O tratamento de câncer, seja para tumores sólidos ou para doenças onco-hematológicas, é feito com terapias que atuam eliminando as células doentes, como a quimioterapia, a radioterapia e, em alguns casos, a cirurgia. Mas, apesar de necessárias no controle da doença, elas podem afetar também células saudáveis, incluindo as reprodutivas.
No caso das mulheres, isso pode significar uma redução da reserva de óvulos ou até a perda da função ovariana, dependendo do tipo de tratamento e da idade. Já para os homens, os tratamentos podem comprometer a produção de espermatozoides, levando à diminuição da fertilidade ou até à infertilidade temporária ou permanente.
Em razão disso, antes de começar qualquer tratamento oncológico, são consideradas alternativas que permitem preservar a fertilidade, dependendo do tipo de câncer, a urgência para começar o tratamento, as condições de saúde da paciente e o desejo de ter filhos no futuro.
O que é oncofertilidade?
A oncofertilidade é uma área da medicina que combina a oncologia à medicina reprodutiva para preservar a capacidade de ter filhos em pacientes diagnosticados com câncer.
Como os tratamentos como quimioterapia, radioterapia e cirurgias podem causar infertilidade temporária ou permanente, a especialidade atua no planejamento de estratégias de preservação antes do início das intervenções oncológicas.
A decisão envolve uma equipe multidisciplinar, normalmente com oncologista e especialista em reprodução humana, para garantir segurança e alinhamento com o plano de tratamento.
Como o tratamento de câncer pode afetar a fertilidade?
Uma boa parte dos tratamentos oncológicos é tóxica para os tecidos e pode levar a uma infertilidade temporária ou definitiva, de acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza.
Eles funcionam, em sua maioria, atacando células que se multiplicam rapidamente, que é uma característica principal dos tumores. No entanto, o mecanismo também afeta outras células saudáveis do corpo com comportamento semelhante, como as células germinativas responsáveis pela produção de óvulos e espermatozoides.
- Quimioterapia: o uso de medicamentos citotóxicos pode reduzir drasticamente a reserva ovariana nas mulheres ou interromper a produção de esperma nos homens, podendo levar à infertilidade temporária ou permanente (menopausa precoce ou azoospermia);
- Radioterapia: quando aplicada na região pélvica ou próxima às gônadas, a radiação pode danificar de forma irreversível os tecidos dos ovários ou testículos;
- Cirurgias: procedimentos para retirada de tumores no sistema reprodutor ou em órgãos próximos podem exigir a remoção total ou parcial de órgãos essenciais para a concepção.
Como não é possível prever se a infertilidade será definitiva, já que isso depende do tipo de tratamento e da resposta da paciente, Andreia orienta que é sempre válido considerar a preservação da fertilidade antes do início da terapia.
Quais os principais métodos de preservação da fertilidade?
Os métodos de preservação da fertilidade variam de acordo com a idade, o tipo de câncer e o tempo disponível antes do início do tratamento, mas alguns são mais comuns:
1. Congelamento de óvulos
O congelamento de óvulos, também chamado de criopreservação de oócitos, é uma técnica de reprodução assistida em que os óvulos são coletados dos ovários e congelados para uso futuro.
A terapia é feita a partir da estimulação ovariana, feita por meio de hormônios, para que o corpo produz um número maior de óvulos em um único ciclo. Durante a fase, a paciente é acompanhada com exames de sangue e ultrassonografias para monitorar o desenvolvimento dos folículos.
Quando os óvulos atingem o estágio adequado, é realizada a coleta por um procedimento simples, guiado por ultrassom e feito com sedação. Após a coleta, os óvulos maduros são congelados em laboratório por uma técnica chamada vitrificação, que permite a preservação das células sem formação de cristais de gelo.
Os óvulos podem ser utilizados no futuro, quando a paciente deseja engravidar, por meio da fertilização in vitro. Segundo Andréia, ele é indicado especialmente para mulheres que não têm parceiro ou não desejam formar embriões naquele momento.
2. Congelamento de embriões
O congelamento de embriões, também chamado de criopreservação, é uma técnica da fertilização in vitro (FIV) em que os embriões formados em laboratório são preservados para uso futuro.
Após a coleta dos óvulos e a fertilização com o sêmen do parceiro ou de um doador, os embriões são cultivados por alguns dias e, em seguida, congelados em condições controladas, normalmente em nitrogênio líquido a -196 °C. A técnica mais utilizada é a vitrificação, a mesma utilizada no congelamento de óculos.
Os embriões podem ficar armazenados por tempo indeterminado e, quando a pessoa decide engravidar, podem ser descongelados e transferidos para o útero.
3. Congelamento de tecido ovariano
O congelamento de tecido ovariano consiste na retirada de pequenos fragmentos do ovário por meio de uma cirurgia. O tecido é congelado e pode ser reimplantado no corpo da paciente após o término do tratamento oncológico.
A ideia é que o ovário volte a funcionar, permitindo a produção de hormônios e, em alguns casos, a ovulação natural.
O método pode ser uma alternativa quando não há tempo para realizar a estimulação ovariana ou em situações específicas, sempre com avaliação criteriosa do tipo de câncer. Segundo Andreia, em casos de tumor de ovário, não se recomenda a retirada e o reimplante do tecido, já que há risco de presença de células cancerígenas.
4. Supressão ovariana com medicamentos
A supressão ovariana é feita com o uso de medicamentos que bloqueiam os sinais cerebrais que estimulam os ovários durante o tratamento, especialmente durante a quimioterapia. Com isso, os ovários ficam menos ativos e, teoricamente, mais protegidos contra os efeitos tóxicos do tratamento oncológico.
Os remédios são aplicados por injeções, que podem ser mensais ou trimestrais, e costumam ser iniciados antes do começo da quimioterapia e mantidos durante o tratamento. No período, a mulher pode apresentar sintomas semelhantes aos da menopausa, como ondas de calor, alterações de humor e ausência de menstruação.
Após o término do tratamento contra o câncer, em muitos casos, os ovários podem voltar a funcionar aos poucos. No entanto, é importante entender que a terapia não substitui os métodos de congelamento e nem sempre garante a preservação da fertilidade.
Por isso, costuma ser utilizada como uma forma complementar de cuidado, e não como única alternativa.
Quando considerar a preservação da fertilidade?
A preservação da fertilidade deve ser considerada imediatamente após o diagnóstico de câncer, assim que houver a indicação de tratamentos que possam comprometer a reserva de óvulos ou a produção de espermatozoides.
Contudo, Andreia explica que a possibilidade de preservar a fertilidade depende de alguns fatores, como o tipo de câncer, a urgência para começar o tratamento, a idade, as condições de saúde da paciente e o desejo de ter filhos no futuro.
Por exemplo, se a mulher já decidiu que não quer engravidar, a ginecologista aponta que não faz sentido indicar o procedimento.
Em alguns casos, o tratamento precisa começar rápido e não há tempo para fazer a preservação, especialmente se a paciente estiver mais debilitada ou se o câncer exigir tratamento imediato. Nesses casos, pode não ser indicado esperar.
Em todos os casos, a decisão deve ser tomada em conjunto com o ginecologista, especialista em reprodução, oncologista e cirurgião. Segundo Andréia, tudo deve ser feito o mais rápido possível para não atrasar o início do tratamento.
Quando iniciar o processo de preservação?
O processo de preservação da fertilidade deve começar o quanto antes, logo após a confirmação do diagnóstico de câncer. Os tratamentos oncológicos podem começar a agir nas células reprodutoras (óvulos e espermatozoides) logo no início.
Se o paciente espera o tratamento começar para depois pensar na preservação, o estoque ou a qualidade das células já pode ter sido prejudicado.
O ideal é que, na mesma semana em que você recebeu o diagnóstico e o plano de tratamento do oncologista, você já agende uma consulta com um especialista em reprodução humana. Eles vão trabalhar juntos para encaixar a coleta de gametas no intervalo de tempo que você tem antes de iniciar o combate ao tumor.
Quanto tempo dura o processo?
O tempo do processo de preservação da fertilidade pode variar de acordo com a técnica escolhida, mas eles costumam ser curtos. O congelamento de óvulos ou embriões, por exemplo, costuma levar entre 10 dias e duas semanas. O período inclui a estimulação dos ovários com hormônios, o acompanhamento com exames e a coleta dos óvulos.
Já o congelamento de tecido ovariano pode ser ainda mais rápido, pois envolve apenas um procedimento cirúrgico para retirada del tecido, sem necessidade de estimulação hormonal.
Quando a preservação da fertilidade é contraindicada?
A preservação da fertilidade pode ser contraindicada em algumas situações, como:
- O tratamento precisa começar imediatamente: em casos mais agressivos ou avançados, em que não é possível adiar o início da terapia nem por alguns dias, a prioridade é tratar o câncer;
- A paciente está clinicamente debilitada: quando o estado de saúde não permite a realização de procedimentos, como a estimulação ovariana ou uma cirurgia, a preservação pode não ser segura;
- O tumor é hormônio-dependente: alguns tipos de câncer, como certos tumores de mama, ovário ou endométrio, podem crescer com estímulo hormonal. Nesses casos, o uso de hormônios para estimular os ovários pode ser contraindicado;
- Há risco de reintrodução de células cancerígenas: no caso do congelamento de tecido ovariano, por exemplo, não é indicado quando existe risco de o tecido conter células do câncer, como em tumores de ovário;
- Não há desejo reprodutivo: se a paciente não deseja ter filhos no futuro, não há indicação para realizar o procedimento.
É possível fazer a preservação da fertilidade em crianças?
Na criança, não é possível realizar a preservação da fertilidade da mesma forma. Segundo Andreia, o processo envolve, no mínimo, o congelamento de óvulos, e a criança ainda não está na fase de ovulação.
Para que isso fosse possível, seria necessário induzir uma puberdade precoce, o que não é adequado e pode trazer prejuízos para o crescimento e para a saúde óssea.
Por isso, o que se faz é o acompanhamento ao longo da adolescência. Caso surja algum distúrbio hormonal, existem tratamentos para correção, mas a preservação, nessa fase, não é possível.
Leia também: Câncer de mama: o que é, sintomas, causa e como identificar
Perguntas frequentes
1. Para os homens, como funciona a preservação da fertilidade?
A melhor opção é a criopreservação de sêmen. O homem realiza a coleta através da masturbação e a amostra fica congelada por tempo indeterminado.
2. Quanto tempo os óvulos podem ficar congelados?
Não existe um prazo de validade. Os óvulos e o sêmen permanecem preservados em nitrogênio líquido e mantêm a qualidade por muitos anos.
3. A preservação da fertilidade pode fazer o câncer voltar?
Não há evidências científicas de que a coleta de gametas aumente o risco de recidiva da doença.
4. Quem já começou a quimioterapia ainda pode congelar óvulos ou sêmen?
O ideal é fazer antes. Após o início, a qualidade das células pode estar comprometida, mas cada caso deve ser avaliado individualmente pelo especialista.
5. É possível engravidar naturalmente após o câncer?
Sim, algumas pessoas recuperam a função reprodutiva após o término das terapias. Porém, como não há garantias, o congelamento funciona como um seguro.
6. Homens trans ou mulheres trans com câncer também podem preservar?
Com certeza. O direito à parentalidade futura é para todos, e os procedimentos de coleta seguem protocolos semelhantes, respeitando a identidade de cada pessoa.
7. O procedimento de coleta de óvulos dói?
A coleta é realizada sob sedação leve, de modo que a paciente não sente dor durante o processo. Após o procedimento, pode haver um leve desconforto abdominal, semelhante a uma cólica menstrual, que costuma passar em pouco tempo.
8. É possível preservar a fertilidade em casos de leucemia?
Sim, pacientes com cânceres hematológicos podem realizar a preservação. No entanto, o médico precisa avaliar o estado geral de saúde e os níveis de plaquetas para garantir que a coleta ocorra com total segurança.
Leia também: Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença entre os termos
