Você já ouviu falar no mito da taça protetora? Ele consiste na ideia de que o consumo moderado e diário de álcool traria benefícios cardiovasculares significativos, ajudando a proteger contra doenças cardíacas.
De acordo com a cardiologista Juliana Soares, ela ganhou força a partir de uma situação histórica chamada paradoxo francês, em que se observou uma menor incidência de doenças cardiovasculares na população francesa, apesar de uma alimentação rica em gorduras, como queijos, e do consumo frequente de vinho.
Na época, levantou-se a hipótese de que o vinho tinto teria um efeito protetor sobre o coração, quando, na realidade, os fatores de vida tiveram uma influência muito maior no resultado. Vamos entender mais, a seguir.
O que a ciência diz sobre o consumo de álcool para a saúde cardiovascular?
Mesmo em pequenas quantidades, pesquisas apontam que o consumo de álcool está associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, incluindo insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e cardiomiopatia alcoólica.
De acordo com um estudo publicado na JAMA Network Open, com dados de mais de 370 mil pessoas do Reino Unido, os aparentes benefícios observados em alguns grupos estavam mais ligados a hábitos saudáveis, como melhor alimentação e prática de exercícios, e não ao álcool em si.
Já um relatório da Associação Americana do Coração (AHA) aponta que o consumo elevado e contínuo de álcool por vários anos pode provocar alterações na estrutura do coração, comprometendo seu funcionamento e aumentando o risco de problemas cardiovasculares.
O documento também aponta que algumas pessoas podem apresentar sinais iniciais de prejuízo cardíaco mesmo com consumo considerado baixo, como poucas doses por semana.
Isso sugere que a resposta ao álcool varia bastante entre os indivíduos, e que nem sempre quantidades menores significam ausência de risco.
Como o álcool afeta o coração?
Quando o álcool é ingerido, ele é rapidamente absorvido pelo sangue e chega ao coração em poucos minutos.
Nesse momento, pode causar mudanças temporárias, como aumento dos batimentos e variações na pressão arterial. Algumas pessoas percebem palpitações ou sensação de coração acelerado, principalmente após beber mais do que o habitual.
Com o consumo frequente, o álcool pode aumentar a pressão arterial de forma persistente, um dos principais fatores de risco para doenças do coração. Ele também pode alterar o ritmo cardíaco, favorecendo arritmias, que são batimentos irregulares e podem trazer sintomas como cansaço, tontura ou falta de ar.
Para completar, o consumo excessivo ao longo do tempo pode enfraquecer o músculo do coração, dificultando o bombeamento adequado do sangue, situação que pode evoluir para insuficiência cardíaca.
Riscos do álcool para a saúde do coração a longo prazo
O metabolismo do álcool no organismo pode aumentar o risco de diversas alterações cardiovasculares, como Juliana aponta:
- Arritmias cardíacas, como a fibrilação atrial, especialmente após consumo elevado ocasional, situação conhecida como síndrome do coração de feriado;
- Elevação da pressão arterial no consumo crônico, apesar de possível queda momentânea após ingestão aguda;
- Toxicidade direta sobre o músculo cardíaco, podendo levar à cardiomiopatia alcoólica e à insuficiência cardíaca.
Por que os possíveis benefícios do vinho não superam os riscos?
Segundo Juliana, o vinho tinto realmente contém resveratrol, uma substância com propriedades antioxidantes. No entanto, a quantidade presente em uma taça é muito pequena. Para atingir uma dose considerada potencialmente protetora, seria necessário consumir grandes quantidades de álcool.
Nesse cenário, os efeitos nocivos do álcool superariam amplamente qualquer possível benefício do resveratrol.
Existe alguma quantidade considerada segura?
Atualmente, não existe uma quantidade de álcool considerada totalmente segura para a saúde, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Mesmo pequenas doses podem trazer algum risco ao longo do tempo, principalmente para o coração e para a saúde geral.
Por isso, a orientação atual é simples: quem não bebe não precisa começar achando que vai proteger o coração.
Para quem já consome, Juliana explica que são orientados limites considerados de menor risco: até uma dose por dia para mulheres e até duas para homens, com dias sem consumo ao longo da semana.
Ainda assim, pessoas com doenças cardiovasculares, como arritmias, insuficiência cardíaca ou pressão alta, devem preferencialmente suspender o consumo.
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Perguntas frequentes
1. O álcool não ajuda a aumentar o “colesterol bom” (HDL)?
Antes, acreditava-se que sim. No entanto, estudos recentes mostram que o aumento do HDL provocado pelo álcool não se traduz em uma redução real no risco de infarto ou doenças cardiovasculares.
2. Se eu quero os benefícios do resveratrol sem o álcool, o que devo fazer?
O melhor caminho é consumir uvas escuras in natura, suco de uva integral (sem açúcar) ou suplementação específica, onde você obtém o fitonutriente sem os efeitos tóxicos do etanol.
3. O álcool causa gordura no coração?
O consumo excessivo contribui para a gordura no fígado (esteatose), mas também pode enfraquecer o músculo cardíaco, levando a uma condição chamada cardiomiopatia alcoólica, onde o coração fica dilatado e sem força.
4. Mulheres e homens têm os mesmos riscos?
Mulheres costumam ser mais sensíveis ao álcool devido à menor quantidade de água no corpo e enzimas de metabolização. Por isso, os riscos cardíacos e de outras doenças podem aparecer mais cedo ou com doses menores em mulheres.
5. O álcool interfere nos medicamentos para o coração?
Sim, ele pode potencializar o efeito de remédios para pressão ou interagir negativamente com anticoagulantes, aumentando o risco de hemorragias ou reduzindo a eficácia do tratamento.
6. O “vinho artesanal” ou “orgânico” é menos prejudicial ao coração?
Não. Embora possam ter menos agrotóxicos ou conservantes, o componente que causa dano ao coração e aos vasos sanguíneos é o etanol, que é exatamente o mesmo em vinhos caros, baratos, orgânicos ou industriais.
7. Beber muita água enquanto bebe álcool protege o coração?
A água ajuda a evitar a desidratação e a ressaca (dor de cabeça), mas não protege o coração ou o fígado dos efeitos tóxicos do etanol. O dano celular ocorre independentemente do nível de hidratação.
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