Cardiopatia congênita: conheça os tipos e as consequências para a saúde

Ultrassom fetal avaliando possível cardiopatia congênita durante pré-natal, exame importante para diagnóstico precoce de alterações cardíacas no bebê

A cardiopatia congênita, também conhecida como doença cardíaca congênita, consiste em um ou mais problemas na estrutura do coração presentes desde a gravidez.

As alterações podem afetar o funcionamento do órgão de maneiras diferentes, variando desde quadros leves, que muitas vezes não causam sintomas imediatos, até situações mais complexas, que exigem acompanhamento médico desde os primeiros dias de vida.

No Brasil, aproximadamente 28,7 mil crianças nascem com uma cardiopatia congênita todos os anos. Na prática, isso significa que, a cada 100 bebês que nascem, cerca de um apresenta uma cardiopatia congênita — o que indica a importância do acompanhamento pré-natal e da atenção logo nos primeiros dias de vida.

O que são doenças cardíacas congênitas?

As doenças cardíacas congênitas são malformações que afetam a estrutura ou a função do coração, surgindo devido a alguma alteração no desenvolvimento do órgão durante as primeiras semanas da gestação, de acordo com a cardiologista Juliana Soares.

Nesse período, o coração do bebê ainda está em formação, de modo que qualquer interferência no processo pode resultar em mudanças anatômicas ou funcionais que variam desde alterações leves até quadros mais complexos, com necessidade de acompanhamento médico desde os primeiros meses de vida.

O momento em que os sintomas aparecem pode variar. Nos casos de cardiopatias congênitas leves, a criança pode passar toda a infância sem apresentar sintomas, e a condição tende a ser identificada apenas no final da infância ou até na vida adulta. Já nos casos mais graves, o diagnóstico pode ser feito ainda no período intrauterino ou imediatamente após o nascimento.

Importante: para que uma condição seja considerada uma doença cardíaca congênita, a alteração precisa obrigatoriamente ocorrer durante a gestação. Se uma doença cardíaca aparece depois devido ao envelhecimento ou infecções, ela é considerada “adquirida”.

Como o coração do bebê se forma na gestação?

A formação do coração do bebê começa normalmente por volta da terceira semana após a fecundação. No início, surge uma estrutura simples que vai se desenvolvendo aos poucos até formar as cavidades, as válvulas e os vasos sanguíneos responsáveis pela circulação do sangue. Já no primeiro trimestre, o coração costuma estar formado e em funcionamento.

Durante as semanas seguintes, o órgão continua amadurecendo para acompanhar o crescimento do bebê. Como se trata de um processo muito delicado, qualquer alteração pode interferir no desenvolvimento normal. Por isso, o acompanhamento pré-natal e a realização dos exames recomendados são importantes para avaliar se o coração está se formando de maneira adequada.

Quais os tipos de cardiopatia congênita?

As doenças cardíacas congênitas costumam ser classificadas em dois grupos principais: as cardiopatias congênitas cianóticas e as cardiopatias congênitas acianóticas.

Segundo Juliana, as cardiopatias cianóticas são aquelas que causam deficiência na oxigenação do sangue, levando a uma coloração azulada da pele. Já as cardiopatias acianóticas apresentam alterações menos evidentes na oxigenação e são as mais comuns.

Entre as cardiopatias congênitas acianóticas mais frequente, é possível destacar:

  • Comunicação interventricular: presença de um orifício na parede que separa os ventrículos;
  • Comunicação interatrial: abertura na parede que separa os átrios;
  • Persistência do canal arterial: canal que deveria se fechar após o parto, mas permanece aberto.

Entre as cardiopatias cianóticas, a mais conhecida é a tetralogia de Fallot, caracterizada por quatro alterações estruturais no coração que comprometem a função cardiovascular. Elas dificultam a oxigenação adequada do sangue, levando ao quadro de cianose. São elas:

  • Comunicação interventricular (CIV);
  • Estenose da artéria pulmonar;
  • Dextroposição da aorta (deslocamento da aorta para a direita);
  • Hipertrofia do ventrículo direito.

Juliana complementa que outra cardiopatia congênita relativamente comum é a coartação da aorta, caracterizada por um estreitamento da aorta após a sua emergência, o que dificulta o fluxo adequado do sangue.

O que pode causar uma cardiopatia congênita?

Na maioria dos casos, Juliana explica que a cardiopatia congênita ocorre sem causa definida. No entanto, alguns fatores aumentam o risco:

  • Histórico familiar de cardiopatia congênita;
  • Alterações genéticas específicas, como a síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21);
  • Exposição materna a fatores de risco durante a gestação, como diabetes mal controlado, consumo de álcool, uso de algumas medicações e infecções como rubéola.

Os fatores não determinam obrigatoriamente a doença, mas aumentam a probabilidade de ocorrência.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico pode ocorrer em diferentes momentos, desde a gestação até depois do nascimento do bebê. A identificação precoce permite o acompanhamento adequado e, quando necessário, o início do tratamento o quanto antes.

Durante o pré-natal, é realizado o ecocardiograma fetal, um exame capaz de identificar diversas cardiopatias a partir de aproximadamente a 20ª semana de gestação. Ele avalia a estrutura e o funcionamento do coração do bebê ainda no útero.

Após o nascimento, é feita a oximetria de pulso, conhecida como teste do coraçãozinho, exame obrigatório antes da alta da maternidade para detectar cardiopatias congênitas críticas.

Segundo Juliana, se houver suspeita clínica posteriormente, pode ser feito um ecocardiograma transtorácico no bebê. Sinais como um sopro cardíaco, o cansaço durante a mamada ou a coloração arroxeada dos lábios podem indicar a necessidade de investigação mais detalhada.

Tratamento das doenças cardíacas congênitas

O tratamento das cardiopatias congênitas é individualizado e depende do tipo da alteração, da gravidade do quadro e da idade do paciente.

Em algumas situações, principalmente nos casos mais leves, pode ocorrer um fechamento espontâneo de pequenas comunicações no coração, sem necessidade de intervenção imediata, sendo indicado apenas o acompanhamento regular com o cardiologista.

Em outros casos, o tratamento pode envolver o uso de medicamentos para controlar sintomas e melhorar o funcionamento do coração ou procedimentos minimamente invasivos, como o cateterismo cardíaco, no qual dispositivos são inseridos geralmente pela região da virilha para corrigir comunicações entre as cavidades do coração sem a necessidade de cirurgia aberta.

De acordo com Juliana, a cirurgia costuma ser indicada nos casos mais complexos, quando existe necessidade de correção estrutural mais ampla para evitar complicações graves, preservar a função cardíaca e reduzir o risco de morte.

Acompanhamento cardiológico ao longo da vida

Mesmo após uma cirurgia bem-sucedida e na ausência de sintomas, Juliana explica que o acompanhamento médico regular é fundamental, pois podem surgir sequelas tardias ou alterações nas estruturas cardíacas ao longo do tempo.

De forma geral, crianças com defeitos leves ou que passaram por uma correção adequada costumam ter uma vida próxima do normal, incluindo uma alimentação saudável e a prática de atividade física. Uma alimentação equilibrada ajuda a evitar a obesidade e os problemas metabólicos, que podem sobrecarregar um coração mais sensível.

A atividade física costuma ser incentivada na maioria dos casos. Porém, algumas condições mais graves ou associadas a arritmias podem exigir restrições a esportes competitivos ou de alto impacto. O cardiologista pediátrico é o profissional responsável por orientar, de forma individualizada, qual nível de esforço é mais seguro para cada criança.

É possível prevenir as doenças cardíacas congênitas?

A prevenção das doenças cardíacas congênitas nem sempre é possível, já que muitas delas surgem durante a formação do coração do bebê sem uma causa definida. Mesmo assim, alguns cuidados durante a gestação podem ajudar a reduzir riscos e favorecer um desenvolvimento mais saudável do coração fetal, como:

  • Acompanhamento pré-natal regular para monitorar a saúde da mãe e do bebê;
  • Controle adequado do diabetes materno, quando presente;
  • Vacinação recomendada antes ou durante a gestação, conforme orientação médica;
  • Orientação médica sobre o uso de medicamentos durante a gravidez;
  • Evitar o consumo de álcool, cigarro e outras substâncias nocivas;
  • Manutenção de uma alimentação equilibrada durante a gestação;
  • Uso correto do ácido fólico, conforme indicação profissional;
  • Realização dos exames pré-natais recomendados.

Quando suspeitar de um problema cardíaco congênito no bebê?

A suspeita de um problema cardíaco congênito pode surgir ainda durante a gestação ou após o nascimento, principalmente quando alguns sinais chamam a atenção da família ou do pediatra.

Nem sempre os sintomas aparecem logo, mas observar mudanças no comportamento, na respiração ou na coloração da pele do bebê ajuda na identificação precoce. Os principais sinais incluem:

  • Dificuldade para mamar ou cansaço excessivo durante a mamada;
  • Respiração rápida ou esforço para respirar;
  • Coloração arroxeada nos lábios, na língua ou nas extremidades;
  • Baixo ganho de peso ou dificuldade para crescer;
  • Suor excessivo, principalmente durante a alimentação;
  • Presença de sopro cardíaco identificado pelo pediatra.

Na presença de qualquer um dos sinais, a avaliação com um pediatra ou um cardiologista pediátrico é necessário para esclarecer a causa e garantir o acompanhamento adequado.

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Perguntas frequentes

1. Toda cardiopatia congênita precisa de cirurgia?

Não. Algumas condições, como pequenos furos no coração (comunicação interventricular ou interatrial), podem fechar sozinhos conforme a criança cresce. Outras são monitoradas apenas com medicamentos.

2. É possível corrigir o defeito sem abrir o peito?

Sim, através do cateterismo intervencionista. Um tubo fino é inserido por um vaso sanguíneo (geralmente na virilha) até o coração para fechar buracos ou abrir válvulas entupidas, evitando uma cirurgia de grande porte.

3. O que é o “Teste do Coraçãozinho”?

É um exame de triagem obrigatório realizado nas primeiras 24 a 48 horas de vida. Um sensor mede a oxigenação no braço e na perna do bebê para detectar precocemente cardiopatias graves que podem não apresentar sintomas imediatos.

4. A doença pode voltar depois de operada?

A malformação anatômica é corrigida, mas o paciente pode desenvolver sequelas ou precisar de novos procedimentos ao longo da vida (como a troca de uma válvula). Por isso, o acompanhamento deve ser constante.

5. Pacientes com cardiopatia congênita podem ser vacinados normalmente?

Sim, e é altamente recomendado. O calendário vacinal deve estar em dia, incluindo a vacina contra a gripe e o VSR (Vírus Sincicial Respiratório), pois infecções pulmonares podem ser muito graves para essas pessoas.

6. Quem tem cardiopatia congênita pode fazer tatuagem ou piercing?

É preciso ter muita cautela, pois o risco de infecção na pele que pode migrar para o coração é real. O cardiologista deve ser consultado antes, e o local escolhido para o procedimento deve seguir normas rigorosas de esterilização.

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