Com o fim da fase reprodutiva da mulher, que acontece após doze meses consecutivos sem menstruação, as consultas com o ginecologista precisam acompanhar as novas necessidades do organismo.
A menopausa é causada diretamente pela diminuição drástica e permanente dos hormônios sexuais femininos, principalmente o estrogênio e a progesterona, o que aumenta significativamente o risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e condições crônicas, como hipertensão e diabetes tipo 2.
De acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, mesmo quando a mulher não apresenta sintomas ou doenças diagnosticadas, os exames de rotina contribuem para identificar fatores de risco ou diagnósticos muito precoces, o que permite uma intervenção capaz de fazer diferença no prognóstico e na evolução da doença.
Por que o acompanhamento ginecológico muda após a menopausa?
Com o fim da menstruação, o corpo da mulher passa por mudanças devido a queda na produção dos hormônios estrogênio e progesterona. Além do sistema reprodutor, as mudanças hormonais também afetam a saúde dos ossos, do coração, do metabolismo e da região íntima.
Nesta fase da vida, Andreia aponta que o ginecologista assume frequentemente o papel de clínico geral da mulher, acompanhando riscos que se tornam mais comuns com o passar dos anos:
- Risco cardiovascular aumenta: sem o efeito protetor do estrogênio, as artérias ficam mais expostas ao acúmulo de gordura e ao aumento do colesterol, o que eleva o risco de doenças do coração;
- Saúde dos ossos fica mais frágil: a queda dos hormônios acelera a perda de cálcio, por isso o acompanhamento da saúde óssea se torna essencial para prevenir osteoporose e fraturas;
- Rastreamento de câncer precisa de mais atenção: com o avanço da idade, aumenta o risco de câncer de mama e de intestino, o que torna importante manter os exames em dia e com a frequência indicada pelo médico;
- Surgem mudanças na região íntima: a diminuição hormonal pode causar ressecamento vaginal, desconforto e até perda de urina, mas esses sintomas têm tratamento e não precisam ser encarados como algo normal da idade;
- Ocorrem mudanças no metabolismo: com a queda dos hormônios, o corpo tende a gastar menos energia, o que facilita o ganho de peso e pode aumentar o risco de diabetes e alterações no colesterol.
A recomendação é que a consulta ginecológica seja feita anualmente, independentemente da idade ou da fase da vida, porque o acompanhamento e os exames são ajustados de acordo com cada etapa que a mulher está vivendo.
Quais exames mudam ou são incluídos nesta fase?
A escolha e a frequência de cada exame são individualizadas, mas alguns se tornam mais frequentes na menopausa:
1. Mamografia e ultrassom de mama
A mamografia é um dos principais exames de rotina, com recomendação anual a partir dos 40 anos de idade. Para mulheres com histórico familiar de câncer de mama, Andreia explica que a orientação é iniciar o rastreamento cerca de dez anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado.
O ultrassom de mama pode ser solicitado como complemento, principalmente em casos de mamas densas ou quando há alguma alteração que precisa de uma avaliação mais detalhada.
2. Teste de HPV e papanicolau
O rastreio do câncer de colo do útero evoluiu nos últimos anos, e o teste de HPV passou a ser considerado o padrão-ouro desde julho de 2025. Ele permite identificar o vírus antes mesmo de alterações celulares aparecerem, o que possibilita um acompanhamento mais precoce.
Diferente do Papanicolau, que detecta alterações já instaladas nas células do colo do útero, o teste de HPV atua identificando os tipos de vírus com maior risco de desenvolver câncer. Com isso, quando o resultado é negativo, o intervalo entre os exames pode ser maior, conforme a orientação médica.
Já quando o teste é positivo, Andreia aponta que o acompanhamento se torna mais próximo, podendo incluir exames complementares, como a colposcopia e a vulvoscopia, para avaliar melhor o colo do útero, a vagina e a vulva e definir a necessidade de tratamento.
Mesmo após os 65 anos, o acompanhamento pode continuar no consultório particular, especialmente se houver histórico de alterações ou se o rastreamento anterior não foi feito de forma adequada.
3. Ultrassonografia transvaginal
A ultrassonografia transvaginal continua sendo um exame importante no acompanhamento ginecológico, mas na menopausa, ele é focado na avaliação do endométrio e dos ovários. Como os ovários deixam de funcionar de forma ativa, o exame ajuda a identificar alterações estruturais, como cistos ou massas que precisam de investigação.
No caso do endométrio, qualquer espessamento fora do padrão ou episódios de sangramento devem ser investigados com cuidado, já que podem estar relacionados a alterações benignas, como pólipos, ou a condições mais sérias, como o câncer de endométrio.
4. Densitometria óssea
A densitometria óssea costuma ser indicada a partir dos 50 anos, ou até antes, dependendo dos fatores de risco, como histórico familiar, menopausa precoce, baixo peso ou uso prolongado de alguns medicamentos.
Com a queda do estrogênio na menopausa, ocorre uma perda mais acelerada de massa óssea, o que aumenta o risco de osteopenia e osteoporose. A identificação precoce dessas condições permite iniciar medidas de tratamento e prevenção, como ajustes na alimentação, prática de atividade física e, quando necessário, uso de medicamentos.
5. Colonoscopia
A colonoscopia passou a ser recomendada a partir dos 45 anos para o rastreio de pólipos e do câncer de intestino, segundo Andreia. O exame é importante porque muitas alterações começam de forma silenciosa, e a retirada de pólipos durante o procedimento pode evitar a progressão para câncer.
6. Check-up cardiovascular e exames de sangue
A menopausa aumenta significativamente o risco cardiovascular devido à queda dos níveis de estrogênio, hormônio que protege o coração e os vasos sanguíneos. Para isso, o médico pode solicitar alguns exames importantes, como:
- Teste de esforço para avaliar o funcionamento do coração durante a atividade física;
- Ecocardiograma para analisar a estrutura e o desempenho do coração;
- Perfil lipídico para verificar os níveis de colesterol total, HDL, LDL e triglicerídeos;
- Glicemia e hemoglobina glicada para investigar risco de diabetes ou resistência à insulina;
- Dosagem de função renal e hepática para avaliar o funcionamento dos órgãos;
- Marcadores inflamatórios, quando necessário, para complementar a avaliação de risco.
Com base nos exames, o médico consegue identificar precocemente possíveis alterações, mesmo antes do aparecimento de sintomas. A partir disso, podem ser indicadas mudanças no estilo de vida, como ajustes na alimentação, prática regular de atividade física, controle do peso e redução do estresse.
7. Avaliação urodinâmica
De acordo com Andreia, a avaliação urodinâmica pode ser indicada quando há queixas de perda de urina, urgência ou dificuldade para segurar a urina.
O exame ajuda a entender como a bexiga e a uretra estão funcionando e orienta o melhor tratamento para cada caso, já que a incontinência urinária é comum na menopausa, mas não deve ser considerada normal.
Saúde sexual no climatério
O climatério é a fase de transição natural em que a mulher passa do período reprodutivo para o não reprodutivo. Nesse período, Andreia explica que é comum a queixa de diminuição da libido e de dificuldades durante a relação sexual, devido a fatores como:
- Queda dos hormônios femininos, que afeta diretamente o desejo sexual;
- Ressecamento vaginal, causado pela síndrome geniturinária da menopausa;
- Afinamento do tecido vaginal, que deixa a região mais sensível e propensa à dor;
- Dor e desconforto na relação, o que pode levar à evitação do contato íntimo;
- Fatores emocionais, como estresse, ansiedade e questões no relacionamento;
- Cansaço e sobrecarga na rotina, que reduzem o interesse e a disponibilidade para a vida sexual.
Durante o exame físico, o ginecologista observa a região íntima para identificar sinais de ressecamento, alterações na mucosa vaginal, perda de elasticidade e possíveis lesões ou infecções.
Além da avaliação externa, pode ser realizado o exame com espéculo, que permite visualizar o canal vaginal e o colo do útero com mais detalhes. Em alguns casos, o médico também avalia o assoalho pélvico, verificando a força da musculatura, especialmente em mulheres que apresentam sintomas como dor na relação ou incontinência urinária.
Sinais de alerta para procurar o ginecologista
A mulher deve procurar um médico com urgência nas seguintes situações:
- Sangramento vaginal após um ano sem menstruar, mesmo que seja um pequeno escape ou uma secreção rosada;
- Nódulos ou alterações nas mamas, como presença de caroços, retração da pele, saída de secreção pelo mamilo ou mudança na textura;
- Dor pélvica persistente ou sensação de pressão no baixo ventre que não melhora;
- Perda urinária, como escapes ao tossir, espirrar, carregar peso ou uma urgência súbita de urinar;
- Dor ou sangramento durante ou após a relação sexual;
- Corrimento com odor forte, alteração na cor ou associado a coceira e irritação;
- Aumento do volume abdominal, com sensação de estufamento ou inchaço persistente.
Como é feito o tratamento das alterações hormonais?
O tratamento das alterações hormonais no climatério deve ser individualizado, considerando os sintomas, as emoções e a qualidade de vida da mulher, segundo Andreia.
Para tratar a atrofia e o ressecamento vaginal, o ginecologista pode prescrever o uso de estrogênio local (em cremes ou óvulos) e o uso de tecnologias regenerativas que melhoram a qualidade do tecido e o conforto na relação sexual.
Quando há sintomas como ondas de calor, queda da libido ou alterações de humor, pode ser indicada a reposição hormonal, que repõe o estrogênio e ajuda a aliviar os sintomas. Em alguns casos, a progesterona também é associada, principalmente quando a mulher ainda possui útero, para garantir a segurança do tratamento.
Além do tratamento com remédios, as mudanças no estilo de vida fazem diferença no controle dos sintomas, como a prática de atividade física, uma alimentação equilibrada, o cuidado com o sono e a redução do estresse.
Em todos os casos, o mais importante é que o tratamento seja visto de forma completa, incluindo o corpo, a mente e a rotina da mulher, já que as mudanças hormonais afetam diferentes aspectos da saúde
Confira: Perimenopausa: o que é, quais são os sintomas e em que idade a fase começa
Perguntas frequentes
1. Qual a diferença entre climatério e menopausa?
O climatério é todo o período de transição do estágio reprodutivo para o não reprodutivo. Já a menopausa é um marco específico: o momento após 12 meses consecutivos sem menstruação.
2. Por que o risco de infarto aumenta após a menopausa?
Porque a queda do estrogênio retira uma proteção natural das artérias. Sem o hormônio, o risco cardiovascular da mulher se iguala ao do homem, aumentando as chances de pressão alta e colesterol elevado.
3. É normal ter escapes de urina na menopausa?
É comum, mas não é normal. Qualquer perda urinária ao tossir, espirrar ou fazer esforço deve ser investigada. Existem tratamentos eficazes, como fisioterapia pélvica e intervenções médicas.
4. O uso de estrogênio vaginal causa efeitos no corpo todo?
O estrogênio tópico (cremes ou óvulos) tem ação majoritariamente local, focada em recuperar a mucosa vaginal, sendo uma opção segura para tratar a atrofia em muitas mulheres.
5. Por que a mamografia não costuma ser feita antes dos 40 anos?
Porque, em mulheres mais jovens, a mama costuma ser muito densa (com muito tecido glandular). Nesses casos, a mamografia traz pouca informação visual, sendo o ultrassom de mama o exame que oferece mais detalhes para o diagnóstico.
6. O que são os “sorotipos de alto risco” no exame de HPV?
Existem diversos tipos de vírus HPV. O protocolo do Ministério da Saúde foca nos tipos de alto risco oncogênico (mais propensos a causar câncer). No consultório particular, o médico avalia esses e outros sorotipos para um acompanhamento mais próximo.
7. Quais exames o ginecologista pede para o coração?
Além do perfil lipídico no sangue, podem ser solicitados o teste de esforço, o ecocardiograma transtorácico e o ultrassom de carótidas para avaliar a presença de placas ou alterações na função cardíaca.
Veja também: Reposição hormonal na menopausa: benefícios e riscos
