Da pele escurecida às úlceras: conheça as complicações da doença venosa

Médico examina a perna de um paciente durante consulta para avaliar possíveis complicações da doença venosa.

Você já sentiu as pernas pesadas ou inchadas depois de um dia longo, principalmente após passar muitas horas em pé ou sentada? Apesar de ser um incômodo comum, quando a sensação aparece com frequência, pode ser um sinal de que a circulação das pernas não está funcionando tão bem quanto deveria.

A doença venosa é qualquer condição que afeta o sistema de veias, responsável por transportar o sangue de volta ao coração, e aparece quando o sangue tem dificuldade para fazer o caminho de volta das pernas até o coração.

Ele pode ficar acumulado nos membros inferiores, aumentando a pressão dentro das veias e provocando alterações que vão desde sensação de peso e inchaço até mudanças na pele e feridas de difícil cicatrização. Com o passar do tempo, quando a circulação não melhora e a pressão dentro das veias continua elevada, o problema pode progredir.

Como surgem as manchas e feridas na perna?

Uma das principais causas do aparecimento de manchas e feridas nas pernas é a má circulação venosa. Para levar o sangue dos pés de volta ao coração, vencendo a força da gravidade, o corpo conta com a musculatura da panturrilha e com pequenas válvulas dentro das veias, responsáveis por impedir que o sangue volte para baixo.

Quando as válvulas não funcionam corretamente, seja por fatores genéticos, alterações no colágeno, ação dos hormônios femininos ou gestação, o sangue pode ter dificuldade para retornar ao coração. O mesmo pode acontecer quando a panturrilha não é movimentada o suficiente, como no caso de pessoas sedentárias ou que passam muito tempo em pé ou sentadas na mesma posição.

De acordo com o cirurgião vascular Marcelo Bellini Dalio, médico assistente da USP de Ribeirão Preto e titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular, a dificuldade no retorno do sangue provoca uma espécie de congestionamento nas pernas.

O aumento constante da pressão dentro das veias e o acúmulo de líquido podem prejudicar os tecidos e provocar mudanças na pele. Aos poucos, podem surgir manchas escuras, endurecimento da pele e até feridas.

Principais complicações da doença venosa

Quando o acúmulo de sangue e o inchaço continuam por muito tempo, a doença venosa pode avançar e causar complicações, como:

1. Escurecimento e alteração da pele (dermatite ocre)

Uma das alterações que podem surgir com a má circulação venosa são as manchas marrons nas pernas. Segundo Marcelo, o acúmulo de sangue e o aumento da pressão nas veias podem fazer com que a pele fique cada vez mais escura. As manchas costumam aparecer principalmente perto do tornozelo, especialmente na parte interna da perna.

2. Endurecimento da pele (lipodermatoesclerose)

Sem o tratamento adequado, o acúmulo de sangue pode manter um processo inflamatório na região. Com o passar do tempo, além de ficar marrom, a pele perde parte da elasticidade e se torna mais firme, rígida e endurecida ao toque.

3. Feridas que não cicatrizam (úlcera venosa)

Quando a pele já está fragilizada, escurecida e endurecida, podem surgir feridas chamadas de úlceras venosas ou úlceras varicosas.

Segundo Marcelo, a ferida normalmente aparece justamente no local onde a pele está escura e endurecida, principalmente na parte interna do tornozelo. Como a circulação da região está comprometida, a lesão pode demorar para cicatrizar e precisa de cuidados contínuos e tratamento especializado.

4. Infecções na pele (celulite e erisipela)

Uma ferida que não cicatriza pode ser porta de entrada para as bactérias, já que a pele funciona como uma barreira de proteção. Quando existe uma lesão, os microrganismos encontram um caminho para entrar nos tecidos e podem provocar infecções como a erisipela e a celulite infecciosa.

A erisipela costuma atingir as camadas mais superficiais da pele e pode causar vermelhidão intensa, inchaço, dor, calor no local e febre. Já a celulite infecciosa atinge camadas mais profundas da pele e também pode provocar dor, vermelhidão, inchaço e aumento da temperatura na região afetada.

O tratamento é feito com antibióticos e deve ser iniciado o quanto antes para controlar a infecção e evitar que ela se espalhe pelo organismo.

5. Sangramento das varizes (varicorragia)

De acordo com Marcelo, quando as veias ficam muito dilatadas e salientes, principalmente perto do tornozelo, as paredes podem se tornar mais frágeis.

Um pequeno esbarrão ou uma batida na perna, até mesmo durante o banho, pode machucar a pele sobre a veia e provocar um sangramento intenso. Em alguns casos, a variz pode se romper mesmo sem um trauma aparente. A quantidade de sangue costuma assustar, mas é importante manter a calma e comprimir o local com um pano ou uma gaze limpa.

Também é recomendado deitar e manter a perna elevada, enquanto a pressão sobre o local é mantida até o sangramento parar. Se o sangue continuar saindo mesmo após a compressão, ou se o sangramento for muito intenso, é necessário procurar atendimento médico.

Sintomas de alerta: quando procurar o médico imediatamente?

Os sintomas mais comuns da má circulação já precisam ser avaliados por um cirurgião vascular. De acordo com o especialista, o inchaço, a dor, a sensação de peso nas pernas no final do dia, as cãibras e a sensação de pernas inquietas podem indicar que existe algum problema na circulação.

Alguns sinais, porém, podem representar uma complicação e precisam de atendimento médico imediato:

  • Sangramento ativo em uma variz: se a variz se romper, coloque o dedo, uma gaze ou um pano limpo sobre o local e faça uma compressão firme. Se possível, eleve a perna e procure imediatamente um serviço de urgência;
  • Sinais de infecção: procure atendimento caso apareçam vermelhidão intensa, calor na perna, febre, mal-estar, fraqueza ou ínguas na virilha;
  • Feridas abertas: qualquer fissura ou ferida que não cicatriza, principalmente perto do tornozelo, precisa ser avaliada por um médico.

Para fazer o diagnóstico, o cirurgião vascular examina as pernas e pode solicitar um ultrassom Doppler, que permite avaliar o fluxo do sangue nas veias superficiais e profundas, incluindo a veia safena.

Com os resultados, o médico consegue indicar o tratamento mais adequado, que pode incluir o uso de meias de compressão, medicamentos, aplicações com espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia convencional.

Como prevenir as complicações da doença venosa

A genética é um dos principais fatores de risco para o aparecimento das varizes, em conjunto com a ação dos hormônios femininos e a gravidez. Mesmo assim, alguns hábitos no dia a dia podem ajudar a melhorar a circulação, como:

  • Pratique atividades físicas regularmente: os exercícios, como a caminhada, a corrida e a bicicleta, estimulam a circulação. A musculação também é benéfica porque fortalece os músculos das pernas e da panturrilha;
  • Evite o sedentarismo e controle o peso: o excesso de peso aumenta a sobrecarga nas pernas, reduz a mobilidade e dificulta o retorno do sangue para o coração. Por isso, manter o corpo ativo e um peso saudável ajuda a evitar o agravamento da doença venosa;
  • Evite passar muito tempo na mesma posição: as pessoas que trabalham por muitas horas em pé ou sentadas podem ter mais dificuldade para fazer o sangue retornar ao coração. Por isso, é importante movimentar os pés e as pernas, contrair as panturrilhas e fazer pequenas caminhadas ao longo do dia;
  • Eleve as pernas no final do dia: colocar as pernas para cima ao chegar em casa pode ajudar a aliviar a sensação de peso e cansaço, além de reduzir o inchaço acumulado durante o dia;
  • Use as meias de compressão quando houver indicação: as meias de compressão fazem uma pressão gradual nas pernas, apertando mais perto do tornozelo e menos nas partes superiores. A compressão ajuda o sangue a retornar ao coração, alivia os sintomas e pode evitar que a doença venosa avance. O tipo e o nível de compressão precisam ser indicados por um profissional.

Como a doença venosa é crônica e pode voltar ou piorar com o tempo, o acompanhamento regular com o cirurgião vascular é fundamental para proteger a saúde das pernas e evitar que as varizes evoluam para complicações dolorosas.

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Perguntas frequentes

1. Por que as varizes são mais comuns em mulheres?

Devido aos hormônios femininos, que enfraquecem a parede das veias. O risco aumenta durante a gravidez por causa do pico hormonal e da pressão do útero sobre as veias.

2. Quais são os principais sintomas da doença venosa?

Dor, inchaço, sensação de peso nas pernas no final do dia, cãibras e sensação de pernas inquietas.

3. Usar meia de compressão à noite é recomendado?

Não. As meias de compressão devem ser vestidas logo cedo, ao acordar, e usadas durante o dia. À noite, elas devem ser retiradas.

4. O calor piora a doença venosa?

O calor não causa varizes, mas faz as veias dilatarem (vasodilatação), o que exacerba os sintomas e deixa a perna mais inchada e cansada.

5. Cruzar as pernas causa varizes?

Não há estudos que comprovem que cruzar as pernas cause varizes. O ato pode apenas estimular pequenos vasinhos no local de atrito por trauma direto.

6. Qual é a diferença da celulite infecciosa para a celulite estética?

A celulite associada às varizes é uma infecção bacteriana grave na pele que causa vermelhidão, febre e dor, necessitando de antibióticos. Não tem relação com os furinhos estéticos na pele.

Confira: Varizes: o que é, causas, tratamento e como evitar