A fertilização in vitro, também chamada de FIV, é uma das principais técnicas de reprodução assistida e consiste na fecundação do óvulo pelo espermatozoide em laboratório, seguida da transferência do embrião para o útero.
Ela pode ser indicada em diferentes situações, como infertilidade masculina, alterações hormonais e até idade materna mais avançada.
Para entender como a técnica funciona, as taxas de sucesso e quanto custa no Brasil, conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza.
O que é fertilização in vitro (FIV)?
A fertilização in vitro é uma técnica de reprodução assistida em que a fecundação (ou seja, a união do espermatozoide com o óvulo) acontece em laboratório, de forma controlada.
Segundo a ginecologista Andreia, o objetivo é formar embriões que depois são transferidos para o útero, o que pode aumentar as chances de gravidez quando existem questões que dificultam a gestação natural.
A médica explica que a indicação da fertilização in vitro normalmente ocorre depois da investigação das causas da infertilidade, já que alguns problemas podem ser tratados e permitir a gravidez de forma natural.
Quando o tratamento inicial não resolve a situação, costumam ser testadas técnicas mais simples, como a indução da ovulação ou a inseminação artificial. Se os métodos não funcionarem, a FIV passa a ser considerada uma alternativa mais avançada.
Como a fertilização in vitro é feita?
A fertilização in vitro (FIV) acontece em etapas bem organizadas, como um passo a passo. O processo envolve desde a preparação do corpo até a formação do embrião e a confirmação da gravidez. Entenda como funciona:
1. Estimulação ovariana
O tratamento de FIV começa com a estimulação dos ovários, segundo Andreia. A paciente utiliza hormônios, normalmente injetáveis e, às vezes, combinados com medicamentos orais, para estimular a produção de vários óvulos no mesmo ciclo — diferente do ciclo natural, em que normalmente apenas um óvulo é liberado.
A fase costuma durar entre 8 e 14 dias, em que o crescimento dos folículos é acompanhado por ultrassonografias e exames hormonais. Quando atingem o tamanho ideal, aplica-se uma medicação para finalizar o amadurecimento dos óvulos e programar a coleta.
2. Coleta dos óvulos
Cerca de 34 a 36 horas após a medicação final, acontece a coleta dos óvulos, também chamada de punção folicular. O procedimento é feito por via vaginal, com uma agulha guiada por ultrassom.
A paciente fica sedada para que seja mais confortável, não há cortes na pele e o processo costuma durar entre 15 e 20 minutos. Depois da coleta, os óvulos são encaminhados ao laboratório para avaliação.
3. Coleta dos espermatozoides
No mesmo dia, ocorre a coleta do sêmen do parceiro ou o uso de amostra de banco de sêmen, quando necessário. Na maioria das vezes, a coleta é feita por masturbação.
Em situações específicas, pode ser necessária a retirada direta dos espermatozoides dos testículos ou do epidídimo. No laboratório, o material é preparado para selecionar os espermatozoides com melhor qualidade.
4. Fertilização em laboratório
Com óvulos e espermatozoides prontos, acontece a fecundação, que pode ser feita de duas formas, segundo Andreia:
- FIV convencional: óvulos e espermatozoides ficam juntos em uma placa, permitindo a fecundação espontânea;
- ICSI: um espermatozoide é injetado diretamente dentro do óvulo, técnica usada principalmente quando há fator masculino importante ou uso de óvulos congelados.
Depois disso, os especialistas acompanham quais óvulos foram fecundados e começaram a se desenvolver como embriões.
5. Desenvolvimento dos embriões
Os embriões ficam em incubadoras especiais, com temperatura e condições controladas. O desenvolvimento é monitorado todos os dias.
Geralmente, os embriões são acompanhados até o estágio de blastocisto, entre o 5º e o 7º dia após a fecundação. Em alguns casos, podem ser feitos testes genéticos antes da transferência. Os embriões mais adequados são então escolhidos.
6. Transferência embrionária e teste de gravidez
Na transferência embrionária, um ou mais embriões são colocados no útero com um cateter fino. O procedimento é rápido, normalmente não precisa de anestesia e segue critérios médicos relacionados à idade, qualidade embrionária e histórico do casal.
Se existirem embriões viáveis excedentes, eles podem ser congelados para uso futuro. Depois da transferência, Andreia explica que o recomendado é esperar cerca de 10 a 14 dias para fazer o exame de sangue beta-hCG, que confirma se houve implantação e início da gravidez.
Os cuidados antes, durante e depois da FIV
Antes do início do tratamento, costuma ser feita uma avaliação médica completa, com exames hormonais, investigação de infecções, análise da saúde reprodutiva e revisão do histórico clínico. Eles são importantes para entender se existem fatores que possam interferir na fertilidade ou no sucesso do procedimento.
Segundo Andreia, são realizados os seguintes exames antes da FIV:
- Exames hormonais para avaliar a função reprodutiva;
- Investigação de infecções que possam interferir na fertilidade ou na gestação;
- Ultrassom transvaginal para análise do útero e dos ovários;
- Histerossalpingografia para avaliação das tubas uterinas;
- Espermograma para análise da qualidade do sêmen no parceiro;
- Avaliação clínica geral, incluindo histórico de saúde e doenças pré-existentes.
Também é importante manter o peso adequado, suspender o tabagismo e reduzir o consumo de bebidas alcoólicas. Normalmente, pode ser necessária a suplementação de ácido fólico.
Após a transferência embrionária, a continuidade do acompanhamento médico continua sendo necessário para favorecer a implantação do embrião e o início adequado da gestação. O profissional pode recomendar evitar esforço físico nos primeiros dias, ficar em repouso e realizar o exame de beta-hCG no período indicado para confirmação da gravidez.
Já após a transferência do embrião para o útero, a recomendação habitual envolve repouso relativo nas primeiras horas ou dias, sem necessidade de imobilização prolongada. A rotina leve costuma ser liberada conforme orientação médica.
Se o teste de gravidez apresentar resultado positivo e a evolução inicial ocorrer de forma satisfatória, a gestação passa a ser acompanhada no pré-natal habitual.
Qual é a taxa de sucesso da fertilização in vitro?
A taxa de sucesso da fertilização in vitro (FIV) pode variar bastante, de acordo com a idade da mulher, a causa da infertilidade, a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides, além do histórico clínico de cada pessoa.
De acordo com Andreia, em mulheres com menos de 35 anos, as taxas de sucesso costumam variar entre 40% e 50% por ciclo, com redução progressiva após os 40 anos.
Também é importante considerar que as chances podem aumentar após mais de uma tentativa. Em alguns casos, a taxa acumulada de sucesso após três ciclos pode ultrapassar 60%, especialmente em pacientes mais jovens.
Todo o processo costuma durar entre um mês e um mês e meio por tentativa, e, em alguns casos, são necessários vários ciclos até que a gestação seja alcançada.
Diferenças entre a fertilização in vitro e a inseminação artificial
A fertilização in vitro (FIV) e a inseminação artificial são técnicas de reprodução assistida usadas quando há dificuldade para engravidar, mas elas funcionam de formas diferentes e têm indicações específicas. A principal diferença está no local onde ocorre a fecundação e na complexidade do procedimento.
- Na inseminação artificial: o sêmen é preparado em laboratório e introduzido diretamente no útero para facilitar o encontro com o óvulo. Aqui, a fecundação ocorre naturalmente dentro do corpo da mulher, tornando o processo mais simples e menos invasivo;
- Já na FIV: os óvulos são coletados e fertilizados em ambiente laboratorial, e somente após a formação do embrião é que ocorre a transferência para o útero. Por ser mais complexa, a FIV é geralmente indicada quando outros métodos falham ou em casos de infertilidade mais severos.
A escolha entre os métodos depende da causa da infertilidade, da idade da paciente e da avaliação médica individual.
Quando a fertilização in vitro pode ser indicada?
A fertilização in vitro costuma ser indicada quando há fatores ligados à fertilidade feminina, masculina ou ao casal que tornam a gravidez natural mais difícil, além de outras situações específicas que podem interferir na concepção.
Entre os fatores femininos que podem indicar a FIV, é possível destacar:
- Alterações nas tubas uterinas, como obstrução, ausência ou sequelas de infecções pélvicas e hidrossalpinge;
- Endometriose severa;
- Baixa reserva ovariana ou idade materna mais avançada;
- Distúrbios ovulatórios de difícil controle;
- Falência ovariana prematura;
- Histórico de abortos de repetição;
- Necessidade de testes genéticos nos embriões.
Já entre os fatores masculinos, estão:
- Baixa concentração de espermatozoides;
- Alterações importantes na motilidade ou na morfologia dos espermatozoides;
- Azoospermia, com necessidade de retirada dos espermatozoides diretamente dos testículos;
- Situações após vasectomia, quando existe desejo de paternidade;
- Necessidade de técnicas complementares, como a ICSI, para melhorar a fecundação.
A fertilização in vitro também pode ser recomendada para:
- Casais formados por mulheres, com possibilidade de gestação compartilhada e uso de sêmen de doador;
- Casais masculinos, com uso de óvulos doados e útero de substituição, conforme as normas médicas vigentes.
Em todos os casos, a indicação deve ser feita após avaliação especializada, considerando a história clínica, os exames e os objetivos reprodutivos de cada pessoa ou casal.
Existem riscos (ou efeitos colaterais) da FIV?
A estimulação hormonal utilizada na fertilização in vitro pode causar algumas reações relacionadas ao aumento dos níveis hormonais e aos próprios procedimentos envolvidos, como aponta Andreia:
- Distensão abdominal;
- Cólicas;
- Retenção de líquidos;
- Sensibilidade mamária;
- Alterações de humor;
- Síndrome da hiperestimulação ovariana, condição rara, mas potencialmente grave, que exige acompanhamento médico próximo;
- Pequenos sangramentos ou desconfortos após a punção ovariana, procedimento considerado seguro, mas que pode apresentar riscos pontuais.
Quanto custa a fertilização in vitro no Brasil?
Um ciclo completo de fertilização in vitro (FIV) no Brasil costuma ter custo médio entre R$ 20 mil e R$ 45 mil.
O valor pode variar conforme o preço dos medicamentos, que geralmente representam parte significativa do tratamento, além do uso de técnicas adicionais, como ICSI, testes embrionários ou outros procedimentos laboratoriais, e também da clínica escolhida.
Em situações mais complexas, que exigem recursos extras ou múltiplas etapas, o custo total pode ultrapassar R$ 80 mil.
Confira: Gravidez depois dos 35 anos é perigoso? Conheça os riscos e os cuidados necessários
Perguntas frequentes
1. Existe uma idade limite para fazer a FIV?
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomenda a idade máxima de 50 anos para a mulher. Acima disso, o tratamento só é permitido com autorização médica específica e avaliação de riscos de saúde.
2. Bebês de FIV são saudáveis como os de gestação natural?
Sim, não há evidências científicas de que a técnica aumente o risco de malformações. Eles se desenvolvem exatamente da mesma forma.
3. O tratamento de FIV dói?
A etapa mais sensível é a punção folicular (coleta de óvulos), mas ela é realizada sob sedação leve, então a paciente dorme e não sente dor. As injeções hormonais diárias são subcutâneas, com agulhas bem finas, semelhantes às de insulina.
4. Posso escolher o sexo do bebê na FIV?
No Brasil, a seleção de sexo por motivos sociais é proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Ela só é permitida em casos raros para evitar a transmissão de doenças genéticas ligadas ao sexo (como a hemofilia).
5. Posso trabalhar normalmente durante o processo?
Na maioria dos dias, sim. O afastamento costuma ser necessário apenas no dia da punção folicular e, às vezes, um pequeno repouso no dia da transferência embrionária.
6. Posso usar óvulos de uma doadora (Ovodoação)?
Sim. No Brasil, a doação deve ser anônima (exceto em casos de parentesco de até 4º grau) e não pode ter caráter comercial. É a principal alternativa para mulheres com menopausa precoce ou baixa reserva ovariana.
Leia mais: Primeiro trimestre de gravidez: sintomas, exames e cuidados
