Contato visual na amamentação: o bebê que não olha nos olhos pode ser autista?

Mãe amamentando o bebê enquanto segura a mão da criança, ilustrando a importância do contato visual e da interação durante a amamentação.

Nos primeiros meses de vida, além de fornecer todos os nutrientes necessários para o crescimento do bebê, a amamentação também é um dos principais momentos de interação entre a mãe e o recém-nascido. Durante as mamadas, acontecem as trocas de olhares, as expressões faciais e diversos estímulos que ajudam no desenvolvimento da comunicação, do vínculo afetivo e das habilidades sociais.

Segundo a neuropediatra Bárbara Macedo, desde o nascimento, os bebês demonstram uma preferência natural por observar rostos humanos. Como a visão ainda está em desenvolvimento nas primeiras semanas de vida, eles enxergam melhor o que está entre 20 e 30 centímetros de distância, exatamente a distância entre o rosto da mãe e o bebê durante a amamentação.

Por isso, é comum que eles observem o rosto da mãe e, aos poucos, aprendam a reconhecer expressões e emoções.

Só que, nos primeiros dois meses, o sistema visual continua amadurecendo. Em alguns momentos, o bebê pode desviar o olhar para uma luz, uma sombra ou simplesmente fechar os olhos porque está relaxado ou satisfeito após mamar. A falta de contato visual, por si só, não significa que exista algum problema, mas vale ficar atento a alguns sinais de alerta.

O bebê não olhar nos olhos durante a amamentação é normal?

Sim, principalmente nos primeiros meses de vida. O contato visual não acontece de forma constante desde o nascimento, porque a visão e o cérebro do bebê ainda estão em desenvolvimento.

Nas primeiras semanas, é normal que ele alterne entre olhar para o rosto da mãe, fechar os olhos durante a mamada ou desviar a atenção para outros estímulos do ambiente.

Um episódio isolado em que o bebê não faz contato visual normalmente não indica nenhum problema e não deve ser motivo de preocupação. Se ele estava com sono, fome, cólica ou muito cansado, é natural que olhe menos para o rosto dos pais ou dos cuidadores naquele momento.

Quando a falta de contato visual do bebê acende o alerta?

O principal sinal de alerta aparece quando a ausência de contato visual é frequente e acontece em diferentes situações do dia a dia. Durante a amamentação, a troca de fraldas, o banho ou as brincadeiras, o bebê parece não responder quando a mãe ou o cuidador tenta chamar sua atenção com sorrisos, conversas ou expressões faciais.

Em casos assim, o olhar pode permanecer fixo em uma luz, na janela, em um objeto ou simplesmente parecer distante, sem buscar interação com as pessoas ao redor.

Quando o comportamento continua após os primeiros meses de vida, principalmente a partir dos 2 ou 3 meses, o pediatra pode recomendar uma avaliação mais detalhada do desenvolvimento para entender se existe alguma dificuldade na comunicação e na interação social.

Um sinal isolado fecha diagnóstico de autismo?

A ausência de contato visual, sozinha, não confirma o quadro de transtorno do espectro autista (TEA). O diagnóstico depende da avaliação de vários sinais do desenvolvimento e considera tanto dificuldades na comunicação e na interação social quanto comportamentos repetitivos e interesses restritos.

Segundo Bárbara, o diagnóstico de autismo só pode ser feito a partir de um ano de idade, sendo mais comum entre um ano e três meses e um ano e seis meses.

Também é importante lembrar que muitas crianças com autismo fazem contato visual normalmente. O diagnóstico nunca é baseado em apenas um comportamento, mas na avaliação completa do desenvolvimento da criança ao longo do tempo.

A falta de contato visual durante a amamentação deve ser vista apenas como um possível sinal de alerta, principalmente quando aparece junto de outros atrasos no desenvolvimento.

O que pode ser se não for autismo?

Quando o bebê apresenta pouca troca de olhares, o autismo é apenas uma das possibilidades que o médico pode investigar. Existem outras condições que também podem provocar o comportamento, como:

1. Problemas de visão

Alterações como estrabismo, catarata congênita, miopia, hipermetropia ou astigmatismo podem dificultar que o bebê enxergue com clareza o rosto da mãe durante a amamentação e em outros momentos de interação. A troca de olhares pode ficar reduzida, mesmo sem haver qualquer alteração no desenvolvimento da comunicação.

2. Alterações na audição

Os bebês costumam direcionar o olhar para a voz da mãe ou de outras pessoas que conversam com eles. Quando existe alguma dificuldade auditiva, a resposta aos estímulos sonoros pode diminuir, reduzindo também o contato visual durante a amamentação, as brincadeiras e os cuidados do dia a dia.

3. Atrasos no desenvolvimento da comunicação

Algumas crianças podem apresentar atrasos no desenvolvimento da linguagem e da comunicação social sem que isso signifique, necessariamente, um diagnóstico de TEA. Cada bebê tem o próprio ritmo de desenvolvimento, e a avaliação médica é necessária para identificar a causa das dificuldades e indicar o acompanhamento mais adequado.

4. Condições neurológicas ou complicações no nascimento

A prematuridade, o sofrimento fetal e algumas condições neurológicas ou síndromes genéticas podem atrasar diferentes marcos do desenvolvimento infantil, incluindo o contato visual, a interação com outras pessoas e o desenvolvimento da comunicação.

O acompanhamento com o pediatra e outros especialistas ajuda a monitorar a evolução da criança e iniciar intervenções precoces quando necessário.

O que os pais devem fazer ao notar esse comportamento?

O mais importante é observar o bebê com calma e evitar comparações com outras crianças, já que cada uma tem o próprio ritmo de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, os pais não devem ignorar uma preocupação persistente. Quem convive diariamente com o bebê costuma perceber mudanças e comportamentos diferentes antes mesmo das consultas de rotina, segundo Bárbara.

Se surgir a suspeita de que algo não está evoluindo como esperado, algumas atitudes podem ajudar:

  • Observe outros comportamentos: perceba se o bebê responde à voz dos pais, sorri de volta, acompanha pessoas com o olhar e reage aos estímulos do ambiente;
  • Anote ou filme as interações: pequenos vídeos da amamentação, das brincadeiras ou de outros momentos do dia ajudam o pediatra a avaliar o comportamento com mais detalhes;
  • Procure avaliação médica: converse primeiro com o pediatra. Se houver necessidade, o profissional poderá encaminhar a criança para um neuropediatra, oftalmologista, otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo.

Caso seja identificada alguma alteração no desenvolvimento, a intervenção precoce pode começar mesmo antes de um diagnóstico definitivo.

Veja também: Atraso na fala: o excesso de telas pode estar por trás do problema?

Perguntas frequentes

1. Com quantos meses o bebê deve começar a olhar nos olhos?

O esperado é que o bebê comece a fixar o olhar no rosto dos pais entre a 4ª e a 6ª semana de vida. Aos 2 ou 3 meses, o contato visual já deve ser firme e frequente.

2. O que fazer se o bebê não atende pelo nome?

O primeiro passo é fazer um exame de audição (como o teste do bera) para descartar surdez. Se a audição estiver normal e o comportamento persistir, procure um neuropediatra.

3. O que são diagnósticos diferenciais do autismo?

São outras condições que causam sintomas parecidos e precisam ser investigadas, como problemas de visão, deficiência auditiva, TDAH ou transtornos de ansiedade infantil.

4. O autismo é herdado dos pais?

A base genética é imensa (mais de 80%), mas não depende de um único gene. É uma combinação de múltiplos genes e fatores ambientais. Em alguns casos, os pais descobrem que são autistas após o diagnóstico do filho.

5. O que é a hipersensibilidade sensorial na infância?

É quando o cérebro da criança processa estímulos do ambiente de forma exagerada. Ela pode chorar desesperadamente com barulhos comuns (liquidificador, secador), rejeitar certas texturas de roupas ou ter forte seletividade alimentar devido à textura da comida.

6. Como diferenciar a birra normal de uma crise do autismo?

A birra comum tem um objetivo claro (chamar atenção ou conseguir algo) e cessa quando a vontade da criança é atendida ou ela se cansa. A crise no autismo (meltdown) é uma sobrecarga neurológica: a criança perde o controle total de si, não consegue parar sozinha e não é motivada por um ganho material.

7. Criança muito agitada com 2 anos já pode ter diagnóstico de TDAH?

Não. Os médicos não fecham o diagnóstico de TDAH antes dos 4 anos porque a região cerebral responsável pelo controle do comportamento (o córtex pré-frontal) ainda é muito imatura. Antes dessa idade, a agitação costuma ser tratada apenas com mudanças de estímulo e rotina.

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