TEA: como identificar os sinais de autismo na infância

Criança brincando com blocos coloridos, representando desenvolvimento infantil e sinais de autismo na infância

O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode se manifestar ainda na primeira infância, mas cada criança apresenta características próprias. Nem sempre os sinais são claros logo no início, e, em muitos casos, eles aparecem de forma sutil, no jeito de se comunicar, de brincar ou de interagir com o mundo ao redor.

Mas afinal, como os pais podem identificar os sinais no dia a dia? O desenvolvimento infantil tende a variar de criança para criança, mas existem marcos esperados que, quando não atingidos ou quando apresentam atrasos significativos, devem servir de alerta para os pais e responsáveis.

É importante observar não apenas o que a criança faz, mas também a forma como ela reage a estímulos externos, como sons, toques e ao contato social.

Com quantos anos aparecem os primeiros sinais de autismo?

Os primeiros sinais de autismo podem aparecer ainda no primeiro ano de vida, normalmente entre os 6 e 12 meses, embora nem sempre sejam fáceis de perceber. Em muitos casos, eles ficam mais evidentes por volta dos 18 aos 24 meses, fase em que atrasos na fala e diferenças na interação social chamam mais atenção.

Nos primeiros meses, os indícios tendem a ser mais sutis, como pouca troca de olhar, menor resposta ao nome ou pouco interesse por interação. Mas, à medida que a criança cresce, os pais podem perceber sinais mais claros, como atraso na linguagem, pouco interesse por outras crianças ou comportamentos repetitivos.

Principais sinais de alerta de autismo por faixa etária

Primeiros meses (até 12 meses)

Nesta fase, os sinais são predominantemente sensoriais e de interação social básica. Como a fala ainda não surgiu, o foco deve ser na resposta aos estímulos dos pais:

  • O bebê não sorri de volta quando os pais sorriem ou brincam com ele;
  • Dificuldade em sustentar o olhar durante a amamentação ou trocas de fralda;
  • Por volta dos 9 meses, a criança parece não ouvir quando é chamada, embora não tenha problemas auditivos;
  • O bebê não estica os braços para ser pego no colo e não demonstra empolgação com brincadeiras de “cadê/achou”;
  • Parece mais quieto ou menos interessado nas pessoas ao redor.

De 12 a 24 meses de idade

Nessa faixa etária, as diferenças de comportamento costumam ficar mais visíveis, principalmente na comunicação não verbal e na forma como a criança se conecta com as pessoas ao redor:

  • A criança não aponta para mostrar algo interessante, não acena “tchau”, não manda beijo e não usa gestos para pedir ou compartilhar algo;
  • Quando um adulto aponta para um objeto ou chama atenção para algo, a criança não acompanha o olhar ou o gesto, como se não dividisse aquele momento;
  • Não tenta chamar o adulto para brincar, não mostra objetos espontaneamente e não busca dividir descobertas;
  • Em vez de usar o brinquedo de forma funcional (como empurrar um carrinho), a criança pode focar em partes específicas, como girar rodas, abrir e fechar objetos ou enfileirar itens repetidamente;
  • Dificuldade em imitar gestos simples, expressões faciais ou ações do dia a dia;
  • Reações intensas a sons (como aspirador ou liquidificador), incômodo com certas roupas, etiquetas ou texturas de alimentos;
  • Mesmo sem alterações auditivas, pode não responder quando chamada.

De 2 a 3 anos de idade

Nesta idade, o foco é para a linguagem e o início da interação com outras crianças:

  • A criança não fala palavras isoladas ou não começa a formar frases simples, como “quer água” ou “dá bola”;
  • Pode deixar de falar palavras que já utilizava ou reduzir interações que antes fazia;
  • Repete falas de desenhos, músicas ou frases ouvidas, muitas vezes sem intenção de comunicação funcional;
  • Usa pouco a fala para pedir, compartilhar ou expressar necessidades, podendo puxar o adulto ou usar gestos de forma limitada;
  • Prefere brincar sozinha, sem buscar interação ou troca com pares da mesma idade;
  • Pouca presença de brincadeiras de faz de conta, como fingir que dá comida para uma boneca ou simular situações do cotidiano;
  • Reage com irritação ou crises intensas diante de alterações na rotina, mesmo que pequenas;
  • Movimentos ou ações repetidas, como girar objetos, alinhar brinquedos ou repetir atividades de forma rígida.

De 4 a 6 anos (idade pré-escolar)

Com o aumento das demandas sociais, mesmo os sinais mais sutis podem se sobressair:

  • Interesses muito específicos com foco intenso em temas restritos, como dinossauros, mapas, números ou marcas, com dificuldade em ampliar o repertório;
  • Dificuldade com regras sociais, com pouca compreensão de turnos de fala, dificuldade em esperar a vez e em seguir regras em grupo;
  • Desafios na interação social, com dificuldade em iniciar ou manter conversas e em interpretar expressões faciais e emoções;
  • Comunicação literal, com interpretação ao pé da letra e dificuldade em entender ironias, metáforas ou brincadeiras;
  • Estereotipias motoras, com movimentos repetitivos como balançar o corpo, bater as mãos ou andar na ponta dos pés;
  • Rigidez de comportamento, com preferência por rotinas estruturadas e desconforto diante de mudanças;
  • Sensibilidade sensorial persistente, com incômodo diante de sons, luzes, cheiros ou texturas específicas.

Como diferenciar atraso de fala de autismo?

Nem toda criança que demora para falar está dentro do espectro autista. Na verdade, o atraso de fala pode acontecer de forma isolada, sem estar associada a outras alterações no desenvolvimento. Já no autismo, além da linguagem, existem diferenças na comunicação social e no comportamento.

No dia a dia, os pais ou responsáveis podem observar como a criança se comunica e interage, e não apenas se ela fala ou não. No atraso de fala isolado, ela frequentemente demonstra vontade de se comunicar. Mesmo sem usar palavras, a criança aponta para o que deseja, faz gestos, olha nos olhos e busca a atenção do adulto para compartilhar interesses.

Além disso, a criança costuma responder ao nome, entender comandos simples e se envolver em brincadeiras adequadas para a idade, incluindo o faz de conta. A intenção de comunicação está presente, mesmo que a fala ainda não tenha se desenvolvido como esperado.

Já no transtorno do espectro autista, ela pode apresentar menor interesse em interações sociais, pouco contato visual, dificuldade em responder ao nome e menos uso de gestos para se comunicar.

Em muitos casos, há também desafios na compreensão da linguagem, além de comportamentos repetitivos, interesses restritos e uma forma diferente de brincar, mais focada em padrões do que em significado simbólico.

O autismo pode surgir apenas na vida adulta?

Como o autismo é um transtorno de neurodesenvolvimento, a neurologista Paula Dieckmann aponta que ele está presente desde o momento que a pessoa nasce. Logo, não é possível uma pessoa desenvolver o espectro apenas na vida adulta.

O que acontece é que, em muitos casos, os sinais são sutis o suficiente para não serem identificados precocemente, levando a um diagnóstico tardio. Isso é comum especialmente em pessoas em nível 1 de suporte.

O que fazer após notar os sinais de alerta?

Se a criança apresentar vários dos sinais, de forma frequente, o mais indicado é procurar um especialista em desenvolvimento infantil. Nos primeiros anos de vida, o cérebro ainda tem uma capacidade enorme de adaptação, e quanto mais cedo o suporte começar, maiores as chances de um desenvolvimento melhor.

Na consulta, o profissional poderá indicar uma avaliação mais detalhada, que costuma envolver uma equipe multidisciplinar, com neurologistas, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais, dependendo do caso.

Segundo Paula, como o autismo tem uma base genética importante, pode ser necessário um aconselhamento genético, porque existe uma chance maior de outro filho (se houver) também apresentar o espectro.

Vale lembrar que receber uma indicação de avaliação não é motivo para pânico, mas sim uma chance de oferecer o estímulo correto no momento em que a criança mais precisa. Com o acompanhamento adequado, as dificuldades tendem a diminuir, e a família tem mais segurança para entender e apoiar o jeito único do filho de se desenvolver e se relacionar com o mundo.

Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico

Perguntas frequentes

1. Bebês com autismo costumam sorrir?

Muitos bebês autistas podem sorrir, mas a falta do “sorriso social”, aquele que ocorre em resposta ao sorriso ou à brincadeira de outra pessoa, é um sinal de alerta.

2. O que são as estereotipias motoras na infância?

São movimentos repetitivos sem uma função óbvia, como abanar as mãos (flapping), balançar o corpo ou andar na ponta dos pés, comuns quando a criança está animada ou ansiosa.

3. Crianças autistas podem ser muito sensíveis a barulhos?

Sim. A hipersensibilidade sensorial é comum, fazendo com que a criança tape os ouvidos ou entre em crise com sons do dia a dia, como o aspirador ou secadores de mãos.

4. O que é a ecolalia?

É a repetição de frases, palavras ou diálogos de desenhos animados e filmes, sem intenção comunicativa imediata, comum no desenvolvimento de crianças no espectro.

5. O pediatra geral consegue diagnosticar o autismo?

O pediatra identifica os sinais de alerta e faz o rastreio inicial, mas o diagnóstico definitivo deve ser feito por especialistas como neuropediatras ou psiquiatras infantis.

6. O que observar na interação com outras crianças?

Observe se a criança tenta participar nas brincadeiras dos pares ou se permanece na periferia. No autismo, é comum a criança brincar ao lado das outras, mas não com as outras, sem trocar brinquedos ou seguir regras de grupo.

Confira: Autismo: quais os níveis de suporte e como é feito o diagnóstico?