Mudanças rápidas de humor, agitação intensa e falta de concentração são só alguns dos sintomas que costumam surgir na primeira infância, quando o cérebro da criança ainda está em desenvolvimento e ela está aprendendo, aos poucos, a controlar as próprias emoções.
Apesar de completamente normal para a fase, alguns pais podem se perguntar se o comportamento agitado pode ser um sinal de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
A linha entre a energia natural da infância, especialmente na fase do famoso ‘terrible two’, e os primeiros indícios de um transtorno podem parecer muito semelhantes, mas será que é possível fechar um diagnóstico quando o bebê ou a criança ainda é tão pequena?
O diagnóstico de TDAH costuma ser mais seguro e preciso entre os 5 e 6 anos de idade, mas a investigação e o olhar atento dos pais e especialistas podem (e devem) começar bem antes.
O diagnóstico de TDAH é possível antes dos 4 anos?
Segundo a neuropediatra Bárbara Macedo, o diagnóstico de TDAH ainda não é possível em crianças abaixo de 4 anos de idade. A região do cérebro diretamente ligada ao TDAH é o córtex pré-frontal, responsável pelas chamadas funções executivas: o controle dos impulsos, a capacidade de focar a atenção, a organização e a regulação emocional.
Em crianças abaixo dos 4 anos, a especialista explica que a estrutura neurológica está apenas iniciando o processo de maturação.
“Comportamentos como agitação, impulsividade e dificuldade de atenção fazem parte do desenvolvimento normal nessa idade. Não é à toa que todos os pais já falam sobre o terrible two, que na verdade vai até os 4 anos”, explica a especialista.
Como os comportamentos se sobrepõem bastante aos sintomas do TDAH, é clinicamente muito difícil diferenciar o que faz parte de uma fase normal do desenvolvimento infantil do que realmente representa um transtorno do neurodesenvolvimento.
Importante: não ser possível fechar o diagnóstico não significa que os pais devam ignorar os sinais. Se a agitação for totalmente desproporcional ou se houver prejuízo no desenvolvimento, a criança já pode entrar em acompanhamento preventivo com um neuropediatra ou psicólogo infantil.
Sintomas normais da infância vs. Sinais de alerta de TDAH
Como o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, a diferença entre um comportamento esperado para a idade e um sinal de alerta costuma estar em três fatores principais: a intensidade, a frequência e o impacto que esse comportamento causa no dia a dia da criança.
O que é esperado no desenvolvimento infantil
- Distração é seletiva: a criança perde o foco em atividades de que não gosta, mas consegue ficar concentrada por vários minutos brincando, ouvindo uma história ou assistindo a um desenho de que gosta;
- Muita energia, mas com controle: ela corre, pula e brinca bastante, porém consegue diminuir o ritmo por alguns minutos quando a situação exige, como durante uma refeição ou no colo dos pais;
- Birras fazem parte da idade: quando é contrariada, pode chorar, gritar ou fazer uma birra, mas costuma se acalmar após receber acolhimento ou quando a atenção é direcionada para outra atividade;
- Comportamento semelhante ao de outras crianças: o nível de agitação, curiosidade e teimosia é compatível com o esperado para a idade e parecido com o dos colegas da escola ou do parquinho.
Sinais de alerta para TDAH
- Não consegue manter a atenção nem em atividades de que gosta: a criança troca de brinquedo ou de atividade o tempo todo, sem conseguir permanecer concentrada por mais do que alguns segundos ou poucos minutos, mesmo quando a brincadeira é nova e divertida;
- Agitação muito acima do esperado para a idade: parece estar em movimento o tempo inteiro, não consegue ficar sentada nem durante as refeições, corre, sobe em móveis e se movimenta sem parar, mesmo em momentos que demandam calma;
- Impulsividade que coloca a segurança em risco: age sem pensar nas consequências, podendo correr para a rua, pular de lugares altos ou mexer em objetos perigosos. Também pode apresentar comportamentos agressivos frequentes, como morder, empurrar ou bater sem um motivo claro;
- Grande dificuldade para seguir a rotina: tarefas simples, como guardar os brinquedos, tomar banho, comer ou ir dormir, geram resistência intensa todos os dias, tornando qualquer mudança de atividade muito difícil e desgastante para a criança e para a família.
“Se a criança apresenta um nível de agitação muito acima do esperado para a idade, ou uma dificuldade extrema de se concentrar dentro do esperado para a idade, não conseguindo permanecer sentada por mais do que 3 segundos, já é possível acompanhar de perto”, destaca Bárbara.
Como funciona a investigação do TDAH na infância?
O diagnóstico do TDAH em crianças pequenas é um processo clínico e multidisciplinar, feito por médicos, psicólogos e, quando necessário, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais da saúde.
Como não existem exames de laboratório capazes de identificar a condição, a avaliação é baseada na observação detalhada do comportamento da criança, no histórico de desenvolvimento, nos relatos da família e da escola, além da exclusão de outras condições que podem provocar sintomas semelhantes, como ansiedade e transtornos do sono.
Além disso, os sintomas precisam estar presentes em diferentes ambientes, como em casa e na escola, persistir por um período prolongado e causar prejuízos reais na aprendizagem, na socialização ou na rotina da criança. Só depois de uma investigação cuidadosa é que a equipe pode confirmar ou descartar o diagnóstico de TDAH.
Por que começar o acompanhamento médico mesmo sem um diagnóstico fechado?
Mesmo quando ainda não é possível confirmar o TDAH, o acompanhamento médico consegue monitorar o desenvolvimento da criança ao longo do tempo e identificar precocemente qualquer alteração que precise de atenção.
Quanto mais cedo os profissionais acompanham a evolução dos sintomas, mais fácil é diferenciar o que faz parte do desenvolvimento normal do que realmente indica um transtorno.
Durante o período, a família também recebe orientações sobre estratégias para lidar com os comportamentos da criança, melhorar a rotina, estabelecer limites e estimular o desenvolvimento de habilidades importantes, como atenção, linguagem e autorregulação.
Se os sintomas diminuírem com o amadurecimento, provavelmente faziam parte de uma fase do desenvolvimento. Caso eles persistam ou fiquem mais intensos, a criança já estará sendo acompanhada e pode iniciar o tratamento adequado.
Leia mais: Distúrbio de atenção por telas ou TDAH: como é possível diferenciar?
Perguntas frequentes
1. O que causa o TDAH na infância?
É um transtorno neurobiológico de forte base genética. Alterações na regulação de neurotransmissores (como a dopamina) e fatores ambientais na gestação também podem influenciar.
2. Existe exame de sangue ou de imagem para detectar o TDAH?
Não. O diagnóstico é 100% clínico, baseado na observação do comportamento da criança em diferentes ambientes e no relato de pais e professores.
3. Qual é a diferença entre birra normal e sintoma de TDAH?
A birra comum cede após o acolhimento ou distração. No TDAH, a impulsividade e a desregulação emocional são extremas, frequentes e muito difíceis de conter.
4. Crianças com TDAH demoram mais para falar?
Não necessariamente, mas atrasos na fala podem coexistir com o TDAH. A dificuldade de comunicação também pode gerar uma agitação parecida com o transtorno.
5. Qual a diferença entre TDAH e autismo (TEA)?
No TDAH, o foco principal é a desatenção e a hiperatividade. No autismo, o foco está em dificuldades de comunicação social, interesses restritos e comportamentos repetitivos. Uma criança pode ter ambos.
6. O TDAH tem cura?
Não tem cura, pois é uma condição neurobiológica que acompanha a pessoa ao longo da vida. No entanto, com o tratamento adequado, a criança aprende a controlar os sintomas e tem uma vida normal.
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