O hantavírus é o agente causador da hantavirose, uma doença infecciosa grave transmitida principalmente pelo contato com a urina, fezes e saliva de roedores silvestres infectados.
A contaminação costuma acontecer pela inalação de partículas contaminadas que ficam suspensas no ar, principalmente em locais fechados, pouco ventilados e com sinais da presença de roedores silvestres.
No caso da variante Andesvírus, ou cepa Andes, a transmissão pode acontecer pelo contato próximo e prolongado com uma pessoa infectada, principalmente durante a fase inicial dos sintomas. De acordo com a infectologista Maira Barbosa, é a única variante com capacidade demonstrada de transmissão de pessoa para pessoa.
Mas então, será que o hantavírus pode causar uma nova pandemia global? Apesar da possibilidade de transmissão entre pessoas em alguns casos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras autoridades de saúde consideram que o risco de uma pandemia é baixo, uma vez que o contágio entre humanos é raro e acontece de forma limitada.
Qual é a diferença da cepa Andes para as outras variantes?
A principal diferença da cepa Andes em relação às outras variantes do hantavírus é a capacidade de transmissão entre seres humanos.
Identificada principalmente na América do Sul, com maior incidência na Argentina e no Chile, ela possui características biológicas específicas que permitem que o vírus seja eliminado em secreções respiratórias e fluidos corporais de uma pessoa infectada, possibilitando a transmissão para outra pessoa.
No entanto, a transmissão interpessoal não ocorre com facilidade e, diferente de vírus altamente contagiosos como o da gripe ou da Covid-19, Maira explica que a cepa andina precisa de um contato muito próximo e prolongado entre os indivíduos para que o contágio aconteça.
Afinal, o hantavírus pode causar uma nova pandemia?
O risco de o hantavírus causar uma nova pandemia global é considerado muito baixo pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar de ser um vírus com alta taxa de letalidade, que pode chegar a 50%, Maira explica que algumas características do vírus dificultam a transmissão em massa.
1. A transmissão depende de roedores selvagens
Na maioria dos casos, a hantavirose é uma doença transmitida de animais para humanos. O contágio acontece pela inalação de partículas de poeira contaminadas com saliva, urina ou fezes de roedores silvestres infectados, o que costuma ocorrer principalmente em áreas rurais, florestas, plantações, celeiros, galpões fechados ou locais com pouca ventilação.
Diferentemente de vírus respiratórios, o hantavírus não circula facilmente entre pessoas em ambientes do dia a dia, como ruas, ônibus, escolas ou aviões. Por causa disso, os casos normalmente ficam restritos às regiões onde vivem os roedores transmissores.
2. A transmissão entre humanos é muito difícil
Para que um vírus cause uma pandemia, ele precisa de uma transmissão sustentada entre pessoas. Por exemplo, uma pessoa infecta várias, que infectam outras, criando uma reação em cadeia.
No caso do hantavírus, esse tipo de transmissão praticamente não acontece, já que a maior parte das variantes conhecidas não possui capacidade de passar de uma pessoa para outra de forma eficiente. A única exceção identificada até o momento é a cepa Andes, que já demonstrou capacidade de transmissão interpessoal em alguns surtos específicos.
Mesmo assim, Maira esclarece que o contágio precisa de um contato prolongado e muito próximo, como ocorre entre familiares que vivem na mesma casa ou pessoas que permanecem por longos períodos em contato direto com o paciente durante a fase inicial da doença.
3. O hantavírus não costuma sofrer muitas mutações
Ao contrário de vírus como os da gripe e da Covid-19, as sequências genéticas do hantavírus encontradas atualmente são muito semelhantes às identificadas há anos na natureza.
Logo, como apresenta menos mutações importantes, ele têm menor capacidade de se adaptar para se espalhar facilmente entre pessoas, o que reduz bastante o risco de uma pandemia.
4. O vírus não sobrevive muito tempo no ambiente
O hantavírus é sensível ao calor, à luz solar direta e a desinfetantes comuns, como o álcool 70% e a água sanitária. Assim, ele não consegue permanecer ativo por longos períodos em superfícies ou suspenso no ar em ambientes abertos e bem ventilados, o que limita drasticamente o raio de infecção.
Como acontece a transmissão do hantavírus entre humanos?
A transmissão do hantavírus entre seres humanos ocorre através da variante Andes, que desenvolveu uma capacidade biológica de passar diretamente de uma pessoa infectada para outra. As principais vias de transmissão documentadas incluem o contato direto com secreções respiratórias, como gotículas expelidas ao tossir ou falar, saliva e outros fluidos corporais.
Os casos de transmissão entre humanos ficam restritos a ambientes muito específicos, como entre familiares que dividem a mesma cama ou cuidam diretamente do doente, e profissionais de saúde que prestam assistência médica sem o uso correto de máscaras de alta proteção e luvas.
Vale destacar que uma pessoa infectada pode transmitir o vírus não apenas durante a fase aguda da doença, quando os sintomas respiratórios são graves, mas também nos últimos dias do período de incubação. De maneira geral, o paciente pode passar o vírus adiante pouco antes de começar a manifestar os primeiros sinais claros de hantavirose, como a febre alta e as dores musculares.
Tempo de incubação do hantavírus
O tempo de incubação do hantavírus, que corresponde ao período entre o contato com o vírus e o surgimento dos primeiros sintomas, costuma variar de 2 a 4 semanas, cerca de 14 e 30 dias.
Como os sintomas iniciais, como febre alta, dor no corpo, dor de cabeça, cansaço intenso e mal-estar, demoram a surgir e se parecem muito com os de uma gripe forte ou outras infecções virais comuns, é comum que a doença passe despercebida nos primeiros dias ou seja confundida com problemas respiratórios menos graves.
Por isso, ao buscar atendimento médico com sintomas suspeitos, é fundamental relatar qualquer exposição a áreas rurais, matas ou locais fechados com presença de roedores ocorrida nos últimos dois meses.
Principais sintomas e como é feito o diagnóstico
Os primeiros sintomas da hantavirose costumam aparecer de forma repentina, sendo eles:
- Mal-estar geral e fadiga;
- Febre baixa;
- Dor de cabeça intensa;
- Dores musculares pelo corpo.
Conforme a doença evolui, principalmente nos casos mais graves, o hantavírus pode comprometer os pulmões e causar sintomas respiratórios importantes, como falta de ar, sensação de aperto no peito e respiração acelerada.
O diagnóstico da hantavirose é baseado na avaliação dos sintomas e do histórico de exposição do paciente a áreas de risco, sendo confirmado por meio de exames de laboratório. O método mais utilizado é o exame de sangue por sorologia, que detecta a presença de anticorpos específicos (IgM e IgG) produzidos pelo organismo para combater o vírus.
Em fases muito iniciais da doença, ou em casos de óbito suspeito, também pode ser realizada a técnica de RT-PCR para identificar o material genético do próprio hantavírus no sangue ou em tecidos do corpo.
Como é o tratamento da hantavirose?
Não existe um remédio antiviral específico capaz de eliminar o hantavírus do organismo ou vacina disponível. O tratamento da hantavirose é baseado em medidas de suporte, focado em aliviar os sintomas enquanto o próprio corpo combate a infecção, como:
- Uso de oxigênio suplementar para ajudar na respiração e melhorar a oxigenação do organismo;
- Uso de medicamentos para estabilizar o paciente e aliviar os sintomas, quando necessário;
- Monitoramento contínuo do coração, dos pulmões e da oxigenação para acompanhar a evolução do quadro;
- Controle da pressão arterial e da circulação sanguínea para evitar complicações;
- Ventilação mecânica com aparelhos respiratórios quando a pessoa apresenta dificuldade intensa para respirar;
- Reposição de líquidos e sais minerais para manter o funcionamento adequado do organismo.
Devido à gravidade da doença e ao risco de uma evolução rápida para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), o tratamento costuma ser feito em ambiente hospitalar, com acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.
Qual o tempo de quarentena do hantavírus e por que é tão longo?
O tempo de quarentena recomendado para o hantavírus, especificamente para a cepa Andes, é de 42 dias. O período é considerado longo porque o vírus possui um tempo de incubação extenso. Segundo Maira, ele corresponde ao intervalo entre o momento em que a pessoa é infectada e o surgimento dos primeiros sintomas da doença.
No caso da variante andina, o intervalo costuma variar de uma a seis semanas, existindo a possibilidade de se estender por até oito semanas. “Portanto, esse período de 42 dias determina um intervalo seguro para manter os casos suspeitos monitorados”, finaliza a infectologista.
Leia mais: Hantavirose: a virose rara e grave transmitida por roedores
Perguntas frequentes
1. O hantavírus é tão contagioso quanto o vírus da Covid-19 ou da gripe?
Não. A cepa Andes do hantavírus não tem a mesma alta capacidade de transmissão em massa que o vírus da Covid-19 ou da gripe. Ela exige uma proximidade física muito maior e por um tempo estendido para conseguir infectar outra pessoa.
2. O que é considerado um “contato próximo e prolongado”?
Refere-se a situações de convivência muito íntima ou restrita. Um exemplo prático seria o convívio de pessoas confinadas juntas em um ambiente restrito, como um navio, durante muitos dias.
3. Uma pessoa infectada, mas que ainda não tem sintomas, pode transmitir o vírus?
Possivelmente sim. A estimativa é que a transmissão possa acontecer no final do período de incubação, que coincide com o início dos sintomas inespecíficos iniciais (chamados de pródromos).
4. Descobrir a doença rápido aumenta as chances de cura?
Sim. O reconhecimento ágil do diagnóstico e o início imediato das medidas de suporte intensivo na UTI são fundamentais para alcançar resultados clínicos favoráveis e aumentar as chances de recuperação do paciente
5. Qual é a melhor forma de prevenir a transmissão da cepa Andes?
De acordo com as diretrizes de saúde, a medida mais eficaz para conter o avanço da cepa Andes é o reconhecimento rápido dos casos suspeitos e o cumprimento rigoroso das orientações de isolamento e quarentena estabelecidas pela OMS.
6. Que características o hantavírus precisaria ter para causar uma pandemia?
Para causar uma pandemia, um vírus precisa se transmitir facilmente entre pessoas, inclusive por indivíduos sem sintomas, além de ter alta capacidade de adaptação e mutação. Atualmente, o hantavírus não apresenta essas características de transmissão em massa.
7. O que mais preocupa os médicos infectologistas em relação à desinformação sobre a hantavirose?
A maior preocupação em relação às fake news envolve as falsas comparações entre o hantavírus e a Covid-19, além da divulgação de medicamentos sem eficácia comprovada que prometem curar a doença. Hoje, não existe um antiviral específico aprovado contra o hantavírus.
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