Antidepressivos mudam a personalidade? Psiquiatra explica 

Mulher segurando antidepressivos na cama durante tratamento de saúde mental, ansiedade ou depressão

Os antidepressivos atuam principalmente nos neurotransmissores cerebrais que influenciam o humor e a regulação emocional, contribuindo para restaurar o equilíbrio químico alterado em condições como depressão. Só que, no início do tratamento, não é incomum sentir medo de que os medicamentos possam mudar a personalidade.

Os transtornos mentais afetam diretamente emoções, pensamentos, comportamentos e a forma como a pessoa se relaciona com o mundo. Quando os medicamentos começam a fazer efeito, algumas mudanças podem ser percebidas no cotidiano, como mais disposição, redução da ansiedade, melhora do humor, aumento da vontade de socializar e maior estabilidade emocional.

Para algumas pessoas, as mudanças podem causar bastante estranhamento, principalmente se você passou muito tempo convivendo com sofrimento psicológico intenso.

Antidepressivos mudam a personalidade?

Os antidepressivos não mudam a personalidade de uma pessoa no sentido de transformar quem ela é, mas eles podem alterar sintomas emocionais, pensamentos, comportamentos e a forma como o cérebro reage ao estresse. Na prática, o que acontece é que o tratamento ajuda a recuperar características da personalidade que estavam escondidas pelo sofrimento emocional.

A depressão e os transtornos de ansiedade podem alterar profundamente o comportamento e a percepção de si mesmo. Uma pessoa pessimista pode perder o interesse pelas atividades favoritas, se afastar socialmente, ficar mais irritada, pessimista, cansada ou emocionalmente fechada.

Quando os sintomas diminuem, características naturais da personalidade tendem a reaparecer: uma pessoa que antes era comunicativa e afetiva, mas ficou retraída durante um quadro depressivo, pode voltar a demonstrar mais interesse pelas relações sociais.

“Quando um tratamento funciona, a pessoa geralmente volta a sentir mais próxima de como ela era antes da doença. Algumas pessoas dizem até que se sentem mais elas mesmas novamente”, esclarece o psiquiatra Luiz Dieckmann.

Vale lembrar que a personalidade é construída ao longo da vida, influenciada pela genética, pela infância, pelas experiências, pelo ambiente e pelas relações sociais. Por isso, ela não costuma mudar de forma brusca apenas pelo uso de um remédio.

Antidepressivos podem deixar a pessoa “sem emoções”?

Com o uso de alguns tipos de depressivos, principalmente os que atuam aumentando a serotonina, Luiz explica que algumas pessoas podem relatar uma sensação conhecida como embotamento ou achatamento emocional, em que as emoções se tornam menos intensas. A pessoa pode sentir menos vontade de chorar, menos empolgação ou uma sensação de neutralidade emocional.

O efeito não significa que a pessoa perdeu a própria personalidade ou deixou de sentir emoções completamente. Na maioria das vezes, ocorre apenas a diminuição da intensidade emocional, que pode variar bastante de pessoa para pessoa.

Luiz ainda destaca que o embotamento emocional não acontece com todos os pacientes e depende de fatores como o tipo de antidepressivo, a dose utilizada, a sensibilidade individual e a resposta do organismo ao tratamento. Quando o sintoma causa desconforto no dia a dia, é fundamental conversar com o médico.

Como os antidepressivos agem no cérebro?

Os antidepressivos atuam aumentando a disponibilidade de neurotransmissores, como a serotonina, a noradrenalina e a dopamina, no espaço entre os neurônios, chamado de fenda sináptica.

Em quadros de depressão ou ansiedade, a comunicação química pode apresentar alterações, afetando diretamente o humor, a regulação emocional, a motivação, o sono e a resposta do cérebro ao estresse.

A maioria dos medicamentos, como os ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina), funciona impedindo que o cérebro recolha a serotonina rápido demais, fazendo com que ela permaneça disponível por mais tempo entre os neurônios e ajudando o cérebro a transmitir sinais relacionados ao bem-estar e à estabilidade emocional.

Com o uso contínuo, os antidepressivos também ajudam o cérebro a criar e organizar conexões entre os neurônios, em um processo chamado neuroplasticidade. Isso ajuda o cérebro a se recuperar dos efeitos do estresse crônico e do próprio transtorno mental.

Por isso, na maioria dos casos, o organismo precisa de algumas semanas para se adaptar às mudanças e começar a apresentar melhora mais perceptível dos sintomas.

Quando procurar o médico para ajustar a dose?

É importante procurar o médico nas seguintes situações:

  • Os sintomas não melhoram após algumas semanas de uso;
  • A ansiedade, a tristeza ou a irritabilidade pioram;
  • Surgem efeitos colaterais difíceis de tolerar;
  • Há sensação de apatia;
  • Aparecem muito sono, insônia ou cansaço excessivo;
  • Ocorre redução importante da libido;
  • Surgem agitação, impulsividade ou mudanças intensas de comportamento;
  • Há dificuldade para continuar o tratamento por causa dos efeitos do remédio.

Também é importante procurar orientação médica caso a pessoa esqueça as doses com frequência, tenha dificuldade para tomar a medicação corretamente ou queira interromper o tratamento.

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Perguntas frequentes

1. Antidepressivo vicia?

Não. Ao contrário dos ansiolíticos (tarja preta), os antidepressivos não causam dependência química. O que pode ocorrer é uma síndrome de descontinuação se o remédio for parado abruptamente, por isso o desmame deve ser gradual.

2. Vou ter que tomar o antidepressivo para sempre?

Nem sempre. Muitos pacientes fazem o tratamento por um período determinado (geralmente de 6 meses a 2 anos após a remissão dos sintomas) e depois recebem alta. Casos crônicos ou recorrentes podem exigir uso prolongado.

3. Antidepressivo engorda?

Depende da molécula. Alguns podem aumentar o apetite (como a mirtazapina), enquanto outros são neutros ou podem até ajudar no controle da compulsão alimentar (como a fluoxetina ou bupropiona).

4. Grávidas podem tomar antidepressivos?

Sim, sob supervisão médica. Existem opções seguras que apresentam baixo risco para o bebê, sendo muitas vezes mais perigoso para a gestação manter uma depressão grave sem tratamento.

5. Existe um exame de sangue para saber qual remédio tomar?

Existem testes farmacogenéticos que analisam como seu corpo metaboliza certas substâncias, ajudando a prever quais remédios podem ter mais efeitos colaterais, mas a escolha clínica ainda é baseada nos sintomas do paciente.

6. O remédio começa a fazer efeito logo na primeira dose?

Os efeitos colaterais (como náusea ou dor de cabeça) podem surgir logo no início, mas o benefício terapêutico no humor raramente aparece antes de 15 dias.

7. Posso tomar antidepressivo por conta própria?

Jamais. São medicamentos controlados que exigem diagnóstico preciso. O uso indevido pode agravar quadros de bipolaridade (causando mania) ou gerar interações medicamentosas perigosas.

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