Durante um processo de emagrecimento, o organismo precisa se adaptar a um estado de menor ingestão calórica e diminuição da massa corporal, o que pode causar algumas alterações no ciclo menstrual.
O corpo feminino é muito sensível a mudanças de peso, podendo interferir diretamente na produção e no equilíbrio dos hormônios que regulam a menstruação. Vamos entender mais, a seguir.
Como o emagrecimento interfere no ciclo menstrual?
De acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, em casos de obesidade, pode acontecer a desregulação do ciclo menstrual porque o excesso de gordura corporal aumenta a produção de hormônios, especialmente os androgênios.
O desequilíbrio hormonal pode levar a ciclos irregulares, mais espaçados e, em alguns casos, até à ausência de ovulação, algo bastante comum em quadros como a síndrome dos ovários policísticos.
Quando há uma redução de peso, seja pela diminuição da ingestão calórica ou pela perda de gordura corporal, a produção excessiva de hormônios tende a diminuir. Aos poucos, o organismo volta a funcionar de maneira mais equilibrada, o que favorece a regularização do ciclo menstrual e da ovulação ao longo do tempo.
E quando o emagrecimento é excessivo?
Em caso de emagrecimento rápido e intenso, o organismo pode entrar em um estado de economia de energia, no qual passa a priorizar funções essenciais para a sobrevivência, como a respiração, a circulação e o funcionamento dos órgãos vitais.
Nesses casos, o corpo entende que não é um momento favorável para uma possível gestação. Como consequência, pode haver redução na produção de hormônios reprodutivos, diminuição ou ausência de ovulação e alterações no ciclo menstrual, como:
- Atraso na menstruação;
- Ciclos irregulares;
- Fluxo menstrual mais fraco;
- Ausência de menstruação (amenorreia).
Apesar de ser uma resposta natural do corpo, isso também mostra que ele está sobrecarregado e com pouca energia disponível, o que precisa de um acompanhamento adequado.
Segundo Andreia, o ideal é manter um peso equilibrado, com uma quantidade adequada de gordura corporal para garantir uma produção hormonal adequada.
O uso de análogos de GLP-1 causa mudanças no ciclo menstrual?
Segundo Andreia, no caso de pessoas que estão em tratamento com análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, as alterações no ciclo menstrual estão muito mais relacionadas ao peso do que diretamente ao medicamento.
Eles atuam imitando a ação de um hormônio natural do intestino, o GLP-1, que participa do controle da fome e da saciedade. De acordo com estudos, os remédios podem promover um emagrecimento rápido e significativo, com perdas que podem ultrapassar 15% a 20% do peso corporal.
Como a perda acelerada pode incluir não apenas gordura, mas também massa muscular, é necessário manter o acompanhamento médico, a prática de atividade física e uma alimentação adequada ao longo do tratamento.
Alterações na absorção de anticoncepcionais orais
Com o uso dos análogos de GLP-1, Andreia aponta que pode ocorrer interferência na absorção de diversos remédios, em especial nos contraceptivos hormonais, tanto os combinados (estrogênio + progesterona) quanto os que têm apenas progesterona.
Isso pode acontecer por três mecanismos principais:
- Esvaziamento gástrico mais lento, que pode alterar a absorção dos medicamentos;
- Efeitos adversos, como náuseas, vômitos e diarreia, que também podem prejudicar a absorção;
- Perda de peso, que pode melhorar a ovulação em mulheres que tinham infertilidade associada à obesidade.
Por conta disso, Andreia explica que têm sido observados casos de gestações não planejadas em mulheres que utilizam essas medicações, fenômeno que ficou popularmente conhecido como “bebês de Ozempic”.
Por isso, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e as fabricantes orientam que, ao iniciar o uso ou aumentar a dose dos medicamentos, seja utilizado um método contraceptivo adicional, como o preservativo, ou que se opte por um método que não seja via oral, como:
- Injetáveis mensais;
- Adesivo transdérmico;
- Anel vaginal;
- Implante subcutâneo, como o Implanon;
- DIU.
Todos os métodos utilizam vias de administração diferentes da via oral e, por isso, não são afetados da mesma forma pelos remédios.
Quando as mudanças na menstruação são preocupantes? Todas as alterações na menstruação devem ser investigadas, segundo Andreia, especialmente mudanças no fluxo, no intervalo entre os ciclos ou na duração da menstruação.
Nem sempre a causa está relacionada ao peso ou ao uso de medicamentos. As alterações podem ocorrer devido a condições como distúrbios da tireoide ou alterações nos níveis de prolactina, por exemplo.
O ideal é sempre realizar uma avaliação com exames de sangue e uma investigação clínica adequada. Caso nenhuma outra causa seja identificada e a pessoa esteja em uso dessas medicações, a ginecologista explica que aí sim possível considerar uma relação com o tratamento.
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Perguntas frequentes
1. O Ozempic altera diretamente os hormônios femininos?
Não diretamente. As mudanças ocorrem principalmente devido à perda de gordura corporal (que produz estrogênio) e à melhora da resistência à insulina, o que acaba recalculando o eixo hormonal da mulher.
2. Perder peso ajuda a regularizar a menstruação em quem tem SOP?
Sim, a perda de peso reduz a gordura abdominal e a resistência à insulina, fatores que costumam diminuir a ovulação em mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos.
3. É normal sentir mais cólicas durante o tratamento para emagrecer?
Pode acontecer devido às mudanças inflamatórias no corpo e à rápida mobilização hormonal. Se a dor for intensa ou incapacitante, é necessário procurar o médico.
4. Quanto tempo o ciclo leva para normalizar após a perda de peso?
Normalmente, o corpo leva de 3 a 6 meses para se adaptar ao novo peso e estabilizar a produção hormonal.
5. Posso usar Ozempic ou Wegovy tentando engravidar?
Não. A recomendação é interromper o uso pelo menos dois meses antes de tentar engravidar, devido à falta de estudos de segurança no feto.
6. O que é a amenorreia hipotalâmica no emagrecimento?
É a interrupção da menstruação porque o cérebro detecta um déficit calórico extremo, “desligando” o sistema reprodutor para poupar energia para funções vitais.
7. Como diferenciar um atraso por emagrecimento de uma gravidez?
Não há como diferenciar apenas pelos sintomas, pois o atraso menstrual é comum a ambos. O ideal é realizar um teste de gravidez de farmácia ou de sangue (Beta-hCG) ao notar qualquer atraso superior a uma semana.
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