Sabe aquela pessoa que está sempre de mau humor, reclama de tudo e parece enxergar o mundo sob uma lente cinzenta? No dia a dia, é normal rotular a postura como pessimismo ou temperamento difícil, mas o psiquiatra Luiz Dieckmann alerta que o comportamento pode indicar um quadro de distimia, também conhecido como transtorno depressivo persistente.
A distimia é uma forma de depressão crônica leve que provoca uma sensação persistente de tristeza, desânimo e falta de energia, mesmo quando não existe um motivo claro para isso.
Diferente dos episódios de depressão mais intensos, os sintomas costumam ser mais sutis e podem permanecer por anos, fazendo com que algumas pessoas acreditem que o jeito de pensar, sentir e agir faz parte da personalidade.
E, apesar dos sinais mais leves, o quadro provoca um desgaste profundo na qualidade de vida, nos relacionamentos e no trabalho e precisa de atenção de um profissional da saúde.
Afinal, o que é a distimia?
A distimia é uma forma crônica de depressão em que a pessoa apresenta um um estado constante de desânimo, irritabilidade, baixa autoestima e falta de energia por longos períodos, normalmente por pelo menos dois anos.
Como os sintomas não costumam ser tão paralisantes quanto os de um episódio de depressão maior, quem convive com distimia costuma acreditar que os sinais fazem parte da própria personalidade, e não de um transtorno que precisa de tratamento.
“São pessoas que não tinham essa característica e passam a olhar o mundo de uma forma negativa, como se tudo fosse dar errado, nada fosse funcionar e tudo tendesse ao pior cenário possível”, explica Luiz.
Qual a diferença entre pessimismo e distimia?
O pessimismo é uma forma de enxergar as situações de maneira mais negativa, mas não é considerado um transtorno mental. Uma pessoa pessimista pode ter uma visão mais crítica da vida e, ainda assim, sentir prazer nas atividades do dia a dia, manter a energia, a autoestima e o funcionamento normal da rotina.
A distimia, por outro lado, é um transtorno depressivo em que há um sofrimento emocional contínuo que a pessoa não consegue simplesmente mudar o pensamento para resolver. Ela costuma conviver com fadiga crônica, alterações no sono, oscilações no apetite, baixa autoestima profunda e uma incapacidade persistente de sentir alegria.
“Nem todo pessimista está deprimido, mas pessoas muito pessimistas têm uma chance maior de serem diagnosticadas com um quadro depressivo leve, moderado ou mais grave. Portanto, vale sempre avaliar a situação”, esclarece o especialista.
Principais sintomas de distimia
Os sintomas da distimia costumam ser mais leves do que os da depressão maior, mas ainda afetam a qualidade de vida, sendo eles:
- Tristeza ou desânimo frequente;
- Mau humor e irritabilidade constante;
- Visão negativa sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o futuro;
- Baixa autoestima;
- Falta de energia e cansaço persistente;
- Dificuldade de concentração;
- Falta de motivação para realizar atividades do dia a dia;
- Perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram agradáveis;
- Sensação de incapacidade ou inadequação;
- Alterações no sono, como dormir demais ou ter dificuldade para dormir;
- Alterações no apetite, para mais ou para menos;
- Sentimento frequente de desesperança.
No quadro, os sintomas são persistentes e tendem a durar, pelo menos, dois anos.
O que causa a distimia?
A distimia é causada por uma série de fatores biológicos, genéticos, psicológicos e ambientais. Como é um transtorno crônico, ele é influenciado ao longo dos anos por diferentes experiências e condições que afetam a saúde mental.
- Alterações químicas no cérebro: pessoas com distimia podem apresentar alterações em substâncias químicas do cérebro, como serotonina, noradrenalina e dopamina, que ajudam a regular o humor, o sono, o apetite, a motivação e os níveis de energia;
- Fatores genéticos: ter pais, irmãos ou outros familiares próximos com histórico de depressão ou distimia pode aumentar o risco de desenvolver o transtorno. A genética influencia a forma como cada pessoa lida com o estresse e processa as emoções;
- Estresse prolongado e experiências difíceis: passar por períodos longos de estresse, como problemas financeiros, conflitos familiares, pressão constante no trabalho ou a responsabilidade de cuidar de um familiar doente, pode favorecer o surgimento da condição;
- Padrões de pensamento e características emocionais: baixa autoestima, autocrítica excessiva, necessidade constante de aprovação e dificuldade para lidar com frustrações podem tornar algumas pessoas mais vulneráveis ao desenvolvimento da distimia.
Em muitos casos, a distimia começa de forma discreta ainda na infância ou na adolescência.
Como é feito o diagnóstico de distimia?
O diagnóstico de distimia é clínico, feito por um médico psiquiatra ou psicólogo, a partir de uma avaliação dos sintomas, histórico de vida e na duração da condição, normalmente seguindo os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).
Durante a consulta, o profissional busca entender há quanto tempo a pessoa apresenta sinais como tristeza persistente, irritabilidade, falta de energia, baixa autoestima e perda de interesse pelas atividades do dia a dia. Um dos critérios mais importantes é que os sintomas estejam presentes na maior parte do tempo por pelo menos dois anos em adultos.
Além de confirmar o diagnóstico, a consulta também ajuda a identificar outras condições que podem estar associadas, como ansiedade e episódios de depressão maior, permitindo que o tratamento seja planejado de forma individualizada e mais eficaz.
Como é feito o tratamento de distimia?
Por ser uma condição de longa duração, o tratamento da distimia involves especialmente o uso de medicamentos, orientado pelo médico, e a terapia.
Os medicamentos antidepressivos podem auxiliar no equilíbrio das substâncias químicas relacionadas à regulação das emoções, enquanto a psicoterapia ajuda a pessoa a entender os padrões de pensamento negativos, desenvolver medidas para lidar com as dificuldades do cotidiano e fortalecer a autoestima.
Além do tratamento profissional, alguns hábitos também podem contribuir para o controle dos sintomas, como praticar atividade física regularmente, manter uma rotina de sono adequada, ter momentos de lazer, cultivar relações sociais saudáveis e evitar o consumo excessivo de álcool e outras substâncias.
Leia mais: O que você não deve dizer para alguém com depressão
Perguntas frequentes
1. Quem tem distimia pode ter crises de depressão grave?
Sim, acontece quando uma pessoa que já vive com o desânimo crônico da distimia passa por um período de piora severa, desenvolvendo um episódio de depressão maior.
2. Como a distimia afeta a memória e a concentração?
O cérebro sob o peso da distimia funciona em um ritmo de lentidão, o que prejudica as funções executivas, tornando comum que a pessoa se queixe de esquecimentos, mente “enevoada” e dificuldade de foco no trabalho.
3. Quanto tempo dura o tratamento com remédios?
Por ser uma doença crônica, o uso de antidepressivos costuma ser mantido por alguns anos e retirado de forma muito gradual pelo psiquiatra após a estabilização completa do paciente.
4. Como ajudar um familiar que tem distimia?
Evite frases motivacionais vazias como “reaja” ou “veja o lado bom”. Em vez disso, valide o cansaço dele, ofereça suporte prático em tarefas diárias e incentive, sem pressionar, a busca por uma consulta médica.
5. A distimia pode surgir após a menopausa?
O pico de surgimento costuma ser mais jovem, mas as oscilações hormonais da menopausa afetam diretamente o humor e podem, sim, atuar como um gatilho biológico para a manifestação tardia da distimia.
6. Como diferenciar mau humor de distimia?
O mau humor comum é passageiro e motivado por fatos. Na distimia, a irritabilidade e o desânimo são constantes e duram anos, sem um motivo aparente.
7. Quem tem distimia consegue trabalhar normalmente?
Sim, a pessoa normalmente continua funcional e cumpre suas obrigações, mas faz isso sob um esforço exaustivo e sem sentir prazer nas atividades.
8. Exercício físico realmente ajuda no tratamento?
Sim, a atividade física regular libera neurotransmissores como endorfina e dopamina, que combatem diretamente o cansaço crônico e melhoram o humor.
Leia mais: Depressão pós-parto: conheça os sintomas e quando procurar ajuda
