Você já sentiu aquele alívio imediato ao estalar o pescoço ou ao passar por uma sessão de quiropraxia para aliviar a tensão do dia a dia? A prática, chamada de manipulação cervical, é comum para reduzir dores musculares e melhorar a sensação de rigidez, principalmente após longos períodos na mesma posição.
Mas, apesar do alívio quase instantâneo, a região do pescoço possui estruturas importantes, como as artérias carótidas e vertebrais, responsáveis por levar sangue ao cérebro. Em alguns casos mais raros, a manipulação inadequada pode causar condições sérias, como a dissecção arterial e até mesmo ao risco de um AVC.
Mas por que isso acontece e quem deve ter mais cautela? Conversamos com o cirurgião Marcelo Dálio para entender como os movimentos impactam a saúde vascular.
O que é manipulação cervical?
A manipulação cervical é um procedimento feito na região do pescoço, realizado por profissionais como fisioterapeutas, quiropraxistas ou médicos especializados.
Ela envolve movimentos aplicados nas articulações da coluna cervical, que podem ser mais lentos e suaves ou mais rápidos, dependendo da técnica utilizada. Eles contribuem para melhorar a mobilidade do pescoço, aliviar dores e diminuir a tensão muscular.
Em alguns casos, eles podem até produzir um estalo no pescoço, que muitas pessoas acreditam ser o “osso saindo do lugar”, mas consiste apenas na liberação de gás dentro da articulação.
A manipulação cervical costuma ser indicada para pessoas com dor no pescoço, sensação de rigidez, tensão acumulada no dia a dia e até para alguns tipos de dor de cabeça que têm relação com a musculatura da região.
Estalar o pescoço é perigoso?
Na maioria dos casos, a manipulação cervical não é perigosa quando é feita por um profissional qualificado e com técnica adequada, mas não é um procedimento totalmente livre de riscos. De acordo com Marcelo, o principal ponto de atenção está nos movimentos muito bruscos ou rápidos.
Em casos raros, esse tipo de movimento afeta estruturas importantes do pescoço, como as artérias responsáveis por levar sangue para o cérebro, e interfere no fluxo sanguíneo. Quando isso acontece, pode haver uma alteração na circulação, o que, em situações mais graves, pode comprometer a oxigenação do cérebro e levar a complicações neurológicas.
Marcelo também explica que, se a pessoa tiver uma fragilidade nos tecidos, o problema pode acontecer em outras situações do dia a dia, como andar de moto, fazer uma freada brusca, sofrer um acidente de carro ou até durante a prática de alguns esportes.
Os riscos para as artérias
Diferente de outras partes do corpo, o pescoço possui artérias importantes para a irrigação do cérebro: a carótida e a vertebral. Os movimentos súbitos podem levar a uma condição chamada dissecção arterial, que ocorre quando a camada interna do vaso sanguíneo sofre um pequeno rasgo.
Segundo Marcelo, as artérias do pescoço são formadas por três camadas sobrepostas, sendo elas:
- Camada interna (íntima), que é o revestimento liso por onde o sangue desliza;
- Camada média, composta por músculos que controlam a abertura do vaso;
- Camada externa (adventícia), que funciona como uma capa de proteção.
Quando acontece um movimento muito rápido ou com força, como em uma manipulação cervical, um acidente ou até durante um esporte, a camada interna pode se soltar da camada do meio, o que cria um pequeno espaço dentro da parede da artéria e permite que o sangue entre, criando um volume onde não deveria existir nada.
Como consequência, podem acontecer duas complicações:
- O sangue acumulado pode formar coágulos. Se um deles se soltar, pode seguir pela circulação até o cérebro e bloquear a passagem do sangue, causando um AVC isquêmico;
- O acúmulo de sangue dentro da parede pode apertar a artéria por dentro, diminuindo ou até interrompendo o fluxo sanguíneo.
Vale destacar que nem toda dissecção resulta em sequelas. Marcelo explica que, em situações leves, o paciente pode sentir apenas dor local intensa no pescoço ou na base da cabeça, e o próprio organismo consegue cicatrizar a lesão em alguns dias.
No entanto, como não há como prever a evolução do quadro sem exames médicos, qualquer sintoma neurológico após um estalo ou movimento brusco deve ser tratado como emergência.
Quem tem mais risco de ter lesões no pescoço?
Qualquer pessoa pode sofrer uma dissecção arterial após um movimento brusco, mas alguns grupos possuem uma predisposição maior devido a fatores genéticos ou condições de saúde que fragilizam a estrutura dos vasos sanguíneos, como Marcelo aponta:
- Doenças do colágeno: condições como a Síndrome de Ehlers-Danlos ou a Síndrome de Marfan tornam os tecidos e os vasos sanguíneos mais elásticos e propensos a rasgos;
- Fragilidade arterial não diagnosticada: muitas pessoas possuem uma fraqueza estrutural nas artérias que não se manifesta em exames de rotina, sendo descoberta apenas após um evento súbito;
- Hipertensão (pressão alta): a pressão constante contra as paredes das artérias pode enfraquecê-las ao longo do tempo;
- Envelhecimento: naturalmente, as artérias perdem parte da sua elasticidade e resistência com o passar dos anos.
Na prática, o cirurgião explica que é muito difícil saber quem tem mais risco. Muitas vezes, quem sofre esse tipo de lesão são pessoas jovens e consideradas saudáveis. Elas fazem um movimento comum ou passam por uma manipulação no pescoço e acabam tendo o problema por causa de uma fragilidade que não dava sinais antes.
Sinais de alerta após manipular o pescoço
Se a manipulação causar uma dissecção arterial, os sintomas podem surgir imediatamente ou algumas horas depois. Procure um pronto-socorro se apresentar qualquer um dos seguintes sinais:
- Perda de força em um dos braços, pernas ou em apenas um lado do corpo;
- Desvio da boca (boca torta) ou dificuldade para sorrir;
- Fala enrolada, confusa ou incapacidade de articular palavras;
- Visão embaçada, dupla ou perda súbita de parte do campo de visão;
- Perda de equilíbrio ou coordenação motora.
Nem toda dor após a manipulação no pescoço indica algo grave, mas também é importante ficar atento se a dor é súbita, muito intensa e persistente, localizada na lateral do pescoço ou na base da cabeça (nuca). Ela pode ser o primeiro sinal de que a camada da artéria sofreu um rasgo.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da dissecção arterial é feito com base na avaliação clínica e na realização de exames de imagem, como ultrassom, tomografia computadorizada e ressonância magnética, que permitem visualizar o fluxo sanguíneo e as camadas das artérias.
O tratamento depende da gravidade, mas, em geral, Marcelo aponta que são utilizados remédios anticoagulantes por um período de três a seis meses, para evitar a formação de coágulos enquanto o corpo cicatriza a artéria.
Em situações mais leves, o corpo consegue se recuperar sozinho com o suporte do tratamento clínico. Já em casos mais graves, pode ser necessário um acompanhamento mais próximo e, em raras situações, outros tipos de intervenção.
Recomendações para evitar complicações
A principal recomendação para evitar a dissecção arterial e outras lesões graves é evitar movimentos bruscos e de grande amplitude no pescoço. Como não é possível saber antecipadamente quem tem artérias mais frágeis, o ideal é que todos tenham cautela.
Segundo Marcelo, não é preciso descartar as terapias, mas é importante reconhecer que existe um risco. Alguns profissionais trabalham de forma mais cuidadosa e optam por evitar manobras mais intensas.
Se você já sofreu uma dissecção arterial, o cuidado deve ser ainda mais rigoroso para permitir que a artéria cicatrize completamente e para evitar novas lesões:
- Evitar esportes de impacto, como lutas, futebol e basquete, que podem causar trancos no pescoço;
- Preferir atividades leves, como caminhada, natação ou ciclismo, que são mais seguras para a região cervical;
- Seguir corretamente o uso dos medicamentos prescritos, sem interromper por conta própria;
- Realizar os exames de acompanhamento nos prazos indicados para avaliar a recuperação das artérias.
No dia a dia, priorize uma rotina com movimentos mais suaves, boa postura e alongamentos leves, sem forçar a região. Sempre que houver dor persistente ou qualquer sintoma diferente, o ideal é procurar avaliação médica.
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Perguntas frequentes
1. Estalar o pescoço sozinho pode causar um AVC?
Embora seja raro, estalos feitos de forma brusca, rápida e com muita força podem causar um rasgo na artéria (dissecção), o que pode levar à formação de um coágulo e, consequentemente, a um AVC.
2. Quais são as artérias que passam pelo pescoço?
As principais são as artérias carótidas (na frente) e as artérias vertebrais (que passam por dentro das vértebras da coluna cervical). Elas são responsáveis por levar sangue ao cérebro.
3. Quanto tempo depois de um estalo no pescoço pode ocorrer um AVC?
O AVC pode ser imediato ou ocorrer horas e até dias depois, conforme o coágulo se forma e se desloca para o cérebro.
4. É seguro fazer massagem no pescoço?
Massagens relaxantes e superficiais são seguras. O risco está em manobras de “ajuste” que envolvem movimentos rápidos, secos e de grande amplitude.
5. Problemas na fala podem indicar um AVC?
Sim. A dificuldade para articular palavras (fala “bolada”), usar palavras que não fazem sentido ou a incapacidade total de falar são sinais graves de que o cérebro não está recebendo sangue adequadamente.
6. Qual é o teste mais rápido para identificar um AVC em casa?
Use a regra do SAMU: sorriso (peça para sorrir e veja se a boca entorta), abraço (veja se a pessoa consegue levantar os dois braços), música (peça para repetir uma frase ou música e note se a fala está enrolada) e urgência (se houver alteração, ligue 192).
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