A escolha de um método contraceptivo nem sempre é simples, e pode ficar ainda mais delicada no caso de pessoas que convivem com enxaqueca. Com as flutuações hormonais, as crises podem se tornar mais frequentes ou intensas, especialmente quando há uso de métodos que contêm estrogênio.
Além do desconforto, em alguns casos, como na enxaqueca com aura, o uso de determinados anticoncepcionais pode aumentar o risco de complicações, como o acidente vascular cerebral (AVC).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) criou alguns critérios para ajudar a escolher o método contraceptivo mais adequado para cada mulher, de acordo com a sua saúde. A seguir, vamos entender melhor como isso funciona.
Afinal, quem tem enxaqueca pode tomar anticoncepcional?
Pessoas que convivem com enxaqueca podem usar anticoncepcional, mas nem todos os métodos são indicados. A escolha depende principalmente de dois fatores: a presença de aura e o tipo de hormônio presente no contraceptivo.
De acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, existem critérios que classificam cada método de acordo com a condição de saúde da mulher. A escala vai de 1 a 4 e serve como o principal guia para o médico:
- Categoria 1: totalmente indicado, podendo inclusive trazer benefícios;
- Categoria 2: aceitável e seguro para o uso;
- Categoria 3: não é totalmente contraindicado, mas exige cautela extrema e deve ser usado apenas se não houver outra opção;
- Categoria 4: contraindicado (risco à saúde).
Qual a relação entre o estrogênio e a enxaqueca?
O estrogênio atua diretamente na sensibilidade do sistema nervoso e no funcionamento dos vasos cerebrais, sendo o principal gatilho hormonal para a enxaqueca, segundo Andreia. Quando passa pelo processo de metabolização no fígado, ele pode influenciar substâncias relacionadas à dor, como a serotonina, além de alterar a forma como os vasos se contraem e se dilatam.
Como resultado, tanto o excesso circulante quanto a queda brusca dos níveis do hormônio no organismo podem desencadear crises, especialmente em mulheres mais sensíveis a essas variações.
Além da dor, o uso do estrogênio também está associado a um aumento do risco de trombose, já que pode interferir na coagulação do sangue, o que se torna especialmente perigoso para quem tem enxaqueca com aura, devido à maior predisposição ao AVC.
Por isso, métodos combinados que utilizam estrogênio são frequentemente substituídos por opções sem hormônios ou apenas com progesterona.
Quais os métodos anticoncepcionais indicados para quem tem enxaqueca?
De maneira geral, a prioridade é evitar o estrogênio, principalmente nos casos com aura, e optar por alternativas mais seguras, como aponta Andreia:
1. DIU de cobre
Por não possuir nenhum tipo de hormônio, é considerado o método mais seguro (categoria 1) para qualquer tipo de enxaqueca. Ele não interfere no ciclo hormonal, então não atua como gatilho para crises, embora possa aumentar o fluxo menstrual em algumas mulheres.
2. DIU hormonal (Mirena e Kyleena)
O DIU hormonal libera uma dose baixa de progesterona diretamente no útero, com uma absorção sistêmica mínima. Normalmente é classificado como categoria 2, sendo seguro inclusive para quem precisa evitar picos hormonais.
3. Implante subdérmico
O método libera apenas progesterona de forma contínua e constante, evitando as oscilações que costumam disparar a dor de cabeça. Por não conter estrogênio, é uma opção segura para reduzir o risco vascular associado às crises de enxaqueca.
4. Pílulas de progesterona isolada (minipílula)
Diferente das pílulas combinadas, as minipílulas não contém estrogênio. Elas são indicadas para mulheres que preferem o método oral, mas precisam de uma composição que não agrave as crises de dor ou aumente o risco de eventos mais graves, como o AVC.
5. Métodos de barreira
O uso de preservativos (masculinos ou femininos) também é uma alternativa livre de riscos para a enxaqueca, podendo ser utilizado isoladamente ou como complemento a outros métodos para garantir proteção extra contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Quais métodos devem ser evitados?
Os métodos que devem ser evitados por quem tem enxaqueca são aqueles conhecidos como contraceptivos hormonais combinados, sendo eles:
- Pílulas anticoncepcionais combinadas (estrogênio e progesterona);
- Injetáveis mensais;
- Anel vaginal;
- Adesivo contraceptivo.
Para mulheres com enxaqueca com aura, os métodos são frequentemente classificados como categoria 4 (contraindicados) pelos critérios médicos, pois o risco de um evento isquêmico supera qualquer benefício contraceptivo.
Quando procurar um médico para trocar o método?
A decisão de trocar o método contraceptivo deve sempre ser feito com um ginecologista, mas alguns sinais indicam que o método atual não está sendo adequado para o seu perfil, como:
- Aumento na frequência ou na intensidade das crises após iniciar o método, com dores mais constantes, mais fortes ou mais difíceis de controlar com os remédios de costume;
- Surgimento de aura, como pontos brilhantes na visão, visão embaçada, formigamento no corpo ou dificuldade para falar, mesmo que você nunca tenha tido esses sintomas antes;
- Mudança no padrão da dor, como crises diferentes do habitual, com duração, localização ou características novas;
- Presença de sinais de alerta vascular, como dor nas pernas, inchaço em apenas um lado do corpo ou falta de ar súbita, que podem indicar alterações na circulação;
- Percepção de que as crises aparecem ou pioram durante a pausa da pílula, sugerindo relação com a queda hormonal.
Mesmo que o método escolhido seja, em teoria, seguro (como os de progesterona isolada), Andreia esclarece que cada organismo reage de uma forma. Por isso, a avaliação deve sempre ser individualizada.
Leia mais: DIU de cobre: o que é, como funciona e efeitos colaterais
Perguntas frequentes
1. O que é a “aura” na enxaqueca?
São sintomas neurológicos que precedem a dor, como pontos brilhantes na visão, formigamento nas mãos ou dificuldade para falar.
2. O que fazer se a enxaqueca piorar após começar o anticoncepcional?
Você deve procurar seu ginecologista para reavaliar o método. Nunca suspenda o uso sem orientação médica para evitar uma gravidez indesejada.
3. Posso usar pílula combinada se minha enxaqueca for sem aura?
Médicos costumam evitar, mas para mulheres com menos de 35 anos e sem outros fatores de risco, pode ser aceitável sob supervisão rigorosa.
4. O que é enxaqueca catamenial?
É a enxaqueca que ocorre especificamente no período que antecede ou acontece durante a menstruação, causada pela queda nos níveis de estrogênio no sangue.
5. Posso trocar de anticoncepcional várias vezes até acertar?
Sim, mas cada troca exige um período de adaptação (em média, 3 meses). Trocas muito frequentes podem desregular o organismo e dificultar a identificação do que realmente está causando as dores.
6. O excesso de peso interfere na escolha do anticoncepcional?
Sim, pois o sobrepeso pode aumentar o risco vascular e influenciar o metabolismo hormonal. Nesses casos, médicos costumam preferir métodos com baixa dosagem hormonal, como o DIU ou o implante, para evitar sobrecarregar o sistema circulatório.
Confira: Dor latejante e sensibilidade à luz? Pode ser enxaqueca
