Transtornos de neurodesenvolvimento: o que são, tipos e como é feito o diagnóstico 

Criança realizando atividade escolar com o apoio de um adulto, ilustrando a avaliação e o acompanhamento de transtornos do neurodesenvolvimento na infância.

Os primeiros anos de vida são um período de intenso desenvolvimento cerebral, em que a criança aprende a falar, caminhar, se comunicar, interagir com outras pessoas, desenvolver habilidades motoras e adquirir conhecimentos importantes para a vida. Porém, quando há alguma interrupção ou alteração nesse processo natural, podem surgir os chamados transtornos do neurodesenvolvimento.

As condições, como o TDAH e transtorno do espectro ausista (TEA), costumam se manifestar ainda na primeira infância e podem impactar aspectos importantes do dia a dia da criança, como a fala, a aprendizagem, a atenção e o comportamento, de acordo com a neuropediatra Bárbara Macedo.

Mas, apesar dos desafios que podem trazer, os transtornos do neurodesenvolvimento não estão relacionados à falta de inteligência. Na verdade, conviver com a condição significa apenas que o cérebro processa o mundo de uma forma diferente, e não que a criança seja incapaz de aprender e se desenvolver.

O que são transtornos do neurodesenvolvimento?

Os transtornos do neurodesenvolvimento são um grupo de condições que afetam o funcionamento do sistema nervoso e o desenvolvimento do cérebro. Eles costumam se manifestar muito cedo, normalmente antes de a criança entrar na escola, e podem afetar uma ou várias áreas do desenvolvimento infantil, como:

  • Linguagem e comunicação;
  • Aprendizagem;
  • Atenção e concentração;
  • Habilidades motoras;
  • Interação social;
  • Controle emocional;
  • Comportamento.

A intensidade dos sintomas varia bastante: enquanto algumas crianças apresentem dificuldades leves e conseguem realizar as atividades com poucas adaptações, outras podem precisar de acompanhamento especializado e suporte contínuo.

O que NÃO são transtornos do neurodesenvolvimento?

Como existem diversas dúvidas ao redor dos transtornos de neurodesenvolvimento, vale destacar dois pontos principais:

  • Eles não indicam falta de inteligência: muitas pessoas que convivem com os transtornos têm inteligência na média ou até acima da média. A dificuldade está em como o cérebro processa e expressa o conhecimento;
  • Não é culpa dos pais: os transtornos não são causados por falta de limites, excesso de telas ou traumas familiares. São condições biológicas que envolvem diferenças no desenvolvimento e no funcionamento do cérebro, influenciadas principalmente por fatores genéticos e neurológicos.

O mais importante é buscar orientação especializada, acolher as necessidades da criança e oferecer o suporte adequado para favorecer o seu desenvolvimento.

Tipos de transtorno de neurodesenvolvimento

1. Transtorno do espectro autista (TEA)

O TEA é caracterizado por diferenças na comunicação social e pela presença de comportamentos, interesses ou atividades repetitivas e restritas. Os principais sinais podem incluir:

  • Dificuldade para interagir socialmente;
  • Pouco contato visual;
  • Atraso na fala ou diferenças na comunicação;
  • Interesse intenso por temas específicos;
  • Necessidade de rotina;
  • Sensibilidade aumentada a sons, luzes, texturas ou cheiros.

Os sintomas variam bastante de uma pessoa para outra, motivo pelo qual o autismo é considerado um espectro. Algumas precisam de bastante suporte para as atividades diárias, enquanto outras são mais independentes.

2. Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH)

O TDAH é um transtorno que afeta principalmente a atenção, o controle dos impulsos e a capacidade de organização. Ele pode se manifestar mais pela falta de atenção, mais pela agitação, ou por uma combinação das duas coisas. Alguns dos principais sinais incluem:

  • Dificuldade para manter o foco;
  • Esquecimentos frequentes;
  • Agitação excessiva;
  • Impulsividade;
  • Dificuldade para seguir instruções;
  • Problemas de organização.

Os sinais costumam aparecer na infância, mas podem persistir durante a adolescência e a vida adulta.

3. Transtornos específicos da aprendizagem

Os transtornos específicos de aprendizagem são condições que afetam a capacidade de processar informações específicas, tornando o aprendizado escolar muito desafiador, mesmo que a criança seja inteligente. Os mais conhecidos são:

  • Dislexia: transtorno da aprendizagem que afeta principalmente a leitura. A criança pode ter dificuldade para reconhecer palavras de forma rápida e fluente, compreender textos, identificar sons das letras e realizar atividades de leitura e escrita compatíveis com a idade;
  • Discalculia: transtorno que interfere na compreensão dos números e dos conceitos matemáticos. Pode causar dificuldades para realizar cálculos simples, entender quantidades, memorizar operações básicas, interpretar problemas matemáticos e lidar com noções de tempo e medidas;
  • Disgrafia: alteração que afeta a habilidade de escrita, de modo que a criança pode apresentar letra pouco legível, dificuldade para organizar palavras e frases no papel, lentidão para escrever e problemas para coordenar os movimentos necessários durante a escrita.

Como os transtornos muitas vezes podem ser confundidos com falta de interesse, o diagnóstico pode acontecer anos mais tarde.

4. Transtornos da comunicação

Os transtornos de comunicação afetam a fala e a linguagem, de maneira que a criança pode entender perfeitamente o que dizem a ela, mas ter dificuldades sérias para se expressar verbalmente, estruturar frases ou pronunciar os sons corretamente. Quanto mais cedo as alterações forem identificadas, maiores são as chances de intervenção eficaz.

5. Transtornos do desenvolvimento da coordenação motora

Nos transtornos do desenvolvimento motor, a criança apresenta dificuldades para realizar movimentos e executar tarefas motoras esperadas para a sua idade. O principal exemplo é o transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC), também conhecido como dispraxia, condição que pode afetar atividades do dia a dia, como escrever, correr, se vestir ou praticar esportes.

O grupo também inclui os transtornos de tiques, caracterizados por movimentos ou vocalizações involuntárias e repetitivas, como ocorre na Síndrome de Tourette.

6. Transtorno do desenvolvimento intelectual

O transtorno do desenvolvimento intelectual envolve limitações nas funções intelectuais, como raciocínio, aprendizagem, resolução de problemas e planejamento, além de dificuldades no comportamento adaptativo, que inclui habilidades necessárias para o dia a dia, como comunicação, autocuidado, interação social e realização de atividades práticas.

A condição pode variar de leve a profunda, dependendo do grau de comprometimento e da necessidade de suporte da pessoa.

Quais os sinais de alerta mais comuns?

Cada transtorno possui características próprias, mas os pais podem ficar atentos a alguns sinais que podem indicar que a criança precisa de uma avaliação especializada, como:

  • Atraso para falar;
  • Pouco interesse em interações sociais;
  • Dificuldade para manter contato visual;
  • Problemas persistentes de atenção;
  • Agitação excessiva;
  • Dificuldade de aprendizagem;
  • Comportamentos repetitivos;
  • Sensibilidade exagerada a estímulos;
  • Atrasos tempos;
  • Dificuldade para seguir instruções compatíveis com a idade.

A presença de um ou mais sinais não significa necessariamente que exista um transtorno, mas merece investigação quando persiste ao longo do tempo.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico dos transtornos do neurodesenvolvimento é clínico e deve ser realizado por profissionais especializados, como neuropediatras, pediatras do desenvolvimento, psiquiatras infantis, psicólogos e fonoaudiólogos, dependendo do caso. A avaliação costuma envolver diferentes etapas:

  • Entrevista com a família: os profissionais investigam o histórico da criança desde a gestação, incluindo o desenvolvimento motor, da linguagem, social e escolar. As informações fornecidas pelos pais ou cuidadores são necessárias para entender quando os sintomas surgiram e como eles afetam a rotina;
  • Observação do comportamento: durante as consultas, o especialista observa como a criança interage, se comunica, brinca e responde aos estímulos do ambiente. A etapa ajuda a identificar características específicas de cada transtorno;
  • Avaliações específicas: dependendo da suspeita clínica, podem ser aplicados testes e escalas padronizadas para analisar aspectos como atenção, linguagem, cognição, habilidades sociais e aprendizagem. Em muitos casos, a avaliação é feita por uma equipe multidisciplinar;
  • Investigação de outras condições: o médico também pode solicitar exames quando necessário para descartar problemas que possam causar sintomas semelhantes, como alterações auditivas, visuais, neurológicas ou metabólicas.

É importante destacar que não existe um exame de sangue, de imagem ou um teste único capaz de diagnosticar a maioria dos transtornos do neurodesenvolvimento.

Como é feito o tratamento dos transtornos de neurodesenvolvimento?

O tratamento dos transtornos do neurodesenvolvimento varia de acordo com o diagnóstico, a idade da criança e as dificuldades apresentadas.

Não existe uma abordagem única para todos os casos, uma vez que o acompanhamento costuma ser individualizado e adaptado às necessidades de cada criança. Contudo, alguns pilares podem envolver:

  • Terapias de estimulação: incluem o acompanhamento com psicólogo, para trabalhar questões emocionais e comportamentais; fonoaudiólogo, para auxiliar no desenvolvimento da fala e da linguagem. E terapeuta ocupacional, para estimular habilidades motoras, sensoriais e a autonomia nas atividades do dia a dia;
  • Medicamentos: podem ser indicados em alguns casos para controlar sintomas específicos que prejudicam a rotina e o desenvolvimento da criança, como desatenção intensa, impulsividade, hiperatividade, ansiedade ou alterações do sono;
  • Apoio escolar: envolve adaptações pedagógicas de acordo com as necessidades da criança, como tempo adicional para realizar atividades e provas, estratégias de ensino individualizadas e, quando necessário, o acompanhamento de um profissional de apoio;
  • Orientação informal: ajuda os pais e cuidadores a compreender melhor o transtorno e a desenvolver estratégias para organizar a rotina, estimular o desenvolvimento da criança e lidar com os desafios do dia a dia de forma acolhedora e eficaz.

Também vale apontar que o tratamento não foca em uma cura, uma vez que as fazem parte da forma como o cérebro da pessoa é estruturado, mas em estimular o cérebro desenvolver habilidades e oferecer ferramentas para que a criança tenha o máximo de autonomia, qualidade de vida e bem-estar.

O acompanhamento envolve uma equipe multidisciplinar, que pode incluir neuropediatra, pediatra, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo e fisioterapeuta, dependendo das necessidades da criança.

Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

Perguntas frequentes

1. Com qual idade os primeiros sinais começam a aparecer?

Os sinais costumam surgir logo na primeira infância, frequentemente antes dos 3 anos de idade. Pais e cuidadores podem notar atrasos na fala, falta de contato visual, agitação extrema ou dificuldade para interagir com outras crianças.

2. O que causa os transtornos do neurodesenvolvimento?

Os transtornos do neurodesenvolvimento são causados por uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais que interferem no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação ou nos primeiros anos de vid

3. Toda criança com TDAH precisa tomar remédio?

Não necessariamente. O uso de medicamentos depende da gravidade dos sintomas e do quanto eles atrapalham o aprendizado e as relações sociais da criança.

4. É possível ter mais de um transtorno do neurodesenvolvimento ao mesmo tempo?

Sim, isso é muito comum e é chamado de comorbidade. Uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, também pode apresentar TDAH ou um transtorno de aprendizagem, como a dislexia.

5. Como a escola pode ajudar uma criança com os transtornos?

A escola deve oferecer acessibilidade pedagógica, o que inclui adaptar o formato das provas, dar tempo extra para atividades, fragmentar comandos longos, sentar a criança perto do professor e, quando necessário, disponibilizar um mediador escolar.

6. Adultos também podem ser diagnosticados com esses transtornos?

Sim, muitas pessoas passam a infância sem diagnóstico e só descobrem o TDAH ou o autismo na vida adulta, normalmente ao buscarem ajuda para problemas de ansiedade, organização, foco ou dificuldades no trabalho e nos relacionamentos.

7. O que os pais devem fazer ao suspeitarem de algum sinal?

O primeiro passo é conversar com o pediatra que acompanha a criança e relatar as observações. Se o médico achar necessário, ele encaminhará a família para um especialista (como neuropediatra ou psicólogo infantil) para uma avaliação detalhada.

Confira: TDAH em adultos: 6 sinais de que não é só falta de organização