Febre na gravidez é perigoso? Saiba quando se preocupar

Gestante com febre em casa medindo temperatura, ilustrando sintomas de infecção durante a gravidez e necessidade de atenção médica

Durante a gravidez, o corpo da mulher convive com tantas mudanças que é natural se perguntar se ela fica mais vulnerável a infecções ou se qualquer sintoma, como uma febre, já é motivo de preocupação.

Na prática, o que acontece é uma redução da resposta imune celular e um aumento da resposta humoral. Segundo a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, é uma adaptação fisiológica do organismo para manter a gestação e evitar rejeição ou aborto.

Mas, ao mesmo tempo, as mudanças também podem modificar a forma como o corpo reage a vírus, bactérias e processos inflamatórios. Conversamos com a especialista para entender o que é esperado, o que merece atenção e quando procurar ajuda médica. Confira!

Quando a febre na gravidez é preocupante?

A febre na gravidez é sempre um sinal de alerta e deve ser investigada, mesmo quando aparece sem nenhum outro sintoma associado, segundo Andreia. Ela normalmente indica a presença de uma infecção no organismo, e o ideal é identificar a causa o quanto antes para iniciar o tratamento adequado.

O aumento da temperatura corporal pode impactar tanto a mãe quanto o bebê, elevando a frequência cardíaca de ambos e aumentando o gasto metabólico. Dependendo do agente causador, algumas infecções podem atravessar a barreira placentária e atingir o feto.

Gestantes ficam mais vulneráveis a infecções?

A resposta é não necessariamente. O que acontece, na prática, é uma mudança no funcionamento do sistema imunológico.

De acordo com Andreia, o organismo feminino na gravidez passa por uma modulação imunológica complexa e necessária para garantir a sobrevivência do feto. Como o bebê possui material genético diferente do materno, o corpo realiza um ajuste inteligente para não o identificar como um agente invasor.

Contudo, a mudança altera a forma como o sistema imunológico responde a determinados patógenos. As gestantes não ficam necessariamente mais vulneráveis a infecções, mas passam a ter um sistema de defesa que funciona de maneira diferente, o que pode aumentar a suscetibilidade a infecções virais, como gripes e resfriados, e a complicações respiratórias, já que a resposta celular se torna menos intensa.

Além disso, algumas infecções podem se manifestar de forma atípica durante a gestação, com sintomas mais leves ou diferentes do habitual, o que pode atrasar a identificação do problema. Por isso, qualquer sinal of infecção, mesmo que pareça simples, deve ser avaliado com atenção.

Quais as infecções mais comuns na gravidez?

As infecções mais comuns na gravidez incluem:

  • Infecção urinária: é a mais frequente na gestação e pode acontecer sem sintomas, por isso é rastreada no pré-natal. Quando não tratada, pode evoluir para infecção renal e aumentar o risco de complicações, como parto prematuro;
  • Infecções respiratórias: incluem gripe, resfriados e covid-19, e podem se manifestar de forma diferente na gestante e, em alguns casos, evoluir com mais gravidade, exigindo acompanhamento mais próximo;
  • Infecções gastrointestinais: normalmente estão relacionadas ao consumo de alimentos contaminados. Podem causar diarreia, vômitos e desidratação, o que exige atenção, principalmente pela perda de líquidos;
  • Infecções de pele: como furúnculos ou celulites costumam ter evolução semelhante à de pessoas não gestantes, mas ainda assim precisam ser avaliadas para evitar complicações.

Existem infecções que podem ser transmitidas ao feto (transmissão vertical) e por isso são rastreadas rigorosamente no pré-natal:

  • Toxoplasmose, normalmente contraída por água ou alimentos contaminados;
  • Citomegalovírus (CMV), é um vírus comum da família da herpes que pode ser transmitido pelo contato com fluidos corporais;
  • Sífilis e outras ISTs, que devem ser detectadas precocemente para evitar malformações ou complicações no nascimento;
  • Listeriose, uma infecção bacteriana ligada ao consumo de alimentos crus ou mal lavados, que pode ser perigosa para a placenta.

Riscos da febre e de infecções na gravidez

A febres leve e passageira normalmente não é perigosa, mas dependendo da intensidade e da causa, ela também pode impactar o bebê, principalmente no início da gravidez, que é um período mais sensível para o desenvolvimento.

Quando a temperatura da mãe aumenta, o organismo entra em um estado de maior esforço, com aceleração do metabolismo. Andreia aponta que isso pode levar ao aumento da frequência cardíaca tanto da gestante quanto do bebê, como uma resposta natural do corpo ao processo infeccioso.

Além disso, alguns tipos de infecção conseguem atravessar a placenta, que funciona como uma espécie de barreira de proteção, aumentando o risco de malformações congênitas ou até de aborto espontâneo.

Em estágios mais avançados, o processo inflamatório pode estimular a liberação de substâncias que provocam contrações uterinas precoces, resultando em parto prematuro ou restrição de crescimento fetal, quando o bebê não recebe os nutrientes necessários para se desenvolver plenamente.

Algumas infecções bacterianas e virais persistentes, inclusive, podem comprometer a oxigenação do bebê, o que requer um acompanhamento médico mais rigoroso.

Quando ir ao médico imediatamente?

A gestante deve procurar o pronto-socorro o quanto antes sempre que apresentar febre, mesmo que seja o único sintoma. Também é importante ficar atento aos seguintes sinais, que podem indicar uma infecção:

  • Temperatura igual ou maior que 38 °C;
  • Febre que persiste por mais de 24 horas;
  • Dor ao urinar ou suspeita de infecção urinária;
  • Falta de ar, tosse intensa ou dor no peito;
  • Vômitos persistentes ou dificuldade para se alimentar;
  • Dor abdominal ou contrações;
  • Mal-estar importante ou sensação de fraqueza.

Na gestação, o ideal é não esperar os sintomas piorarem e também não aguardar a consulta pré-natal. A avaliação precoce ajuda a identificar a causa e iniciar o tratamento mais seguro para a mãe e o bebê.

Como tratar a febre na gravidez?

O tratamento da febre costuma envolver o uso de medicamentos para controlar a temperatura, como paracetamol e dipirona, que são considerados seguros durante a gravidez. No entanto, Andreia ressalta que eles não tratam a causa da febre, apenas aliviam o sintoma.

Para o tratamento das infecções, é necessário identificar o agente causador, pois cada condição requer uma abordagem específica. Entre as mais comuns, Andreia explica:

  • Infecção urinária pode exigir antibióticos específicos, definidos após exames como a urocultura;
  • Infecções bacterianas têm tratamento direcionado conforme o agente;
  • Infecções virais, na maioria das vezes, são tratadas com suporte, como hidratação e repouso;
  • Em casos de influenza, pode ser indicado antiviral como o oseltamivir.

Hoje, exames como o PCR (reação em cadeia da polimerase) permitem identificar com precisão o agente infeccioso, especialmente vírus, o que facilita um diagnóstico mais assertivo.

Vale lembrar que a gestante não deve tomar medicamentos por conta própria. Apenas um médico pode indicar o tratamento mais seguro e adequado.

Como prevenir infecções durante a gravidez?

A prevenção das infecções na gravidez está muito ligada aos hábitos do dia a dia, como:

  • Manter boa higiene das mãos ao longo do dia;
  • Ter uma alimentação equilibrada e bem higienizada;
  • Evitar alimentos crus ou mal cozidos, especialmente carnes e ovos;
  • Beber bastante água para manter o organismo hidratado;
  • Dormir bem, com sono de qualidade;
  • Praticar atividade física de forma regular e orientada;
  • Manter as vacinas recomendadas em dia;
  • Evitar contato com pessoas doentes sempre que possível.

Também é importante manter o pré-natal em dia, já que muitos exames ajudam a identificar infecções silenciosas antes mesmo de causarem sintomas.

Confira: Grávidas não podem usar de tudo: o que deve ser evitado durante a gestação

Perguntas frequentes

1. Qual temperatura é considerada febre na gravidez?

A partir de 37,8°C já é considerado estado febril. Acima de 38°C, a gestante deve monitorar de perto e entrar em contato com o médico.

2. Posso tomar paracetamol para baixar a febre?

Sim, o paracetamol é geralmente o analgésico e antitérmico mais seguro na gestação. No entanto, a dose deve ser sempre orientada pelo obstetra.

3. O que causa calafrios na gravidez sem febre?

As mudanças hormonais ou ansiedade podem causar calafrios. Porém, se houver mal-estar, pode ser o início de uma infecção que ainda não manifestou febre.

4. Como saber se o corrimento é infecção ou normal da gravidez?

O corrimento normal é fluido e sem cheiro. Se houver cor (amarelado, esverdeado), coceira ou odor forte, pode ser candidíase ou vaginose.

5. O que é a infecção pelo Estreptococo B?

É uma bactéria que pode habitar o trato genital da mulher. Ela não costuma causar sintomas na mãe, mas pode infectar o bebê durante o parto normal.

6. Banho frio ajuda a baixar a febre na gestante?

O ideal é o banho morno. O banho muito frio pode causar choque térmico e tremores, o que aumenta ainda mais a temperatura interna do corpo.

7. Quando a febre é considerada uma emergência?

Se a temperatura não baixar com remédios, se houver falta de ar, dor abdominal forte, sangramento, diminuição dos movimentos do bebê ou confusão mental.

Veja também: Cirurgia na gravidez é seguro? Saiba o que é feito em casos de emergência