No Brasil e no mundo, cada vez mais mulheres estão escolhendo esperar mais alguns anos para viver a maternidade.
Para se ter uma ideia, dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos (Seade) mostram que a quantidade de gestações em mulheres com mais de 40 anos aumentou 64% entre 2010 e 2022.
Como parte do planejamento familiar, que ajuda a mulher a decidir com mais calma quando deseja engravidar, é comum considerar alternativas para preservar a fertilidade ao longo do tempo, e uma delas é o congelamento de óvulos.
Ela permite guardar óvulos em uma fase de maior qualidade, aumentando as chances de uma gestação futura. Para entender como o procedimento funciona, conversamos com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza. Confira!
Afinal, o que é o congelamento de óvulos?
O congelamento de óvulos, também chamado de criopreservação de oócitos, é um procedimento médico que permite preservar a fertilidade feminina para o futuro. A técnica consiste em coletar e congelar óvulos em uma fase em que ainda apresentam boa qualidade, para que possam ser utilizados no futuro.
A opção é usada tanto por mulheres que desejam adiar a maternidade por motivos pessoais ou profissionais quanto por aquelas que precisam passar por tratamentos médicos que podem afetar a fertilidade.
Segundo Andreia, a decisão pode partir da própria mulher ou surgir após orientação médica, a depender do contexto clínico e dos objetivos reprodutivos.
Com o passar do tempo, a quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem de forma natural. A mulher já nasce com um número limitado de óvulos e, ao longo dos anos, a reserva vai sendo reduzida, especialmente após os 35 anos, o que pode dificultar uma gravidez futura.
Com o congelamento, é possível preservar óvulos em uma fase mais favorável da vida reprodutiva, reduzindo os impactos do envelhecimento natural sobre a fertilidade
Como funciona o congelamento de óvulos?
O processo do congelamento de óvulos é dividido em etapas bem definidas, como:
1. Estimulação ovariana
Durante cerca de 10 a 14 dias, a mulher utiliza medicamentos hormonais, normalmente injetáveis, para estimular os ovários a produzirem mais óvulos no mesmo ciclo. Nesse período, são realizados exames de sangue e ultrassons para acompanhar o crescimento dos folículos e ajustar as doses dos hormônios.
Segundo Andreia, é um tratamento de alto custo e que exige acompanhamento rigoroso por equipe especializada.
2. Acompanhamento médico
Ao longo da estimulação, o médico avalia a resposta do organismo, garantindo que os óvulos estejam se desenvolvendo adequadamente e que o procedimento ocorra com segurança. Isso é feito por meio de exames de ultrassom e testes hormonais, o que permite avaliar o crescimento dos folículos e ajustar as doses dos medicamentos quando necessário.
3. Coleta dos óvulos
Quando os óvulos atingem o tamanho e a maturidade ideais, a coleta é realizada por meio de um procedimento invasivo, com aspiração guiada por ultrassonografia, como explica Andreia.
Caso a resposta ovariana seja muito baixa, o procedimento pode ser cancelado, pois a coleta de poucos óvulos não justifica os riscos envolvidos. Em geral, a mulher recebe alta no mesmo dia.
4. Avaliação em laboratório
Após a coleta, os óvulos são encaminhados ao laboratório, onde passam por uma análise criteriosa. Os especialistas avaliam quais óvulos estão maduros e em condições adequadas para serem congelados, assegurando maior qualidade no armazenamento.
5. Congelamento dos óvulos
Os óvulos selecionados são congelados por meio de uma técnica chamada vitrificação. O método utiliza temperaturas extremamente baixas e um congelamento rápido, o que ajuda a preservar a estrutura e a qualidade das células.
6. Armazenamento
Depois de congelados, os óvulos são armazenados em tanques de nitrogênio líquido, em condições controladas e seguras. Eles podem permanecer preservados por muitos anos, até que a mulher decida utilizá-los para tentar engravidar.
Quantos óvulos costumam ser coletados no procedimento?
A quantidade de óvulos coletados no procedimento pode variar bastante de uma mulher para outra. Em média, costumam ser coletados entre 8 e 15 óvulos por ciclo, mas esse número depende de fatores como idade, reserva ovariana, resposta aos hormônios e condições de saúde.
Em mulheres mais jovens, geralmente a resposta à estimulação é melhor, o que pode resultar em um número maior de óvulos. Já em idades mais avançadas, a quantidade pode ser menor, e em alguns casos pode ser indicado realizar mais de um ciclo de estimulação para aumentar as chances de sucesso no futuro.
Quando o congelamento de óvulos é indicado?
O congelamento de óvulos é indicado em diferentes situações, principalmente quando há o desejo de preservar a fertilidade para o futuro. Entre as principais, Andreia destaca:
- Desejo de adiar a maternidade por razões pessoais, profissionais ou financeiras, sem abrir mão da possibilidade de engravidar no futuro;
- Ausência de um parceiro no momento, apesar do desejo de ter filhos em outra fase da vida;
- Necessidade de iniciar tratamentos médicos, como quimioterapia, radioterapia ou cirurgias ginecológicas, que podem comprometer a função ovariana;
- Diminuição da reserva ovariana identificada em exames, mesmo em mulheres mais jovens;
- Histórico familiar de menopausa precoce, o que pode indicar risco aumentado de perda antecipada da fertilidade;
- Doenças ginecológicas, como endometriose, que podem afetar a qualidade ou a quantidade dos óvulos ao longo do tempo.
Efeitos colaterais do congelamento de óvulos
Podem surgir alguns efeitos colaterais, principalmente durante a fase de estimulação dos ovários. Nesse período, a mulher pode sentir dor de cabeça, inchaço na barriga e nos membros, além de uma sensação de peso ou desconforto no baixo ventre.
Após a coleta dos óvulos, esse inchaço costuma diminuir aos poucos e, na maioria dos casos, desaparece entre cinco e 14 dias, especialmente após a chegada do próximo ciclo menstrual.
Existe limite de idade para congelar os óvulos?
Não existe um limite de idade fixo para realizar o congelamento de óvulos, segundo Andreia, mas é fundamental considerar que a resposta ovariana diminui progressivamente com o passar dos anos. A mulher nasce com um número limitado de óvulos, que já começa a reduzir ainda durante a vida intrauterina.
Portanto, quanto mais jovem a mulher, melhor costuma ser a qualidade dos óvulos. De modo geral, o recomendado é realizar o congelamento até os 35 anos de idade.
Após essa idade, o procedimento ainda pode ser realizado, mas a quantidade e a qualidade dos óvulos tendem a diminuir com o tempo, o que pode reduzir as chances de sucesso. Por isso, a avaliação médica individual é fundamental para orientar sobre o melhor momento e as reais possibilidades de cada mulher.
Quais as taxas de sucesso do congelamento de óvulos?
Diversos fatores podem influenciar nas taxas de sucesso, segundo Andreia. Quando há um parceiro fixo, é possível realizar a fertilização e optar pelo congelamento do embrião.
Na ausência de parceiro, os óvulos são criopreservados e a fertilização ocorre apenas no futuro. Durante os processos de congelamento e descongelamento, parte dos óvulos pode não sobreviver, embora as técnicas atuais apresentem índices elevados de preservação.
Vale destacar que o congelamento de óvulos não garante uma gravidez futura. O caminho até a gestação envolve várias etapas, cada uma com suas próprias taxas de sucesso, incluindo a coleta dos óvulos, a fertilização, a implantação do embrião no útero e a evolução da gravidez.
Mesmo após um teste positivo, ainda existe risco de aborto espontâneo, que ocorre em cerca de 25% das gestações, inclusive em mulheres sem fatores de risco conhecidos.
Riscos do congelamento de óvulos
Os riscos do congelamento de óvulos são considerados baixos, principalmente quando o procedimento é realizado por uma equipe especializada. Ainda assim, como qualquer tratamento médico, podem existir alguns pontos de atenção:
- Inchaço abdominal, dor de cabeça e sensação de peso no baixo ventre durante a estimulação dos ovários;
- Desconforto após a coleta dos óvulos;
- Pequeno risco de sangramento ou infecção após a punção;
- Em casos raros, síndrome de hiperestimulação ovariana, condição potencialmente grave, caracterizada por aumento exagerado dos ovários.
Por isso, é importante que o procedimento seja realizado em uma clínica especializada, com equipe médica experiente e acompanhamento adequado em todas as etapas, garantindo mais segurança para a paciente
Existem contraindicações?
Não existem contraindicações absolutas para o congelamento de óvulos, mas algumas situações exigem uma avaliação médica mais cuidadosa antes do procedimento, como:
- Gravidez em curso;
- Condições de saúde que estejam descompensadas;
- Presença de cistos ovarianos de grande volumes;
- Casos de reserva ovariana muito baixa.
Além disso, mulheres que precisam iniciar com urgência um tratamento oncológico podem não ter tempo suficiente para realizar a estimulação hormonal necessária para a coleta dos óvulos. Por isso, a decisão deve sempre ser individualizada, considerando o estado de saúde, o momento de vida e a orientação de uma equipe médica especializada.
Quanto custa o congelamento de óvulos?
O custo do congelamento de óvulos no Brasil varia bastante, podendo ficar entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, além da taxa anual de manutenção, que costuma girar em torno de R$ 1,5 mil. O valor final depende da clínica escolhida e dos medicamentos hormonais necessários para o procedimento.
De acordo com Andreia, o processo inclui despesas com hormônios, exames, acompanhamento médico, procedimento de coleta e taxa de manutenção mensal dos óvulos congelados, que ficam armazenados em clínicas especializadas.
Todos os fatores devem ser discutidos de forma detalhada antes da decisão, permitindo uma escolha consciente e alinhada às expectativas reais.
Leia mais: Primeiro trimestre de gravidez: sintomas, exames e cuidados
Perguntas frequentes
1. Como é feita a seleção do óvulo para uma tentativa de engravidar?
Quando a mulher decide utilizar os óvulos congelados, eles são descongelados em laboratório e avaliados pelos embriologistas. Apenas os óvulos que sobrevivem bem ao descongelamento e apresentam boa aparência celular são utilizados.
Em seguida, ocorre a fertilização em laboratório, normalmente por técnica de fertilização in vitro, e os embriões formados passam por nova avaliação antes da transferência para o útero.
2. Congelar os óvulos muito jovem aumenta o risco de menopausa precoce?
Não, o congelamento de óvulos não acelera a menopausa nem reduz de forma significativa a reserva ovariana. Os óvulos coletados seriam naturalmente perdidos ao longo do tempo, pois a mulher perde óvulos todos os meses, mesmo sem ovular. O procedimento apenas aproveita óvulos que já seriam descartados pelo organismo.
3. Por quantos anos os óvulos podem ficar congelados?
Com a técnica de vitrificação, os óvulos podem permanecer congelados por muitos anos, sem que exista um prazo máximo estabelecido pela ciência. O armazenamento em nitrogênio líquido mantém as células preservadas, conservando suas características e qualidade mesmo após décadas.
4. O procedimento exige afastamento do trabalho?
Na maioria dos casos, não. Durante a estimulação, a rotina pode ser mantida normalmente. No dia da coleta, costuma ser indicado repouso, mas muitas mulheres retomam atividades leves no dia seguinte.
5. É possível congelar óvulos mais de uma vez?
Sim, algumas mulheres realizam mais de um ciclo de congelamento para aumentar o número de óvulos armazenados, especialmente quando a resposta ovariana é menor.
6. O que acontece se a mulher decidir não usar os óvulos congelados?
A mulher pode optar por continuar armazenando, descartar os óvulos ou, em alguns casos, doá-los para pesquisa ou para outras pessoas, conforme permitido pela legislação e pelas normas éticas.
Confira: Gravidez depois dos 35 anos é perigoso? Conheça os riscos e os cuidados necessários
