Quando voos longos se tornam perigosos para o coração e a circulação

Passageiros durante um voo longo de avião, ilustrando os efeitos do cansaço, da imobilidade e das viagens aéreas prolongadas na saúde e na circulação.

Passar horas sentado na mesma posição, a milhares de metros de altitude, pode ser cansativo para qualquer pessoa. Mas, para além do desconforto físico e do jet lag, as viagens longas de avião podem aumentar o risco de alguns problemas de saúde, inclusive aqueles associados à circulação sanguínea e a desidratação.

Apesar de ser um meio de transporte seguro, as condições da cabine e a baixa movimentação das pernas dificultam o retorno do sangue para o coração, favorecendo o inchaço nos pés e tornozelos.

Em casos mais raros, principalmente em pessoas com fatores de risco, também pode ocorrer a formação de coágulos sanguíneos, conhecida como trombose venosa profunda.

Para entender como as viagens longas afetam o organismo e quais medidas ajudam a reduzir os riscos durante o voo, conversamos com o cardiologista Giovanni Henrique Pinto.

Por que voos longos podem afetar o coração?

Durante um voo longo, o corpo passa muitas horas em uma condition de pouca movimentação, baixa umidade e menor pressão de oxigênio dentro da cabine. Apesar do avião ser pressurizado, a quantidade de oxigênio disponível em grandes altitudes é menor do que em solo, o que faz o organismo trabalhar um pouco mais para manter o equilíbrio.

Na maioria das pessoas saudáveis, isso não causa problemas graves. No entanto, em indivíduos com doenças cardiovasculares, pressão alta, insuficiência cardíaca ou arritmias, a combinação de imobilidade prolongada e desidratação pode aumentar as chances de complicações.

“O principal perigo é o desenvolvimento de trombose venosa profunda (TVP), popularmente conhecida como ‘síndrome da classe econômica’. Isso ocorre porque durante o voo a pessoa permanece sentada por longos períodos, com pouco espaço para movimentar as pernas, o que favorece o acúmulo de sangue nas veias das pernas”, explica Giovanni.

O cardiologista ainda explica que, uma vez que a pressão reduzida da cabine e o ar ressecado contribuem para a desidratação, o sangue fica mais espesso e propenso à formação de coágulos. Se um coágulo se forma e migra para os pulmões, ocorre uma embolia pulmonar, uma condição grave que pode ser fatal.

Existe um tempo de voo considerado mais crítico?

O risco de problemas circulatórios e cardíacos aumenta significativamente em voos com mais de quatro horas de duração. A partir do período de imobilidade, cresce a chance de o sangue se acumular nas pernas e formar coágulos.

Quando a viagem ultrapassa oito horas, o risco se torna ainda maior devido à combinação entre desidratação e longos períodos sem movimentação adequada.

“Também importa a frequência — quem faz voos longos repetidos em curto intervalo de tempo acumula risco. O período mais crítico costuma ser a segunda metade de voos muito longos, quando a imobilidade já se prolongou por horas”, explica Giovanni.

Quem faz parte do grupo de risco?

Segundo Giovanni, as pessoas com maior risco são aquelas que já têm histórico de:

  • Trombose ou embolia pulmonar;
  • Insuficiência cardíaca;
  • Arritmias graves, como fibrilação atrial não controlada;
  • Doença arterial coronariana grave;
  • Hipertensão arterial não controlada;
  • Obesidade severa;
  • Varizes importantes;
  • Mobilidade reduzida.

Também fazem parte do grupo de maior vulnerabilidade as gestantes, as pessoas com mais de 60 anos, quem realizou cirurgia recente (especialmente ortopédica), os pacientes com câncer e os usuários de anticoncepcionais hormonais. Quanto maior a combinação de fatores de risco, maior a preocupação, ressalta o cardiologista.

Sinais de alerta: quando se preocupar durante ou após o voo?

Giovanni aponta que a atenção deve ser redobrada nas primeiras 72 horas após o voo, período em que há maior risco de manifestação de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar.

Os principais sinais de alerta nas pernas incluem:

  • Dor em uma das pernas, principalmente na panturrilha;
  • Inchaço em apenas uma perna;
  • Vermelhidão;
  • Sensação de calor local.

Já os sinais de embolia pulmonar exigem atendimento de emergência imediato, pois a condição pode ser grave. Os mais comuns incluem:

  • Falta de ar súbita;
  • Dor no peito, especialmente ao respirar fundo;
  • Tosse com sangue;
  • Desmaio ou sensação de desmaio iminente;
  • Batimentos cardíacos acelerados;
  • Ansiedade intensa sem motivo claro.

“Para quem tem doença cardíaca, qualquer sintoma diferente do habitual após a viagem, como cansaço excessivo, inchaço nas pernas ou piora da falta de ar, deve ser avaliado pelo médico preferencialmente no mesmo dia”, esclarece Giovanni.

Pessoas com doenças cardíacas podem viajar de avião com segurança?

Na maioria das vezes, desde que os fatores de risco estejam controlados e a viagem seja planejada com cuidado, é possível viajar de avião sem problemas. Contudo, Giovanni orienta consultar um cardiologista antes de qualquer voo longo.

“Quem teve infarto recente deve aguardar pelo menos duas a quatro semanas antes de voar em casos não complicados, e até seis semanas em situações mais graves”, recomenda o cardiologista. Já pessoas com com insuficiência cardíaca descompensada, dor no peito frequente ou arritmias sem controle devem evitar viagens de avião até que o quadro esteja estabilizado.

Em alguns casos, o médico pode fornecer uma autorização para a viagem e solicitar oxigênio suplementar durante o voo, que deve ser pedido com antecedência à companhia aérea.

Como proteger o coração e a circulação em viagens longas?

Alguns cuidados simples podem ajudar a reduzir os riscos e tornar a viagem mais segura, especialmente em voos com muitas horas de duração, como:

  • Levantar e caminhar pelo corredor a cada uma ou duas horas;
  • Fazer exercícios com as pernas mesmo sentado;
  • Flexionar e estender os tornozelos;
  • Elevar os joelhos alternadamente;
  • Evitar cruzar as pernas por longos períodos;
  • Beber água regularmente durante o voo;
  • Evitar bebidas alcoólicas;
  • Evitar refrigerantes, que favorecem a desidratação;
  • Usar meias de compressão graduada em voos acima de quatro horas, com orientação médica;
  • Usar anticoagulantes preventivos antes das viagens, no caso de pacientes de alto risco.

Giovanni também ressalta que é importante levar medicamentos na bagagem de mão em quantidade suficiente para todo o período, incluindo reserva para imprevistos.

Também vale carregar um resumo do histórico de saúde, exames recentes (eletrocardiograma, ecocardiograma) e lista de medicamentos em uso, além de verificar a cobertura do seguro de viagem para condições preexistentes.

Quando consultar o médico antes de viajar?

O ideal é consultar o cardiologista com pelo menos duas a quatro semanas de antecedência, segundo Giovanni. Na consulta, o médico pode avaliar se os fatores de risco estão bem controlados, ajustando os medicamentos, se necessário, e indicando medidas preventivas individualizadas.

A avaliação médica é ainda mais importante para pessoas com doenças cardíacas, histórico de trombose, pressão alta descontrolada ou outras condições que aumentam o risco de complicações durante voos longos.

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Perguntas frequentes

1. O que é a “síndrome da classe econômica”?

É o termo popular usado para descrever a trombose venosa profunda que ocorre em passageiros de voos longos. O nome surgiu devido ao espaço reduzido entre as poltronas da classe econômica, que limita ainda mais os movimentos das pernas, embora o problema também possa acontecer na classe executiva se a pessoa não se mexer.

2. Qual é o principal perigo de um coágulo se formar na perna?

O maior risco é que esse coágulo (trombo) se desprenda da veia da perna e viaje pela corrente sanguínea até chegar aos pulmões. Se isso acontecer, ele pode bloquear a passagem de sangue local, causando uma condição grave chamada embolia pulmonar, que é uma emergência médica.

3. Quais são os sintomas de trombose na perna após o voo?

Os principais sinais de alerta nas pernas, que podem surgir durante o voo ou até semanas após a viagem, são:

  • Inchaço em apenas uma das pernas (assimétrico);
  • Dor ou sensação de peso na panturrilha que piora ao caminhar;
  • Vermelhidão ou pele arroxeada na região dolorida;
  • Região da panturrilha visivelmente mais quente que o resto do corpo.

4. Quem tem varizes corre mais risco em voos longos?

Sim. Pessoas com varizes calibrosas e insuficiência venosa crônica já possuem uma circulação nas pernas mais lenta e prejudicada por natureza. A imobilidade do voo agrava essa condição, tornando esse grupo mais propenso a inchaços severos e trombose.

5. Quem já teve infarto ou usa marca-passo pode voar?

Pessoas com marca-passo podem voar normalmente e devem apenas avisar a segurança do aeroporto antes de passar pelo detector de metais. Já quem sofreu um infarto recente ou passou por cirurgia cardíaca precisa de liberação do cardiologista. Normalmente, o recomendado é aguardar de 2 a 4 semanas para voar, dependendo da gravidade do caso.

6. Como as meias de compressão ajudam a proteger o coração e as veias?

As meias de compressão elástica exercem uma pressão graduada no tornozelo que vai diminuindo em direção ao joelho. Isso ajuda a pressionar as veias superficiais, direcionando o sangue para as veias profundas e facilitando o retorno do sangue para o coração, reduzindo drasticamente o inchaço e o risco de coágulos.

7. O uso de remédios para dormir ou calmantes é recomendado?

Eles devem ser evitados em voos longos. Os sedativos e indutores de sono fazem com que a pessoa durma profundamente por muitas horas sem mudar de posição ou acordar para esticar as pernas, o que aumenta drasticamente o tempo de imobilidade total e o risco de complicações vasculares.

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