Em casos de emergências médicas, como condições que colocam a vida do paciente em risco, costuma ser necessária uma cirurgia imediata para evitar complicações graves, independentemente da fase da vida da pessoa. Mas o que acontece quando essas situações ocorrem durante a gravidez?
De acordo com a ginecologista e obstetra Andreia Sapienza, quando se trata de uma emergência, a decisão sempre envolve avaliar os riscos e os benefícios, tanto para a mãe quanto para o bebê.
Quando não há como esperar, a equipe médica avalia o momento da gestação, o tipo de cirurgia e as condições clínicas da gestante para reduzir ao máximo os riscos. Sempre que possível, o procedimento é planejado, mas, em situações urgentes, ele pode ser feito em qualquer fase da gravidez.
É seguro realizar uma cirurgia durante a gravidez?
A cirurgia pode ser realizada durante a gravidez quando há indicação, especialmente em situações de urgência ou emergência. Nesses casos, não operar pode trazer mais riscos do que o próprio procedimento.
Em casos de emergência, a prioridade é a saúde da mãe, porque o bem-estar materno está diretamente ligado à segurança do bebê. Quando a gestante está estável, as chances da gestação evoluir bem são maiores.
Quando a cirurgia na gravidez pode ser necessária?
A cirurgia durante a gravidez costuma ser indicada em situações que não podem esperar, como aponta Andreia:
- Trauma com sangramento interno (abdômen agudo hemorrágico): são situações graves, com risco de vida, que exigem intervenção rápida para controlar o sangramento;
- Apendicite aguda: é a inflamação do apêndice que pode evoluir com complicações se não for tratada rapidamente;
- Colecistite aguda: consiste em uma inflamação da vesícula biliar causada por cálculos. A presença de cálculos isoladamente não indica cirurgia, mas a inflamação sim;
- Obstrução intestinal: é o bloqueio no intestino que impede a passagem do conteúdo intestinal;
- Torções (como torção de ovário ou intestinal): comprometem a circulação local e podem levar à perda do órgão se não tratadas;
- Problemas vasculares: são alterações que afetam o fluxo sanguíneo e podem causar isquemia;
- Hérnia encarcerada: quando parte do intestino fica presa e não retorna para a posição normal, com risco de comprometimento da circulação e morte do tecido.
A cirurgia também pode ser necessária em casos de infecções graves ou quando há comprometimento de algum órgão. Nesses cenários, agir rapidamente evita complicações maiores.
Como o tempo de gestação influencia a cirurgia?
A equipe médica avalia com cuidado o estágio da gestação e adapta o procedimento para cada fase, sempre pensando na segurança da mãe e do bebê.
1. Primeiro trimestre
A realização de cirurgias é evitada no primeiro trimestre da gravidez, pois o bebê ainda está formando os órgãos, então há mais cautela com os medicamentos e com o estresse da cirurgia, que podem interferir no desenvolvimento.
Ainda assim, quando há urgência, o procedimento é realizado com monitoramento rigoroso por ultrassom, segundo Andreia.
2. Segundo trimestre
O segundo trimestre costuma ser a fase mais segura para realizar cirurgias, quando há possibilidade de planejamento. O bebê já passou pela fase inicial de formação, e Andreia explica que o risco de aborto ou de parto prematuro é menor em comparação com os outros períodos.
3. Terceiro trimestre
No terceiro trimestre, o principal cuidado é com o risco de parto prematuro. O útero também está maior, o que pode dificultar alguns tipos de cirurgia, principalmente na região abdominal. Por isso, o procedimento exige ainda mais planejamento e experiência da equipe.
Tipos de anestesia usados com gestantes
Sempre que possível, Andreia esclarece que a preferência é pela anestesia regional, pois ela reduz a exposição do bebê aos medicamentos.
Ainda assim, a anestesia geral pode ser necessária em casos de emergências complexas, o que exige um monitoramento rigoroso para garantir que a oxigenação e a circulação da mãe estejam perfeitas, já que isso influencia diretamente o aporte de oxigênio para o bebê.
Como o bebê é monitorado durante o procedimento?
O monitoramento do bebé durante uma cirurgia de emergência depende da idade gestacional, pois a forma como o feto responde ao estímulo e a sua viabilidade mudam ao longo da gravidez.
De acordo com Andreia, antes das 24 semanas, o acompanhamento é feito via ultrassom antes e depois do procedimento. Depois disso, já é possível realizar a cardiotocografia, que avalia os batimentos cardíacos e o bem-estar fetal.
A partir de aproximadamente 24 semanas, o bebê já tem alguma chance de sobreviver fora do útero com suporte de UTI neonatal. Em casos de sofrimento fetal, pode ser necessário antecipar o parto.
Segundo a ginecologista, durante toda a cirurgia, é fundamental garantir uma boa oxigenação e uma boa circulação materna, pois isso influencia diretamente o fornecimento de oxigênio e nutrientes para o bebê.
Cuidados para reduzir riscos no pós-operatório
Para garantir que a gestação continue com segurança após a cirurgia, são necessários alguns cuidados, como:
- Estabilidade da mãe: manter uma boa oxigenação e circulação é o mais importante, porque o bebê depende disso;
- Controle de contrações: em alguns casos, podem ser usados medicamentos para evitar contrações e reduzir o risco de parto prematuro;
- Maturação pulmonar do bebê: se houver risco de parto antecipado, a mãe pode receber medicação para ajudar no desenvolvimento dos pulmões do bebê;
- Prevenção de trombose: como a cirurgia e a gravidez aumentam o risco, são adotadas medidas para evitar a formação de coágulos.
No geral, tudo é pensado para proteger a mãe e o bebê ao mesmo tempo, com uma equipe preparada e um acompanhamento próximo em todas as etapas.
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Perguntas frequentes
1. A anestesia geral pode prejudicar a formação do bebê?
No primeiro trimestre, há maior cautela, mas as anestesias modernas são seguras. Sempre que possível, prefere-se a anestesia regional para reduzir a exposição fetal.
2. O bebê sente dor durante a cirurgia da mãe?
Não. Os medicamentos anestésicos que a mãe recebe também garantem que o bebê não sinta desconforto durante o procedimento.
3. Pode-se fazer cirurgia por vídeo (laparoscopia) em gestantes?
Sim, a laparoscopia é frequentemente preferida por ser menos invasiva, permitindo uma recuperação mais rápida e menos manipulação do útero.
4. Uma cirurgia pode causar aborto ou parto prematuro?
Existe um risco aumentado, especialmente se houver infecção ou inflamação grave no abdômen, mas a equipe utiliza medicamentos para inibir contrações e proteger a gestação.
5. Grávidas podem operar hérnias?
Apenas se a hérnia estiver “encarcerada” (presa), o que pode interromper a circulação do intestino. Caso contrário, a recomendação é aguardar o nascimento.
6. Posso amamentar logo após uma cirurgia de emergência?
Se o bebê nascer nesse período, a amamentação depende da estabilidade da mãe e dos medicamentos usados, mas geralmente é estimulada assim que a mãe desperta.
7. Grávidas podem usar dreno após a cirurgia?
Sim, grávidas podem usar dreno após uma cirurgia, caso o procedimento seja estritamente necessário. Isso não prejudica o bebê e ajuda na recuperação mais rápida da gestante.
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