O primeiro sorriso, os balbucios e, depois, as primeiras palavras e frases fazem parte de uma sequência natural do desenvolvimento infantil. Apesar de cada criança ter o próprio ritmo, existem alguns marcos esperados durante os primeiros anos de vida.
Por volta dos 6 meses, o bebê começa a balbuciar sons. Entre os 10 e 12 meses, ele costuma falar as primeiras palavras com significado. Já entre os 18 meses e os 2 anos, o vocabulário cresce rapidamente, permitindo que a criança forme pequenas frases e se comunique cada vez melhor.
Só que, nos últimos anos, com o aumento do tempo de exposição às telas na infância, não é comum que crianças cheguem aos 2 ou 3 anos com dificuldade para falar ou para se comunicar verbalmente.
O atraso na fala pode ter diferentes causas, como alterações na audição e transtornos do neurodesenvolvimento, mas o uso excessivo de celulares, tablets e televisão também pode comprometer o desenvolvimento da linguagem, principalmente quando substitui as brincadeiras, as conversas e as interações com outras pessoas.
Por que o cérebro do bebê precisa de pessoas (e não de telas) para falar?
O desenvolvimento da fala não é um processo de repetição de palavras, mas um desenvolvimento biológico e social que depende muito do vínculo afetivo.
O cérebro do bebê foi preparado para desenvolver a linguagem por meio da interação humana, observando o rosto de quem conversa, acompanhando o movimento da boca durante a fala, percebendo diferentes tons de voz, expressões faciais, sorrisos, gestos e respostas às próprias tentativas de comunicação.
Sempre que um adulto conversa com um bebê, mesmo que ele ainda responda apenas com balbucios ou sons, existe uma troca constante de comunicação: a mãe fala, o bebê reage, a mãe interpreta aquela resposta e continua a conversa.
Cada momento fortalece milhares de conexões entre os neurônios responsáveis pela linguagem, pela atenção e pela comunicação. Aos poucos, a criança aprende que sons possuem significado e descobre como utilizá-los para expressar desejos, emoções e necessidades.
Já o celular, a televisão ou o tablet funcionam de maneira completamente diferente. Mesmo com imagens coloridas, músicas e personagens chamativos, o conteúdo não responde aos sons produzidos pela criança, não adapta a conversa ao momento vivido nem cria um vínculo afetivo.
A comunicação acontece apenas em uma direção, fazendo com que o bebê participe muito pouco do processo, o que explica porque nenhum conteúdo digital consegue substituir as interações presenciais durante os primeiros anos de vida.
O impacto dos vídeos educativos no atraso da linguagem
Diversos pais recorrem a vídeos musicais, desenhos animados e conteúdos classificados como educativos acreditando que estão estimulando o desenvolvimento infantil.
No entanto, estudos apontam que conteúdos digitais não oferecem os mesmos benefícios de uma conversa, de uma brincadeira ou de uma leitura compartilhada. Quando o uso acontece por tempo prolongado, o aprendizado da linguagem pode ser prejudicado.
Nos primeiros anos de vida, o cérebro ainda está em pleno desenvolvimento e não consegue processar tantos estímulos ao mesmo tempo. Como a maioria dos vídeos infantis tem cenas que mudam rapidamente, cores muito chamativas, músicas o tempo todo e vários efeitos visuais, a atenção da criança fica presa ao movimento e às imagens, enquanto a linguagem acaba ficando em segundo plano.
Na prática, a criança passa bastante tempo olhando para a tela, mas aprende pouco sobre como se comunicar. Ela pode decorar personagens, reconhecer músicas ou até repetir uma palavra ou outra, mas não vivencia o que realmente ajuda o cérebro a aprender a falar: olhar nos olhos de outra pessoa, imitar sons, ouvir perguntas, receber respostas, brincar, conversar e interagir com a família no dia a dia.
Como a distração digital diminui o vocabulário familiar?
O prejuízo das telas no atraso da fala não ocorre apenas quando o bebê usa o aparelho, mas também quando os pais estão distraídos pelo próprio celular. O fenômeno, conhecido como tecnociência, acontece quando a tecnologia interrompe ou reduz as interações entre os familiares, diminuindo o tempo de conversas, brincadeiras e momentos de atenção compartilhada.
Quando pais passam boa parte do dia olhando para o celular, respondendo mensagens ou navegando nas redes sociais, eles acabam conversando menos com a criança sem perceber. Aos poucos, diminuem momentos importantes para o desenvolvimento da linguagem, como contar o que estão fazendo, nomear objetos da casa, cantar músicas, ler histórias ou responder aos balbucios do bebê.
Pode até parecer pouco, mas são justamente as conversas do dia a dia que ensinam a criança a entender o significado das palavras e, mais tarde, a usá-las para se comunicar. Quanto maior for o contato com adultos falando, fazendo perguntas, esperando respostas e incentivando a interação, maiores são as oportunidades de o cérebro desenvolver as habilidades relacionadas à fala e à linguagem.
Como saber se o atraso na fala é culpa do celular?
Nem todo atraso na fala acontece por causa das telas, já que diferentes problemas de saúde também podem comprometer o desenvolvimento da linguagem.
Ainda assim, quando a criança permanece várias horas por dia diante de dispositivos eletrônicos, alguns comportamentos merecem atenção e indicam a necessidade de uma avaliação médica, como:
- Pouco contato visual: a criança raramente olha nos olhos dos pais durante as brincadeiras ou quando é chamada pelo nome;
- Ausência de gestos comunicativos: depois do primeiro ano de vida, não aponta para o que deseja, não bate palmas, não faz o gesto de “tchau” e demonstra pouca intenção de se comunicar;
- Baixo interesse pelas pessoas: prefere permanecer diante da tela e demonstra pouco interesse por brincadeiras com familiares ou outras crianças;
- Crises intensas ao desligar o aparelho: quando o celular ou a televisão são retirados, a criança não procura outra atividade nem tenta chamar a atenção dos pais, apresentando choro intenso, irritação ou dificuldade para se acalmar.
A presença de um ou mais sinais não confirma qualquer diagnóstico, mas indica que o desenvolvimento precisa de uma avaliação realizada por um profissional de saúde.
O que fazer ao notar o atraso na fala?
Ao notar que a criança está demorando para falar ou apresenta dificuldades para se comunicar, uma das primeiras medidas consiste em reduzir o tempo de exposição às telas.
Para menores de 2 anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria recomendam evitar celulares, tablets e televisão, com exceção de videochamadas realizadas com familiares.
Como o cérebro infantil apresenta grande capacidade de adaptação, a substituição das telas por interações humanas pode favorecer o desenvolvimento da linguagem.
No dia a dia, também vale adotar algumas medidas simples, como:
- Converse durante a rotina: fale com a criança durante o banho, as refeições, os passeios e as brincadeiras. Nomeie objetos, descreva o que está fazendo e faça perguntas simples;
- Leia histórias todos os dias: mostre as figuras, diga o nome dos personagens, aponte objetos e incentive a criança a participar da leitura;
- Cante músicas e cantigas infantis: repita palavras, faça gestos e incentive a criança a acompanhar a melodia e os movimentos;
- Brinque sem usar telas: ofereça livros, massinhas, blocos de montar, desenhos, brinquedos de encaixe e atividades ao ar livre;
- Responda às tentativas de comunicação: sempre que a criança apontar, balbuciar ou tentar falar uma palavra, responda e continue a conversa;
- Guarde o celular durante os momentos em família: aproveite as refeições, as brincadeiras e o horário de dormir para dar atenção total à criança e conversar mais com ela.
Se a criança continuar apresentando atraso na fala, pouca comunicação ou dificuldade para interagir, vale buscar uma avaliação médica. Dependendo da situação, poderá ser indicado o acompanhamento com um fonoaudiólogo, neuropediatra ou outro especialista para investigar a causa e iniciar o tratamento o mais cedo possível.
Leia também: Como o excesso de telas pode afetar o neurodesenvolvimento das crianças?
Perguntas frequentes
1. Com quantos meses o bebê deve falar as primeiras palavras?
O espero é que por volta dos 12 meses, o bebê comece a falar as primeiras palavras com significado, como “mama”, “papa” ou “água”.
2. O uso de telas pode fazer o bebê apresentar sinais semelhantes ao autismo?
Sim. O isolamento provocado pelas telas pode fazer com que o bebê manifeste comportamentos parecidos com o autismo, como não olhar nos olhos e não responder ao chamado.
3. Como diferenciar o atraso por telas de um transtorno real?
Ao fazer um detox digital rigoroso por algumas semanas, a criança com atraso por telas volta a interagir e melhora a comunicação. Se os sintomas persistirem, a causa pode ser neurobiológica.
4. Quanto tempo leva para ver melhora após tirar as telas?
A plasticidade cerebral infantil é alta. Em média, após duas a três semanas de corte total das telas e estímulo correto, os pais já notam melhora no contato visual e nos balbucios.
5. Quando é a hora de procurar um fonoaudiólogo?
Se o bebê completar 1 ano e meio (18 meses) sem falar nenhuma palavra, sem apontar ou sem fazer contato visual, mesmo após retirar as telas, é fundamental buscar a avaliação de um especialista.
6. As telas podem causar gagueira em crianças pequenas?
Não causam a gagueira diretamente, mas o hiperestímulo e a ansiedade gerados pelo ritmo acelerado dos vídeos podem sobrecarregar o cérebro da criança, fazendo com que ela trave ou repita sílabas ao tentar organizar o pensamento para falar.
7. Se a criança já fala bem, o uso de telas está liberado?
Não. Mesmo que a fala pareça desenvolvida, o excesso de telas continua agindo no sistema de recompensa do cérebro, podendo gerar sintomas de distúrbio de atenção, impulsividade, agressividade e dificuldade de sociabilização na escola.
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