Cada dia mais comuns nas academias de musculação e luta, os esteroides anabolizantes são substâncias sintéticas que imitam a ação de hormônios naturais do corpo, principalmente a testosterona.
Originalmente prescritos para reposição de hormônios em organismos que não os produzem adequadamente, eles são buscados para aumentar a massa muscular e melhorar o desempenho físico, especialmente em atividades que exigem força, de acordo com o cardiologista Remo Furtado.
No entanto, quando utilizados sem indicação e para fins estéticos, os esteroides anabolizantes provocam um desequilíbrio hormonal profundo, afetando desde o funcionamento do coração e do fígado até a saúde mental e o sistema reprodutor. Vamos entender mais, a seguir.
O que são e para que servem os anabolizantes?
Os esteroides anabolizantes, tecnicamente chamados de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA), são substâncias sintéticas fabricadas em laboratório para imitar as funções da testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Segundo Remo, ele atua desde o desenvolvimento dos caracteres sexuais até a construção de massa muscular.
Eles podem ser indicados por profissionais de saúde em situações específicas, como no tratamento do hipogonadismo, quando o corpo não produz testosterona suficiente, na perda grave de massa muscular causada por doenças, em alguns tipos de anemia e em casos de atraso no desenvolvimento hormonal.
Por serem hormônios potentes que agem em quase todos os órgãos, o uso para fins estéticos é proibido no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Sem indicação médica, as substâncias desregulam o sistema endócrino e podem causar danos severos e, muitas vezes, irreversíveis ao corpo.
Quais os efeitos colaterais dos anabolizantes?
O uso de esteroides anabolizantes, especialmente sem acompanhamento médico, traz uma série de efeitos colaterais graves. Ele sobrecarrega órgãos vitais e o sistema metabólico, podendo causar:
- Hipertrofia cardíaca: aumento do tamanho do coração, que pode comprometer o funcionamento do órgão ao longo do tempo e evoluir para insuficiência cardíaca;
- Aumento da pressão arterial (hipertensão): sobrecarga constante no sistema cardiovascular, elevando o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC);
- Alteração do perfil lipídico: redução do colesterol HDL (considerado protetor) e aumento do LDL, o que favorece o acúmulo de placas nas artérias;
- Trombose: formação de coágulos nos vasos sanguíneos, que podem obstruir a circulação e causar complicações graves;
- Hepatite medicamentosa: inflamação do fígado causada pelo uso das substâncias, podendo gerar dor, mal-estar e alterações nos exames;
- Tumores hepáticos: o uso prolongado pode aumentar o risco de lesões no fígado e favorecer o desenvolvimento de câncer;
- Olhos amarelados: sinal de icterícia, que indica dificuldade do fígado em metabolizar substâncias e eliminar toxinas;
- Acne severa: aumento intenso da oleosidade da pele, com surgimento de espinhas inflamadas, principalmente no rosto, costas e peito.
O uso contínuo dos esteroides, ainda mais em altas doses, pode levar a alterações cerebrais e comportamentais que causam dependência física e psicológica das substâncias. Segundo a Associação Médica Brasileira (AMB), cerca de 30% dos usuários continuam usando mesmo diante de efeitos graves na saúde e na vida pessoal.
Efeitos colaterais em homens
Nos homens, o excesso de testosterona sintética causa um efeito rebote: o corpo entende que já existe hormônio demais e interrompe a produção natural pelos testículos, podendo causar:
- Ginecomastia: o excesso de testosterona pode ser convertido em estrogênio, causando crescimento de tecido mamário;
- Atrofia testicular: como os testículos param de funcionar adequadamente, ocorre redução do tamanho;
- Infertilidade: a produção de espermatozoides diminui, podendo levar à esterilidade;
- Disfunção erétil: o desequilíbrio hormonal pode dificultar a ereção e reduzir a libido.
Efeitos colaterais em mulheres
O corpo feminino possui níveis naturalmente baixos de testosterona. A introdução de doses altas de anabolizantes causa a virilização, um processo de masculinização que muitas vezes é irreversível:
- Voz mais grossa, devido a espessamento das cordas vocais;
- Surgimento de pelos em locais tipicamente masculinos, como rosto e peito;
- Crescimento físico do órgão genital (clitoromegalia);
- Interrupção da menstruação e a atrofia dos seios.
Os anabolizantes podem afetar a saúde mental?
As substâncias dos anabolizantes atuam no sistema nervoso central e podem causar alterações tanto durante o período de uso quanto na fase de interrupção (abstinência). De acordo com as diretrizes da Associação Médica Brasileira, os principais impactos na saúde mental incluem:
- Irritabilidade e agressividade: conhecida popularmente como “fúria do esteroide” (roid rage), pode levar a episódios de fúria descontrolada e comportamentos violentos;
- Mania e hipomania: a pessoa pode apresentar estados de euforia excessiva, autoconfiança exagerada e impulsos autodestrutivos;
- Psicose: em alguns casos, podem ocorrer sintomas psicóticos e perda de contato com a realidade;
- Dismorfia muscular: frequentemente associada ao uso de longo prazo, onde a pessoa apresenta uma preocupação patológica com o corpo, nunca se sentindo suficientemente forte ou musculoso.
Quando o uso é interrompido, o corpo sofre um choque devido à queda brusca dos níveis hormonais e à neuroadaptação do centro de recompensa cerebral. Como resultado, a pessoa pode apresentar depressão grave, sensação de cansaço extremo, insônia e desejo incontrolável (craving) para voltar a usar o anabolizante.
Existe dose segura para anabolizantes para fins estéticos?
Não existe uma dose segura de anabolizantes quando o uso é voltado para estética. De acordo com a Associação Médica Brasileira, mesmo quantidades consideradas “comuns” podem trazer riscos sérios à saúde e aumentar o risco de morte precoce, principalmente por problemas cardiovasculares.
O uso considerado seguro na medicina é restrito a situações específicas, como no tratamento de hipogonadismo, câncer de mama, osteoporose e perda de massa muscular causada por doenças. Ainda assim, sempre com prescrição e acompanhamento médico rigoroso.
Sinais de alerta para procurar atendimento médico
Se você ou alguém que você conhece utiliza anabolizante e apresenta os sinais abaixo, procure um pronto-socorro imediatamente:
- Dor ou pressão no peito;
- Falta de ar e cansaço excessivo;
- Palpitações ou batimentos irregulares;
- Dores de cabeça fortes e constantes;
- Pele ou olhos amarelados (icterícia);
- Urina escura ou fezes claras;
- Dor abdominal intensa;
- Ideação suicida ou depressão profunda;
- Episódios de fúria ou impulsos violentos sem motivo aparente;
- Euforia excessiva seguida de comportamentos autodestrutivos;
- Alucinações ou delírios.
Ao procurar atendimento médico, é importante informar à equipe de saúde quais substâncias foram usadas, em que doses e por quanto tempo. Isso ajuda a conduzir o tratamento da forma correta, especialmente em casos de intoxicação ou sintomas de abstinência.
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Perguntas frequentes
1. Por que os anabolizantes causam agressividade?
As doses elevadas afetam o sistema nervoso central, podendo causar irritabilidade, impulsos autodestrutivos e episódios de fúria (conhecidos como roid rage)
2. Adolescentes podem usar anabolizantes?
O uso nessa fase é extremamente perigoso, pois pode causar o fechamento prematuro das epífises ósseas, interrompendo o crescimento e resultando em baixa estatura definitiva
3. O que é o padrão “stacking” (empilhamento)?
É a prática de utilizar cinco ou mais tipos diferentes de anabolizantes simultaneamente para tentar potencializar os resultados, o que aumenta drasticamente a toxicidade
4. Anabolizantes podem causar queda de cabelo?
Sim, eles aceleram a calvície em homens geneticamente predispostos e causam queda de cabelo em mulheres.
5. Existe risco de contrair infecções?
Sim, o uso de substâncias injetáveis sem assepsia adequada ou o compartilhamento de agulhas aumenta o risco de infecções locais e doenças como HIV e hepatites.
6. Como tratar a dependência de anabolizantes?
O tratamento envolve acompanhamento médico para restaurar a função hormonal (tratar o hipogonadismo), terapia cognitivo-comportamental e suporte para lidar com sintomas de depressão e ansiedade.
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