De SOP para SOMP: por que a síndrome dos ovários policísticos mudou de nome?

Modelo anatômico do sistema reprodutor feminino sendo segurado por um profissional de saúde, ilustrando a síndrome dos ovários policísticos (SOP) e a mudança para a nomenclatura SOMP.

Em maio de 2026, um comitê internacional de pesquisadores, médicos e pacientes anunciou oficialmente a mudança no nome da síndrome dos ovários policísticos (SOP) para síndrome ovariana metabólica poliendócrina (cuja sigla internacional passou a incluir o termo metabólico), após um consenso global publicado na revista científica The Lancet.

A decisão não foi apenas uma questão de nomenclatura e, de acordo com especialistas, o objetivo foi atualizar o nome para refletir melhor os conhecimentos científicos atuais sobre a condição e melhorar a compreensão da população, dos profissionais de saúde e até dos formuladores de políticas públicas.

A síndrome, que atinge cerca de 10% das mulheres em idade fértil, é um distúrbio hormonal complexo que afeta diversos sistemas do organismo. Apesar de normalmente associada aos ovários e a dificuldade para engravidar, sabe-se que a condição vai além da saúde reprodutiva e está relacionada a alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias que podem impactar a saúde da mulher ao longo de toda a vida.

O problema com o nome antigo

O principal motivo para a mudança é que o termo ovários policísticos pode levar a uma interpretação errada da síndrome.

Segundo a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, nem toda mulher com a síndrome dos ovários policísticos apresenta ovários policísticos nos exames. Da mesma forma, ter ovários policísticos não significa necessariamente que a mulher tenha a síndrome.

Para os pesquisadores responsáveis pela pesquisa, o nome antigo transmitia a ideia de que o problema estava restrito aos ovários, quando, na realidade, consiste em uma doença muito mais complexa.

Como surgiu o novo nome?

A mudança foi resultado de um dos maiores processos de consulta já realizados para renomear uma doença. O projeto envolveu mais de 14 mil participantes, incluindo pacientes, médicos, pesquisadores e organizações de saúde de diferentes regiões do mundo. Durante o processo, foram avaliados diversos critérios, como:

  • Precisão científica;
  • Facilidade de compreensão;
  • Redução do estigma associado à doença;
  • Adequação cultural em diferentes países;
  • Facilidade de implementação nos sistemas de saúde.

Após várias rodadas de discussões, pesquisas e votações, o termo escolhido foi Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina.

O que significa o novo nome?

Cada palavra do novo nome foi escolhida para representar aspectos importantes da condição:

  • Poliendócrina: se refere ao fato de que a síndrome envolve diferentes sistemas hormonais do organismo. Não existe apenas uma alteração hormonal isolada. A condição afeta a produção e o funcionamento de hormônios relacionados aos ovários, à insulina, aos andrógenos e ao sistema neuroendócrino.
  • Metabólica: destaca a forte relação da síndrome com alterações metabólicas, especialmente a resistência à insulina, considerada um dos principais mecanismos envolvidos na doença. Além disso, mulheres com a condição apresentam maior risco de diabetes tipo 2, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares.
  • Ovariana: mantém a referência aos ovários, já que eles continuam tendo um papel importante na síndrome. A diferença é que o termo não menciona os cistos, considerados uma característica secundária e não representativa da condição como um todo.

Como a síndrome afeta o corpo e a menstruação?

A síndrome ovariana metabólica poliendócrina provoca um desequilíbrio metabólico que afeta diretamente os ovários, desencadeando um efeito cascata no organismo. As mulheres costumam apresentar um padrão menstrual conhecido como oligomenorrágico, que pode causar:

  • Poucas menstruações no ano: em vez de menstruar de 11 a 13 vezes por ano (o ciclo habitual), a mulher passa a ter longos atrasos. É comum ficar dois, três, seis meses e, em casos mais graves, até um ano inteiro sem menstruar;
  • Fluxo muito intenso (menorragia): quando a menstruação finalmente desce após esses meses de atraso, ela costuma vir em grande volume, quase como uma hemorragia.

Durante os meses de atraso, o estímulo hormonal contínuo faz com que o endométrio cresça e engrosse muito mais do que o normal. Quando o corpo finalmente descama o tecido, o sangramento é volumoso e prolongado.

Além das alterações menstruais, Andreia explica que um dos critérios de diagnóstico da SOMP é o aumento dos hormônios androgênicos, conhecidos como hormônios masculinos.

  • Aumento de pelos no rosto, no queixo, no peito, no abdômen e nas costas;
  • Acne persistente, especialmente na fase adulta;
  • Pele mais oleosa;
  • Queda de cabelo com padrão semelhante ao da calvície masculina;
  • Irregularidade menstrual devido às alterações na ovulação.

Vale lembrar que nem todas as mulheres com a síndrome têm os mesmos sintomas. Algumas têm níveis elevados de andrógenos detectados apenas em exames de sangue, enquanto outras apresentam sinais visíveis no corpo.

Entendendo a fisiologia dos microcistos

A micropolicistose ovariana, caracterizada pela presença de vários microcistos de até 8 mm na periferia do ovário, é um dos três critérios utilizados para o diagnóstico da SOMP.

Em um ciclo menstrual saudável, Andreia explica que os ovários contêm vários pequenos folículos em diferentes estágios de desenvolvimento. Ao longo do ciclo, um deles se torna dominante, cresce mais do que os demais e atinge cerca de 1,5 a 2 centímetros antes de romper e liberar o óvulo durante a ovulação.

Ao redor de cada folículo existem duas camadas principais de células:

  • Teca, localizada mais externamente e responsável pela produção dos hormônios androgênicos;
  • Granulosa, localizada mais internamente contém uma enzima chamada aromatase, que converte os hormônios em estrogênio.

Na síndrome ovariana metabólica poliendócrina, ocorre um espessamento das células da teca, o que desencadeia uma produção excessiva de androgênios. A granulosa não consegue transformar toda a quantidade de hormônios masculinos em estrogênio, o que leva ao aumento dos níveis de androgênios no organismo, fenômeno conhecido como hiperandrogenismo.

O espessamento também interfere no desenvolvimento normal dos folículos. Em vez de um deles continuar crescendo até a ovulação, vários folículos interrompem seu desenvolvimento precocemente e permanecem com aproximadamente 8 milímetros de diâmetro.

No ultrassom, eles aparecem alinhados na periferia do ovário, forming o aspecto característico dos chamados microcistos.

Importante: nem todas as mulheres com a síndrome apresentam microcistos visíveis no ultrassom. Em algumas pacientes, Andreia explica que a camada da teca se torna mais espessa e o ovário aumenta de tamanho, mas sem formar os pequenos folículos característicos.

Sintomas associados e resistência à insulina

Além dos critérios utilizados para o diagnóstico, a síndrome ovariana metabólica poliendócrina costuma estar associada a outras alterações metabólicas, em especial a resistência à insulina. As manifestações mais comuns do desequilíbrio incluem:

  • Obesidade: o excesso de tecido adiposo favorece a resistência à insulina e aumenta a produção dos fatores de crescimento semelhantes à insulina (IGF), que estimulam o espessamento da camada da teca nos ovários e contribuem para a piora do quadro hormonal;
  • Acantose nigricante: caracterizada pelo surgimento de manchas escuras e espessas em regiões de dobras da pele, como o pescoço, as axilas e as virilhas. A alteração é considerada um dos principais sinais clínicos de resistência à insulina;
  • Pré-diabetes e diabetes tipo 2: como a resistência à insulina é frequente na síndrome, mulheres com SOMP têm um risco maior de desenvolver alterações na glicose, incluindo pré-diabetes e diabetes tipo 2 ao longo da vida.

O que muda para quem já tem o diagnóstico?

Na prática, o diagnóstico, os exames e os tratamentos continuam os mesmos. A mudança está relacionada principalmente à forma como a condição será chamada nos próximos anos.

A expectativa é que a mudança ajude a aumentar a conscientização sobre a síndrome, facilite o reconhecimento dos sintomas e contribua para que mais mulheres recebam o diagnóstico e o acompanhamento adequados mais cedo.

A transição deve ocorrer gradualmente em hospitais, consultórios, universidades, pesquisas científicas e sistemas de classificação de doenças ao redor do mundo. Os especialistas estimam um período de adaptação de cerca de três anos para que a nova nomenclatura seja amplamente adotada.

A SOMP tem tratamento?

A síndrome ovariana metabólica poliendócrina é uma condição crônica, mas que pode ser controlada por meio de mudanças no estilo de vida e, quando necessário, com o uso de remédios prescritos pelo médico.

De acordo com a ginecologista Andreia Sapienza, em muitas pacientes, a perda de peso é suficiente para restabelecer a regularidade menstrual e melhorar os níveis hormonais, sem a necessidade de outros tratamentos. No entanto, caso a paciente volte a ganhar peso, os sintomas e as alterações hormonais tendem a reaparecer.

Para o controle das alterações metabólicas, a médica explica que medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como a tirzepatida (Mounjaro) e a semaglutida (Ozempic), podem ser uma opção em alguns casos.

Eles ajudam a melhorar a resistência à insulina, auxiliam no controle do pré-diabetes e do diabetes tipo 2 e favorecem a perda de peso, contribuindo para o equilíbrio hormonal.

Em alguns casos, o médico pode indicar medicamentos para tratar sintomas como acne e excesso de pelos. Para as mulheres que desejam engravidar, também existem tratamentos específicos para estimular a ovulação.

Quando procurar um médico?

É importante procurar um ginecologista quando surgirem sinais que possam indicar a síndrome ovariana metabólica poliendócrina, especialmente se eles persistirem por vários meses, como:

  • Menstruação muito irregular ou ausência de menstruação por mais de três meses;
  • Dificuldade para engravidar;
  • Acne persistente ou de difícil controle;
  • Aumento de pelos no rosto, no tórax ou no abdômen;
  • Queda de cabelo com padrão semelhante ao da calvície;
  • Ganho de peso ou dificuldade para emagrecer;
  • Manchas escuras no pescoço, nas axilas ou nas virilhas;
  • Alterações nos exames de glicose, pré-diabetes ou diabetes.

A avaliação médica é importante não apenas para confirmar o diagnóstico, mas também para identificar possíveis complicações metabólicas, como resistência à insulina, diabetes tipo 2, colesterol elevado e hipertensão.

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Perguntas frequentes

1. É possível ter a síndrome e não ter cistos no ovário?

Sim, e esse é um dos principais motivos da mudança de nome. Para o diagnóstico, são avaliados três critérios: irregularidade menstrual, hormônios masculinos altos e microcistos. Você só precisa preencher dois deles. Portanto, muitas mulheres têm a síndrome, mas apresentam o ultrassom normal.

2. Qual é a diferença entre ovário policístico e a síndrome?

Ter ovários policísticos significa apenas que o ultrassom mostrou pequenos cistos na periferia do órgão, o que pode ser uma característica anatômica passageira. A síndrome é uma doença que envolve o corpo todo, combinando esses cistos (ou não) com atrasos menstruais e excesso de hormônios masculinos.

3. A síndrome aumenta o risco de câncer de endométrio?

Sim, se não for tratada. Como a mulher passa meses sem menstruar, o endométrio (camada interna do útero) fica se acumulando e engrossando sem descamar. O estímulo contínuo do estrogênio, sem a contraposição da progesterona, aumenta o risco de hiperplasia e, a longo prazo, de câncer de endométrio.

4. Qual o melhor tipo de exercício físico para quem tem a condição?

A combinação de exercícios aeróbicos (como caminhada rápida, corrida ou bike) com treinos de força (musculação) é a ideal. O músculo é o principal consumidor de glicose do corpo. Quanto mais massa magra você desenvolve, mais o corpo queima açúcar, reduzindo diretamente a resistência à insulina.

5. A doença altera o humor ou causa depressão?

Sim, o desequilíbrio hormonal, especialmente o excesso de androgênios e a falta de progesterona, afeta os neurotransmissores no cérebro. Além disso, lidar com sintomas que mexem com a autoestima, como ganho de peso, acne e queda de cabelo, aumenta as taxas de ansiedade e depressão nas pacientes.

6. Por que é difícil diagnosticar a doença na adolescência?

Porque durante a puberdade o corpo está passando por transformações hormonais naturais. É comum que adolescentes tenham espinhas e ciclos menstruais irregulares temporariamente sem que isso seja uma doença.

7. A síndrome tem cura?

Por ter uma forte base genética, ela é considerada uma condição crônica, ou seja, não tem uma cura definitiva.

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