Paladar infantil: por que comer vendo vídeos pode causar obesidade?

Crianças utilizam celulares durante a refeição enquanto estão sentadas à mesa, ao lado de copos de suco e um bolo, ilustrando o impacto do uso de telas nos hábitos alimentares infantis e os riscos para o desenvolvimento do paladar e da obesidade infantil | Foto: Magnific

Como uma forma de facilitar a alimentação das crianças, é comum o hábito de colocar desenhos, vídeos no celular, tablet ou televisão durante o almoço e o jantar.

Só que, apesar da praticidade no dia a dia, a prática pode prejudicar o desenvolvimento da relação com os alimentos, alterar o funcionamento natural da fome e da saciedade e aumentar o risco de excesso de peso ao longo da infância.

Durante os primeiros anos de vida, o cérebro da criança aprende a reconhecer sabores, texturas, cheiros e sinais enviados pelo organismo durante as refeições.

Quando toda a atenção fica concentrada em vídeos, parte do aprendizado não acontece da maneira que deveria e a criança pode perder o interesse pelos alimentos, comer em quantidade maior do que precisa e criar hábitos alimentares que tendem a permanecer durante a adolescência e a vida adulta.

Como o uso de telas durante as refeições afeta as crianças?

Durante as refeições do dia, como almoço e jantar, a criança desenvolve habilidades importantes, como mastigar corretamente, perceber diferentes sabores e identificar quando a fome diminui.

Se o celular, tablet ou televisão ocupam a maior parte da atenção, parte do processo de aprendizado acontece de forma automática, sem que o cérebro registre plenamente a experiência de comer.

A distração provocada pelos vídeos reduz a percepção dos sinais naturais enviados pelo organismo, fazendo com que a criança continue aceitando colheradas mesmo depois de já ter ingerido a quantidade suficiente. Além disso, o contato frequente com telas durante as refeições dificulta a criação de uma relação saudável com os alimentos e aumenta a dependência de estímulos externos para comer.

Também vale destacar o desenvolvimento da autonomia alimentar, uma vez que, para comer bem, a criança precisa aprender a pegar os alimentos, explorar diferentes consistências, recusar quando já está satisfeita e experimentar novos sabores. O uso constante de celulares, tablets e videogames interfere no processo e pode dificultar a construção de hábitos alimentares mais equilibrados.

Por que comer vendo vídeos aumenta o risco de obesidade infantil?

Quando uma criança come assistindo a vídeos no celular, tablet ou televisão, o cérebro fica tão sobrecarregado com os estímulos visuais e sonoros da tela que não consegue processar adequadamente o ato de se alimentar.

Como a distração bloqueia a percepção dos sinais de saciedade que o estômago envia ao cérebro, pode ocorrer:

  • A criança demora mais para perceber que já está satisfeita, o que facilita o consumo de uma quantidade maior de comida do que o corpo realmente precisa;
  • A alimentação acontece de forma automática, sem atenção ao sabor, ao cheiro, à textura e à quantidade dos alimentos ingeridos;
  • O desenvolvimento do paladar fica prejudicado, já que a criança deixa de explorar os alimentos de forma natural e pode apresentar maior resistência para experimentar novos sabores;
  • O hábito de depender da tela para comer se fortalece, tornando cada vez mais difícil fazer refeições sem celular, tablet ou televisão;
  • As refeições costumam ser mais rápidas e menos conscientes, reduzindo o tempo necessário para o cérebro reconhecer os sinais de saciedade;
  • O consumo de alimentos ultraprocessados pode aumentar, já que crianças acostumadas a comer distraídas tendem a aceitar com mais facilidade produtos ricos em açúcar, gordura e sódio.

“Se eu coloco uma tela, dou um prato de comida e, além de tudo, dou a comida na boca da criança, ela não faz a menor ideia do que está comendo. Ela simplesmente está abrindo a boca e mastigando porque está interessada na tela”, aponta a neuropediatra Bárbara Macedo.

O que fazer se a criança não quer sentar à mesa sem o celular?

No começo, pode ser difícil tirar a tela da rotina de uma criança que já se acostumou a comer assistindo a vídeos. Como o cérebro passa a esperar aquele estímulo durante as refeições, é comum a criança ter reações como irritação, choro e frustração quando o celular ou a TV são desligados.

O ideal é que a mudança aconteça de maneira gradual, respeitando o tempo de adaptação da criança e mantendo uma rotina previsível. Veja algumas dicas:

1. Mantenha a comida na mesa

O maior erro dos pais no desespero para fazer o filho comer é pegar o prato e sair correndo atrás da criança pela casa dando comida na boca. Segundo Bárbara, o prato e o garfo devem permanecer na mesa.

Se a criança levantar durante o almoço ou o jantar, não há necessidade de correr atrás. Ela pode caminhar um pouco e voltar para continuar a refeição. O importante é manter a regra de que a comida permanece na mesa.

2. Avise antes de desligar a tela

Antes da refeição, avise a criança para que o cérebro dela se prepare para o fim do estímulo. Frases simples, como “Daqui a 10 minutos vamos almoçar” ou “Quando o desenho terminar, chegou a hora de comer”, ajudam a preparar a criança para a mudança e tornam a transição mais tranquila.

3. Comece por apenas uma refeição

Na correria da vida moderna, tentar mudar tudo de uma vez pode ser exaustivo para os pais. Escolha uma refeição principal por dia (como o almoço de sábado ou o jantar, por exemplo) para desligar o celular e a TV. Quando o hábito já estiver tranquilo, você pode expandir a regra para as outras refeições.

4. Incentive a participação da criança

Sem a distração dos vídeos, os alimentos devem ocupar o centro da atenção. Vale incentivar a criança a observar as cores, sentir os aromas, experimentar diferentes texturas e participar da refeição.

Também pode ser interessante convidá-la para pequenas tarefas, como escolher o copo, levar os talheres para a mesa ou ajudar a montar o próprio prato, de acordo com a idade.

5. Dê o exemplo durante as refeições

As crianças aprendem principalmente observando os adultos, então para ela entender que a mesa é um lugar de convivência, todos os celulares da casa devem ser guardados em outro cômodo durante o almoço ou o jantar.

O que esperar dos primeiros dias?

A criança pode reclamar, comer menos nas primeiras refeições e testar os limites dos adultos, que precisam ter paciência no início da transição. Estando saudável, ela não deixa de comer a ponto de sofrer desnutrição por recusar algumas refeições.

Com o tempo, o organismo se adapta à nova rotina, e a tendência é que ela volte a comer de forma mais tranquila, prestando atenção ao sabor dos alimentos e reconhecendo melhor os sinais naturais de fome e saciedade.

Confira: Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças?

Perguntas frequentes

1. O que é considerado “tela” hoje em dia?

Tudo o que emite luz azul e gera estímulo visual ou sonoro: celulares, tablets, computadores, televisões, videogames e até as tecnologias usadas para tarefas escolares.

2. Videochamadas com a família contam como tempo de tela?

Não. As videochamadas com avós, tios ou pais não entram na contagem prejudicial, pois são consideradas interações sociais e afetivas com a figura humana.

3. Qual o limite de tela recomendado para bebês de até 2 anos?

O limite recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é zero. Nessa fase, o cérebro dobra de tamanho e precisa de estímulos do mundo real.

4. Quanto tempo de tela uma criança de 3 a 5 anos pode usar?

O recomendado é no máximo 1 hora por dia, somando todos os aparelhos (TV, tablet e celular), preferencialmente com conteúdos educativos e supervisão.

5. Como as telas provocam atraso na fala dos bebês?

A fala se desenvolve pela imitação de rostos, vozes e olhares humanos. Como as telas trazem estímulos prontos e rápidos, a criança deixa de interagir e de praticar a comunicação real.

6. Quais são os piores horários para a criança usar telas?

Durante as refeições, pois prejudica o paladar e a saciedade, e até duas horas antes de dormir, já que a luz azul reduz a melatonina e destrói a qualidade do sono.

7. Quais os riscos das redes sociais para as meninas adolescentes?

A exposição precoce provoca a comparação constante com padrões de beleza irreais, causando ansiedade, baixa autoestima e riscos elevados de distúrbios de imagem.

Leia mais: Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar?