Dorme, mas não descansa? O café no fim da tarde pode ser o culpado

Mulher tomando uma xícara de café no fim da tarde enquanto trabalha.

Muita gente conhece a cena: são cinco ou seis horas da tarde, o cansaço do trabalho começa a aparecer e a solução parece simples. Basta preparar mais uma xícara de café para ganhar energia e terminar o dia com mais disposição. O problema é que esse hábito, aparentemente inofensivo, pode cobrar um preço algumas horas depois.

O curioso é que nem sempre esse preço é percebido. Há pessoas que tomam café no fim da tarde, deitam no horário habitual e dizem dormir como uma pedra. Ainda assim, podem acordar menos descansadas no dia seguinte.

Isso acontece porque a cafeína não interfere apenas no momento de pegar no sono: ela também pode alterar a arquitetura do sono, o que reduz a profundidade do descanso e faz com que o cérebro passe menos tempo em algumas fases importantes para a recuperação física e mental.

É justamente esse o paradoxo do café: a pessoa acredita que dormiu normalmente, mas a qualidade do sono pode ter sido comprometida.

Como a cafeína mantém o cérebro desperto?

A cafeína é um estimulante natural presente no café, mas também em chás, refrigerantes à base de cola, bebidas energéticas, chocolates e alguns medicamentos.

O principal mecanismo de ação da cafeína é bloquear os receptores de adenosina, uma substância produzida naturalmente pelo organismo ao longo do dia. Quanto mais tempo permanecemos acordados, maior tende a ser o acúmulo de adenosina no cérebro. Esse processo faz parte da chamada pressão do sono, ou seja, da necessidade crescente de dormir.

Quando a cafeína ocupa esses receptores, ela impede temporariamente que a adenosina exerça seu efeito. O cérebro interpreta que ainda não está tão cansado, aumentando o estado de alerta e reduzindo a sensação de sonolência.

Esse efeito explica por que o café melhora temporariamente a atenção, o tempo de reação e a sensação de disposição. Porém, o mesmo mecanismo que ajuda durante o dia pode atrapalhar quando a hora de dormir se aproxima.

A cafeína continua agindo muito tempo depois da última xícara

Um dos maiores equívocos é imaginar que o efeito do café termina quando passa a sensação de energia.

Na realidade, a cafeína permanece circulando no organismo por várias horas. Em adultos saudáveis, a meia-vida costuma variar entre três e sete horas, embora possa ser ainda maior em algumas situações, como durante a gravidez, em pessoas com determinadas características genéticas ou em indivíduos que metabolizam a substância mais lentamente.

Isso significa que uma pessoa que toma uma dose de cafeína às 17 horas pode ainda ter uma quantidade relevante circulando no organismo na hora de dormir.

É justamente por isso que especialistas em medicina do sono costumam recomendar cautela com bebidas cafeinadas durante o final da tarde e à noite, principalmente em pessoas que já apresentam dificuldade para dormir.

O problema nem sempre é demorar para dormir

Quando se fala em café e sono, muita gente pensa apenas na dificuldade para pegar no sono.

Mas esse é apenas um dos possíveis efeitos. A cafeína pode provocar alterações como:

  • Aumento do tempo para adormecer;
  • Redução do tempo total de sono;
  • Maior número de despertares ao longo da noite;
  • Redução do sono profundo;
  • Menor eficiência do sono.

Em outras palavras, a pessoa pode até conseguir dormir no horário habitual, mas acordar menos recuperada porque a estrutura do sono foi modificada.

Por que algumas pessoas juram que o café não faz efeito nelas?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes. A resposta envolve uma combinação de fatores. Primeiro, existe uma grande variação genética na velocidade com que cada organismo metaboliza a cafeína. Algumas pessoas eliminam a substância rapidamente; outras levam muito mais tempo.

Além disso, quem consome café diariamente pode desenvolver certa tolerância aos efeitos mais perceptíveis, como tremores e sensação intensa de alerta. Isso, porém, não significa necessariamente que a cafeína deixou de interferir no sono.

Mesmo indivíduos habituados ao consumo podem apresentar alterações objetivas na qualidade do sono, ainda que não percebam isso conscientemente.

Quanto café é considerado seguro?

Para adultos saudáveis, uma ingestão de até 400 mg de cafeína por dia costuma ser considerada segura.

Essa quantidade corresponde aproximadamente a quatro xícaras pequenas de café coado, embora o teor de cafeína varie bastante conforme o método de preparo, o tipo de grão e o tamanho da bebida.

No entanto, segurança não significa ausência de impacto sobre o sono. Uma pessoa pode permanecer dentro desse limite diário e, ainda assim, consumir praticamente toda a cafeína no fim da tarde, aumentando a chance de prejudicar o descanso noturno.

Existe um horário ideal para parar de tomar café?

Não existe um horário universal que funcione para todas as pessoas. Como a meia-vida da cafeína é longa e varia entre indivíduos, muitos especialistas sugerem evitar bebidas cafeinadas nas seis a oito horas que antecedem o horário habitual de dormir, principalmente em pessoas com insônia ou sono leve.

Isso não significa que todos precisem abandonar o café depois do almoço. Algumas pessoas toleram pequenas quantidades no meio da tarde sem qualquer repercussão perceptível.

Por outro lado, quem sofre com dificuldade para dormir pode se beneficiar de um teste simples: reduzir ou suspender a cafeína durante o período da tarde por algumas semanas e observar se a qualidade do sono melhora.

Café, chá, energético: todos entram nessa conta?

Sim. Embora o café seja a principal fonte de cafeína para muitas pessoas, ele não é o único.

Também podem contribuir para o consumo diário de cafeína:

  • Chá preto;
  • Chá verde;
  • Chá-mate;
  • Refrigerantes à base de cola;
  • Bebidas energéticas;
  • Chocolate;
  • Alguns suplementos esportivos;
  • Alguns medicamentos para dor ou resfriado.

Por isso, às vezes a pessoa acredita que tomou apenas um cafezinho, mas, ao longo do dia, acabou acumulando cafeína proveniente de diferentes fontes.

Vale a pena trocar pelo café descafeinado?

Para quem aprecia o ritual de tomar café no fim da tarde, o café descafeinado pode ser uma alternativa interessante. Mesmo que ele não seja completamente isento de cafeína, a quantidade costuma ser muito menor do que a presente no café tradicional.

Isso permite manter o sabor e o hábito social do café, reduzindo a chance de interferência no sono.

O café precisa ser eliminado da rotina?

De forma alguma. O café é uma das bebidas mais estudadas do mundo e, quando consumido com moderação, está associado a diversos benefícios para a saúde, incluindo menor risco de diabetes tipo 2, algumas doenças cardiovasculares e doenças neurodegenerativas em estudos populacionais.

O problema não costuma ser o café em si, mas o contexto.

Para muitas pessoas, basta ajustar o horário de consumo para aproveitar seus benefícios sem prejudicar o descanso noturno.

Como saber se o café está atrapalhando seu sono?

Alguns sinais podem indicar que a cafeína está interferindo na qualidade do descanso:

  • Demorar mais para adormecer;
  • Acordar várias vezes durante a noite;
  • Sentir que o sono ficou mais superficial;
  • Acordar cansado mesmo após muitas horas na cama;
  • Precisar de ainda mais café no dia seguinte para compensar o cansaço.

Esse último ponto pode criar um círculo vicioso: a pessoa dorme pior por causa da cafeína, acorda cansada, consome mais cafeína durante o dia e volta a prejudicar o sono na noite seguinte.

Veja também: Cafeína faz mal para o coração? Veja os efeitos (e quanto tomar)

Perguntas frequentes sobre café e sono

1. Tomar café às 17 horas sempre prejudica o sono?

Não necessariamente. O efeito depende da quantidade ingerida, do horário de dormir e da sensibilidade individual.

2. Posso dormir normalmente mesmo com cafeína no organismo?

Sim. Algumas pessoas conseguem adormecer, mas ainda apresentam redução da qualidade do sono.

3. Chá verde também pode atrapalhar o sono?

Sim. Ele contém cafeína, embora em quantidade menor do que o café.

4. Café descafeinado interfere no sono?

Em geral, muito menos, porque contém apenas uma discreta quantidade de cafeína.

5. Quanto tempo a cafeína permanece no organismo?

A meia-vida costuma variar entre três e sete horas, podendo ser maior em algumas pessoas.

6. Vale a pena parar de tomar café para dormir melhor?

Nem sempre é necessário eliminar o café. Muitas vezes, apenas antecipar o horário de consumo já é suficiente para reduzir o impacto sobre o sono.

Confira: Viciado em café? Veja o que fazer para diminuir o consumo