Ao longo da gestação, você já deve ter ouvido alguma dica de um familiar, de uma amiga ou até de um desconhecido. Dizem que o formato da barriga revela o sexo do bebê, que grávida deve comer por dois ou até que a relação sexual pode machucar o bebê.
Apesar de várias das orientações fazerem parte da cultura popular há gerações, nem todas têm comprovação científica e algumas podem até gerar preocupações desnecessárias.
Conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, que esclareceu as principais dúvidas sobre o assunto e explicou o que realmente é mito e o que é verdade durante a gestação. Confira!
Afinal, o que é mito ou verdade sobre a gravidez?
1. Ficar de pernas para cima depois do sexo melhora as chances?
É um mito! Manter as pernas levantadas ou elevar o quadril depois da relação sexual não aumenta as chances de engravidar. A ideia de que a gravidade ajudaria os espermatozoides a chegar até o útero não corresponde ao funcionamento do sistema reprodutor feminino, de acordo com Andreia.
Após a ejaculação, os espermatozoides começam a se deslocar pelo trato reprodutivo feminino e os mais móveis podem alcançar o colo do útero rapidamente. O muco cervical presente durante o período fértil também facilita a passagem dos espermatozoides.
Por isso, levantar as pernas, colocar um travesseiro embaixo do quadril ou permanecer deitada por muito tempo não é necessário. Também é normal perceber a saída de parte do sêmen pela vagina depois da relação, e isso não significa que todos os espermatozoides foram eliminados.
Para quem está tentando engravidar, a frequência das relações sexuais durante o período fértil é muito mais importante do que a posição adotada depois do sexo.
2. Comer inhame aumenta a fertilidade ou induz a ovulação?
Mito. O inhame é frequentemente associado ao aumento da fertilidade devido à presença da diosgenina, uma substância vegetal que pode ser utilizada pela indústria farmacêutica como matéria-prima em processos laboratoriais para a produção de hormônios esteroides.
No entanto, o organismo humano não transforma a diosgenina presente no inhame em progesterona ou outros hormônios reprodutivos simplesmente após o consumo do alimento. Logo, não existem evidências de que comer inhame provoque a ovulação ou aumente diretamente as chances de gravidez.
O inhame pode fazer parte de uma alimentação saudável por oferecer carboidratos, fibras, vitaminas e minerais. A alimentação equilibrada contribui para a saúde geral e reprodutiva, mas nenhum alimento isolado é capaz de induzir a ovulação ou tratar problemas de fertilidade.
3. A alimentação do homem interfere na qualidade do esperma?
Verdade. A saúde do homem também influencia as chances de uma gravidez, já que a alimentação e outros hábitos podem afetar a qualidade dos espermatozoides, segundo Andreia.
Uma alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e boas fontes de proteínas, pode contribuir para a saúde reprodutiva masculina. Por outro lado, o cigarro, o excesso de álcool, a obesidade, o uso de drogas e de anabolizantes podem prejudicar a produção e a qualidade dos espermatozoides.
Além dos hábitos de vida, os fatores genéticos, hormonais e anatômicos, algumas doenças e determinados medicamentos também podem interferir na fertilidade. Por isso, quando o casal apresenta dificuldade para engravidar, a ginecologista aponta que tanto a mulher quanto o homem devem ser avaliados.
4. Ter relação no dia exato da ovulação garante um menino?
Mito. Não existe um método natural comprovado capaz de determinar o sexo do bebê a partir do dia em que a relação sexual acontece.
A crença surgiu a partir da teoria de que os espermatozoides que carregam o cromossomo Y seriam mais rápidos e menos resistentes, enquanto os que carregam o cromossomo X seriam mais lentos e sobreviveriam por mais tempo. As evidências científicas não confirmam que a diferença possa ser utilizada para escolher o sexo do bebê.
5. A barriga pontuda indica menino e a barriga redonda indica menina?
Mito. O formato da barriga da gestante não permite descobrir o sexo do bebê.
A aparência da barriga pode variar de acordo com a estrutura corporal da mulher, a musculatura abdominal, o número de gestações anteriores, a posição do bebê, o tamanho do útero e outros fatores relacionados à gravidez.
Segundo Andreia, o sexo fetal pode ser identificado por exames, como a sexagem fetal por meio do sangue materno, realizada a partir de determinado período da gestação, e a ultrassonografia, quando a posição e o desenvolvimento do bebê permitem a visualização da genitália.
6. O coração do bebê começa a bater nas primeiras semanas?
Verdade. O desenvolvimento do coração acontece logo no início da gestação. Nas primeiras semanas, já é possível identificar a atividade cardíaca do embrião por meio de exames específicos, de acordo com a idade gestacional.
7. Muita azia na gravidez significa que o bebê vai nascer cabeludo?
Não é possível afirmar isso. A azia é muito comum durante a gravidez e acontece principalmente devido às alterações hormonais e físicas do período.
A progesterona contribui para o relaxamento do esfíncter localizado entre o esôfago e o estômago, facilitando o retorno do conteúdo gástrico e o aparecimento da queimação. Conforme o bebê cresce, o aumento do útero também pode pressionar o estômago, favorecendo ainda mais o refluxo.
Curiosamente, um pequeno estudo realizado nos Estados Unidos e publicado em 2006 encontrou uma associação entre a intensidade da azia durante a gravidez e a quantidade de cabelo do bebê ao nascer. No entanto, ainda faltam estudos maiores e evidências científicas mais robustas para confirmar a relação.
8. A grávida precisa comer por dois?
É um mito! A gestante não precisa dobrar a quantidade de comida porque está esperando um bebê. O organismo passa a apresentar necessidades nutricionais específicas durante a gravidez, mas isso não significa comer duas vezes mais.
As necessidades de energia mudam ao longo da gestação e dependem de fatores como o peso antes da gravidez, o estado nutricional, o nível de atividade física e o trimestre gestacional. O ganho de peso acima do recomendado pode aumentar o risco de problemas como o diabetes gestacional, a hipertensão e outras complicações maternas e fetais.
9. A relação sexual na gravidez pode machucar o bebê ou provocar parto prematuro?
Na maioria das vezes, não. Em uma gestação sem complicações e sem contraindicação médica, manter relações sexuais costuma ser seguro e não machuca o bebê.
O bebê permanece protegido dentro do útero pelo líquido amniótico, pelas membranas e pela musculatura uterina, enquanto o colo do útero separa a vagina da cavidade onde o bebê está se desenvolvendo. O pênis não entra em contato com o bebê durante a penetração.
Também não há evidências de que a atividade sexual aumente o risco de parto prematuro em uma gestação saudável.
Por outro lado, o obstetra pode recomendar a suspensão temporária das relações sexuais em algumas situações, como determinados casos de placenta prévia, sangramento vaginal sem causa conhecida, ruptura das membranas ou risco aumentado de parto prematuro.
10. A mudança da fase da lua aumenta as chances de entrar em trabalho de parto?
Mito! A associação entre as fases da lua e o nascimento dos bebês é uma crença popular antiga, principalmente em relação à lua cheia.
A ideia costuma partir da comparação com a influência gravitacional da Lua sobre as marés. No entanto, não há evidências consistentes de que a mudança da fase lunar provoque o rompimento da bolsa ou desencadeie o trabalho de parto.
O início do trabalho de parto envolve uma combinação complexa de alterações hormonais, inflamatórias e mecânicas no organismo da mãe e do bebê.
11. Os desejos não atendidos deixam marcas ou manchas no bebê?
Mito. A vontade de comer determinado alimento durante a gravidez não tem relação com o surgimento de manchas ou marcas de nascença no bebê.
As marcas de nascença podem ter diferentes origens, incluindo alterações nos vasos sanguíneos ou na pigmentação da pele durante o desenvolvimento fetal. O fato de a gestante ter vontade de comer morango, chocolate ou qualquer outro alimento e não satisfazer o desejo não modifica a pele do bebê.
Os desejos alimentares durante a gravidez, por outro lado, são reais e podem estar relacionados a diferentes fatores, incluindo mudanças hormonais, alterações no paladar e no olfato e aspectos culturais e emocionais.
Uma atenção maior é necessária quando a gestante sente vontade persistente de ingerir substâncias que não são alimentos, como terra, barro, giz ou papel. O comportamento é conhecido como pica e pode estar associado, entre outros fatores, a deficiências nutricionais, incluindo a deficiência de ferro.
Na presença do comportamento, a gestante deve conversar com o obstetra para que seja feita uma avaliação adequada.
12. O chá de canela na gravidez é abortivo?
Não existem evidências científicas robustas de que o chá de canela provoque aborto em humanos quando a canela é consumida nas quantidades normalmente utilizadas na alimentação.
No entanto, os médicos e obstetras costumam recomendar cautela com o consumo do chá durante a gravidez, principalmente em preparações concentradas, já que não há dados suficientes sobre a segurança do uso em grandes quantidades e os possíveis efeitos sobre a gestação.
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Perguntas frequentes
1. Tomar café na gravidez faz mal ao bebê?
Em excesso, sim. A cafeína ultrapassa a placenta e o feto não tem enzimas para metabolizá-la. Altas doses estão associadas a baixo peso ao nascer e risco de aborto. O limite seguro recomendado pela OMS é de até 200 mg de cafeína por dia (cerca de 2 xícaras de café coado).
2. A grávida pode dormir de barriga para cima?
Não é recomendado no 3º trimestre. A partir da 28ª semana, o peso do útero sobre a veia cava inferior pode reduzir a circulação sanguínea para a mãe e para o bebê. O ideal é dormir virada para o lado esquerdo, posição que otimiza o fluxo de sangue e nutrientes para a placenta.
3. Azia na gravidez pode ser tratada com bicarbonato de sódio?
Jamais. O bicarbonato é rico em sódio, o que favorece o aumento da pressão arterial e o inchaço. Para aliviar a azia, prefira fracionar as refeições, evitar deitar logo após comer e utilizar apenas antiácidos prescritos pelo obstetra.
4. Comer pimenta ou comidas apimentadas faz mal para o bebê?
Não faz mal ao feto, mas pode incomodar a mãe. Os temperos picantes não afetam o desenvolvimento do bebê, mas podem piorar quadros de azia, refluxo e hemorroidas, que já são bastante comuns na gestação.
5. Pintar as unhas ou usar acetona prejudica a gestação?
Não. O uso ocasional de esmaltes e removedores de unha é seguro. A única recomendação é aplicar o produto em locais bem ventilados para evitar a inalação prolongada do cheiro forte de solventes, que pode causar enjoos.
6. Grávida pode tomar vacina contra a gripe e febre amarela?
A vacina da gripe é obrigatória, e a de febre amarela depende da região. A vacina da gripe (vírus inativado) é segura e indicada em qualquer trimestre. Já as vacinas de vírus vivo atenuado (como a da febre amarela) só são aplicadas sob alto risco de exposição epidemiológica.
7. É verdade que o leite materno pode ser “fraco” nos primeiros dias?
Mito. O primeiro leite produzido é o colostro, uma substância amarelada e transparente, rica em anticorpos e nutrientes altamente concentrados. Embora venha em pequenas gotas, é a quantidade exata necessária para o tamanho do estômago do recém-nascido.
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