Parto com fórceps ou vácuo: o que são e quando são indicados no parto?

Equipe médica acompanhando parto vaginal em ambiente hospitalar, ilustrando a assistência obstétrica e o uso de técnicas como fórceps ou vácuo extrator.

O parto vaginal nem sempre acontece exatamente como o planejado e, em alguns casos, mesmo depois de horas de trabalho de parto, o bebê pode encontrar dificuldades para nascer ou apresentar sinais de que precisa nascer mais rapidamente.

Quando há indicação médica, podem ser usados instrumentos que auxiliam a saída do bebê pelo canal vaginal, como o fórceps e o vácuo extrator.

Eles são utilizados em situações muito específicas na fase final do parto, como quando a mãe está muito cansada para continuar fazendo força ou para acelerar o nascimento em caso de sofrimento fetal.

Apesar da fama de assustar muitas futuras mães, o fórceps e o vácuo extrator fazem parte da assistência obstétrica e podem ser necessários em determinadas situações. Quando usados por profissionais capacitados e nos casos específicos, eles podem evitar cesárias de emergência altamente complexas e, acima de tudo, proteger a vida da mãe e do recém-nascido.

O que é o parto instrumentalizado?

O parto instrumentalizado é um parto vaginal em que o médico obstetra utiliza um instrumento específico para auxiliar na saída do bebê, como o fórceps e o vácuo extrator, por exemplo. Eles ajudam quando o parto não evolui como esperado ou quando existe a necessidade de acelerar o nascimento por razões médicas.

Segundo a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, o procedimento só é considerado na fase final do trabalho de parto, conhecida como período expulsivo, quando o colo do útero já atingiu a dilatação completa (10 cm) e a cabeça do bebê já está bem posicionada no canal de parto.

Durante o trabalho de parto, os ossos do crânio do bebê têm a capacidade de se acomodar e se moldar para facilitar a passagem pela bacia materna, cujas estruturas ósseas são naturalmente estreitas em relação ao tamanho da cabeça fetal.

Os instrumentos podem ser necessários quando a descida do bebê deixa de progredir adequadamente nos momentos finais do nascimento e é necessário um auxílio para concluir o parto.

Por isso, a especialista reforça que a instrumentalização não deve ser encarada como uma medida agressiva, mas como um recurso seguro utilizado em situações específicas.

O que é e como funcionam o fórceps e o vácuo extrator?

O fórceps e o vácuo extrator servem para guiar e tracionar a cabeça do bebê enquanto a mãe faz força, mas funcionam de maneira diferente.

Fórceps

O fórceps é um instrumento cirúrgico metálico composto por duas peças curvas e alongadas, que se assemelham a duas grandes colheres. Ele foi desenhado especificamente para se ajustar perfeitamente e com segurança às laterais da cabeça do bebê, respeitando a anatomia do crânio fetal.

Durante o parto, o médico obstetra posiciona cuidadosamente cada uma das peças nas laterais da cabecinha do bebê. Segundo Andreia, ele não aperta e não esmaga a cabeça do bebê, mas faz apenas a preensão (ou seja, segura com firmeza) e funciona como uma extensão das mãos do médico para guiar o bebê para fora.

À medida que a mãe faz as contrações, o obstetra aplica uma força suave e contínua de tração para ajudar o bebê a deslizar pelo canal de parto. Além de ajudar a puxar no final, o fórceps também serve para ajudar a girar a cabeça do bebê para a posição correta de nascimento, caso ele tenha parado de rodar sozinho.

Vácuo extrator

O vácuo extrator, também conhecido como ventosa obstétrica, é um instrumento composto por uma pequena cúpula (que pode ser de silicone, plástico rígido ou metal) conectada a uma bomba de vácuo mecânica ou eletrônica.

Diferente do fórceps, que envolve as laterais da cabeça do bebê, o vácuo-extrator funciona por sucção. O médico obstetra introduz a cúpula no canal de parto e a fixa suavemente no topo da cabecinha do bebê. Em seguida, a bomba cria uma pressão negativa (um vácuo) que mantém a ventosa presa à pele.

Durante as contrações e o esforço da mãe, o médico puxa delicadamente o cabo do aparelho para ajudar o bebê a deslizar para fora. Como a fixação depende puramente do vácuo, o principal risco associado ao instrumento é a formação de um pequeno inchaço ou hematoma na pele da cabeça do bebê, que costuma desaparecer espontaneamente nos primeiros dias após o nascimento.

Segundo Andreia, o vácuo extrator é de uso exclusivo para o final do parto, quando o bebê está quase nascendo e a mãe, mesmo fazendo força, não consegue finalizar.

Principais indicações: quando eles são necessários?

Segundo Andreia, a decisão de utilizar o fórceps ou o vácuo extrator é baseada em critérios técnicos bem definidos. Durante o período expulsivo, a equipe acompanha o tempo de evolução do parto, levando em consideração fatores como se é a primeira gestação da paciente, o uso ou não de analgesia e a progressão da descida do bebê.

Entre algumas das indicações, Andreia aponta:

  • Como a cabeça é a maior parte do bebê, ela pode ficar retida no canal de parto.
  • Correção da rotação fetal: para nascer, a cabeça do bebê precisa realizar movimentos de rotação dentro da pelve materna. Quando a rotação não acontece espontaneamente, o fórceps pode ser utilizado para auxiliar o posicionamento adequado;
  • Alívio materno-fetal: quando o período expulsivo se prolonga excessivamente, a mãe pode ficar exausta e o bebê pode começar a apresentar sinais de sofrimento fetal. A instrumentalização ajuda a concluir o parto antes que o desgaste se torne um problema;
  • Abreviação do período expulsivo: algumas condições de saúde materna, como cardiopatias, tornam desaconselhável a realização de esforços prolongados. O uso do fórceps pode acelerar o nascimento e reduzir os riscos associados ao esforço físico intenso;

Em situações raras, o fórceps também pode ser utilizado quando o bebê está em apresentação pélvica (sentado) e a cabeça encontra dificuldade para sair após o nascimento do restante do corpo. Como a cabeça é a maior parte do bebê, ela pode ficar retida no canal de parto.

O instrumento ajuda a realizar a retirada de forma mais rápida e segura, mas Andreia destaca que a indicação é pouco frequente atualmente, já que os partos pélvicos vaginais são menos comuns.

Quais as condições necessárias para usar os instrumentos com segurança?

Para que o fórceps ou o vácuo extrator sejam usados com segurança, o médico obstetra precisa avaliar uma série de critérios antes de tomar a decisão, como:

  • Dilatação completa do colo do útero: a gestante precisa estar com 10 centímetros de dilatação. Os instrumentos não podem ser usados antes que o colo esteja totalmente aberto;
  • Cabeça do bebê em posição baixa: a cabeça do bebê já deve ter descido pelo canal de parto e estar em uma posição favorável para o nascimento. Se ela ainda estiver muito alta, o procedimento não deve ser realizado;
  • Bolsa rompida: a bolsa amniótica já precisa ter se rompido para que o instrumento possa ser posicionado corretamente;
  • Passagem adequada pela bacia: o obstetra deve ter certeza de que a cabeça do bebê consegue passar pela bacia materna. O fórceps e o vácuo extrator servem apenas para auxiliar os momentos finais do nascimento, e não para vencer obstáculos que impedem a passagem do bebê;
  • Bexiga vazia: a bexiga da mãe normalmente é esvaziada antes do procedimento para reduzir o risco de lesões e facilitar o nascimento;
  • O instrumento deve ser utilizado por um profissional capacitado e com experiência na técnica. A escolha entre fórceps e vácuo extrator também leva em consideração o treinamento e a familiaridade do obstetra com cada método.

O fórceps pode machucar o bebê ou a mãe?

Quando feito por um profissional capacitado e com a indicação correta, o fórceps não machuca a mãe e o bebê, sendo importante para proteger a vida de ambos. Segundo Andreia, deixar o bebê parado no canal vaginal por muito tempo pode causar sofrimento fetal e, na mãe, pode provocar isquemia tecidual e lacerações graves de difícil correção.

O medo em relação ao fórceps tem origem em histórias antigas, de uma época em que as cesarianas ainda não eram procedimentos seguros. Antes, quando o bebê ficava preso durante o parto, os instrumentos utilizados eram muito diferentes dos atuais e podiam ser empregados de forma agressiva para tentar viabilizar o nascimento, inclusive reduzindo o diâmetro da cabeça fetal.

Atualmente, Andreia explica que os fórceps modernos não fazem pressão. O aparelho apenas abraça e segura a cabecinha do bebê para guiá-la para fora, sem apertar ou esmagar. No entanto, como qualquer procedimento médico, existem riscos caso os critérios de segurança não sejam seguidos ou se o profissional não tiver o treinamento adequado

Ainda dá tempo de fazer cesárea se o parto parar no final?

Mesmo quando a cabeça do bebê já está muito baixa no canal de parto, a cesárea ainda pode ser realizada. Se o fórceps ou o vácuo extrator não puderem ser utilizados por falta dos critérios de segurança necessários, a equipe médica pode optar pela via de parto para finalizar o nascimento.

A cirurgia costuma ser mais trabalhosa, porque a cabeça do bebê já está encaixada profundamente na bacia materna e precisa ser retirada de uma posição mais difícil do que aquela encontrada em uma cesárea realizada antes do trabalho de parto avançar. Ainda assim, Andreia esclarece que é um procedimento viável e que faz parte da rotina obstétrica quando necessário.

Por outro lado, quando a mãe e o bebê atendem a todos os critérios para a instrumentalização e a cabeça já está bem baixa no canal de parto, o fórceps normalmente é a alternativa mais rápida para concluir o nascimento, já que permite ajudar o bebê a percorrer os últimos centímetros do trajeto sem a necessidade de uma cirurgia.

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Perguntas frequentes

1. O uso de fórceps é considerado uma violência obstétrica?

Não, o fórceps é um procedimento médico legítimo, seguro e que salva vidas. A violência obstétrica se caracteriza pelo uso de intervenções sem consentimento, sem indicação médica real ou de forma agressiva. Quando utilizado seguindo os critérios técnicos e com o respeito devido à gestante, o fórceps é uma ferramenta de assistência.

2. O bebê sente dor quando o fórceps é utilizado?

O fórceps moderno não aperta a cabeça do bebê, ele apenas a envolve para guiar o nascimento. O bebê pode sentir a pressão normal do canal de parto potencializada pelo instrumento, mas o procedimento em si não causa dor crônica ou traumas físicos quando bem executado.

3. Quais marcas o fórceps pode deixar no bebê e quanto tempo duram?

É comum que o fórceps deixe marcas avermelhadas ou pequenos edemas (inchaços) nas laterais do rosto ou atrás das orelhas do bebê, onde as colheres do instrumento se apoiaram. As marcas são superficiais e costumam desaparecer completamente entre 24 horas e poucos dias após o nascimento.

4. O vácuo extrator é mais seguro do que o fórceps?

Não necessariamente, pois ambos são seguros se usados corretamente. O vácuo extrator atua por sucção no topo da cabeça e tem menos chance de causar lacerações na mãe, mas pode causar hematomas no couro cabeludo do bebê (lesão de escalpo).

O fórceps é mais versátil, pois também permite girar o bebê, o que a ventosa não faz tão bem. A escolha depende da necessidade do parto e da experiência do médico.

5. O fórceps pode causar sequelas neurológicas ou atraso no desenvolvimento do bebê?

Não, isso é um mito. O fórceps não causa paralisia cerebral ou atrasos cognitivos. O que pode causar sequelas é o fato de o bebê ficar sem oxigênio por passar tempo demais preso no canal de parto. O fórceps entra justamente para evitar que o sofrimento fetal aconteça e cause danos ao cérebro.

6. Quantas vezes o médico pode tentar puxar o bebê com o fórceps ou vácuo?

Existem limites de segurança rígidos. No caso do vácuo extrator, se a ventosa descolar da cabeça do bebê por duas ou três vezes, o procedimento deve ser interrompido. No fórceps, se após duas ou três trações vigorosas combinadas com a contração da mãe o bebê não descer, o médico interrompe a tentativa e encaminha a paciente para a cesárea.

7. O fórceps pode ser usado se o bebê estiver prematuro?

O uso do fórceps em bebês prematuros não é recomendado como rotina. Devido à fragilidade do crânio e ao risco aumentado de hemorragias, o fórceps costuma ser contraindicado em casos de prematuridade extrema. A cesariana costuma ser a via mais segura.

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