Em idades cada vez menores, as crianças e os adolescentes são expostos a uma grande quantidade de estímulos visuais e sonoros promovidos pelos celulares, tablets e televisões, as vezes durante várias horas por dia.
Com o aumento da distração e da perda de interesse por atividades que precisam de mais concentração, os pais e os professores podem se perguntar se o comportamento indica um quadro de TDAH. Afinal, como diferenciar um transtorno do neurodesenvolvimento de um problema provocado pelo uso excessivo de telas?
O transtorno de déficit de atenção é uma condição que afeta o funcionamento do cérebro e interfere na capacidade de manter o foco, controlar os impulsos e regular o nível de atividade. Ela costuma surgir ainda na infância, mas nem toda dificuldade de concentração ou comportamento agitado significa que a criança tenha o transtorno.
No dia a dia, o consumo em excesso de vídeos curtos, cortes rápidos e jogos hiperestimulantes pode fazer com que o cérebro se acostume a receber estímulos intensos o tempo todo, funcionando de maneira acelerada, provocando sintomas que podem ser confundidos aos do TDAH, mas são resultado de um hábito digital inadequado.
O que é o distúrbio de atenção causado por telas?
O distúrbio de atenção causado pelas telas é uma condição comportamental que acontece quando o cérebro passa longos períodos exposto a estímulos intensos, rápidos e constantes, como vídeos curtos, jogos eletrônicos e conteúdos com mudanças frequentes de imagens e sons.
Com o passar do tempo, a neuropediatra Bárbara Macedo explica que o cérebro se acostuma com o nível de estímulo e começa a preferir atividades que oferecem dopamina instantânea e sem esforço, como o deslizar de dedos em redes sociais de vídeos curtos, por exemplo. Fica muito mais difícil manter o foco em atividades que precisam de concentração prolongada, como estudar, ler, escrever ou até mesmo brincar de forma mais tranquila.
O resultado é uma criança desatenta, inquieta, impaciente e que tende a perder rapidamente o interesse por tarefas consideradas menos estimulantes. Apesar da semelhança com os sintomas do TDAH, a origem do problema está relacionada principalmente aos hábitos digitais e ao excesso de exposição às telas.
Segundo um levantamento do Datafolha com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas diariamente às telas, contrariando as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orientam evitar completamente o uso de telas por crianças menores de 2 anos, com exceção das videochamadas com familiares.
Principais diferenças entre distúrbio por telas e TDAH
Apesar da desatenção, a impaciência e a agitação estarem presentes nas duas situações, a origem e as características de cada uma são completamente diferentes. O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, ou TDAH, é um transtorno do neurodesenvolvimento com base genética e biológica.
Em outras palavras, a criança nasce com a condição, que está relacionada a alterações no funcionamento de áreas do cérebro responsáveis pela atenção, pelo controle dos impulsos e pela regulação da atividade. Os sintomas costumam acompanhar a pessoa em diferentes fases da vida e aparecem em vários ambientes, como a casa, a escola e os momentos de lazer, independentemente da presença das telas.
Já o distúrbio de atenção causado pelo uso excessivo das telas é uma alteração comportamental adquirida ao longo do tempo, diretamente relacionada aos hábitos e ao ambiente.
A condição surge após a exposição frequente a vídeos curtos, jogos eletrônicos e outros conteúdos altamente estimulantes, segundo Bárbara, que fazem o cérebro se acostumar a buscar recompensas rápidas e constantes.
Por que crianças com TDAH são mais atraídas pelos celulares?
O cérebro de uma criança com TDAH apresenta alterações no funcionamento de áreas responsáveis pela atenção, pelo planejamento, pelo controle dos impulsos e pela motivação, que influenciam a ação da dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer, recompensa e motivação.
Por isso, a criança costuma ter mais dificuldade para manter o interesse em atividades que demandam esforço e cuja recompensa demora para chegar. Isso torna os celulares, videogames e as redes sociais extremamente atraentes, porque oferecem recompensas quase imediatas, com curtidas, fases dos jogos, mudanças rápidas de imagens, sons e vídeos curtos.
Como explica Bárbara, quando o TDAH não está sendo tratado adequadamente, seja por meio de acompanhamento profissional, terapias ou, em alguns casos, medicamentos, o cérebro tende a procurar formas mais fáceis de obter a estimulação de que precisa.
Como os dispositivos digitais fornecem recompensas imediatas, a criança pode desenvolver uma preferência cada vez maior pelas telas e perder o interesse por outras atividades do dia a dia, como ler e escrever, por exemplo.
Sinais de alerta: como saber se a tela está prejudicando seu filho?
Quando a tecnologia começa a afetar negativamente o neurodesenvolvimento e a saúde mental dos mais jovens, Bárbara aponta que eles podem apresentar:
- Irritabilidade intensa ao desligar as telas: a criança apresenta crises de choro, explosões de raiva ou comportamentos agressivos quando o celular, o tablet ou a televisão são desligados;
- Tentativas frequentes de negociar mais tempo: a criança ou o adolescente insiste em conseguir mais alguns minutos de tela, faz promessas como “amanhã eu não uso” ou “depois eu compenso” e demonstra dificuldade para aceitar os limites estabelecidos;
- Uso escondido dos aparelhos: levar o celular ou o tablet escondido para a escola, usar os dispositivos durante a madrugada ou desrespeitar as regras da família para continuar conectado também pode indicar um problema;
- Perda de interesse por outras atividades: brincadeiras, esportes, leitura, desenhos e momentos com a família passam a parecer sem graça quando comparados às telas. A criança perde o interesse por atividades que antes faziam parte da rotina;
- Isolamento social: o adolescente prefere passar o tempo livre nas redes sociais ou em jogos online em vez de conversar, brincar ou conviver pessoalmente com amigos e familiares;
- Alterações no sono: dormir cada vez mais tarde, demorar para pegar no sono ou acordar cansado pode ser consequência do uso das telas, principalmente quando os aparelhos são utilizados pouco antes de dormir;
- Alimentação sempre acompanhada por telas: a criança só aceita comer assistindo a vídeos ou desenhos e deixa de prestar atenção na própria refeição. Com o tempo, ela pode comer mais do que precisa, sem perceber os sinais de fome e saciedade.
Nas crianças pequenas, o excesso de telas pode reduzir as interações com os adultos. A falta de contato visual, a dificuldade para imitar gestos e sons e a demora para falar as primeiras palavras merecem atenção, já que o desenvolvimento da linguagem depende da convivência e da comunicação com outras pessoas.
Como fazer o detox digital antes de buscar um diagnóstico?
O detox digital, que consiste em desconectar temporariamente de celulares, videogames e computadores, ajuda a diminuir o excesso de estímulos e permite avaliar com mais clareza o funcionamento do cérebro e a verdadeira origem dos sintomas. Segundo Bárbara, a transição deve ser feita de maneira gradual e estruturada:
1. Crie uma rotina previsível
Se você desligar a tela de uma hora para outra, a criança pode ficar irritada e ter crises de choro. O ideal é combinar os horários com antecedência e avisar quando o tempo estiver acabando, para ajudá-la a se preparar para a mudança.
2. Troque a tela por outras atividades
Além de tirar o celular ou o tablet, a criança precisa encontrar outras formas de brincar e se divertir. Você pode investir em atividades que estimulam o corpo e os sentidos, como:
- Pintura com tintas ou lápis de cor;
- Massinha de modelar;
- Blocos de montar;
- Brincadeiras ao ar livre, como correr, andar de bicicleta ou brincar na grama.
Com o passar dos dias, muitas crianças voltam a se interessar por brincadeiras que haviam sido deixadas de lado por causa do excesso de tempo em frente às telas.
3. Leve opções para os passeios
Os restaurantes, consultas e salas de espera costumam ser momentos em que o celular vira a solução mais fácil para entreter a criança. Para evitar isso, leve uma bolsa com livros de histórias, cadernos para desenhar, revistas de atividades, lápis de cor e cartelas de adesivos.
4. Evite telas nas refeições e antes de dormir
Segundo Bárbara, as refeições devem acontecer sem celulares, tablets ou televisão ligados. Comer prestando atenção na comida ajuda a criança a reconhecer os sinais de fome e saciedade e favorece a convivência com a família.
Também é importante desligar os aparelhos entre uma e duas horas antes de dormir. A luz emitida pelas telas reduz a produção de melatonina, hormônio que prepara o organismo para o sono, dificultando o descanso.
5. Dê o exemplo
As crianças aprendem principalmente pelo exemplo. Quando pais e cuidadores passam boa parte do tempo no celular, fica mais difícil mostrar que existem outras formas de brincar, se divertir e passar o tempo.
O recomendado é reservar momentos em que toda a família deixa os aparelhos de lado para conversar, brincar ou fazer as refeições juntos, o que ajuda a hábitos mais saudáveis e fortalece os vínculos entre todos.
Quando ir ao pediatra?
Se a criança apresentar os seguintes sintomas, vale agendar uma consulta com o pediatra:
- Alterações no desenvolvimento ou no comportamento: dificuldade importante para se concentrar, agitação acima do esperado para a idade, atraso para começar a falar, andar ou interagir com outras crianças;
- Sinais relacionados ao uso das telas: irritabilidade intensa quando os aparelhos são desligados, isolamento social ou crises frequentes de choro;
- Sintomas físicos persistentes: tosse leve por mais de uma semana, coceira na pele, falta de apetite por vários dias ou dores recorrentes, como dor de cabeça ou dor na barriga;
- Mudanças no sono ou no intestino: dificuldade para dormir, pesadelos frequentes, prisão de ventre ou diarreia leve que persiste por mais de três dias.
Na consulta, o pediatra avaliará o histórico da criança, o tempo de duração dos sintomas e o impacto que eles estão causando na rotina. Também poderá investigar se as dificuldades estão relacionadas ao excesso de telas, a algum transtorno do neurodesenvolvimento ou a outro problema de saúde.
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Perguntas frequentes
1. Como o excesso de telas prejudica o sono infantil?
A luz azul emitida pelos aparelhos inibe a produção de melatonina (o hormônio do sono). Como resultado, a criança demora mais para dormir e tem um sono mais agitado e superficial.
2. O uso de telas pode atrasar a fala do bebê?
Sim, a fala é desenvolvida pela imitação e pela troca de afetos humana. A tela é um estímulo passivo onde o bebê apenas assiste, o que prejudica a aquisição da linguagem e do vocabulário.
3. Por que as crianças têm crises de raiva quando os pais desligam o celular?
Porque as telas atuais são hiperestimulantes (cortes rápidos e luzes). Ao desligá-las abruptamente, o cérebro sofre uma queda brusca de dopamina, gerando frustração e incapacidade de autorregulação.
4. O videogame online substitui a socialização real dos adolescentes?
Não. Nos jogos online atuais, os jovens jogam isolados em seus quartos, e isso não substitui a troca de olhares, o afeto e o aprendizado social que acontecem em interações presenciais.
5. O que é considerado “tela” para as crianças?
Qualquer dispositivo que emita luz azul e ofereça estímulos visuais ou sonoros, como smartphones, tablets, televisões, notebooks, videogames e até aparelhos usados para tarefas escolares digitais.
6. Qual é o tempo de tela recomendado para bebês de até 2 anos?
O recomendado é zero telas. A única exceção aberta pelos órgãos de saúde são as videochamadas de curta duração para falar com parentes distantes, pois envolvem interação social.
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