Uma das principais formas de avaliar o risco de doenças cardiovasculares, o exame de cálcio coronariano, ou score de cálcio coronário, é um método não invasivo que permite identificar e quantificar a presença de depósitos de cálcio nas artérias coronárias, responsáveis por levar o sangue ao músculo do coração.
Realizado por meio de uma tomografia computadorizada do tórax sem contraste, ele é capaz de detectar sinais precoces de aterosclerose, mesmo em pessoas que ainda não apresentam sintomas. De acordo com a cardiologista Juliana Soares, o exame é indicado especialmente para pessoas com risco cardiovascular intermediário.
Afinal, como funciona o exame de cálcio coronariano?
O exame de cálcio coronariano funciona por meio de uma tomografia computadorizada, sem contraste, capaz de identificar e medir depósitos de cálcio presentes nas artérias coronárias, responsáveis por levar sangue ao músculo do coração.
Durante o exame, o paciente permanece deitado em uma maca que se desloca lentamente para dentro do aparelho de tomografia. Os sensores são posicionados no tórax para registrar os batimentos cardíacos, permitindo que as imagens sejam captadas de forma sincronizada com o ritmo do coração.
A sincronização é importante porque reduz movimentos e garante maior nitidez das imagens das artérias coronárias. Assim, o equipamento realiza múltiplas imagens do coração em poucos segundos, enquanto o paciente prende a respiração por um breve período.
Como o cálcio apresenta alta densidade, ele aparece de forma bem definida nas imagens, possibilitando a identificação das áreas onde existem placas calcificadas nas paredes das artérias.
Após a aquisição das imagens, um software específico analisa automaticamente os pontos de calcificação e calcula uma pontuação chamada score de cálcio coronário. Ele representa a quantidade total de cálcio encontrada nas artérias e permite estimar o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Como quantificar o score de cálcio coronariano?
O score de cálcio coronariano é quantificado por meio de uma medida padronizada chamada escore de Agatston, que calcula a quantidade total de cálcio presente nas artérias coronárias a partir das imagens da tomografia.
Após a realização do exame, um software específico analisa as imagens e identifica automaticamente as áreas onde há depósito de cálcio nas artérias coronárias. Como o cálcio é um material mais denso, ele aparece de forma mais evidente nas imagens, permitindo a medição com precisão.
O sistema calcula tanto o tamanho quanto a densidade de cada área calcificada encontrada nas artérias. Cada depósito recebe uma pontuação individual, e, ao final, todos os valores são somados, gerando o número do score de cálcio coronário.
O valor representa a quantidade total de cálcio presente nas artérias do coração e serve como um indicador indireto da presença e da extensão da aterosclerose.
Classificação do score de cálcio
O resultado costuma ser interpretado assim:
- Zero: nenhuma placa calcificada detectável. Risco de eventos cardiovasculares muito baixo;
- 1 à 10: quantidade mínima de cálcio. Risco baixo;
- 11 à 100: doença aterosclerótica leve. Risco moderado;
- 101 à 400: doença aterosclerótica moderada. Risco aumentado;
- Acima de 400: doença aterosclerótica severa/extensa. Alto risco de eventos cardiovasculares (alto risco de infarto).
É importante destacar que o score não mede diretamente o grau de entupimento das artérias, mas sim a carga de placas ateroscleróticas calcificadas.
Por que o exame é tão útil para prevenir infarto?
De acordo com Juliana Soares, idealmente, as artérias do coração não devem conter cálcio. Quando presente, ele funciona como um marcador da presença de aterosclerose, condição caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura na parede dos vasos sanguíneos.
A identificação do cálcio nas artérias coronárias indica que já existe um processo de doença arterial em andamento, mesmo que o paciente ainda não apresente sintomas. Dessa forma, o exame permite detectar precocemente alterações que poderiam passar despercebidas em avaliações clínicas de rotina.
Para completar, a quantidade de cálcio encontrada está diretamente relacionada ao risco de eventos cardiovasculares futuros, como o infarto do miocárdio. Quanto maior o score de cálcio, maior tende a ser a probabilidade de complicações ao longo dos anos, o que possibilita uma estratificação mais precisa do risco individual.
Quando o exame de cálcio coronariano é indicado?
A realização do score de cálcio coronário é particularmente útil em pacientes classificados como de risco cardiovascular intermediário. São pessoas que apresentam algum fator de risco, mas não possuem sintomas nem diagnóstico prévio de doença cardiovascular, conforme explica Juliana.
A cardiologista explica que, nesses casos, pode surgir a dúvida durante a consulta de iniciar ou não um tratamento preventivo, como o uso de medicamentos para controlar o colesterol, por exemplo.
O exame contribui para esclarecer a decisão, pois se o resultado mostrar a presença elevada de cálcio nas artérias do coração, indica maior risco cardiovascular e pode justificar o início precoce do tratamento.
O exame normalmente não é necessário para pessoas com risco muito baixo, como indivíduos jovens, sem sintomas e sem fatores de risco. Também não costuma ser indicado para quem já teve infarto ou já apresenta doença cardiovascular conhecida, pois, nesses casos, o tratamento preventivo já deve ser realizado independentemente do resultado.
Como o resultado muda o plano de tratamento ou prevenção?
Quando o score de cálcio é zero, o risco de infarto nos próximos dez anos é muito baixo. Nessa situação, Juliana aponta que muitas vezes o médico pode optar por adiar o início de medicamentos, priorizando inicialmente as mudanças no estilo de vida, que continuam sendo fundamentais para a saúde cardiovascular.
Por outro lado, o tratamento preventivo é importante quando o score de cálcio é elevado, especialmente acima de 100. Nesses casos, recomenda-se iniciar medidas mais intensivas, incluindo o uso de medicações e metas mais rigorosas para o controle do colesterol, com o objetivo de reduzir o risco de eventos cardiovasculares futuros.
Exame de cálcio coronariano substitui outros exames, como o teste ergométrico?
Os exames avaliam aspectos diferentes do coração e, por isso, não se substituem, mas se complementam.
O score de cálcio coronário avalia a presença de placas nas artérias do coração, identificando depósitos de cálcio que indicam aterosclerose. Já o teste ergométrico é considerado uma prova funcional, que avalia o funcionamento do coração durante o esforço físico.
Segundo Juliana, durante o teste ergométrico, são analisados o comportamento da pressão arterial, a presença de arritmias induzidas pelo esforço e possíveis alterações que possam sugerir isquemia, que ocorre quando o músculo do coração recebe menos sangue do que o necessário durante a atividade física.
Assim, um indivíduo pode apresentar um score de cálcio elevado, indicando a presença de placas nas artérias, e ainda ter um teste ergométrico normal. Isso acontece porque, apesar da existência das placas, o fluxo de sangue pode ainda estar adequado naquele momento.
Com que frequência o exame de cálcio coronariano deve ser feito?
O exame de cálcio coronariano não precisa ser repetido com frequência. Quando o resultado é zero e não há cálcio nas artérias, o tempo para repetir o exame varia conforme o perfil de cada pessoa, mas, de modo geral, ele pode ser refeito após três a cinco anos.
Já quando o score de cálcio está alterado ou positivo, Juliana explica que normalmente não há necessidade de repetir o exame. Ao identificar a presença de cálcio nas artérias, o médico já inicia o tratamento preventivo, e acompanhar a quantidade de cálcio ao longo do tempo não serve para avaliar se o tratamento está funcionando.
Além disso, com o passar dos anos e com o uso de estatinas, pode ocorrer até um pequeno aumento do escore de cálcio, o que faz parte do processo de estabilização das placas e não significa piora da doença.
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Perguntas frequentes
1. O que é aterosclerose?
A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica onde placas de gordura, cálcio e outras substâncias se acumulam nas paredes das artérias, podendo causar estreitamento ou obstrução do fluxo sanguíneo.
2. Existe algum sintoma que indique que meu escore de cálcio está alto?
Não, pois o acúmulo de cálcio nas artérias é um processo silencioso. Você pode se sentir perfeitamente bem, correr maratonas e ter um escore acima de 400. Por isso, o exame é chamado de ferramenta de estratificação de risco para pessoas assintomáticas.
3. O exame de score de cálcio usa contraste iodado?
O exame não utiliza contraste, e isso o torna seguro para pacientes com alergia ao iodo ou com problemas renais leves a moderados, que teriam restrições a outros exames de imagem cardíaca.
4. O score de cálcio pode ser feito durante a gravidez?
Como qualquer exame que utilize radiação (raios-X), ele é contraindicado para gestantes, a menos que haja uma necessidade médica extrema e específica avaliada pelo cardiologista e obstetra.
5. Por que o cálcio vai parar no coração?
O cálcio é depositado pelo próprio organismo nas placas de gordura como uma tentativa de cicatrizar e estabilizar um processo inflamatório na parede do vaso sanguíneo. Portanto, onde há cálcio, houve ou ainda há a presença de uma placa de gordura.
6. O exame utiliza muita radiação?
A dose de radiação no exame de score de cálcio é considerada baixa, não sendo alto o suficiente para ser motivo de grande preocupação na maioria dos pacientes.
7. O exame de cálcio coronariano é seguro?
O exame de cálcio coronariano é considerado um procedimento muito seguro, rápido (menos de 30 segundos) e não invasivo. Ele não requer injeções, cateteres ou preparo especial (jejum raramente é necessário).
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