Por que o autismo pode passar despercebido até a vida adulta? Conheça os sinais mais comuns

Mulher jovem com óculos focada em uma atividade criativa, ilustrando o hiperfoco, um dos sinais sutis dos níveis de suporte do autismo na vida adulta.

Apesar de frequentemente percebido na primeira infância, por ser a fase de desenvolvimento da linguagem, interação social e do comportamento, o transtorno do espectro autista (TEA) nem sempre se manifesta de forma óbvia nos primeiros anos de vida.

Na verdade, para muitos adultos, o processo até o diagnóstico é marcado por uma sensação persistente de ser diferente ou de precisar realizar um esforço imenso para realizar tarefas que parecem naturais para os outros.

Mas por que isso acontece? No dia a dia, pessoas com níveis de suporte mais baixos podem desenvolver mecanismos de defesa para se ajustarem às expectativas da sociedade.

Segundo a neurologista Paula Dieckmann, ao longo dos anos, elas aprendem a imitar gestos, forçar contato visual e decorar roteiros sociais, um fenômeno conhecido como masking.

O processo, que tende a ser exaustivo e doloroso, pode causar um grande desgaste emocional e mental, aumentando os riscos de burnout, depressão e ansiedade.

O que explica o diagnóstico tardio de autismo?

O diagnóstico tardio de autismo, seja na adolescência, vida adulta ou mesmo na terceira idade, pode acontecer por uma série de fatores, mas normalmente envolve a forma como o TEA se manifesta.

Em pessoas com nível de suporte 1, os sinais na infância tendem a ser mais sutis e acabam sendo interpretados como traços de personalidade, como timidez, perfeccionismo ou necessidade de rotina.

Com isso, muitas das crianças conseguem acompanhar as demandas do dia a dia sem levantar suspeitas, especialmente quando têm bom desempenho escolar ou conseguem manter interações sociais consideradas adequadas.

Ao longo da vida, muitas pessoas com o espectro também desenvolvem estratégias para imitar comportamentos neurotípicos, como forçar contato visual e decorar roteiros de conversação, o que é conhecido como masking.

Isso é mais comum em mulheres, que muitas vezes recebem menos diagnósticos porque apresentam interesses mais aceitos socialmente e são incentivadas, desde cedo, a se adaptar melhor às situações sociais.

Mas, na vida adulta, com o aumento das demandas, manter as adaptações pode ser extremamente exaustivo. Por isso, é comum que ela apresente quadros de ansiedade, cansaço intenso e sensação de não pertencimento, o que leva à busca por ajuda e, finalmente, ao diagnóstico.

Como identificar os sinais de autismo em adultos?

Na vida adulta, os sinais costumam ser mais internos e sutis do que na infância, mas, quando analisados em conjunto, mostram um padrão de processamento neurológico diferente:

  • Dificuldade em manter conversas sociais: pode haver um esforço grande para entender o momento de falar ou para captar as nuances de uma conversa. Isso inclui dificuldade em entender sarcasmo, ironia ou expressões de duplo sentido, levando a uma interpretação muito literal da fala alheia;
  • Desconforto com contato visual: muitos adultos relatam que olhar nos olhos é algo invasivo, desconfortável ou que exige tanta concentração que eles perdem o fio da meada do que está sendo dito;
  • Hipersensibilidade ou hipossensibilidade sensorial: uma reação intensa a estímulos que outros ignoram, como o barulho de uma lâmpada fluorescente, o toque de certas etiquetas de roupas ou o cheiro de determinados alimentos. Por outro lado, pode haver uma alta tolerância à dor ou temperatura;
  • Apego rígido a rotinas: mudanças de última hora nos planos podem gerar uma ansiedade desproporcional ou um sentimento de desorientação, pois a rotina funciona como um suporte de segurança emocional;
  • Foco intenso em interesses específicos (hiperfoco): dedicar uma quantidade excepcional de tempo e energia a um tema, hobby ou área do conhecimento. O adulto pode se tornar um especialista profundo em assuntos específicos e sentir grande prazer em falar sobre eles detalhadamente;
  • Dificuldade em ler sinais não verbais: ter dificuldade para interpretar expressões faciais, linguagem corporal ou o “clima” de um ambiente. Isso pode fazer com que a pessoa pareça, sem querer, indiferente ou inadequada em situações sociais;
  • Exaustão social (social burnout): sentir-se completamente drenado após eventos sociais simples, como uma reunião de trabalho ou um jantar, precisando de muito tempo de isolamento e silêncio para “recarregar as baterias”;
  • Comportamentos repetitivos ou estereotipados: na vida adulta, movimentos como balançar o corpo ou as mãos podem ser substituídos por hábitos mais discretos, como mexer repetidamente no cabelo, roer unhas, balançar a perna ou estalar os dedos de forma constante para autorregulação.

É importante lembrar que o autismo é um espectro, então uma pessoa não precisa apresentar todos os sinais para estar dentro dele, e a intensidade de cada característica varia muito de um indivíduo para outro. Se você se identifica com vários dos pontos, o ideal é buscar uma avaliação com um psicólogo especializado ou psiquiatra.

Como é feito o diagnóstico de autismo na vida adulta?

O diagnóstico de autismo (TEA) na vida adulta é clínico, feito por profissionais especializados, como psiquiatras ou neurologistas, e envolve uma avaliação cuidadosa e aprofundada de toda a trajetória da pessoa. O processo inclui:

  • Entrevistas detalhadas (anamnese);
  • Levantamento do histórico de vida desde a infância;
  • Análise do funcionamento atual;
  • Observação do comportamento em diferentes contextos de vida.

Na prática, o profissional busca entender como a pessoa se comunica, como se relaciona, como lida com mudanças, com estímulos do ambiente e com a própria rotina. Também podem ser usados questionários padronizados e escalas específicas que ajudam a organizar as informações e identificar padrões consistentes com o espectro autista.

A avaliação neuropsicológica também pode ser necessária, pois ela permite analisar funções cognitivas como atenção, memória, linguagem, flexibilidade mental e habilidades sociais, trazendo um panorama mais completo do funcionamento da pessoa.

Normalmente, Paula explica que familiares ou pessoas próximas podem ser convidados a contribuir com informações, especialmente sobre a infância, já que os sinais do TEA estão presentes desde as fases iniciais do desenvolvimento, mesmo que tenham passado despercebidos.

Fechei o diagnóstico, e agora?

No primeiro momento, é comum sentir alívio por finalmente ter uma resposta para algo que você sempre viveu, mas também é normal sentir luto pelo tempo perdido sem suporte adequado, raiva pelo diagnóstico tardio, e às vezes uma desorientação sobre o que fazer com a informação nova.

A partir do diagnóstico, lembre-se que ele não muda quem você é, apenas oferece respostas e ferramentas para ter uma qualidade de vida melhor. Com ele, fica mais fácil identificar limites, reconhecer necessidades e buscar medidas para lidar com os aspectos que causam sofrimento, como sobrecarga sensorial, esgotamento por masking e relações interpessoais, por exemplo.

Nesse período, uma dica é conversar com outros adultos com o transtorno. Existem grupos de apoio e comunidades online que ajudam a perceber que seus desafios e talentos são compartilhados por muitos outros, reduzindo o sentimento de solidão.

No Brasil, a Lei Berenice Piana (Lei 12.764/12) assegura ao adulto com TEA direitos como atendimento prioritário, acesso a serviços de saúde especializados pelo SUS e, em alguns contextos, acomodações no ambiente de trabalho e educacional.

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Perguntas frequentes

1. O autismo pode surgir apenas na vida adulta?

Não. O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, o que significa que ele nasce com a pessoa. O que acontece na vida adulta é o diagnóstico, não o surgimento da condição.

2. O que é o nível de suporte no autismo?

Atualmente, o autismo é classificado em níveis (1, 2 e 3), baseados em quanta ajuda a pessoa precisa para realizar atividades diárias e se comunicar.

3. Por que muitos autistas evitam contato visual?

Para muitos, o contato visual é sensorialmente desconfortável ou distrai o cérebro, dificultando o processamento do que a outra pessoa está dizendo.

4. O que é uma “crise sensorial” ou meltdown no adulto?

É uma resposta à sobrecarga de estímulos (sons, luzes, estresse). No adulto, pode se manifestar como uma explosão de irritabilidade ou uma necessidade urgente de se isolar.

5. Existe exame de sangue para detectar autismo?

Não. O diagnóstico é estritamente clínico, baseado na observação do comportamento e no histórico do paciente.

6. Adultos com autismo precisam tomar remédio?

Não existe remédio para o autismo em si. Medicamentos podem ser usados para tratar condições associadas, como ansiedade, insônia ou depressão.

7. O adulto com autismo pode tirar carteira de motorista?

Sim, desde que passe nos testes psicotécnicos e práticos exigidos pelo DETRAN, como qualquer outra pessoa.

Veja também: Autismo em adultos: sinais que você pode não saber e quando buscar diagnóstico