Quase todo mundo já teve uma afta. Essas pequenas úlceras dolorosas costumam desaparecer sozinhas em poucos dias e, apesar do desconforto, geralmente não representam um problema grave. Entretanto, nem toda ferida na boca é uma afta.
Uma lesão que permanece por mais de duas semanas, aumenta de tamanho, endurece ou apresenta sangramento pode estar relacionada a outras condições, como infecções, doenças autoimunes e, em alguns casos, câncer de boca.
Por isso, uma regra importante na avaliação dessas lesões é observar o tempo de cicatrização. Uma úlcera oral sem causa evidente que não melhora em cerca de 14 dias precisa ser cuidadosamente investigada e, em algumas situações, pode necessitar de biópsia. Entenda melhor.
O que é uma afta?
A afta, também chamada de úlcera aftosa recorrente, é uma pequena perda superficial da mucosa da boca. Ela costuma apresentar características bastante típicas:
- Formato arredondado ou oval;
- Centro esbranquiçado ou amarelado;
- Halo avermelhado ao redor;
- Dor importante, principalmente ao consumir alimentos ácidos ou condimentados.
As aftas podem surgir:
- Na parte interna dos lábios;
- Nas bochechas;
- Na língua;
- No assoalho da boca;
- No palato mole.
Um detalhe importante é que elas normalmente não aparecem sobre a gengiva aderida ou o palato duro, locais em que outras doenças podem se manifestar.
Quanto tempo uma afta demora para cicatrizar?
Na maioria dos casos:
- Aftas pequenas cicatrizam entre 7 e 14 dias;
- Aftas maiores podem levar até 3 ou 4 semanas, mas costumam apresentar melhora progressiva.
Por isso, uma ferida que permanece praticamente igual após duas semanas merece avaliação profissional.
Mais importante do que observar apenas o número de dias é perceber se a lesão está diminuindo, cicatrizando ou apresentando alguma mudança.
Nem toda ferida na boca é uma afta
Diversas condições podem causar úlceras na boca e produzir lesões que, inicialmente, podem ser confundidas com uma afta comum. Entre elas estão traumas, infecções, doenças autoimunes e deficiências nutricionais.
Traumas
Feridas traumáticas podem ser provocadas por:
- Mordidas acidentais;
- Próteses mal adaptadas;
- Aparelhos ortodônticos;
- Dentes quebrados.
Quando a causa do trauma é eliminada, a cicatrização costuma ocorrer rapidamente.
Infecções
Algumas infecções também podem causar lesões ulceradas na boca.
Entre elas:
- Herpes simples;
- Sífilis;
- Tuberculose, mais raramente;
- Algumas infecções fúngicas.
Doenças autoimunes
Diversas doenças inflamatórias podem comprometer a mucosa oral.
Entre elas:
- Líquen plano oral;
- Pênfigo vulgar;
- Penfigoide das membranas mucosas;
- Doença de Behçet;
- Lúpus eritematoso.
Nesses casos, as feridas podem fazer parte de um quadro mais amplo, com outras manifestações no organismo.
Deficiências nutricionais
A deficiência de alguns nutrientes pode favorecer o aparecimento de aftas recorrentes em determinadas pessoas.
Entre eles:
- Ferro;
- Vitamina B12;
- Ácido fólico.
A presença frequente de aftas, especialmente quando acompanhada de outros sintomas, pode justificar uma avaliação mais detalhada.
Quando a possibilidade de câncer de boca deve ser considerada?
A maioria das úlceras persistentes não é câncer, mas essa possibilidade não deve ser ignorada.
O tipo mais comum é o carcinoma espinocelular, também chamado de carcinoma de células escamosas, responsável por cerca de 90% dos cânceres da cavidade oral.
Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as possibilidades de tratamento curativo.
Por isso, o objetivo não é considerar toda afta suspeita de câncer, mas reconhecer quando uma lesão foge do comportamento esperado de uma ferida benigna.
Quais sinais aumentam a suspeita de câncer de boca?
Algumas características merecem atenção especial.
A ferida dura mais de duas semanas
A persistência é um dos principais sinais de alerta, especialmente quando não existe uma causa traumática evidente. Uma afta típica tende a melhorar e cicatrizar ao longo dos dias.
A lesão endurece
Ao tocar a região, pode ser percebida uma consistência mais endurecida, chamada induração.
Esse achado é mais sugestivo de lesões neoplásicas do que de aftas comuns e merece investigação.
A úlcera aumenta de tamanho
Feridas benignas tendem a cicatrizar ou pelo menos diminuir progressivamente. Já uma lesão que continua crescendo precisa ser avaliada.
Há sangramento espontâneo
Uma afta pode sangrar quando é traumatizada, por exemplo durante a alimentação ou a escovação.
Entretanto, sangramento frequente ou que acontece sem trauma aparente merece investigação.
Há pouca dor ou nenhuma dor
Embora possa parecer contraditório, muitos cânceres de boca em fases iniciais provocam pouca dor ou podem ser indolores.
As aftas comuns, por outro lado, costumam causar bastante desconforto.
Aparece um caroço no pescoço
O aumento de linfonodos (ínguas) no pescoço também precisa ser avaliado. Em algumas situações, ele pode estar relacionado à disseminação da doença e, por isso, exige investigação médica.
Quem apresenta maior risco para câncer de boca?
Os principais fatores de risco são:
- Tabagismo;
- Consumo excessivo de álcool;
- Associação entre cigarro e álcool, que aumenta ainda mais o risco;
- Idade acima de 50 anos;
- Exposição solar crônica, principalmente no câncer de lábio;
- Infecção por HPV em alguns tumores da orofaringe;
- Má higiene bucal associada a outros fatores de risco.
Entretanto, a ausência desses fatores não exclui a possibilidade de câncer oral. Pessoas que não fumam e não consomem álcool também podem desenvolver a doença.
O que é a biópsia da boca?
A biópsia consiste na retirada de um pequeno fragmento da lesão para análise em laboratório por um médico patologista.
O exame permite diferenciar entre diferentes tipos de alterações, como:
- Inflamação crônica;
- Infecções específicas;
- Doenças autoimunes;
- Lesões pré-cancerosas;
- Câncer.
Quando existe suspeita clínica de uma lesão que precisa ser examinada microscopicamente, exames de sangue não substituem a biópsia. É a análise do tecido que permite esclarecer a natureza da alteração.
A biópsia dói?
Na maioria dos casos, o procedimento é realizado com anestesia local.
Durante a retirada da amostra, o paciente geralmente sente apenas a aplicação da anestesia e uma sensação de pressão na região.
Após o procedimento, podem ocorrer:
- Pequeno desconforto;
- Sensibilidade local;
- Dor leve durante alguns dias.
As complicações costumam ser incomuns.
Toda afta precisa de biópsia?
Não. A grande maioria das aftas típicas não necessita de qualquer exame e cicatriza espontaneamente. A biópsia costuma ser considerada quando:
- A lesão persiste por mais de duas semanas;
- O diagnóstico permanece incerto;
- Existem características suspeitas;
- O tratamento habitual não produz melhora.
A decisão depende da avaliação clínica feita pelo profissional.
Por isso, uma ferida persistente não significa automaticamente que será necessário realizar o procedimento, mas significa que a lesão precisa ser examinada.
Existe alguma lesão pré-cancerosa na boca?
Sim. Algumas alterações da mucosa oral estão associadas a maior risco de desenvolvimento de câncer. Entre elas estão a leucoplasia e a eritroplasia.
Leucoplasia
A leucoplasia aparece como uma placa branca persistente que não pode ser removida por raspagem e não possui outra causa evidente.
Dependendo de suas características, pode precisar de biópsia para avaliação.
Eritroplasia
A eritroplasia é uma placa avermelhada persistente. Apesar de menos frequente, apresenta risco ainda maior de conter alterações pré-cancerosas ou câncer.
Por isso, também costuma exigir investigação cuidadosa e frequentemente necessita de biópsia.
Como é feito o diagnóstico de uma ferida persistente na boca?
A investigação começa pela avaliação clínica detalhada. O profissional pode realizar:
- Exame completo da cavidade oral;
- Palpação da lesão;
- Avaliação dos linfonodos do pescoço;
- Biópsia;
- Exames de imagem, quando necessário.
Também é importante avaliar há quanto tempo a ferida está presente, se houve crescimento, se existe dor, sangramento ou endurecimento e se há algum fator traumático no local.
O diagnóstico precoce faz grande diferença no prognóstico das doenças malignas.
Quando procurar um médico ou dentista?
Procure avaliação se apresentar:
- Ferida que não cicatriza após duas semanas;
- Úlcera recorrente sempre no mesmo local;
- Lesão endurecida;
- Sangramento persistente;
- Mancha branca ou vermelha que não desaparece;
- Dor ao engolir persistente;
- Rouquidão prolongada associada;
- Caroço no pescoço.
Esses sinais não significam necessariamente câncer.
Existem diversas causas benignas para alterações na boca, mas a persistência ou a presença de características atípicas justificam investigação.
É possível prevenir o câncer de boca?
Grande parte dos casos pode ser evitada com medidas que reduzem os principais fatores de risco.
Entre elas:
- Não fumar;
- Evitar o consumo excessivo de álcool;
- Utilizar protetor labial com filtro solar em pessoas expostas ao sol;
- Manter boa higiene bucal;
- Consultar regularmente o dentista;
- Procurar avaliação sempre que surgir uma lesão persistente.
Além da prevenção, reconhecer rapidamente alterações na boca é importante porque o diagnóstico precoce continua sendo uma das principais estratégias para aumentar as chances de cura.
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Perguntas frequentes sobre feridas na boca
1. Quanto tempo uma afta normal demora para desaparecer?
A maioria das aftas pequenas cicatriza espontaneamente entre 7 e 14 dias. Aftas maiores podem demorar mais, mas devem apresentar melhora progressiva.
2. Quando uma afta precisa de biópsia?
Uma lesão pode precisar de biópsia quando permanece por mais de duas semanas, apresenta características atípicas, deixa dúvidas sobre o diagnóstico ou não melhora como esperado.
3. Toda ferida persistente é câncer?
Não. Existem muitas causas benignas de úlceras orais. Entretanto, toda lesão persistente precisa ser avaliada para que doenças mais graves possam ser descartadas.
4. Câncer de boca sempre dói?
Não. Nas fases iniciais, algumas lesões malignas podem provocar pouca dor ou ser completamente indolores. Por isso, a ausência de dor não significa necessariamente que uma ferida persistente seja inofensiva.
5. Quem fuma tem maior risco?
Sim. O tabagismo é um dos principais fatores de risco para câncer da cavidade oral, especialmente quando associado ao consumo excessivo de álcool.
6. A biópsia espalha o câncer?
Não. Esse é um mito. A biópsia é um procedimento utilizado justamente para confirmar o diagnóstico e orientar o tratamento adequado.
7. Qual especialista devo procurar?
O primeiro atendimento pode ser feito por um dentista, estomatologista, cirurgião bucomaxilofacial, otorrinolaringologista ou médico da atenção primária.
A partir da avaliação inicial, o profissional pode indicar investigação complementar ou encaminhamento quando necessário.
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