A colestase gravídica, também chamada de colestase intra-hepática da gravidez, é uma condição que pode surgir principalmente no terceiro trimestre da gestação e afeta o funcionamento do fígado.
Ela acontece quando a bile não consegue ser liberada adequadamente para o intestino, causando o acúmulo de ácidos biliares na corrente sanguínea. Como consequência, a gestante pode apresentar sintomas bastante desconfortáveis, principalmente a coceira intensa na pele.
Conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza para esclarecer as principais dúvidas sobre a colestase gravídica, entender quais são os sinais de alerta e como é feito o tratamento da condição.
O que é colestase gestacional?
A colestase gestacional é uma alteração no funcionamento do fígado em que a bile, um líquido amarelo-esverdeado produzido pelo órgão que participa do processo de digestão de gorduras, não consegue chegar adequadamente ao intestino.
Com isso, os ácidos biliares acabam se acumulando na corrente sanguínea e em outros tecidos do corpo, causando uma coceira intensa especialmente nas mãos e nos pés. A condição costuma ser mais comum no terceiro trimestre da gestação, período em que os níveis hormonais estão mais elevados.
O que causa a colestase gestacional?
A colestase gravídica acontece principalmente por causa das alterações hormonais da gravidez, segundo Andreia. A bile depende do equilíbrio entre colesterol, hormônios e alguns minerais para ser produzida e eliminada corretamente.
A ginecologista explica que, quando ocorre um desequilíbrio nos componentes, a bile pode se acumular nos ductos hepáticos, que são os canais responsáveis por transportar a substância até a vesícula biliar e, depois, para o intestino.
Com os ductos mais obstruídos ou funcionando de forma inadequada, os sais biliares acabam retornando para a corrente sanguínea, causando o aumento dos ácidos biliares no organismo. É justamente o acúmulo que provoca sintomas como a coceira intensa característica da doença.
Além das alterações hormonais naturais da gestação, algumas mulheres também possuem uma predisposição individual para desenvolver a colestase gravídica. Ela pode estar relacionada a fatores genéticos ou a uma maior sensibilidade às mudanças hormonais da gravidez. Por isso, pequenas alterações hormonais já podem favorecer o acúmulo da bile no organismo.
Sintomas da colestase gestacional
O principal sintoma da colestase gravídica é a coceira intensa na pele, que começa nas palmas das mãos e nas solas dos pés, mas também pode se espalhar para outras partes do corpo. Segundo Andreia, quando ocorre o acúmulo dos sais biliares no sangue, as substâncias também se depositam logo abaixo da pele, provocando o sintoma.
Diferente de alergias e outras doenças de pele, a colestase gravídica não provoca manchas, bolinhas ou feridas aparentes, mas a pele pode ficar machucada apenas pelo ato de coçar. Além disso, outros sintomas que podem surgir incluem:
- Urina escura;
- Fezes claras ou esbranquiçadas;
- Cansaço excessivo;
- Náuseas;
- Perda do apetite;
- Desconforto abdominal.
Quando o quadro evolui e os níveis de bilirrubina ficam muito elevados, Andreia aponta que pode surgir a icterícia, que é o amarelamento da pele e dos olhos. O primeiro sinal frequentemente aparece na esclera, a parte branca dos olhos.
Como a colestase gravídica pode aumentar o risco de complicações para o bebê, qualquer coceira intensa e persistente durante a gravidez deve ser avaliada pelo obstetra.
Toda coceira na gravidez é colestase?
Nem toda coceira durante a gravidez significa colestase gestacional. Na verdade, a suspeita costuma surgir quando a coceira é intensa, generalizada, predominante nas mãos e nos pés, aparece na segunda metade da gestação e não apresenta lesões aparentes na pele.
Quando a gestante possui manchas, bolinhas, vermelhidão ou outras lesões típicas de alergias e doenças dermatológicas, a investigação geralmente é direcionada primeiro para causas relacionadas à pele. Já na colestase gestacional, a coceira costuma acontecer sem alterações visíveis, além de normalmente piorar durante a noite.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da colestase gravídica é feito principalmente por meio da avaliação dos sintomas da gestante e de exames de sangue que analisam o funcionamento do fígado, como:
- Dosagem de bilirrubinas e ácidos biliares: avalia os níveis dos sais biliares no sangue, que costumam aumentar quando a bile não consegue ser eliminada corretamente;
- Enzimas hepáticas: incluem exames como TGO, TGP, fosfatase alcalina e gama-GT, que ajudam a verificar se existe inflamação ou sobrecarga no fígado;
- Ultrassom de fígado e vesícula biliar: é utilizado para descartar outras possíveis causas para a alteração do fluxo da bile, como pedras na vesícula, cálculos biliares ou outras doenças hepáticas.
Como a coceira intensa pode ter diferentes causas durante a gravidez, os exames ajudam a confirmar o quadro e identificar alterações relacionadas ao acúmulo da bile no organismo.
Tratamento de colestase gestacional
O tratamento da colestase gestacional é feito para aliviar os sintomas da gestante, controlar os níveis de ácidos biliares no sangue e reduzir os riscos para o bebê. Na maioria dos casos, Andreia explica que o médico indica o uso de ácido ursodesoxicólico, que ajuda a melhorar o fluxo da bile, diminuir o acúmulo dos sais biliares no organismo e aliviar a coceira intensa.
Além do tratamento medicamentoso, a gestante precisa de um acompanhamento mais próximo durante a gravidez. Os exames de sangue são realizados com frequência para monitorar o funcionamento do fígado e os níveis de ácidos biliares, enquanto ultrassons e exames de avaliação fetal ajudam a acompanhar a saúde do bebê.
Em geral, a colestase gestacional desaparece após o nascimento do bebê, quando os hormônios da gravidez diminuem e o funcionamento do fígado volta ao normal.
Quando é necessário adiantar o parto?
A necessidade de adiantar o parto na colestase gestacional depende da gravidade do quadro e da resposta ao tratamento. Segundo Andreia, a interrupção da gestação pode ser indicada quando existem sinais de sofrimento fetal ou quando os níveis de ácidos biliares permanecem muito altos, mesmo com o uso da medicação adequada.
Já nos casos em que a doença está bem controlada, com acompanhamento adequado da mãe e do bebê, o parto geralmente é programado entre 37 e 38 semanas de gestação, período considerado seguro para reduzir os riscos de complicações fetais relacionadas à colestase.
Riscos para o bebê
O principal risco para o bebê é que o excesso de ácidos biliares presente no sangue materno também pode passar para a circulação fetal. Em níveis muito altos, o acúmulo pode provocar sofrimento fetal e, em casos mais graves e raros, até óbito fetal.
Apesar das complicações não serem frequentes, elas podem acontecer quando os níveis de ácidos biliares permanecem muito altos e sem controle adequado. Por isso, a colestase gestacional requer um acompanhamento rigoroso e tratamento rápido.
É possível prevenir a colestase gestacional?
Não existe uma forma totalmente garantida de prevenir a colestase gestacional, principalmente porque a condição está muito relacionada às alterações hormonais da gravidez e à predisposição genética de cada mulher.
Mesmo assim, o acompanhamento pré-natal adequado é necessário para identificar os sintomas precocemente e iniciar o tratamento o quanto antes. Também deve-se manter hábitos saudáveis, ter uma alimentação equilibrada e seguir corretamente as orientações médicas, o que pode ajudar no cuidado da saúde do fígado durante a gestação.
Mulheres que já tiveram colestase em uma gravidez anterior precisam de atenção redobrada, já que existe um maior risco de o quadro se repetir em outras gestações. Nesses casos, o acompanhamento médico costuma ser ainda mais próximo desde o início da gravidez.
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Perguntas frequentes
1. Em qual período da gestação ela é mais comum?
Normalmente no terceiro trimestre (da metade para o fim da gravidez). É raro que a colestase apareça logo no início da gestação.
2. Existe alguma região do corpo onde a coceira começa?
Sim, o quadro clássico começa na palma das mãos e na planta dos pés, podendo depois se espalhar para o corpo todo.
3. Usar apenas antialérgico (anti-histamínico) resolve o problema?
Não. O antialérgico pode ajudar a aliviar levemente o sintoma da coceira, mas não trata a causa. O tratamento essencial é o ácido ursodesoxicólico.
4. O que significa dizer que a colestase é uma doença “autolimitada”?
Significa que ela tem um fim determinado. Como é desencadeada pelos hormônios da gestação, assim que a gravidez termina e os níveis hormonais retornam ao normal, a doença se resolve sozinha.
5. Qual a relação entre a bile e a digestão de gorduras?
A bile é produzida no fígado, armazenada na vesícula e jogada no intestino. Sua função principal é atuar como um “detergente”, ajudando o organismo a quebrar e absorver as gorduras dos alimentos.
6. O que acontece se a medicação não conseguir controlar os níveis de sais biliares?
Se os ácidos biliares continuarem aumentando muito ou se não houver resposta adequada ao tratamento medicamentoso, a recomendação é a interrupção da gestação para evitar o risco de sofrimento fetal.
7. O tratamento da colestase pode exigir cirurgia?
A colestase gravídica em si é tratada com remédios. Porém, se o ultrassom mostrar que o acúmulo de bile é causado por um cálculo (pedra) obstruindo o canal, o tratamento pode passar a ser cirúrgico.
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