Poucas dores surgem de forma tão intensa e inesperada quanto a provocada pela torção testicular. Um adolescente ou adulto jovem pode estar praticando esportes, dormindo ou simplesmente caminhando quando, de repente, sente uma dor muito forte em um dos testículos.
Nessa situação, algumas pessoas acreditam que o desconforto vai melhorar sozinho ou sentem vergonha de procurar atendimento. Esse atraso, porém, pode ter consequências graves.
A torção testicular é uma das principais emergências urológicas. Quando o tratamento demora, o fluxo de sangue para o testículo pode permanecer interrompido por tempo suficiente para causar lesões irreversíveis e levar à perda do órgão.
Por isso, toda dor testicular súbita deve ser considerada uma emergência até que outra causa seja identificada.
O que é a torção testicular?
A torção testicular acontece quando o cordão espermático gira sobre si mesmo.
Esse cordão contém estruturas fundamentais para o funcionamento do testículo, como:
- Artérias;
- Veias;
- Vasos linfáticos;
- Nervos;
- Canal deferente.
Quando ocorre a torção, os vasos sanguíneos são comprimidos.
Como consequência:
- O sangue deixa de chegar adequadamente ao testículo;
- A oferta de oxigênio diminui rapidamente;
- O tecido começa a sofrer lesões pela falta de irrigação, chamada isquemia.
Se a circulação não for restabelecida rapidamente, pode ocorrer necrose do testículo.
Quem tem maior risco?
A torção testicular pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais frequente em:
- Adolescentes entre 12 e 18 anos;
- Crianças;
- Adultos jovens.
Ela também pode ocorrer em recém-nascidos, embora seja menos comum.
Grande parte das pessoas apresenta uma alteração anatômica chamada deformidade em badalo de sino, conhecida em inglês como bell-clapper deformity.
Nessa condição, o testículo possui maior liberdade para se movimentar e girar dentro da bolsa escrotal. Essa alteração geralmente está presente nos dois lados.
O que provoca a torção testicular?
Em muitos casos, a torção ocorre sem um motivo aparente. Ela pode acontecer:
- Durante o sono;
- Após pequenos movimentos;
- Durante uma atividade física;
- Depois de um trauma leve;
- Em dias frios, devido à contração dos músculos da bolsa escrotal.
Portanto, nem sempre existe um trauma importante antes do início da dor.
Quais são os sintomas?
O sintoma mais característico é a dor intensa e de início súbito.
Dor intensa e repentina
A dor costuma:
- Surgir de forma abrupta;
- Atingir apenas um dos lados;
- Ser muito intensa desde o início.
Frequentemente, ela é acompanhada por:
- Náuseas;
- Vômitos;
- Sudorese;
- Dificuldade para caminhar devido à dor.
O quadro pode começar durante o sono e acordar o paciente durante a madrugada.
O testículo pode mudar de posição?
Sim. Durante o exame físico, o médico pode observar:
- Testículo mais elevado;
- Posição mais horizontal do testículo;
- Inchaço da bolsa escrotal;
- Vermelhidão da pele do escroto.
Outro achado possível é a ausência do reflexo cremastérico. Normalmente, quando a parte interna da coxa é estimulada, o músculo cremáster se contrai e eleva o testículo do mesmo lado. Na torção, esse reflexo pode estar ausente.
Embora esse sinal seja útil, a presença ou ausência dele isoladamente não confirma nem exclui o diagnóstico.
Por que essa situação é tão urgente?
O tempo é um dos fatores mais importantes na torção testicular.
Quanto maior o período sem circulação sanguínea adequada, maior é o risco de lesão irreversível e perda do testículo.
De forma geral:
- Até 6 horas: as chances de salvar o testículo são muito altas, frequentemente superiores a 90%;
- Entre 6 e 12 horas: as chances começam a diminuir significativamente;
- Após 12 horas: o risco de lesão permanente aumenta bastante;
- Após 24 horas: em muitos casos, o testículo já não é viável.
Esses períodos são aproximados e podem variar conforme o grau da torção e as características de cada paciente. Ainda assim, eles reforçam que não se deve esperar para ver se a dor melhora.
Existem outras causas de dor testicular?
Sim. A dor testicular aguda pode ocorrer por diversos motivos, entre eles:
- Epididimite;
- Orquite;
- Torção do apêndice testicular;
- Hérnia inguinal encarcerada;
- Trauma;
- Cólica renal com dor irradiada.
Diante de uma dor súbita e intensa, portanto, a prioridade é excluir a torção testicular. Isso é necessário porque, entre essas condições, a torção é aquela em que o atraso no tratamento pode levar rapidamente à perda do órgão.
Como os médicos fazem o diagnóstico?
O diagnóstico começa pela história clínica e pelo exame físico. As características da dor, a forma como ela começou, os sintomas associados e a posição do testículo fornecem informações importantes.
Quando existe suspeita de torção, a avaliação urológica deve ocorrer imediatamente.
Ultrassonografia com Doppler
O exame mais utilizado é a ultrassonografia com Doppler, que avalia o fluxo de sangue para o testículo.
Na torção, geralmente é possível observar:
- Redução importante do fluxo sanguíneo;
- Ausência de fluxo nos casos mais graves.
Entretanto, quando a suspeita clínica é muito alta, a cirurgia não deve ser adiada apenas para aguardar exames.
O atraso pode comprometer a viabilidade do testículo.
Como é feito o tratamento?
O tratamento da torção testicular é cirúrgico. Durante a cirurgia, o urologista:
- Desfaz a torção;
- Avalia se o testículo ainda está viável;
- Fixa o testículo na bolsa escrotal para reduzir o risco de uma nova torção.
Como a alteração anatômica costuma estar presente nos dois lados, o testículo oposto também é fixado preventivamente durante a mesma cirurgia. Esse procedimento recebe o nome de orquidopexia.
É possível destorcer o testículo sem cirurgia?
Em algumas situações, o médico pode tentar realizar uma manobra manual para desfazer temporariamente a torção. No entanto, mesmo quando a dor melhora, a cirurgia continua sendo necessária.
Isso ocorre porque a manobra pode não corrigir totalmente a rotação, e o testículo permanece sujeito a uma nova torção. Portanto, a melhora após uma tentativa manual de reversão da torção não elimina a necessidade de tratamento cirúrgico.
E se o testículo não puder ser salvo?
Quando existe necrose causada pela falta prolongada de circulação, pode ser necessária a retirada do testículo. Esse procedimento é chamado de orquiectomia.
Apesar de essa possibilidade causar preocupação, um único testículo saudável costuma ser suficiente para:
- Produzir testosterona;
- Manter a fertilidade na maioria dos homens.
Entretanto, quanto mais cedo o tratamento for realizado, maior será a chance de evitar essa situação.
A perda de um testículo afeta a fertilidade?
Na maioria dos casos, um testículo saudável consegue manter a produção de espermatozoides e de testosterona.
Por isso, muitos pacientes que perdem um dos testículos continuam apresentando:
- Desenvolvimento sexual normal;
- Produção hormonal adequada;
- Fertilidade preservada.
No entanto, a avaliação pode ser individualizada, especialmente quando existe algum problema no testículo contralateral.
A torção testicular pode voltar?
Se o testículo não for fixado cirurgicamente, existe risco de uma nova torção. Após a orquidopexia, esse risco se torna muito baixo. Por isso, mesmo os casos em que ocorre melhora espontânea da dor precisam ser avaliados.
A dor pode desaparecer sozinha?
Pode. Em alguns pacientes, o testículo gira e depois retorna espontaneamente à posição normal. Esse quadro é conhecido como torção intermitente.
A dor costuma surgir de forma súbita e desaparecer algum tempo depois.
Apesar da melhora, o problema não deve ser ignorado. A torção pode voltar e, em um episódio futuro, não se desfazer espontaneamente. Pessoas que já apresentaram episódios repetidos de dor testicular súbita devem procurar avaliação urológica.
É possível prevenir a torção testicular?
Como a principal causa é uma alteração anatômica congênita, não existe uma forma de prevenir o primeiro episódio. O mais importante é reconhecer rapidamente os sintomas e procurar atendimento imediato.
Pacientes que já tiveram episódios de dor súbita com melhora espontânea também devem ser avaliados, pois podem estar apresentando torções intermitentes.
Quando a condição é identificada, a fixação cirúrgica pode evitar um episódio completo posteriormente.
Vergonha pode atrasar o atendimento
A dor testicular pode causar constrangimento, especialmente em adolescentes. Alguns jovens evitam contar aos pais ou responsáveis, tentam suportar a dor ou esperam várias horas antes de procurar ajuda.
Esse atraso pode reduzir significativamente as chances de preservar o testículo.
Por isso, adolescentes devem ser orientados a comunicar imediatamente qualquer dor intensa ou mudança repentina na bolsa escrotal.
Pais e responsáveis também devem levar a queixa a sério e buscar atendimento sem esperar.
Quando procurar um pronto-socorro?
Toda dor testicular súbita deve motivar uma avaliação médica imediata. Procure um serviço de emergência se ocorrer:
- Dor intensa em um dos testículos;
- Inchaço rápido da bolsa escrotal;
- Náuseas ou vômitos associados à dor;
- Testículo elevado ou em posição diferente do habitual;
- Dor que acorda a pessoa durante a madrugada;
- Dor após pequeno trauma que parece desproporcional;
- Episódios de dor súbita que melhoram espontaneamente.
Nessas situações, não espere para observar se haverá melhora.
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Perguntas frequentes sobre torção testicular
1. O que é torção testicular?
É a rotação do cordão espermático, que reduz ou interrompe o fluxo sanguíneo para o testículo e caracteriza uma emergência cirúrgica.
2. Quem tem maior risco?
A condição é mais frequente em adolescentes e adultos jovens, embora possa ocorrer em qualquer idade, inclusive em crianças e recém-nascidos.
3. Quanto tempo existe para salvar o testículo?
Idealmente, o tratamento deve ocorrer nas primeiras seis horas após o início da dor, período em que as chances de preservar o testículo são maiores.
4. O ultrassom sempre é necessário?
A ultrassonografia com Doppler é muito útil para avaliar o fluxo sanguíneo. Entretanto, quando a suspeita clínica é alta, a cirurgia não deve ser atrasada apenas para realizar exames.
5. A dor pode melhorar sozinha?
Sim. Isso pode ocorrer em casos de torção intermitente, quando o testículo retorna espontaneamente à posição normal. Mesmo assim, o risco permanece e a pessoa deve ser avaliada.
6. Um trauma leve pode causar torção?
Pode. No entanto, muitas torções ocorrem espontaneamente, sem qualquer trauma significativo.
7. A torção pode acontecer durante o sono?
Sim. Muitos episódios começam durante o sono e fazem o paciente acordar com uma dor intensa e repentina.
8. O que acontece se o tratamento demorar?
O atraso pode levar à necrose do testículo e tornar necessária a retirada cirúrgica. Também pode haver impacto na fertilidade e na função hormonal, especialmente se existir algum problema no testículo contralateral. Por isso, a dor testicular súbita deve ser tratada como uma emergência médica.
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