente contagiosa e se transmite por:

    • Gotículas respiratórias (tosse, espirro ou fala);
    • Contato direto com saliva;
    • Objetos contaminados.

    O vírus começa a ser eliminado antes mesmo dos sintomas aparecerem. A pessoa pode transmitir a doença cerca de:

    • 2 dias antes do início do inchaço;
    • Até 5 dias após o surgimento da parotidite.

    Ambientes fechados e com contato próximo, como escolas, universidades e quartéis, favorecem surtos.

    Mesmo pessoas vacinadas podem adoecer, principalmente muitos anos após a vacinação. No entanto, a vacina reduz significativamente a gravidade e o risco de complicações.

    Quais são os principais sintomas?

    A manifestação clássica é a parotidite dolorosa, caracterizada por:

    • Inchaço entre a orelha e o ângulo da mandíbula;
    • Dor ao mastigar;
    • Sensibilidade local;
    • Vermelhidão no ducto da glândula dentro da boca.

    Outros achados em exames de sangue podem incluir:

    • Leucopenia com linfocitose relativa;
    • Aumento da amilase sérica.

    Cerca de 15% a 20% dos casos podem ser sem sintomas, especialmente em adultos.

    Complicações da caxumba

    Embora geralmente seja benigna, a caxumba pode causar complicações, mesmo quando o inchaço das glândulas não é evidente.

    1. Orquite

    É a complicação mais comum em homens após a puberdade, ocorrendo em 15% a 30% dos casos sintomáticos.

    Pode causar:

    • Febre alta;
    • Dor testicular intensa;
    • Inchaço e vermelhidão do escroto.

    Pode ser unilateral ou bilateral. A atrofia testicular pode ocorrer em 30% a 50% dos casos não vacinados. A infertilidade é rara, mas o risco aumenta quando há acometimento bilateral.

    2. Ooforite

    Inflamação dos ovários, ocorre em cerca de 5% das mulheres após a puberdade e pode causar:

    • Dor abdominal inferior;
    • Febre;
    • Vômitos.

    3. Complicações neurológicas

    Antes da vacinação, a caxumba era uma das principais causas de meningite viral.

    Pode causar:

    • Meningite asséptica (1% a 10% dos casos);
    • Encefalite;
    • Surdez neurossensorial.

    Na maioria das vezes, a meningite evolui de forma benigna.

    4. Outras complicações

    Mais raramente, podem ocorrer:

    • Pancreatite;
    • Miocardite;
    • Artrite;
    • Tireoidite;
    • Mastite;
    • Nefrite.

    Como é feito o diagnóstico?

    Em situações de surto, o diagnóstico pode ser clínico, baseado no quadro típico de parotidite.

    A confirmação laboratorial pode ser feita por:

    • RT-PCR para detecção do RNA viral (swab bucal);
    • Sorologia com detecção de IgM.

    O swab bucal deve ser coletado preferencialmente até o terceiro dia após o início do inchaço.

    Em pessoas vacinadas, o IgM pode ser negativo, dificultando a confirmação laboratorial.

    Casos suspeitos devem ser notificados às autoridades de saúde.

    Tratamento

    Não existe antiviral específico para caxumba. O tratamento é sintomático e envolve:

    • Analgésicos e antitérmicos;
    • Compressas frias ou mornas nas parótidas;
    • Repouso;
    • Suporte escrotal e compressas frias em casos de orquite.

    O paciente deve permanecer em isolamento respiratório por 5 dias após o início da parotidite.

    Prevenção

    A principal forma de prevenção é a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). A introdução da vacina levou a uma redução superior a 99% dos casos em diversos países.

    Alta cobertura vacinal reduz:

    • O número de casos;
    • A duração dos surtos;
    • A gravidade da doença;
    • A taxa de complicações.

    O que esperar

    O prognóstico é geralmente excelente. A maioria das pessoas se recupera completamente.

    Complicações graves são raras, especialmente em populações amplamente vacinadas. A surdez permanente é incomum, mas pode ocorrer.

    Confira: Calendário de vacinas para adultos: quais doses você não pode esquecer

    Perguntas frequentes sobre caxumba

    1. Caxumba é uma doença grave?

    Na maioria dos casos, não. É autolimitada, mas pode causar complicações em adolescentes e adultos.

    2. Quem já teve caxumba pode ter novamente?

    É raro, pois a infecção geralmente confere imunidade duradoura.

    3. A vacina protege totalmente?

    A vacina é altamente eficaz, mas não garante 100% de proteção. Ainda assim, reduz a gravidade da doença.

    4. Adultos podem ter caxumba?

    Sim. E, nessa faixa etária, o risco de complicações é maior.

    5. Caxumba pode causar infertilidade?

    É raro. O risco aumenta em casos de orquite bilateral.

    6. Quando devo procurar médico?

    Se houver dor intensa, febre alta persistente ou sinais de complicação neurológica.

    7. É preciso afastar da escola?

    Sim. Recomenda-se isolamento por 5 dias após início da parotidite.

    Veja mais: Vacinação infantil: proteção que começa cedo e dura a vida toda

  • Quais remédios podem afetar o coração? Saiba quando buscar acompanhamento

    Quais remédios podem afetar o coração? Saiba quando buscar acompanhamento

    Os remédios atuam em diferentes partes do organismo para tratar doenças, aliviar sintomas ou controlar funções do corpo. Mas, durante o processo, algumas substâncias podem interferir diretamente no sistema cardiovascular — inclusive aquelas presentes em medicamentos comuns do cotidiano.

    Conversamos com a cardiologista Juliana Soares para entender quais remédios podem afetar o coração, os sinais de alerta para ficar atento e como é feito o acompanhamento cardiológico nesses casos.

    Como um remédio pode afetar o coração?

    As substâncias presentes em alguns medicamentos podem alterar a pressão arterial, modificar o ritmo dos batimentos ou interferir na força com que o coração bombeia o sangue. As mudanças podem acontecer como reação indesejada do organismo ou como efeito colateral do tratamento.

    Alguns remédios atuam diretamente nos vasos sanguíneos, provocando vasoconstrição ou retenção de líquidos, fatores que favorecem aumento da pressão arterial e maior sobrecarga cardíaca. Outros podem interferir no sistema elétrico do coração, favorecendo palpitações, arritmias ou sensação de batimento irregular.

    Também existem medicamentos capazes de alterar o metabolismo de gorduras, açúcar e hormônios, o que pode aumentar o risco cardiovascular ao longo do tempo. Isso torna ainda mais necessário o acompanhamento médico regular para reduzir os riscos.

    Quais classes de medicamentos precisam de mais atenção?

    Segundo Juliana, o coração pode ser afetado por uma série de classes de medicações, que podem alterar tanto a questão do funcionamento do músculo cardíaco, da força do músculo cardíaco, quanto questões relacionadas ao ritmo dos batimentos. Isso não significa que devam ser evitados, mas sim usados com orientação adequada para reduzir riscos.

    Entre eles, a cardiologista aponta:

    1. Quimioterápicos

    Os medicamentos utilizados no tratamento do câncer podem provocar efeitos colaterais cardiovasculares. Em algumas situações, Juliana explica que pode ocorrer a chamada cardiotoxicidade induzida por quimioterapia, condição que pode prejudicar o funcionamento do coração e exigir monitoramento específico durante e após o tratamento.

    2. Imunossupressores

    Os remédios usados em doenças autoimunes e em pacientes transplantados podem alterar pressão arterial e níveis de colesterol. As alterações aumentam o risco de doenças cardiovasculares ao longo do tempo, o que justifica acompanhamento clínico regular.

    3. Antivirais

    Alguns medicamentos antivirais, como os utilizados no tratamento do HIV, podem interferir no metabolismo do colesterol. Isso pode contribuir para aumento do risco cardiovascular, especialmente quando associado a outros fatores de risco.

    4. Medicamentos psiquiátricos

    Alguns antidepressivos, especialmente tricíclicos, e certas medicações antipsicóticas podem alterar o ritmo cardíaco. Um dos efeitos possíveis é o prolongamento do intervalo QT, situação em que o coração demora mais para se recuperar eletricamente entre batimentos, o que pode favorecer arritmias potencialmente graves.

    5. Medicamentos hormonais

    O uso de esteroides anabolizantes pode aumentar a espessura do músculo cardíaco, condição conhecida como hipertrofia ventricular, além de favorecer elevação da pressão arterial e redução do colesterol considerado protetor.

    Já contraceptivos hormonais e terapias de reposição podem estimular a produção de fatores de coagulação, principalmente no fígado, o que pode elevar o risco de trombose e embolia, sobretudo em pessoas com outros fatores de risco cardiovaculares.

    Remédios comuns do dia a dia podem oferecer risco?

    A resposta é sim. De acordo com Juliana, remédios como anti-inflamatórios, corticoides e descongestionantes nasais também podem impactar a saúde cardiovascular.

    Os descongestionantes nasais, que contêm substâncias como a pseudoefedrina, podem causar vasoconstrição, que é o estreitamento dos vasos sanguíneos. Isso pode aumentar a pressão arterial, provocar palpitações e favorecer arritmias, principalmente em pessoas que já apresentam algum fator de risco.

    Os corticoides, quando usados por períodos prolongados ou em doses elevadas, podem provocar alterações como aumento da resistência à insulina, diabetes, piora do colesterol, pressão alta e ganho de peso. Tudo isso pode elevar o risco cardiovascular ao longo do tempo.

    Já os anti-inflamatórios podem levar à retenção de sal e líquidos no corpo. A situação pode elevar a pressão arterial e sobrecarregar o coração, aumentando o risco de problemas como infarto, AVC e insuficiência cardíaca, principalmente em quem já tem histórico dessas condições.

    Sinais de alerta para efeitos colaterais no coração

    Se você iniciar o uso de um medicamento e apresentar sintomas que antes não existiam, é importante ficar atento. Alguns sinais podem indicar efeitos colaterais com impacto na saúde cardiovascular, como explica Juliana:

    • Falta de ar aos esforços, principalmente se antes não ocorria;
    • Tontura ou episódios de desmaio;
    • Dor ou desconforto no peito;
    • Aumento da pressão arterial;
    • Inchaço nas pernas ou tornozelos;
    • Sensação de palpitações ou batimentos irregulares.

    Se algum dos sintomas aparecer após o início de uma medicação, procure avaliação médica para investigar a causa.

    Como é feito o acompanhamento cardiológico nesses casos

    Quando existe risco de um medicamento afetar o coração, o acompanhamento cardiológico ajuda a prevenir complicações e identificar alterações logo no início. O processo costuma começar com avaliação clínica, em que o médico analisa histórico de saúde, sintomas, uso de medicamentos e fatores de risco cardiovasculares.

    Também podem ser solicitados exames para monitorar o funcionamento do coração, como:

    • Eletrocardiograma: avalia ritmo e atividade elétrica cardíaca;
    • Ecocardiograma: mostra estrutura e força do coração;
    • Exames de sangue: verificam colesterol, glicemia e outros marcadores;
    • Mapa ou Holter: monitoram pressão arterial ou batimentos por 24 horas.

    Com base nos resultados, o médico decide se é necessário ajustar a dose do remédio, trocar a medicação ou apenas manter observação.

    Vale lembrar que toda pessoa que possui alguma condição cardiovascular deve informar o médico, independentemente da especialidade, sobre o diagnóstico e os medicamentos que utiliza. Isso é importante para evitar interações medicamentosas e o uso de substâncias que possam sobrecarregar o sistema cardiovascular.

    Juliana ainda complementa que mesmo quem não tem doença cardíaca prévia, dependendo do tipo de tratamento que vai realizar, principalmente se for prolongado ou envolver medicamentos com potencial cardiotóxico, como os quimioterápicos, também deve considerar acompanhamento cardiológico preventivo.

    Perguntas frequentes

    1. Remédios para emagrecer podem afetar o coração?

    Sim, pois muitos atuam como estimulantes. Se não forem prescritos corretamente, podem causar taquicardia e picos de hipertensão arterial.

    2. O que é cardiotoxicidade induzida por drogas?

    É o dano causado ao músculo cardíaco ou ao sistema elétrico do coração devido à exposição a certas substâncias químicas ou medicamentos.

    3. Como saber se o meu remédio está afetando meu coração?

    Fique atento a sintomas como palpitações, falta de ar incomum, inchaço nas pernas, tontura ou dor no peito.

    4. Existe algum suplemento “natural” que afete o coração?

    Sim. Suplementos à base de efedrina ou altas doses de cafeína podem provocar arritmias e crises hipertensivas em pessoas suscetíveis.

    5. Suplementos de cálcio podem ser prejudiciais?

    Quando tomados sem orientação e em doses excessivas, o cálcio pode se depositar nas paredes das artérias (calcificação), aumentando o risco de doenças coronárias. O ideal é obter cálcio via alimentação.

    6. O que é o prolongamento do intervalo QT e por que ele é citado em tantas bulas?

    O intervalo QT é o tempo que o coração leva para se recarregar eletricamente entre um batimento e outro. Muitos remédios (como certos antipsicóticos e antifúngicos) retardam o processo, o que pode desencadear uma arritmia grave e potencialmente fatal.

  • Acantose nigricans: mancha escura no pescoço pode ser sinal de alerta 

    Acantose nigricans: mancha escura no pescoço pode ser sinal de alerta 

    Manchas escuras e espessadas na região do pescoço ou das axilas costumam gerar preocupação. Muitas vezes, as pessoas acreditam que se trata apenas de sujeira ou falta de higiene. No entanto, quando a pele apresenta aspecto aveludado e mais grossa, pode estar diante de um quadro chamado acantose nigricans.

    Na maioria dos casos, essa alteração está relacionada à resistência à insulina e à obesidade. Porém, em situações mais raras, pode ser um sinal de doenças hormonais ou até de câncer. Por isso, entender suas causas e características é fundamental para saber quando investigar.

    O que é acantose nigricans

    A acantose nigricans é uma alteração cutânea caracterizada por:

    • Escurecimento da pele;
    • Espessamento;
    • Aspecto aveludado;
    • Localização predominante em áreas de dobra.

    As regiões mais acometidas são:

    • Parte posterior do pescoço;
    • Axilas;
    • Virilha;
    • Dobras sob as mamas.

    As lesões costumam ter bordas pouco definidas e podem evoluir de manchas planas para placas palpáveis.

    Principais causas

    A acantose nigricans pode ter diferentes origens.

    1. Resistência à insulina e obesidade (forma mais comum)

    É a causa mais frequente. O excesso de insulina circulante estimula receptores semelhantes ao fator de crescimento (IGF-1), o que promove a proliferação de queratinócitos e fibroblastos.

    A perda de peso e o controle glicêmico costumam levar à melhora das lesões.

    2. Distúrbios endócrinos

    Pode estar associada a:

    • Síndrome dos ovários policísticos;
    • Hipotireoidismo;
    • Acromegalia;
    • Síndrome de Cushing;
    • Doença de Addison;
    • Síndromes graves de resistência à insulina.

    3. Uso de medicamentos

    Alguns medicamentos podem desencadear o quadro, como:

    • Glicocorticoides sistêmicos;
    • Anticoncepcionais orais combinados;
    • Hormônio do crescimento;
    • Insulina injetável;
    • Ácido nicotínico;
    • Inibidores de protease;
    • Estrogênios.

    Em muitos casos, as lesões melhoram após suspensão da medicação.

    4. Forma hereditária

    Pode ocorrer como traço autossômico dominante, manifestando-se na infância.

    5. Acantose nigricans maligna

    É rara, mas pode estar associada principalmente a:

    • Adenocarcinomas gastrointestinais, especialmente gástricos;
    • Câncer de próstata, mama e ovário;
    • Mais raramente pulmão e linfoma.

    Os sinais de alerta são:

    • Início súbito;
    • Evolução rápida;
    • Prurido intenso;
    • Múltiplas queratoses seborreicas (sinal de Leser-Trélat);
    • Espessamento palmar (“tripe palms”).

    Em parte dos casos, a alteração cutânea surge antes do diagnóstico do câncer.

    6. Outras variantes

    • Forma acral, mais comum em pessoas com pele escura;
    • Forma unilateral (nevoide);
    • Forma autoimune, associada a lúpus e outras doenças autoimunes.

    Como a doença se desenvolve

    O mecanismo mais comum envolve:

    • Ativação de receptores de IGF-1 por níveis elevados de insulina;
    • Proliferação de queratinócitos e fibroblastos;
    • Espessamento da pele (epiderme);
    • Hiperqueratose.

    Na forma maligna, fatores de crescimento produzidos pelo tumor estimulam diretamente a pele.

    Quadro clínico

    As pessoas geralmente apresentam:

    • Manchas escuras e espessadas;
    • Aspecto aveludado;
    • Localização em dobras;
    • Eventual coceira.

    Em crianças, o pescoço é o local mais acometido.

    Em casos raros, pode atingir:

    • Mucosa oral;
    • Nariz;
    • Esôfago;
    • Laringe;
    • Mamilos.

    Visualmente, não é possível diferenciar apenas pela aparência as formas benignas das malignas.

    Diagnóstico

    O diagnóstico é principalmente clínico. A investigação pode envolver:

    • Avaliação para resistência à insulina;
    • Dosagem de hemoglobina glicada;
    • Rastreamento para diabetes;
    • Investigação de neoplasias quando houver sinais suspeitos.

    Em casos selecionados, pode ser necessária biópsia de pele ou exames de imagem.

    Tratamento

    A acantose nigricans é um sinal clínico, não uma doença isolada. O tratamento depende da causa.

    Controle metabólico

    • Perda de peso;
    • Alimentação equilibrada;
    • Atividade física;
    • Controle glicêmico;
    • Uso de sensibilizadores à insulina, como metformina, quando indicado.

    Suspensão de medicamentos desencadeantes

    Quando a pessoa está usando remédios que podem provocar a acantose nigricans, o médico pode suspender o uso e indicar outros medicamentos.

    Tratamentos dermatológicos

    Podem melhorar o aspecto estético, mas com resultados variáveis:

    • Retinoides tópicos;
    • Lactato de amônio;
    • Análogos da vitamina D;
    • Peelings químicos;
    • Laser;
    • Dermabrasão.

    Na forma maligna, a melhora pode ocorrer após tratamento do tumor.

    Quando procurar avaliação médica?

    Procure atendimento se houver:

    • Escurecimento súbito e rápido da pele;
    • Lesões extensas ou com prurido;
    • Perda de peso inexplicada;
    • Suspeita de diabetes;
    • Histórico familiar de câncer.

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    Perguntas frequentes sobre acantose nigricans

    1. Acantose nigricans é sujeira?

    Não. Trata-se de alteração da pele, não relacionada à higiene.

    2. Sempre indica diabetes?

    Não, mas é fortemente associada à resistência à insulina.

    3. Pode aparecer em crianças?

    Sim, especialmente em casos de obesidade ou predisposição genética.

    4. Toda acantose é câncer?

    Não. A forma maligna é rara.

    5. Clareadores resolvem?

    Não tratam a causa, apenas podem melhorar o aspecto superficial.

    6. Emagrecer melhora?

    Sim, em muitos casos a perda de peso reduz as lesões.

    7. Precisa fazer biópsia?

    Nem sempre. Geralmente o diagnóstico é clínico.

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