O útero da maioria das mulheres apresenta o formato de uma pêra invertida e fica inclinado para a frente, apoiado sobre a bexiga, mas é comum encontrar variações tanto na anatomia quanto na posição do órgão.
Enquanto algumas mulheres nascem com alterações no formato do útero devido a mudanças ocorridas durante o desenvolvimento fetal, outras apresentam apenas uma variação de posicionamento, como o útero retrovertido. Normalmente, as características não manifestam sintomas e são descobertas em exames de rotina ou quando a mulher decide engravidar.
Mas afinal, o formato anatômico do útero influencia a gestação e a via de parto? Conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza para esclarecer as principais dúvidas e explicar o impacto de cada variação.
Qual é o formato anatômico habitual do útero?
Na maior parte das mulheres, Andreia explica que o útero tem um formato que lembra uma perna invertida e achatada. A anatomia considerada padrão é chamada de antiversofletido (AVF), o que significa que o órgão fica inclinado para a frente (antiverso) e apresenta uma leve curvatura no corpo uterino (fletido), ficando anatomicamente deitado sobre a bexiga.
O posicionamento e formato facilitam a acomodação do órgão na pelve e a expansão natural durante uma eventual gravidez. Quando o útero se desenvolve dessa forma, com uma cavidade única, ampla e livre de divisões internas, o bebê tem o espaço ideal para crescer e se movimentar de maneira adequada até o momento do nascimento.
Principais tipos de malformações uterinas
As malformações no formato do útero são condições que surgem ainda durante o desenvolvimento do bebê. O órgão se forma a partir de duas estruturas chamadas ductos mullerianos, que inicialmente se desenvolvem separadamente.
Com o crescimento do feto, as estruturas se unem para formar um único órgão oco. Quando ocorre alguma alteração nesse processo de fusão ou na reabsorção das paredes internas, podem surgir diferentes variações anatômicas, como:
- Útero septado: externamente, o útero apresenta formato normal, mas a cavidade uterina é dividida por uma parede de tecido chamada septo. A divisão pode ser parcial ou se estender até o colo do útero;
- Útero bicorno: acontece quando a fusão dos ductos mullerianos não se completa na parte superior do órgão. Como resultado, o útero apresenta uma divisão no topo, adquirindo um formato semelhante ao de um coração, com duas porções superiores bem definidas;
- Útero didelfo: surge quando há falha completa na fusão dos ductos mullerianos. A mulher desenvolve dois úteros separados, cada um com sua própria cavidade. Em alguns casos, também podem estar presentes dois colos uterinos e uma vagina dividida por um septo;
- Útero unicórnio: acontece quando apenas um dos ductos mullerianos se desenvolve adequadamente durante a formação fetal. O útero fica menor do que o habitual e geralmente está associado à presença de apenas uma trompa de falópio funcional.
Segundo Andreia, a gravidade da malformação depende do momento em que o desenvolvimento do feto foi interrompido. Quanto mais precoce ocorre o erro, maior é o espessamento entre as duas metades, já que a reabsorção do tecido não foi feita.
Útero retrovertido atrapalha a gravidez?
O útero retrovertido é uma variação anatômica in que o útero fica inclinado para trás, em direção ao reto, em vez de se posicionar para a frente, sobre a bexiga, como ocorre na maioria das mulheres. Como não é uma malformação ou uma doença, ele não interfere na fertilidade e não aumenta os riscos durante a gravidez.
O útero é um órgão móvel, capaz de mudar de posição ao longo da vida. Após o parto, por exemplo, durante o processo de involução uterina, quando o órgão retorna gradualmente ao tamanho habitual, ele pode passar a ficar voltado para trás. Quando o útero é móvel e não causa dor, a condição é considerada totalmente benigna.
Contudo, se o útero retrovertido estiver fixo e provocar dor durante o exame ginecológico, a alteração pode estar associada a doenças como endometriose ou aderências decorrentes de infecções pélvicas, o que precisa ser avaliado por um médico.
Como as variações influenciam a gestação?
O impacto de uma malformação uterina na gravidez depende principalmente do espaço disponível para o crescimento do bebê dentro do útero. Em algumas situações, o útero pode ter mais dificuldade para se expandir conforme a gestação avança, especialmente no caso do útero unicórnio, que possui cerca de metade do tamanho habitual.
Como consequência, Andreia destaca que algumas complicações podem ocorrer com maior frequência, entre elas:
- Aborto espontâneo: a limitação de espaço pode dificultar a evolução da gestação, principalmente nos primeiros meses;
- Perdas gestacionais: o risco existe nos úteros septado, bicorno, unicórnio e didelfo, embora no útero didelfo ele costuma ser menor;
- Parto prematuro: uma cavidade uterina menor pode atingir o limite de expansão antes do tempo, favorecendo o início precoce do trabalho de parto.
Apesar dos riscos, é importante destacar que muitas mulheres com malformações uterinas conseguem ter uma gravidez saudável e dar à luz bebês sem complicações. No entanto, as gestações são consideradas de alto risco e precisam de um acompanhamento mais próximo, com consultas mais frequentes, uso de medicamentos e exames adicionais.
Como é feito o diagnóstico de malformação do útero?
O diagnóstico das malformações do útero é simples, feito com exames de imagem específicos para avaliar o formato interno e externo do órgão:
- Ultrassom transvaginal: principal exame para avaliar o formato do útero e identificar a maioria das alterações anatômicas;
- Histerossalpingografia: exame com contraste e raio-X que permite visualizar a cavidade uterina e as trompas;
- Ressonância magnética da pelve: fornece imagens detalhadas do útero e ajuda a esclarecer casos mais complexos;
- Histerossonografia: ultrassom realizado com a infusão de soro fisiológico no útero, facilitando a identificação de septos e outras alterações da cavidade;
- Histeroscopia: procedimento que utiliza uma microcâmera introduzida pelo colo do útero para visualizar diretamente a cavidade uterina.
Quando a cirurgia é indicada?
A necessidade de cirurgia depende do tipo de alteração e do histórico da paciente. Segundo Andreia, o procedimento pode ser indicado quando a cavidade uterina é muito reduzida e existe desejo de engravidar no futuro, ou quando a mulher apresenta abortos de repetição relacionados à malformação.
Os principais tipos de correção são:
- Útero septado: é realizada por histeroscopia, com a retirada do septo que divide a cavidade uterina;
- Útero bicorno: a correção é mais complexa e nem sempre necessária, sendo avaliada caso a caso;
- Útero didelfo: raramente precisa de cirurgia, já que muitas mulheres não apresentam complicações importantes;
- Útero unicórnio: normalmente não pode ser corrigido cirurgicamente, pois parte do órgão não se desenvolveu durante a formação fetal.
Após alguns procedimentos, pode ser necessário aguardar um período de recuperação antes de tentar engravidar, conforme orientação médica.
O tipo de útero influencia a via de parto?
A resposta é sim. Algumas malformações uterinas aumentam a chance de o bebê permanecer em posições diferentes da ideal para o parto vaginal, como a apresentação pélvica, em que ele fica sentado. Isso acontece porque o formato da cavidade pode limitar os movimentos do feto durante a gestação.
O parto vaginal não é necessariamente contraindicado, mas Andreia destaca que as situações aumentam a probabilidade de uma cesariana. A definição da via de parto deve ser feita individualmente, levando em conta a posição do bebê, a evolução da gestação e as condições de saúde da mãe e do feto.
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Perguntas frequentes
1. Quem tem útero septado pode engravidar naturalmente?
Sim, a mulher com útero septado pode engravidar naturalmente, pois a ovulação e as trompas geralmente funcionam de forma normal. O principal desafio é o risco de aborto caso o embrião se implante no septo.
2. Qual a diferença entre útero bicorno e septado?
No útero septado, o órgão é normal por fora e dividido por uma parede de tecido por dentro. No útero bicorno, a parede externa do topo do útero é dividida, dando a ele o formato de um coração.
3. O útero retrovertido causa dor na relação?
Pode causar. Se o útero retrovertido for fixo devido a condições como a endometriose, algumas posições sexuais que causam maior impacto no fundo da vagina podem causar desconforto ou dor.
4. Quem tem malformação uterina sente algum sintoma?
A maioria das mulheres não apresenta nenhum sintoma e passa a vida sem saber da condição, descobrindo-a apenas em exames de rotina ou ao tentar engravidar.
5. O formato do útero pode causar cólicas fortes?
As malformações em si não costumam causar cólicas, mas se a alteração vier acompanhada de um septo vaginal que dificulte a saída do sangue, ou se a retroversão for causada por endometriose, a mulher terá cólicas fortes.
6. O útero retrovertido é considerado uma doença?
Não, o útero retrovertido é apenas uma variação anatômica da posição do órgão, presente em cerca de 15% a 20% das mulheres, e não traz riscos à saúde.
7. O útero pode mudar de formato ao longo da vida?
Não. As malformações uterinas (septado, bicorno, didelfo e unicórnio) são congênitas, então a mulher nasce com elas e o formato permanece o mesmo.
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