Pílula do dia seguinte: o que é, como funciona e por que ela não deve ser rotina

Mulher segurando uma pílula do dia seguinte entre os dedos, ilustrando o método de contracepção de emergência utilizado para reduzir o risco de gravidez após uma relação sexual desprotegida.

Você já ficou preocupada depois de uma relação sexual desprotegida ou de perceber que o método anticoncepcional falhou? A pílula do dia seguinte costuma ser uma das primeiras alternativas para reduzir o risco de gravidez, sendo um método de contracepção desenvolvido para situações específicas.

Ele funciona principalmente atrasando ou impedindo a ovulação, dificultando o encontro entre o óvulo e o espermatozoide. Para que tenha a maior eficácia possível, o medicamento deve ser tomado o quanto antes após a relação sexual desprotegida, já que o efeito diminui com o passar das horas.

Ainda assim, a pílula do dia seguinte não deve ser usada como um método anticoncepcional de rotina, porque oferece uma proteção menor do que outros métodos, como a pílula anticoncepcional, o DIU e o implante contraceptivo.

O que é a pílula do dia seguinte?

A pílula do dia seguinte é um método contraceptivo de emergência indicado para evitar uma gestação indesejada após uma relação sexual desprotegida, falha do método habitualmente utilizado, como o rompimento da camisinha ou o esquecimento do anticoncepcional oral.

De acordo com a ginecologista e obstetra Andrei Sapienza, a pílula consiste em uma alta dose concentrada de progesterona sintetizada, como o levonorgestrel, administrada em uma única dose. A principal ação da pílula é impedir ou atrasar a ovulação, evitando que o óvulo seja liberado pelo ovário e possa ser fecundado pelo espermatozoide.

A eficácia depende do momento do ciclo menstrual em que a mulher toma o medicamento. Quando a ovulação já ocorreu, a pílula com levonorgestrel pode não conseguir evitar a gravidez.

Como a pílula funciona?

Para impedir a gravidez, a pílula do dia seguinte com levonorgestrel atua principalmente antes da ovulação:

  • Inibição ou atraso da ovulação: se a mulher ainda não ovulou no momento da relação sexual, a pílula impede ou adia a liberação do óvulo pelo ovário, fazendo com que não haja célula reprodutiva feminina disponível para o encontro com os espermatozoides;
  • Alteração do muco cervical: a pílula espessa o muco produzido no colo do útero, criando uma barreira física espessa que dificulta a mobilidade e a ascensão dos espermatozoides em direção à cavidade uterina;
  • Redução da mobilidade das tubas uterinas: o medicamento reduz o batimento ciliar no interior das tubas de Falópio, mecanismo responsável por transportar o óvulo até a cavidade uterina, desacelerando o processo e prejudicando o encontro das células reprodutivas;
  • Modificação do endométrio: ocorre uma alteração na parede interna do útero (endométrio), tornando o ambiente desfavorável para os processos iniciais da concepção.

Andreia destaca que a pílula não interrompe uma gravidez já estabelecida e não impede o desenvolvimento de um embrião que já tenha sido implantado no útero. Logo, não é considerada um medicamento abortivo.

Quando e como tomar corretamente?

A pílula com levonorgestrel deve ser tomada o mais rápido possível após a relação sexual desprotegida. Quanto menor o intervalo entre a relação e o uso do medicamento, maior tende a ser a possibilidade de evitar a gravidez.

O uso costuma ser recomendado preferencialmente nas primeiras 72 horas após a relação. O levonorgestrel ainda pode apresentar algum efeito quando utilizado mais tarde, mas a eficácia diminui com o passar do tempo.

O comprimido pode ser ingerido com água e não precisa obrigatoriamente ser tomado junto com alimentos. Para quem costuma sentir náuseas, comer algo antes pode ajudar a diminuir o desconforto.

Se ocorrer vômito poucas horas após a ingestão, pode ser necessário repetir a dose, pois o medicamento pode não ter sido completamente absorvido. Na situação, vale consultar a bula e buscar a orientação de um médico ou farmacêutico.

Por que a pílula do dia seguinte não deve ser usada como método de rotina?

A pílula do dia seguinte é uma opção segura para situações de emergência, mas não deve substituir os métodos contraceptivos usados regularmente, como o preservativo, o anticoncepcional oral, o DIU e o implante.

1. A eficácia é menor do que a de outros métodos

A pílula do dia seguinte apresenta maior eficácia quando é tomada o mais rápido possível após uma relação sexual desprotegida. Quanto mais tempo a mulher demora para usar o medicamento, menor tende a ser a proteção contra a gravidez.

Um estudo publicado na revista científica The Lancet, com 1.955 mulheres, mostrou que a eficácia da contracepção de emergência varia de acordo com o intervalo entre a relação sexual e a tomada do medicamento:

  • até 12 horas: cerca de 99,5% de eficácia;
  • entre 13 e 24 horas: cerca de 95%;
  • entre 25 e 48 horas: cerca de 85%;
  • entre 49 e 72 horas: cerca de 58%.

A eficácia também depende do momento do ciclo menstrual. A pílula com levonorgestrel atua principalmente atrasando ou impedindo a ovulação. Se a mulher estiver muito próxima de ovular ou se a ovulação já tiver ocorrido, a capacidade do medicamento de evitar a gravidez pode ser menor.

2. Pode alterar o ciclo menstrual

A pílula do dia seguinte contém uma dose de levonorgestrel capaz de interferir temporariamente no ciclo menstrual, de modo que a menstruação seguinte pode chegar alguns dias antes ou depois do esperado.

Também podem ocorrer pequenos sangramentos fora do período menstrual. As alterações costumam ser passageiras e o ciclo tende a voltar ao padrão habitual.

O uso repetido não causa infertilidade nem provoca danos permanentes ao ciclo menstrual. No entanto, recorrer frequentemente à contracepção de emergência pode tornar a data dos sangramentos menos previsível.

3. Pode causar efeitos colaterais

A pílula do dia seguinte costuma ser bem tolerada, mas pode provocar alguns efeitos colaterais após a ingestão, como:

  • Náusea e, em alguns casos, vômito;
  • Dor de cabeça;
  • Tontura;
  • Cansaço;
  • Dor ou desconforto abdominal;
  • Sensibilidade nas mamas;
  • Sangramento fora do período menstrual;
  • Alteração na data da próxima menstruação.

Quando a necessidade de recorrer à contracepção de emergência se torna frequente, vale procurar um ginecologista para escolher uma opção mais adequada para prevenir a gravidez no dia a dia.

Existem diferenças entre os tipos de pílula do dia seguinte?

No Brasil, uma das opções mais conhecidas é o levonorgestrel, segundo Andreia. A dose recomendada para contracepção de emergência é de 1,5 mg, que pode ser encontrada em um único comprimido ou, dependendo da apresentação, dividida em dois comprimidos de 0,75 mg.

Outro medicamento utilizado para a contracepção de emergência em alguns países é o acetato de ulipristal, que pode ser usado até 120 horas, ou cinco dias, após a relação sexual desprotegida. Ele não está disponível no Brasil.

Quando fazer o teste de gravidez após tomar a pílula?

A pílula do dia seguinte pode adiantar ou atrasar a próxima menstruação, então nem sempre a data esperada para o sangramento é suficiente para saber se o medicamento funcionou.

Fazer um teste logo nos primeiros dias após a relação também pode apresentar um resultado negativo mesmo quando existe uma gravidez, pois o organismo ainda pode não ter produzido uma quantidade detectável do hormônio hCG.

Uma orientação prática é realizar um teste de gravidez cerca de três semanas após a relação sexual desprotegida caso exista dúvida sobre a possibilidade de gestação. Também vale fazer o teste e procurar orientação médica quando a menstruação atrasar mais do que o habitual, principalmente se houver sintomas de gravidez.

Perguntas frequentes

1. Menores de idade podem comprar a pílula do dia seguinte sem receita?

Sim. Não é necessária apresentação de receita médica e não há restrição de idade para a compra da contracepção de emergência em farmácias.

2. A pílula do dia seguinte corta o efeito do anticoncepcional injetável ou do DIU?

Não, ela não interfere no mecanismo do DIU nem anula a proteção das injeções contraceptivas já aplicadas.

3. Como voltar a tomar a pílula anticoncepcional normal após usar a de emergência?

Você deve continuar tomando a cartela de anticoncepcional de rotina normalmente nos horários habituais e usar preservativo até a chegada da próxima menstruação.

4. Tomar pílula do dia seguinte causa infertilidade no futuro?

Não. Não existe nenhuma evidência científica de que o uso emergencial afete a capacidade reprodutiva da mulher a longo prazo.

5. Bebida alcoólica corta o efeito da pílula do dia seguinte?

O álcool não anula o efeito direto do hormônio. No entanto, se o consumo provocar vômito dentro de 2 horas após a ingestão, o remédio será eliminado antes de ser absorvido.

6. A pílula do dia seguinte protege contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs)?

Não. A pílula atua exclusivamente na prevenção da gravidez e não oferece nenhuma proteção contra HIV, sífilis, HPV ou outras ISTs.

7. Existe alguma contraindicação absoluta para o uso da pílula de emergência?

Por ser um tratamento ocasional e único, não há contraindicações absolutas, mas mulheres com histórico de trombose prévia ou doenças hepáticas graves devem buscar orientação médica urgente.

8. A pílula do dia seguinte previne a gravidez em relações sexuais que ocorrerem DEPOIS de tomá-la?

Não. O efeito da pílula atua apenas no coito desprotegido que já aconteceu. Relações sexuais posteriores exigem novos métodos de barreira, como a camisinha.