11 causas de infarto em jovens (e por que as vacinas não são a explicação)

Mulher jovem com dor no peito sentada no sofá, ilustrando sintomas e alerta para infarto em jovens

No Brasil, a incidência de infarto entre pessoas mais jovens tem aumentado. Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), nos últimos quase vinte anos, as internações por infarto em pessoas com menos de 39 anos mais que dobraram — o que acende um alerta para a saúde cardiovascular nessa faixa etária.

Para se ter uma ideia, entre pessoas de 35 a 39 anos, as internações subiram 93,5%, passando de 9,3 casos por 100 mil habitantes para cerca de 18. Já entre jovens de 25 a 29 anos, os registros mais que triplicaram, saindo de 1,43 caso por 100 mil habitantes para quase 5 casos por 100 mil.

O aumento é consequência de uma combinação de fatores que envolvem mudanças no estilo de vida, maior exposição ao estresse e crescimento de condições metabólicas em idades cada vez mais precoces.

O que pode causar infarto em jovens?

Segundo a cardiologista Juliana Soares, existem causas bem estabelecidas ligadas ao estilo de vida e a fatores genéticos que ajudam a explicar o aumento dos casos de infarto em jovens.

1. Obesidade infantil e excesso de peso precoce

O excesso de peso desde a infância favorece a inflamação crônica, resistência à insulina, alterações do colesterol e aumento da pressão arterial. Isso acelera a formação de placas de gordura nas artérias, processo chamado aterosclerose, que hoje já aparece em adultos jovens.

2. Sedentarismo e baixa atividade física

Uma rotina marcada por muitas horas sentado, pouco exercício físico e ausência de movimento regular prejudica o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos. A prática de atividade física ajuda a controlar peso, glicemia, colesterol e pressão arterial — além de reduzir a inflamação no organismo, melhorar a circulação sanguínea e favorecer o equilíbrio hormonal.

Mesmo exercícios moderados, como caminhadas, bicicleta ou atividades funcionais algumas vezes na semana, já trazem diversos benefícios para a saúde.

3. Diabetes tipo 2 em idade precoce

O diagnóstico de diabetes tipo 2 em idades precoces é um fator determinante para o comprometimento da saúde do coração. A glicose elevada provoca danos progressivos nos vasos sanguíneos, favorece a inflamação e acelera a aterosclerose. Sem diagnóstico e controle adequados, o risco de eventos cardíacos pode surgir décadas antes do esperado.

4. Estresse crônico e rotina intensa

O estresse constante influencia a pressão arterial, o sono, a alimentação e o equilíbrio do organismo. A liberação contínua de hormônios ligados ao estresse pode aumentar a inflamação e afetar a saúde cardiovascular. Com o tempo, o coração também sente os efeitos da sobrecarga.

5. Consumo frequente de alimentos ultraprocessados

Os alimentos ultraprocessados, como fast food, salgadinhos, refrigerantes e produtos industrializados, costumam conter altos níveis de açúcar, gordura e sódio. O consumo frequente pode favorecer o ganho de peso, o aumento do colesterol e o desenvolvimento da diabetes — além de contribuir para inflamação vascular e formação precoce de placas de gordura nas artérias, segundo Juliana.

6. Predisposição genética

De acordo com Juliana, a genética é um fator determinante para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares na juventude.

O colesterol alto, ou hipercolesterolemia familiar, impede a remoção adequada do LDL (colesterol ruim), mantendo níveis elevados desde a infância. Jovens com a condição podem desenvolver aterosclerose acelerada e apresentar infarto antes dos 30 anos quando não há diagnóstico precoce. O histórico familiar de infarto precoce também exige maior atenção preventiva.

7. Tabagismo e o cigarro eletrônico

O cigarro tradicional e o eletrônico podem causar inflamação nos vasos sanguíneos e favorecer a formação de placas de gordura e coágulos. Mesmo em pessoas jovens, o tabagismo aumenta o risco de infarto e outras doenças do coração.

8. Uso de drogas ilícitas

De acordo com Juliana, algumas drogas, como a cocaína, podem provocar a contração das artérias do coração, elevar a pressão e causar infarto até em pessoas sem histórico cardíaco. O risco pode surgir de forma inesperada e grave.

9. Uso de anabolizantes sem orientação médica

Os anabolizantes podem causar o aumento do músculo cardíaco, alterar o colesterol e favorecer a formação de coágulos. Isso aumenta o risco de problemas cardíacos, inclusive o infarto em pessoas jovens.

10. Consumo excessivo de bebidas energéticas

As bebidas energéticas contêm grandes quantidades de cafeína e outras substâncias estimulantes, como taurina e guaraná. O consumo em excesso pode aumentar a pressão arterial, provocar arritmias e funcionar como gatilho para problemas cardíacos, principalmente quando já existe predisposição.

11. Doenças inflamatórias e autoimunes

As doenças inflamatórias crônicas, como a artrite reumatoide, mantêm o organismo em um estado constante de inflamação. Além de afetar as articulações ou outros órgãos, ela também pode atingir as artérias, favorecendo o desgaste da parede dos vasos e o acúmulo de gordura.

Com o tempo, isso acelera a formação de placas e aumenta o risco de eventos cardiovasculares, como infarto ou AVC, principalmente quando não há controle adequado da doença.

Vacinas não tem relação com aumento de casos de infarto

Não existe uma relação de causa e efeito entre as vacinas e o aumento nos casos de infartos. Na verdade, é possível observar o oposto: o próprio vírus da COVID-19, por exemplo, é conhecido por causar inflamações severas no sistema cardiovascular, aumentando significativamente o risco de trombose e problemas cardíacos em pessoas com o vírus.

A imunização protege contra complicações graves da doença, reduz a intensidade da resposta inflamatória causada pelo vírus e, consequentemente, diminui o risco de eventos cardiovasculares associados à infecção.

Quando a infecção ocorre sem proteção, a inflamação sistêmica pode favorecer a formação de coágulos, elevar a pressão arterial e sobrecarregar o coração. Assim, a vacina continua sendo uma das principais medidas para a proteção da saúde, inclusive do coração.

Sinais de infarto para ficar atento

Os sinais de infarto em jovens podem ser sutis ou até confundidos com ansiedade, dores musculares ou problemas digestivos. Mesmo assim, alguns sintomas merecem atenção, principalmente quando surgem de forma inesperada ou persistem:

  • Sensação de aperto, peso ou queimação que pode aparecer em repouso ou durante esforço;
  • Dificuldade para respirar sem motivo claro ou após atividades leves;
  • Desconforto que pode atingir braço, costas, pescoço, mandíbula ou região do estômago;
  • Sensação de coração acelerado, irregular ou batendo mais forte que o habitual;
  • Episódios de fraqueza, sensação de desmaio ou perda momentânea da consciência;
  • Mal-estar geral acompanhado de sudorese, enjoo ou sensação estranha no corpo;
  • Cansaço intenso e frequente, em explicação aparente, especialmente quando associada a outros sintomas.

Na presença de qualquer sinal suspeito, procure atendimento médico imediatamente.

Quando procurar avaliação cardiológica?

É recomendável buscar avaliação se existe histórico familiar de infarto precoce, colesterol alto, pressão elevada, diabetes ou doenças cardíacas. Pessoas que fumam, utilizam anabolizantes, consomem energéticos com frequência ou levam uma rotina muito estressante podem se beneficiar do acompanhamento preventivo.

Pessoas que pretendem iniciar uma rotina de atividades físicas ou desejam fazer um check-up cardiovascular também podem procurar o cardiologista.

Vale ressaltar que a avaliação cardiológica não deve acontecer apenas quando surgem sintomas intensos. O acompanhamento preventivo ajuda a identificar fatores de risco precocemente e evita complicações no futuro — ainda mais em jovens com condições que aumentam o risco cardiovascular.

Como reduzir o risco de infarto ainda jovem?

A prevenção de infarto e outros problemas do coração envolve uma série de mudanças na rotina, que podem melhorar a qualidade de vida ao longo do tempo:

  • Manter uma alimentação equilibrada: priorizar frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras, reduzindo alimentos ultraprocessados, excesso de sal, açúcar e gordura;
  • Praticar atividade física regularmente: caminhar, pedalar, nadar ou fazer exercícios de força ajuda a controlar peso, pressão, colesterol e glicose;
  • Evitar o tabagismo: cigarro tradicional ou eletrônico aumenta o risco cardiovascular mesmo em pessoas jovens;
  • Controlar o estresse: descanso adequado, lazer, sono de qualidade e técnicas de relaxamento ajudam a reduzir o impacto do estresse no coração;
  • Acompanhar o peso corporal: manter o peso saudável diminui o risco de diabetes, hipertensão e colesterol alto;
  • Monitorar pressão, colesterol e glicemia: exames periódicos ajudam a identificar alterações precocemente;
  • Evitar o uso de anabolizantes e drogas: essas substâncias podem provocar alterações cardíacas importantes;
  • Consumir álcool com moderação: o excesso pode elevar pressão arterial e prejudicar o coração;
  • Dormir bem: noites mal dormidas aumentam inflamação, estresse e risco cardiovascular;
  • Realizar acompanhamento médico regular: check-ups ajudam a prevenir, diagnosticar e tratar fatores de risco antes que evoluam.

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Perguntas frequentes

1. Por que o infarto em jovens é considerado mais perigoso?

Muitas vezes é mais fatal porque o jovem ainda não desenvolveu a chamada circulação colateral — pequenos vasos que o corpo cria ao longo de décadas para compensar artérias parcialmente obstruídas. Quando ocorre o entupimento súbito, o dano ao músculo cardíaco é imediato e extenso.

2. O estresse do trabalho pode causar infarto em quem é saudável?

O estresse crônico eleva os níveis de cortisol e adrenalina, o que aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca. Em pessoas com predisposição ou pequenas placas de gordura ignoradas, o estresse pode ser o gatilho para a ruptura das placas.

3. Como diferenciar um ataque de ansiedade de um infarto?

No infarto, a dor costuma ser uma pressão que não muda com a respiração. Na ansiedade, é comum a sensação de formigamento nas mãos e lábios. Na dúvida, é importante procurar um pronto-socorro. O eletrocardiograma é o único exame que dá a certeza.

4. O uso de anticoncepcionais aumenta o risco cardíaco?

Em mulheres jovens que fumam, a combinação de anticoncepcional e tabagismo aumenta significativamente o risco de trombose e infarto, devido à alteração na coagulação sanguínea.

5. É possível ter um “infarto silencioso”?

Sim. No infarto silencioso, o paciente não sente a dor clássica, apenas um mal-estar vago ou cansaço súbito. Muitas vezes o jovem só descobre que enfartou semanas depois, ao fazer um eletrocardiograma de rotina que mostra a cicatriz no músculo.

6. O que é a “síndrome do coração partido”? Ela atinge jovens?

Chamada de Cardiomiopatia de Takotsubo, a condição é um enfraquecimento súbito do músculo cardíaco causado por um estresse emocional extremo (término de namoro, luto, perda de emprego). Os sintomas imitam um infarto e podem ocorrer em jovens, especialmente mulheres.

7. O uso crônico de anti-inflamatórios aumenta o risco?

O uso frequente e sem controle médico de alguns anti-inflamatórios não esteroides (como ibuprofeno ou diclofenaco) pode elevar a pressão arterial e aumentar levemente o risco de eventos trombóticos em pessoas predispostas.

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