Você sempre tomou leite sem problemas, mas, nos últimos anos, passou a sentir estufamento, excesso de gases ou diarreia depois de consumir um café com leite, um milk-shake ou um pedaço de pizza? Essa situação é bastante comum e, na maioria das vezes, está relacionada à intolerância à lactose do tipo primária, também chamada de hipolactasia do adulto.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não é preciso nascer com intolerância à lactose. Em grande parte da população, a produção da enzima responsável por digerir esse açúcar diminui gradualmente após a infância ou a adolescência. Como consequência, os sintomas podem surgir apenas na terceira, quarta ou quinta década de vida.
Isso significa que uma pessoa pode consumir leite normalmente durante muitos anos e só mais tarde perceber que determinados laticínios passaram a causar desconforto. Entenda mais.
O que é a intolerância à lactose?
A lactose é o principal açúcar presente no leite e em seus derivados. Para ser absorvida pelo intestino, ela precisa ser quebrada por uma enzima chamada lactase, produzida pelas células da mucosa do intestino delgado.
Quando existe pouca lactase, a lactose não é completamente digerida. Ela segue para o intestino grosso, onde é fermentada pelas bactérias da microbiota intestinal, produzindo:
- Hidrogênio;
- Metano;
- Ácidos orgânicos.
Esse processo leva ao aparecimento dos sintomas característicos da intolerância à lactose.
Por que a intolerância à lactose pode aparecer depois dos 30 anos?
A forma mais comum é a deficiência primária de lactase. Em praticamente todos os mamíferos, a produção dessa enzima diminui após o período de amamentação. Nos seres humanos, porém, existe uma grande variação genética.
Algumas populações mantêm níveis elevados de lactase durante toda a vida, condição conhecida como persistência da lactase, enquanto outras apresentam uma redução gradual da enzima ao longo dos anos.
Essa queda costuma começar ainda na infância ou adolescência, mas os sintomas só aparecem quando a quantidade de lactase se torna insuficiente para digerir a quantidade de lactose consumida.
Por isso, muitas pessoas passam décadas ingerindo leite normalmente antes de desenvolver sintomas.
Todo mundo desenvolve intolerância à lactose com a idade?
Não. A capacidade de produzir lactase depende principalmente da genética. Em populações do norte da Europa, a persistência da lactase é muito frequente.
Já em populações asiáticas, africanas, indígenas e em parte da população latino-americana, a redução da lactase na vida adulta é muito mais comum.
No Brasil, devido à grande diversidade genética, a prevalência varia conforme a ancestralidade de cada indivíduo.
Quais são os sintomas?
Os sintomas geralmente surgem entre 30 minutos e duas horas após o consumo de alimentos ricos em lactose.
Os mais comuns são:
- Distensão abdominal;
- Excesso de gases;
- Dor ou cólicas abdominais;
- Sensação de estômago inchado;
- Borborigmos, que são os barulhos intestinais;
- Diarreia.
Em algumas pessoas também podem ocorrer:
- Náuseas;
- Urgência para evacuar.
A intensidade dos sintomas varia conforme:
- A quantidade de lactose ingerida;
- O grau de deficiência de lactase;
- A composição da microbiota intestinal;
- A velocidade do esvaziamento gástrico.
Por que algumas pessoas toleram queijo, mas não leite?
Nem todos os laticínios contêm a mesma quantidade de lactose.
Geralmente possuem mais lactose
- Leite;
- Leite condensado;
- Sorvetes;
- Leites fermentados;
- Alguns iogurtes adoçados.
Geralmente possuem menos lactose
- Queijos maturados, como parmesão e provolone;
- Queijo suíço;
- Cheddar maturado.
Durante a fabricação e a maturação dos queijos, parte da lactose é consumida pelas bactérias responsáveis pela fermentação. Por isso, muitas pessoas conseguem consumir determinados queijos sem apresentar sintomas.
É possível desenvolver intolerância de forma temporária?
Sim. Além da deficiência primária de lactase, existe a intolerância secundária à lactose. Ela acontece quando doenças que lesionam a mucosa intestinal reduzem temporariamente a produção da enzima.
Algumas causas incluem:
- Gastroenterites;
- Doença celíaca;
- Doença de Crohn;
- Giardíase;
- Quimioterapia ou radioterapia envolvendo o intestino.
Nesses casos, a intolerância pode melhorar após o tratamento da doença de base.
Intolerância à lactose é a mesma coisa que alergia ao leite?
Não. São condições completamente diferentes.
Intolerância à lactose
- É um problema digestivo;
- Decorre da deficiência da enzima lactase;
- Não envolve o sistema imunológico.
Alergia à proteína do leite
- É uma doença imunológica;
- O organismo reage às proteínas do leite;
- Pode causar urticária, inchaço, falta de ar e até anafilaxia.
Enquanto a intolerância costuma causar desconforto gastrointestinal, a alergia pode ser potencialmente grave.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico pode ser baseado na história clínica e confirmado por exames quando necessário. Os métodos mais utilizados são os abaixo.
Teste do hidrogênio no ar expirado
É considerado o principal exame não invasivo. Após ingerir lactose, mede-se a quantidade de hidrogênio eliminada na respiração. Níveis elevados sugerem má digestão da lactose.
Teste de tolerância à lactose
Avalia o aumento da glicemia após a ingestão de lactose. Se a lactose não for adequadamente digerida e absorvida, a glicemia sobe menos do que o esperado.
Testes genéticos
Podem identificar variantes associadas à persistência ou à redução da produção de lactase em algumas populações. Entretanto, nem sempre são necessários.
Preciso cortar todo o leite da alimentação?
Na maioria dos casos, não. A maior parte das pessoas com intolerância à lactose consegue tolerar pequenas quantidades de lactose, principalmente quando consumidas junto com outros alimentos. O limite varia entre os indivíduos.
Muitas pessoas conseguem ingerir cerca de 12 gramas de lactose, aproximadamente a quantidade encontrada em um copo de leite, sem sintomas importantes quando o consumo ocorre junto às refeições. Por isso, a recomendação costuma ser individualizada.
Leite sem lactose é realmente sem lactose?
Esses produtos ainda contêm lactose, mas ela já foi quebrada pela adição da enzima lactase durante o processamento.
Como o açúcar já está dividido em glicose e galactose, a digestão torna-se muito mais fácil para pessoas com deficiência de lactase.
As enzimas de lactase em cápsulas funcionam?
Podem funcionar para muitas pessoas. Esses suplementos fornecem a enzima lactase imediatamente antes da ingestão de alimentos contendo lactose.
O benefício depende de fatores como:
- Quantidade de lactose da refeição;
- Dose da enzima utilizada;
- Grau de deficiência de lactase.
Eles não tratam a causa da intolerância, mas podem reduzir os sintomas em situações específicas.
Existe risco de deficiência de cálcio?
Pode existir quando a pessoa elimina todos os laticínios da alimentação sem substituí-los adequadamente.
O leite e seus derivados são importantes fontes de:
- Cálcio;
- Proteínas;
- Vitamina B12;
- Riboflavina.
Quando a restrição é necessária, o médico ou nutricionista pode orientar fontes alternativas ou suplementação, se indicada.
Quando procurar um médico?
Procure avaliação se os sintomas:
- Surgirem repetidamente após o consumo de leite ou derivados;
- Forem intensos;
- Vierem acompanhados de perda de peso;
- Apresentarem sangue nas fezes;
- Acordarem você durante a noite;
- Persistirem mesmo após retirar a lactose.
Esses sinais podem indicar outras doenças gastrointestinais que necessitam de investigação.
Confira: Intolerância à lactose: quando o leite vira desconforto
Perguntas frequentes sobre intolerância à lactose
1. É normal desenvolver intolerância à lactose depois dos 30 anos?
Sim. A forma mais comum resulta da redução progressiva da produção de lactase ao longo da vida, e os sintomas podem surgir apenas na idade adulta.
2. Por que antes eu tomava leite normalmente?
Porque a produção da enzima lactase pode diminuir gradualmente com a idade. Quando ela deixa de ser suficiente para digerir a quantidade de lactose consumida, começam a aparecer os sintomas.
3. Preciso cortar todos os derivados do leite?
Não necessariamente. Muitas pessoas toleram pequenas quantidades de lactose ou produtos naturalmente pobres em lactose, como alguns queijos maturados.
4. Intolerância à lactose pode aparecer de repente?
Os sintomas podem parecer surgir de forma súbita, mas, na maioria dos casos, a redução da lactase acontece gradualmente. Também existem formas temporárias associadas a doenças intestinais.
5. Leite sem lactose é seguro para quem tem intolerância?
Sim. Nesses produtos, a lactose foi previamente quebrada pela enzima lactase, facilitando sua digestão.
6. Intolerância à lactose é a mesma coisa que alergia ao leite?
Não. A intolerância é causada pela deficiência de lactase, enquanto a alergia ao leite é uma reação do sistema imunológico às proteínas do leite.
7. A intolerância à lactose tem cura?
A forma primária, relacionada à genética, não tem cura. Entretanto, ela pode ser controlada com ajustes alimentares, produtos sem lactose e, quando necessário, suplementos de lactase, permitindo que a maioria das pessoas mantenha uma alimentação variada e nutricionalmente adequada.
Veja também: Intolerância à lactose: o que comer no dia a dia?
